Witchland

3 III. Salazar


Não era hábito dos Slytherin reunirem-se durante o inverno nas festividades do Natal.

Por isso Salazar permaneceu no Norte, quase solitário. Godric fora visitar o pai nas charnecas, pois o velho patrono dos Gryffindor estava morrendo. Rowena, por outro lado, viajara a Avalon para uma cerimônia secreta para a qual Helga também fora convidada, mas recusava-se a participar, permanecendo junto de Salazar nas bases da fortaleza que estavam para erguer no verão. A bruxa fora gentil e conjurara uma cúpula de inverno onde ela e Salazar abrigavam-se ao início da noite.

Numa das tempestuosas noites, os dois estavam deitados sobre um tapete oriental encantado, fitando o topo da cúpula – enfeitiçado para que se parecesse com o céu do verão. Viam estrelas e constelações, luas cintilantes e planetas que luziam a distância, mas não diziam palavra, pois não tinham o hábito de conversar frequentemente um com o outro, o que tornava a situação um tanto estranha.

Salazar contentava-se com o silêncio quebrado apenas pelo som dos ventos uivantes lá fora.

—Não me lembro da última vez que vi meus irmãos._ Helga disse repentinamente, como se despertasse de uma meditação muito profunda.

— Deveria ter ido vê-los, então._ respondeu o bruxo esquadrinhando o céu encantado.

— Deveria. E por que você não foi, afinal, ver a sua família?

O homem hesitou e um sorriso bem humorado surgiu nos lábios.

— Bem, digamos que eu me lembro da última vez que me reuni ao velho Slytherin e meus irmãos. Há famílias que se amam e há famílias que se honram a distância.

O silêncio perdurou por mais alguns instantes nos quais Helga, aparentemente, estivera pensativa.

— Acho que você tem razão._ ela concluiu com um suspiro._ Eu os amo. E amo também o meu pai. Mas eles não compreendem.

​

Salazar poderia ter tentado fazer com que o silêncio se prolongasse mais. A curiosidade, porém, pairou sobre ele e não se deteve em perguntar.

​

_ Não compreendem o quê?

​

_ Você também não entenderia.

​

_ Experimente._ ele retrucou e sentou-se para encará-la.

​

Helga tornou a suspirar, longa e profundamente enquanto se sentava.

​

_ Eles querem que eu me case._ ela hesitou e enrugou a testa sobre os olhos._ que tenha filhos e que eu seja tratada como a esposa de alguém. Não se importam com que eu sou hoje ou com quem eu desejo ser. Quando ganhei títulos honorários do Conselho dos Bruxos, um de meus irmãos até me disse que isto não era coisa para bruxas.

​

_ Isto eu compreendo._ Salazar sacudiu os ombros._Você não é a única a ser invejada pelos irmãos.

​

_ Invejada?_ soou como se finalmente compreendesse.

​

_ Você não pensou que eles a amassem tanto quanto amam a si mesmos, pensou?_ o bruxo sorriu, mas não havia humor em seus olhos._ É a nossa natureza lasciva, Helga.

​

_ Eles não são maus, se é o que está dizendo._ defendeu a bruxa num tom convicto, mas Salazar percebia nela a dúvida.

​

_ Eu não disse que eram. Mas são gente, não são? Anseiam pelo bem maior, desde que isto lhes beneficie antes que aos outros.

​

Confrontara as convicções mais puras e enraizadas de Helga. Vira isso refletido nos belos olhos da moça e no modo ponderoso como ela continuou a conversa, tomando o cuidado de não voltar a falar sobre os irmãos.

Não podia culpa-la. Helga tinha suas impressões sobre o mundo, tal qual ele tivera um dia; o senso de justiça incorruptível a tornava quase tão otimista quanto Godric. Isso os deixa cegos, pensou consigo. Afinal, ignorar a natureza obscura dos homens não era o mesmo que extingui-la; e isto Salazar aprendera desde cedo na companhia dos irmãos e do pai.

O sono alcançou Helga primeiro. Não demorou até que silenciasse completamente, restando apenas o som leve de sua respiração ao lado de Salazar. Ele bondosamente conjurou um manto translúcido para que ela não se resfriasse, mas não se deitou. Permaneceu sentado, fitando o céu encantado na cúpula e perguntando-se o porquê de sentir-se tão incomodado em pensar na família depois de tanto tempo.

Adormeceu muito mais tarde. Sonhava com um lago e a grande casa em sua margem. O cadeirão onde o patrono dos Slytherin – mais novo e vigoroso – estava sentado. Selwyn e Irwen, os gêmeos Slytherin – zombando do magro e miúdo menino Salazar que ia chorar no colo da mãe, mulher morena e baixa, frágil como uma menina sob o vestido de linho tingido.

​

— Você ouviu isso?

​

_ Isso o quê?_ ele perguntou com a voz arrastada e sonolenta. Percebeu que a voz vinha do mundo de cá e não da penumbra enevoada dos sonhos.

​

Helga estava de pé ao seu lado, quando abriu os olhos. O rosto ainda estava inchado das horas de sono, mas estava atenta como uma coruja. Ao quê Salazar não sabia, pois só conseguia ouvir os assobios furiosos da tempestade que ainda não cessara.

​

_ Ouço uma mulher.

​

Salazar levantou-se, olhando para a extensão pálida e opaca através da cúpula. Mesmo que se esforçasse não era possível ver ou ouvir qualquer coisa que viesse do lado externo. Sequer era possível que alguém além de lobos da neve tivesse forças para uivar lá fora. Entreolhou-se com Helga e juntos compreenderam. Esticaram as mãos sobre o tapete e murmuraram o feitiço em coro:

​

_ Expecto Patronum.

​

Serpente e texugo rastejaram para fora da cúpula, densas luzes prateadas que reluziam mesmo no meio da neve. Com os olhos da serpente, Salazar tentava distinguir as formas ao redor do patrono. Viu a inclinação da colina e os outros morros que ondulavam no rumo do sul. O lago negro congelado como uma mancha cinzenta. As velhas árvores da floresta, encobertas pelo véu branco do inverno. Não havia nenhum sinal de coisa viva a não ser o texugo de Helga, que disparava pelas encostas da neblina, um espírito alheio ao frio.

​

_ Para onde você está indo?_ ele perguntou e sua voz ressonou através do patrono.

​

_ Está pedindo socorro._ ela respondeu sufocada.

O texugo só parou quando alcançou um vale nebuloso onde Salazar viu grandes duas estacas cobertas pela neve e pregadas uma na outra em forma de cruz. Lembrou-se de ter visto o lugar em outra época; debaixo de tempestades ou do dourado sol do verão, o lugar era feio e melancólico, um vilarejo do povo comum.

​

_ É aqui._ ele ouviu a voz de Helga quando o texugo olhou-o na forma de serpente.

A criaturinha saltou para dentro da vila, passando pela cruz e Salazar rastejou logo atrás, sentindo uma frieza que nada tinha a ver com o clima; já vira a cruz antes, do alto de um morro...

Helga reconhecia o símbolo também. A mulher estava tensa na cúpula, assim como o seu patrono que começava a tremeluzir conforme um sentimento de angústia se apossava dela.

Pararam mais uma vez, dentro do vilarejo, onde uma torre escura e lúgubre se erguia como um dedo negro na brancura infindável do vale. O texugo contornou a torre e mergulhou contra a madeira escura de uma porta, desaparecendo em sua superfície.

Quando o seguiu, Salazar sentiu que poderia perder-se no breu não fosse pela forma tremeluzente do texugo mais adiante. Flutuavam sobre uma escada que seguia para o subsolo da torre onde o que os olhos fantasmagóricos dos patronos encontraram fez com que ambos se dissipassem em horror.