With A Little Help From My Friends

8 O dinheiro comprar quase tudo


Notas iniciais
Ok, eu vou revelar qual é o plano do Paul. Espero que quem não quis revelar a sua ideia para não tirar a piada estava correto, porque o plano é a coisa mais óbvia possível....

23 de Dezembro de 1953

Era a antevéspera de Natal, e nos últimos três dias os rapazes tinham estado a trabalhar no plano de Paul. Estavam em casa de Sally, onde ela ensinava o básico e o máximo de violão que conseguia a George. E o rapaz aprendia extremamente rápido. Enquanto isso Paul e Richard vagueavam pela casa.

Ela bem que tentou também ensinar Paul mas ele era canhoto e tinha dedos muito brutos para tocar violão. Sally até disse que seria era um bom de um baixista por as cordas de um baixo serem substancialmente mais grossas que a de um violão. Com Richard, ela nem tentou ensiná-lo. Ele imediatamente disse que não se dava bem a ter que tocar com tanta gentileza e preferia as percussões. E ele tinha uma capacidade de abstração notável para isso mesmo.

Agora eram perto de quatro horas e os rapazes puseram em ação o plano deles. Sally deixou que George levasse o violão dela emprestado e Richard correu ao orfanato, fugindo às escondidas com panelas, tachos, respetivos testos e duas colheres de pau. Juntaram-se todos na rotunda, bem ao lado da banca de Eleanor, a enfermeira que vende papoilas, e deram início ao concerto. Richard tocava nos utensílios de cozinha como se eles fossem a sua bateria, George punha em prática tudo o que tinha aprendido e Paul caminhava entre as pessoas, cantando com a boina de John na mão, pedindo moedas.

Aos poucos as pessoas paravam para ver um pequeno guitarrista de nove anos, um baterista extremamente concentrado de treze anos e um garotinho de dez anos com uma voz de anjo. As moedas começavam a cair na boina de John, uma atrás de outra, e eles começavam a cantar e tocar com cada vez mais confiança e entusiasmo. John vinha no carro com Gordon e Mimi, regressando de uma loja de discos e instrumentos musicais, onde tinha comprado uma melódica como prenda de Natal por parte dos Fruehauf.

John debruçou-se sobre Mimi para ver o exterior através do vidro. -Hei, Gordon, pára aí por favor.

John saiu do carro e com ele saiu Mimi, que sempre o acompanha, e ela seguiu-o, que caminhava curioso para onde o grupo de pessoas estava. De onde vinham as batidas tão caraterísticas de Ritchie. De onde vinha a melodia do violão que ele de alguma forma sabia que estava a ser tocado por George. Havia algo no som que era distintivo, e mesmo que ele nunca tenha tocado violão na vida, havia ali algo que simplesmente berrava George Harrison. E de onde vinha a voz, que ele reconheceria a metros de distância.

Parou em frente de Richard e ele levantou os olhos e sorriu. John puxou de dentro do casaco duas baquetas e deu-lhas. O rapaz agarrou nelas, largando as colheres de pau. Passou por George e ambos sorriram um para o outro. John depois começou a tocar melódica enquanto seguia Paul que continuava caminhando por entre as pessoas. Ele olhou para trás e os dois começaram a cantar. Então eles receberam ainda mais moedas. E sem mais nem menos, eles tornaram-se motivo das gargalhadas, já que John e Paul dançavam juntos enquanto cantavam. George começou a fazer uma dançazinha também, dando pulinhos e mexendo as pernas de lado para lado. E depois Richard sorria, abanando a cabeça e o fino cabelo saltitava.

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Uns flocos de neve começaram de cair e os rapazes acabaram por ali a “atuação”. Não queriam que Richard ficasse doente e além disso já tinham angariado um bom dinheiro. Bem, para miúdos de orfanato aquilo parecia a lotaria diante dos olhos deles. A multidão dispersou e apenas Gordon e Mimi se aproximaram dos quatro, sorrindo.

–Ora bem, dei as baquetas ao Ritchie, o George já tem um violão, — John falou e abriu o casaco, fazendo aparecer uma pandeireta. – só falta mesmo para o Paulie.

–Nós só comprámos a melódica! O menino não… O menino não roubou isso da loja, pois não? – Mimi perguntou preocupada.

–Ah, não roubei, – Ele meteu a mão no bolso e tirou uma harmónica. – só trouxe emprestado!

–O menino John roubou uma pandeireta, uma harmónica e baquetas? E se o dono descobre?

–Quando ele descobrir já é tarde demais! – Ele olhou Mimi, pedindo com o olhar. – Posso ficar aqui cinco minutinhos?

Mimi esfregou as mãos uma contra a outra. – A gente espera no carro. Mas só cinco minutos!

–O que é que vocês estavam aqui a fazer?

–A gente vai-te comprar ao Fruehauf. – Paul disse. – E olha para todo o dinheiro que temos. Estamos ricos!

–A gente está longe de ser rico, Paulie. Já vi o Fruehauf contar notas bem grandes. E um montão delas!

–Ele deve ser que nem o Tio Patinhas, a tomar banho de dinheiro! – George comentou, fazendo os outros rir.

–Mas se isso não resultar, — John olhou o chão por momentos. – vocês vão pensar noutro plano, não vão?

–Claro que sim. – Paul falou. – Nós não vamos desistir.

John achava-se menino grande para chorar, mas era isso que ele queria fazer. Até porque via ali Paul na frente dele, quase chorando também. E era mais por ele que John queria chorar. Ele tinha pena do garoto que via nele um irmão mais velho, que o comparou ao Super-Homem até. E então deu-lhe um abraço bem forte e sentido. Quando não pensavam em se matar, eles até que eram adoráveis. E o mesmo com George e Richard. Os quatro eram irmãos mesmos, pois só eles podiam fazer as tropelias que quisessem, mas quando alguém se metia com um deles, desgraçado desse alguém!

–Achas que alguém dia eu deixo que me separem de ti? – Ele falou quase chorando e levantou os olhos a George e Richard que estavam ali à beira? – De todos vocês? – Os outros dois juntaram-se ao abraço, que agora se tornara de grupo.

–Agora vai lá, – George falou.- não deixes que ele desconfie. Nós vamos levar o violão à Sally e levar o resto de volta ao orfanato e depois vamos lá fazer frente ao Fruehauf.

–Boa sorte então. Preparem-se para ele não aceitar o dinheiro.

Richard agarrou um tacho e disse. – Ele é que tem que se preparar porque eu vou pronto para dar luta se for preciso!

Mais uma risada e os três despediram-se de John, apressando o passo para chegarem rápido a Strawberry Field. À medida que andava, as moedas nos bolsos de Paul chocalhavam enquanto ele ajudava Richard a carregar os tachos e panelas. Depois de voltarem a pôr tudo no sítio sem levantar a mínima suspeita, foram até à casa de Sally e entregaram a violão ao noivo dela, Joe. Por fim, foram até à casa de Fruehauf. Sentaram-se na beira do passeio, à espera dele. Durante a espera, Paul tirou o chapéu da cabeça e colocou lá todas as moedas, aproveitou contando-as. Eles realmente estavam longe de ficar ricos, com pouco mais de doze reais em moedas.

–Sr. Fruehauf, — Richard falou vendo o homem entrando no portão, levantando-se a correr. – queremos falar consigo.

–Vocês outra vez? Olhem que desta vez não me falha a pontaria e acerto com uma pedra em cada um!

–Queremos o John de volta. – Paul falou cabisbaixo, já sabendo que doze reais para um homem rico não fariam diferença. Ainda assim ele estendeu-lhe o chapéu. – Nós compramos o John.

O homem deu uma sapatada na boina e as moedas caíram sobre a neve. – Vocês comprariam o vosso próprio amigo? Que raio de amigos são vocês afinal?

–O senhor aproveitou-se dele. – Richard falou, sentindo-se de certa forma culpado. – Não tem muito que criticar.

–Eu não quero o vosso dinheiro.

–Então diga o que quer, — George disse. – nós arranjamos.

–Eu não quero nada vosso. — Ele virou costas, entrando no portão. – Nem vocês querem o John de volta.

–Queremos pois! – Paul berrou, correndo atrás dele, mas sendo barrado do lado de fora do portão. – Sr. Fruehauf? Sr. Fruehauf! Por favor, — Ele chorou; as lágrimas gordas a escorrer-lhe pelo rosto. – leve o dinheiro mas dê-nos o John!

Como sempre fazia quando as conversas não lhe interessavam, ele fez-se surdo as palavras choradas do rapaz e aos pedidos suplicantes dos outros dois, entrando em casa.

–Que se passa lá fora, Hoffmann? – Lillian perguntou, espreitando na janela, vendo os três rapazes a abanar o portão e a chamá-lo.

–Os amiguinhos do John. – Ele arregaçou as mangas da camisa, e como sempre caminhava para o escritório. – Vê lá que o queriam comprar! – O que ele não sabia era que o rapaz em questão ouvia a conversa no topo das escadas. – A nossa sorte é que a gente o adota após a passagem do Natal. O South prometeu-me isso.

–Isso é ótimo. – Lillian proferiu e falou rápido antes do marido entrar no escritório. – Vou dar uma visita á minha irmã que está doente. Volto antes do jantar.

–Vai lá então. – Ele fez-se todo de cavalheiro ajudando a mulher a vestir o longo casaco e depois deixou-lhe um beijo na face, vendo-a sair com o motorista.

John viu ali a chance dele para se esgueirar pela porta da cozinha e ir ao jardim traseiro.

–Chame os seus amigos para entrar. – Jasmine sussurrou ao vê-lo passar atrás dela pé ante pé. A moça adiantava a preparação das comidas para o dia seguinte, já que toda a família dos Fruehauf se reuniria naquela casa para celebrar o Natal e Jasmine iria passar a festa com os seus.

–E o Fruehauf? Ele mata-me e despede-te se sonha sequer que eles estão aqui!

–Até podia passar o zoológico acompanhado da filarmónica que ele nem notava! – Ela brincou. – Quando ele se enfia no escritório só ouve as palavras mágicas: “O jantar está na mesa.”!

John abriu o portão com cuidado para não fazer barulho e os quatro sentaram-se à mesa na cozinha. Jasmine colocou na frente deles três tigelas com sopa acabada de fazer que ainda escaldava.

–Logo à noite esperem por mim ali fora. Eu vou-me pisgar daqui e é hoje!

–Como é que vais fazer isso? – Paul perguntou.

–Ainda não sei, mas eu vou dar um jeito. Mas nós que fomos burros; ele ainda não assinou os papéis da minha adoção. Ele não me pode segurar aqui. Vá, e agora acabem de comer para o Fruehauf não vos ver aqui!

Os rapazes saíram para o frio da noite e John subiu, matutando em ideias. Ele sabia que Jasmine nunca iria contar nada do que ouvira, até porque ele estava a ajudá-lo imenso. E quem o ajudava também era Mimi. Assim que ele a viu sentou-se na beira da cama e falou baixo.

–Posso te contar uma coisa?

–Claro que pode. – Ela sentou ao lado dele, pondo-lhe a mão sobre o joelho. — Que se passa menino? O Sr. Fruehauf descobriu que esteve com os seus amigos na praça?

Ele simplesmente acenou com a cabeça e continuou. -Eu vou fugir hoje à noite.

–Não diga disparates, menino.

–Eu não consigo viver mais aqui, Mimi. Eu sinto-me preso…

–Eu sei que não gosta de viver aqui, mas como é que conseguirá fugir?

–Ainda não sei. Mas vou ter uma ajudinha dos meus amigos.


Notas finais
Devo dizer que este é o penúltimo capítulo. Portanto, se o John não foge logo, nunca mais fugirá!