Notas iniciais
Eu não consegui me controlar. Recebi tão bons comentários que decidi deixar o meu miminho.
Neste capítulo explico então essa história do John ser adotado. Este capítlo passa-se quando John tinha seis anos e vivia no orfanato "apenas" com Pete e Stuart.

“When I was 5 years old, my mother always told me that happiness was the key to life. When I went to school, they asked me what I wanted to be when I grew up. I wrote down ‘happy’. They told me I didn’t understand the assignment, and I told them they didn’t understand life.” -John Lennon

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20 de Abril de 1946

Era sábado, o dia antes da Páscoa e quando não foi surpresa que todos os olhos das crianças de Strawberry Field se voltaram para o portão que chiou. Por ele entrou um homem de fato cinzento claro, com uma camisa imaculadamente branca e uma gravata negra. De mãos nos bolsos das calças ele caminhava vagarosamente para não sujar os sapatos negros brilhantes com a poeira que as crianças levantavam. As crianças corriam atrás dele, suadas e sujas de terra, saudando-o, mas ele não lhes dava interesse algum.

Ele caminhou até à porta e Gertrude, a obesa e desmazelada mulher que olhava pelas crianças, quase que deixava cair o cigarro que tinha na ponta dos lábios pintados de encarnado. Levantou-se num ápice da sua pose de se sentar escancarada apagando o cigarro à pressa enquanto ajeitava as roupas.

– Sr. Fruehauf! – Os olhos dela arregalaram-se em direção ao homem. Ao banqueiro da rua; ao homem mais rico da rua.

–Senhora… — Depois olhou-lhe a mão esquerda e reformulou. – Senhorita, poderá indicar-me o caminho para o gabinete do diretor?

–Com certeza, Sr. Fruehauf. Siga-me.

Os olhos de Michael South também se arregalaram, mas ele estendeu a mão, cumprimentando o homem. — Sr. Fruehauf, o que o traz ao nosso orfanato?

–Gostaria de uma visita guiada e gostaria de conhecer algumas crianças.

–Oh, — South soluçou. — Sr. Fruehauf, está a pensar em adotar?

–Eu e a minha esposa considerámos essa possibilidade agora que a nossa filhota Michelle vai ingressar os estudos em Londres.

–Ela é uma menina muito inteligente, devo dizer. – Ele falou, guiando-o para fora da porta.

–É pois. Michelle vai começar desde cedo a estudar arte.

–Tão pequena que ela é-

Fruehauf levantou a mão, silenciando South, enquanto caminhavam pelos longos corredores. – Nunca é cedo demais para se aprender. Michelle tem doze anos agora, está mais do que na altura de ela se interessar pela arte.

–Não quis de maneira alguma questionar a forma como educa a sua filha. Perdoe-me se o fiz.

–Não tem mal, Sr. South.

Fruehauf não deu mais assunto para conversa, focando-se simplesmente na visita pelo orfanato. Depois South levou-o até a uma sala onde algumas crianças pintavam e escreviam.

–Não o levo lá fora para conhecer as outras crianças porque elas são um pouco…

South não conseguiu acabar a frase, mas Fruehauf fê-lo por ele. – Instáveis.

–Precisamente. – Ele suspirou. – Não diria melhor. Temos ali Monica, — Ele apontou uma menina loirinha. – ela é extremamente talentosa, muito educada. – Fruehauf começou a caminhar, vendo o que as crianças desenhavam, ignorando South. – Ou Mark ali na ponta.

O banqueiro continuou sem o ouvir e parou observando um garoto a pintar freneticamente. Ele tinha os cabelos castanhos-claros cobertos por uma boina preta que usava. – Que desenhas, rapazinho?

Ele não lhe respondeu, pegando noutro lápis e continuou a pintar. – John, por favor responde ao Sr. Fruehauf. – South pediu com jeito.

–Desenhei uma vaca a comer erva.

Fruehauf olhou o desenho mas apenas viu desenhada relva, árvores e nuvens no céu. – Mas, eu não vejo a vaca.

–Ela comeu quanto lhe apeteceu e foi embora.

–Ah, estou a ver. – Depois virou-se para South e comentou. – Este aqui é o engraçadinho. – O diretor deu uma risada, embaraçado. – E, diz-me então porque pintas as nuvens de azul? Sabes que elas são brancas, não sabes?

–Dá muito trabalho pintar o céu de azul, então pinto as nuvens que é mais fácil.

–E inteligente também. – O banqueiro comentou. – Diga-me, quantos anos ele tem?

–Seis, senhor. Mas, desculpe, não está a pensar levá-lo, pois não?

–Porque não? Ele tem mão de artista.

–Mas ele só apronta sarilhos. Digo-lhe sinceramente, Sr. Fruehauf, não o leve.

John sabia que era um dos últimos da lista de candidatos a adoção, porque apesar de ainda ser relativamente novo, ele tinha um comportamento não tão decente, mas ainda assim ficou um pouco ressentido. Preferia o orfanato à casa de um ricalhaço que raramente estava em casa e que tinha tanta cortesia que até enjoava o miúdo.

–Ele só precisa de disciplina. – O homem virou-se para a criança e perguntou. – Como te chamas, catraio?

–John Lennon.

–Muito bem, John. E o que queres ser quando cresceres?

John tirou o olhar do desenho pela primeira vez e focou os olhos castanhos no homem, respondendo seriamente. – Quero ser feliz.

–Não, menino, não entendeste a pergunta.

–Entendi pois. O senhor é que não entende a vida. Eu quero ser feliz quando crescer já que aqui não o sou.

–Olha, John, — O homem aninhou-se perto dele e disse pela primeira vez mostrando que tinha coração. – e se eu te disser que te levo para minha casa e te dou tudo o que precisas para ser feliz. Aceitas?

–Não. Adotar uma criança não é como adotar um cachorro. Uma pessoa sabe ver quando não é desejada. E eu vejo isso, Sr. Fruehauf, mesmo sendo quase cego sem óculos!

–Lennon! – South berrou. – Não se fala assim com o Sr. Fruehauf.

–Falo com ele como falo como uma pessoa normal. – John levantou-se da cadeira e antes de sair, virou-se para trás e disse. – Ou ele não é normal?

–Não. O Sr. Fruehauf é um senhor especial.

–Porque é rico… — Ele murmurou ao sair.

–Lennon! Lennon! – South gritou. – John, volta já aqui!

–Sr. South, Sr. South, — Fruehauf disse, pondo-lhe a mão no ombro. – deixe-o ir. Ele intrigou-me, mas deixe-o ir. Talvez deva falar deste assunto com a minha esposa novamente. Acho que já não me lembro como é ter uma criança em casa.

– Sr. Fruehauf, Michelle é ainda uma criança, como não sabe lidar com uma?

–Michelle não é mais criança, Sr. South. – O banqueiro colocou as mãos no bolso outra vez e caminhou para a porta. – Obrigada pela visita. Talvez volte cá um outro dia.

South suspirou; John estava em sarilhos e dos grandes por lhe ter custado uma adoção, que poderia não ser a dele, mas custou-lhe uma adoção. — Sr. Fruehauf, deixe-me acompanhá-lo até à porta.

Mas como fizera a maior parte do tempo, South limitou-se a seguir Fruehauf que o ignorava, até ele entrar no seu carro e o seu motorista o levar embora. South caminhava para o seu gabinete de novo e ao ver Gertrude, ele disse-lhe. – Gertrude, hoje não dê jantar ao Lennon.

–Com todo o gosto. – A mulher respondeu, massajando a nódoa negra na perna esquerda, causada por uma pedra arremessada numa fisga por John.


Notas finais
Quem quer ser bonzinho de novo e me deixar comentário?
E já agora, para quem "pede" que eu deixe de colocar fofura nos capítulos (bricandeirinha dela, eu sei!) (e você sabem que é!!!), volto a repetir: o mérito de fofura é dos rapazes. Eu não faço nada!