Witchland
4 IV. Helga
Mesmo não tendo mais para si a visão do texugo, Helga ainda ofegava como se ainda estivesse parada ali, espreitando-a na escuridão sob a torre. Salazar também a vira; sua respiração era sonora e a pouca cor que o inverno lhe deixara no rosto agora havia desaparecido completamente.
Através dos olhos dos espíritos haviam testemunhado a presença da mais sombria criatura. Alta e encurvada sobre um cadáver, a capa translúcida pendendo dos braços ossudos e o rosto encoberto pelo véu do luto eterno. Os dedos, muito longos e descarnados, enclausuravam a vida recém-tirada do corpo a sua frente. No momento em que os dois bruxos a viram, ela olhou-os de volta e seus olhos eram como um par de besouros negros e famintos brilhando sob o véu. A visão estarrecedora gerara neles a mais estranha das sensações. Helga sentia como se o tempo estivesse congelando ao seu redor.— Helga._ começou Salazar. Ela assentiu, desencorajada a dizer coisa alguma. Sabia o que o amigo diria. _ Você viu o cadáver?_ ele indagou. _ Vi. Um homem idoso._ Helga retrucou num tom rouco._ Não era a mulher que eu ouvi. Salazar hesitou e então sacudiu a cabeça negativamente. _ Você viu quem estava lá. Não podemos interferir, Helga. Não é como se ela desejasse voltar para a torre escura. Além disso, já não ouvia mais os gritos de socorro em sua mente, talvez porque estivessem sobrepujados pelos conturbados pensamentos. Helga tentou, durante as horas que se seguiram, esquecer quem clamava por sua ajuda e a visão arrebatadora da Morte em seu ofício. Não encontrava a paz interna. Dizia a si própria: Como dormirá à noite? Sabendo que ela precisou. Precisou de você, mas você deixou que sua linha fosse cortada, que a foice a aparasse apenas porque está com medo. Salazar também parecia não encontrar o sossego. Estava tão agitado que, quando a tempestade finalmente parou de cair, ele deixou a cúpula às pressas e foi retirar o excesso da neve nas bases do castelo com uma pá conjurada, apenas para ter o que fazer. Voltou pouco depois, com o rosto torcido de raiva consigo mesmo.— Não consigo esquecer o que vi. — Eu sei. Temos de voltar lá. _ Mas pessoalmente, desta vez. Não quero vê-la de novo... A amiga concordou. Agitaram as varinhas e saltaram como sombras para dentro de uma dimensão estranha, onde tudo a volta deles retorcia, esticava, encolhia e mudava de forma num lampejo até que os pés de Helga firmaram-se no chão e ela se viu novamente na sala negra sob a torre. _ Lumus._ ouviu o outro bruxo conjurar. A luz invadiu o lugar, dando um brilho mortiço às paredes, piso e o teto baixo, quase como se não a reconhecessem depois de tanto tempo mergulhados no breu. Salazar estava pouco mais adiante e aos seus pés estava o cadáver do homem idoso que viram mais cedo. O homem estava pálido e magro, com olhos sombreados pela enfermidade que o consumira antes da morte. Usava roupas imundas e mal cheirosas; ou talvez a própria sala exalava aquele cheiro pútrido. Helga aproximou-se do defunto e olhou-o com piedade. Um instante depois, sentiu uma dolorosa pontada no coração. Outro sentimento, mais forte do que o medo e a pena se apossou dela. Fitou a cabeça calva e a pele macilenta do rosto. Ela o reconhecia. Ou estava enganada? _ O que está fazendo?_ Salazar indignou-se quando ela agarrou o braço do homem morto e virou-o, revelando o desenho de um escaravelho no pulso. Oh, céus. — Este homem era amigo de meu pai._ ela falou com a voz embargada._ Um grande amigo. Salazar olhou para a tatuagem mais atentamente, compreendendo. _ Bruxo._ ele constatou, olhando-a sombriamente. Helga e Salazar tinham dentro de si uma desconfiança daquele lugar que nada tinha a ver com a aparição do espectro da Morte. Ao entrar no vilarejo sob a forma de seus patronos, viram um símbolo em seus portões. Um temor silencioso ardia dentro de ambos, como se estivessem caminhando num covil. A bruxa dobrou os braços do defunto sobre o peito, dando-lhe alguma dignidade. Conhecera Brutus, o amigo de seu pai. Era um bom homem. Sorriu à lembrança dele, anos atrás quando ainda ela era um menina, conjurando-lhe borboletas azuis. “Para que lhe dê sorte”, ele ecoou do passado. Tenho sorte, Brutus, mas não hoje. _ Helga._ chamou Salazar. Estivera rondando a sala, mas agora estava parado, ostentando a varinha para iluminar algo mais além. Quando se ergueu e aproximou-se dele, viu correntes enroladas como cobras cinzentas nos tornozelos de dois esqueletos. O maior deles abraçava o pequeno em sinal de proteção como uma mãe abraçaria o filho. _ Bruxos._ Salazar crispou os lábios, os olhos faiscando no escuro. Helga vasculhou nos corpos pela evidência e a encontrou; o medalhão da pedra lunar que pendia entre os ossos do pescoço e a carne podre da mãe era exatamente igual ao que Rowena possuía. Uma bruxa de Avalon. Os dois amigos puseram-se a vasculhar a sala. Salazar caminhava sonoramente e embrenhava-se onde a luz de sua varinha ainda não alcançara. Helga conjurou sua própria luz, os olhos ardendo pelo frio e tristeza. Encontrou correntes e pequenas salas de armazenamento vazias. Quando a luz conjurada cintilou em um par de pés descalços ela estacou. Apontou a varinha para o chão e revelou o corpo.
Era uma moça pouco mais nova do que ela. Os cabelos eram rubros como o sangue, a pele estava pálida e descoberta, mesmo nas partes, e os lábios azulados. — AQUI!_ gritou Helga, pondo-se ajoelhada ao lado da moça. Salazar veio às pressas e também ajoelhou-se.— Está viva._ falou pousando os dedos delicadamente acima do seio esquerdo._ mas não estará se não a tirarmos daqui depressa. Aqui, segure a minha varinha. Ele despiu o casaco de peles e atirou-o sobre o tronco da mulher e então ergueu-a do chão frio com a delicadeza com que se carrega um recém-nascido. Helga agarrou-o pelo braço e girou a própria varinha. Foram engolfados pela dimensão entre os mundos mais uma vez até que ressurgiram na cúpula de inverno. _ Cuide dela._ foi tudo o que Salazar disse depois de deixar a ruiva sobre o tapete que lhe serviria como leito e retomando a própria varinha, desapareceu em fúria silenciosa. Helga descobriu a moça revelando, mais uma vez, seu corpo frágil e branco. Viu marcas escuras nas pernas, braços, nos seios e no rosto. Haviam pequenas feridas também; mordidas e pequenas escoriações. A bruxa conjurou tecidos e água morna e o que lhe restava da essência de vísera, um presente de Rowena para que cuidasse das feridas de um hipogrifo havia meio ano. O trabalho exigia alguma delicadeza e Helga já estava habituada. Porém era, naquela ocasião, mais doloroso. Não se tratava de um conflito de hipogrifos machos durante a época do acasalamento, nem da feroz predação das quimeras, mas de uma pessoa. Uma mulher tratada como um animal. Com uma tira fina de tecido de linho, ela besuntou as feridas e equimoses da mulher ruiva que, vez ou outra, reagia na inconsciência, franzindo as sobrancelhas ou estremecendo. Então Helga viu; não lhe atraíra a atenção antes, mas agora que percebia, sentiu pena. Em meio aos pelos púbicos e vermelhos da moça havia sangue seco, assim como na junção de suas pernas. Ocorreu a Helga que lhe havia chegado a época, como estava para toda mulher. Então outro pensamento, mais terrível e avassalador tomou conta dela, fazendo com que seus olhos voltassem a arder. O que fizeram com você? — pensou, acariciando o rosto da ruiva.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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