Notas iniciais
Mais um capítulo, porque os meus leitores são os melhores!!!

20 de Dezembro de 1953

Em apenas três semanas Fruehauf mudou John completamente.

Hoffmann Fruehauf passava pouco tempo em casa. Saía de manhã cedo para trabalhar no centro da cidade e voltava ao final da noite, fechando-se no escritório e só saindo na hora de jantar. Depois sentava-se a ler no seu grande cadeirão num grande silêncio que entediava John até ao mais profundo do seu ser. Lillian Fruehauf, Lillian Jones antes do casamento, era o oposto do marido. Passava maior parte do tempo em casa e uma vez por semana saía com as amigas para a ópera ou o teatro.

Mas naquela casa havia também outras três pessoas: Jasmine, Gordon e Mary Elizabeth. A primeira é a empregada da família, rapariga negra, nova e bela. John, se até agora não gostava de Fruehauf, começou a gostar ainda menos quando o viu a ser atiradiço com a pobre da rapariga. Depois tinha Gordon, o motorista, tão fiel ao patrão como um cão ao seu dono. No entanto, John adora sentar-se na beira do passeio enquanto o homem lava o carro e fala mal dele. E por fim, Mary Elizabeth que tinha sido ama de Michelle e que agora Lillian contratou de volta para ser ama de John. Tal como Michelle, John habitou-se a chamá-la de Mimi.

John fora obrigado a frequentar aulas de pintura, piano e Francês e era Mimi quem o acompanhava. Contudo, a empregada da casa era também seu grande apoio pois ele pediu a Sally que mandasse notícias por Jasmine, já que morava perto do hospital. Agora, três semanas após ter sido internado Richard estava recuperado e os três procuravam um plano para resgatar John.

“Help, I need somebody,
Help, not just anybody,
Help, you know I need someone,
Help!”

John deitou a cabeça sobre as teclas do piano, bufando. – Como é que querem que eu aprenda a tocar Beethoven se eu nunca toquei piano na vida?

–Para isso é que esta a aprender, menino. – Mimi disse.

–Mas quem é que começa logo a ensinar Beethoven a quem não sabe nada? E já agora, quem é quer saber dele? Ele está morto há séculos! Queria que me ensinassem era aquela música do Ray Charles, a “Mess Around”!

–Ah, — Ela retorquiu numa risada. – o menino acha que tocar os blues como o Ray Charles é assim fácil?

–Não, mas pelo menos é mais interessante!

John levantou-se do banco e caminhou para a janela. Mimi tomou o lugar em que ele tinha estado. – Mas o menino John não gosta de aprender a tocar piano?

–Gostar até que gosto. – Ele disse olhando para fora da janela. – Mas tenho até medo de partir a cristaleira se tocar um bocadinho mais alto no meio deste silêncio de morte! – Mimi desatou a rir até que John saltou para o tampo do piano negro, dizendo. – Oh, mas eu adorava era mostrar a estas duas almas tristes o que é o Rock ‘n Roll. – E dizendo isso começou a dançar como o recente sucesso da época, Elvis Presley.

–E o menino até que tem jeito para imitar esse novo mocinho que anda aí!

Ele saltou abaixo do piano e foi outra vez para a janela da sala, olhando lá para fora. – Sabes do que é que eu preciso mesmo, Mimi? É dos meus amigos. Só eles é que me podem ajudar a sair daqui.

“Help me if you can, I'm feeling down
And I do appreciate you being 'round.
Help me get my feet back on the ground,
Won't you please, please help me?”

Em casa do banqueiro havia regras, regras que John não gostava até porque a primeira o impedia de ter contacto com as crianças do orfanato incluindo, e especialmente, os seus amigos. Segunda regra eram os horários. Já no orfanato John tinha horários, mas na casa de Fruehauf, eles eram simplesmente exagerados. Horário para comer, para dormir, para ter aula. Ele uma vez brincou dizendo que quase que precisava até de horário para falar já que ele tentou falar com Lillian, mas ela não ouviu.

Enquanto olhava para o lado de fora, John teve a impressão de ver um vulto. Foi então que uma bola de neve bateu no vidro e ele sorriu vendo Paul do lado de fora das grades com a boina dela na cabeça. Ele saiu correndo pela porta fora.

–Ui, o que é que te aconteceu? – Richard disse depois rindo-se às gargalhadas juntamente com Paul e George.

–Isso, goza! – Ele resmungou, caminhando para o portão. – Mas sabes que é por tua causa que estou assim!

John vestia-se agora de maneira diferente. Paul e Richard riram ainda mais; eles só se tinham vestido roupas assim aos Domingos para ir à igreja. John vestia um terno completo cinzento, uma camisa branca e uma gravata preta, tal e qual como Fruehauf se vestia todos os dias. Usava também os sapatos clássicos e o cabelo agora estava alinhado de risca ao lado, besuntado de gel. E para não bastar era obrigado a usar uns óculos de lentes redondas já que quase não conseguia ver sem eles.

Através das grades, George tentou chegar-lhe ao cabelo para o despentear, mas Paul ainda gozou. – Não mexas se não estragas-lhe o penteado!

–Foi para isto que vocês vieram aqui? – Ele perguntou pendurando-se no portão.

–O menino sabe que Sr. Fruehauf o proibiu de falar com os seus amigos, não sabe? – Mimi falou na porta.

–Sei. Mas o que ele não sabe não o pode matar! A não ser que lhe conte…

–Contar? – Ela fingiu-se desentendida. – Contar o quê?

Ele sorriu e a empregada saiu para o pequeno jardim, vigiando a rua. Enquanto eles conversavam e riam ela entrou por um pouco, mas logo regressou à sua posição inicial. Em três semanas, Mimi nunca tinha visto o rapaz de treze anos tão contente como naquele momento. Ele que agora tinha tirado os óculos e colocado a boina na cabeça, matando saudades tanto dela como dos amigos.

–Menino venha para dentro que Sr. Fruehauf está a chegar. – John devolveu o chapéu a Paul e colocou os óculos, despedindo-se enquanto corria para dentro de casa. – Meninos, eu pedi à Jasmine que vos deixasse alguma coisa de comer fora do portão das traseiras. Vão lá.

–Obrigada senhora. – Os três agradeceram em uníssono e desataram a correr para não serem vistos por Fruehauf.

Richard, George e Paul voltaram para a frente da casa, sentando-se na beira do passeio do outro lado da rua comendo as sandes com geleia que lhes tinham sido deixadas e partilhando a garrafa de leite ainda cheia entre todos. Quando Fruehauf chegou, umas pequenas gotas de chuva começaram a cair e o homem protegeu a cabeça com o jornal que trazia.

–A chuva não mata, não! – George zombou. – Ande à chuva!

–Achas que ele pode fazer isso, George? – Richard falou. – Ainda estraga o pouco cabelo!

Os três garotos riram dele e o homem olhou furioso e atirou uma pedra contra a parede atrás deles, o que os fez rir ainda mais.

–Boa tarde, Mary. – Ele disse entrando em casa e pendurando o casaco.

–Boas tardes, Sr. Fruehauf.

Ele caminhou pela sala adentro, perguntando. – Onde está a Lillian?

–O Gordon levou-a ao cabeleireiro e ainda não voltaram.

–Já me tinha esquecido disso. Bem, — Ele arregaçou as mangas da camisa, dirigindo-se para o escritório. – avise-me quando ela chegar para jantarmos.

–Sim senhor. Mais alguma coisa?

–Sim. O John já praticou piano hoje?

–Sim senhor. Passou a tarde toda a tocar.

–Ainda bem. Até ao jantar, ajude-o com o estudo do Francês. E veja se ele toma banho antes de descer para jantar.

–Sim senhor. – O banqueiro entrou no escritório e Mimi subiu.

John estava a ouvir rádio, olhando para a rua, onde ele pertencia e se sentia bem. Assim que entrou naquela casa parecia que tinha perdido a sua independência e liberdade.

“And now my life has changed in oh so many ways,
My independence seems to vanish in the haze.
But every now and then I feel so insecure,
I know that I just need you like, I've never done before.”

–A gente tem que o tirar dali. – Paul falou entre uma mordidela no pão.

–Mas como? – George falou, tomando um gole de leite. – Como é que o tirámos da casa do homem mais rico da zona?

–Comprando o John. – Richard sugeriu. – Se ele gosta tanto de dinheiro, a gente compra-lhe o John.

–Pois, e dinheiro Ricky?

–Acho que sei como arranjamos dinheiro… — Paul pensou alto, construindo um plano na mente que passou a explicar aos amigos.

“Help me if you can, I'm feeling down
And I do appreciate you being 'round.
Help me get my feet back on the ground,
Won't you please, please help me?”


Notas finais
Alguém faz ideia de qual é o plano do Paul? Bem, podem comentar e deixar as vossas ideias, mas no próximo capítulo logo saberão!