Winter's Wall
1 Capítulo 1 - Frozen to the bone
Todos os dias eram iguais, e ela não sabia se melhorariam. Todas as manhãs o relógio tocava no mesmo horário, e ela vivia no piloto automático. O café não tinha gosto, tampouco o pão que tocava a sua língua. Talvez um dia, as coisas melhorariam. Um dia. Mas aquele não era. Ela trabalhava em um escritório de contabilidade, que parecia sugar o que restava de sua alma. Monotonia, rotina.
Hermione tinha sonhos, quando era mais nova. Um deles, era o de ser escritora. Porém, após terminar o ensino médio, ela escolheu um caminho que a traria melhor estabilidade financeira. No final, ela deveria ter seguido a sua paixão, o que despertava a sua vontade. Mas algumas escolhas não tinham retorno, e aquela era uma delas.
Agora, com 28 anos, não tinha mais retorno. Ela era contadora, lidando com números todos os dias, e com problemas alheios. Mas, lhe garantia um estilo de vida estável. Estabilidade era tudo o que importava, não era? Enquanto pegava o mesmo transporte público, com as mesmas pessoas, ela não sabia mais se aquilo era verdade. Mas, novamente, o que poderia ser feito.
O relógio marcava oito horas, ela estava atrasada novamente. O livro em suas mãos não eram o suficiente para trazer a paz de espírito que ela inicialmente planejava. Não era suficiente para força-la a sair de sua realidade, não havia escape para a sua condição. Colocando a cabeça contra o vidro, aceitando o frio que penetrava seus ossos, ela fechou os olhos. Não havia nada que poderia ser feito. Nada.
Após um longo e exaustivo dia, ela mal se lembrava como chegara em casa. Novamente, vivendo no piloto automático. Hermione morava relativamente longe do trabalho. Pensara, um dia, em comprar um carro, mas os devaneios que frequentemente enfrentava a impediam. Ela nunca conseguiria se concentrar o suficientemente para pilotar um automóvel. Se distraia facilmente, não era capaz de manter a atenção por muito tempo.
Logo, aceitou a cruel realidade de sua vida. Pegava uma condução lotada, em uma hora chegava em seu trabalho. Desligava-se completamente do se passava ao seu redor. Nunca estava animada ou ansiosa o suficiente com algo. Quando as coisas davam certo, ou errado, ela apenas se resignava. Nunca reclamava, nunca se sentia no controle. Era como assistir um longo filme, em que tudo era tão dolorosamente previsível, mas era a única forma de aceitar. Ela aceitava.
Tinha dois amigos, e neles encontrava um pouco de força. Não o suficiente para lhe trazer alegria, mas encontrar-los era sempre como respirar profundamente. Aliviava um pouco da dor que constantemente sofria. Trazia ar aos seus pulmões, um alívio que era essencial em sua rotina. Não era capaz de imaginar como as coisas seriam sem eles. Harry e Ron.
Eles se conheceram na escola, enquanto ela era a estranha e quieta garota, que sempre tinha todas as respostas para os professores. Desde sempre, eles tornavam sua vida mais tolerável, e por isso ela estava grata. Eram os únicos, além de sua família, que a mandavam mensagens, que perguntavam, com a sinceridade e a paciência dotada pelos deuses, como ela estava. E suas respostas, sempre furtivas, tentavam retratar uma felicidade que ao fundo nunca sentira. Mas eles sempre estavam lá, e ela se sentia menos sozinha.
Um dia, contudo, algo saiu do normal em sua rotina estática. Ao ingressar em seu apartamento, algo no chão chamou a sua atenção. Impelida a pegar o papel, suave em suas mãos, imaginou em um primeiro momento se tratar de uma carta de cobrança, ou alguma reclamação de um vizinho encaminhada de maneira errônea. Não havia uma pessoa capaz de reclamar de algo em sua conta, ela sempre fora uma pessoa exemplar.
Ao abrir o delicado envelope, surpreendeu-se em encontrar uma caligrafia impecável, escrita com uma caneta que certamente seria cara. O que a sobressaltou, todavia, foi o conteúdo da carta. Era endereçada a ela, com seu nome completo escrito ao topo. Claramente, alguém que a conhecia suficientemente bem para saber seu nome, ao menos.
Hermione Granger,
Desde a primeira vez que a vi, não tenho um segundo de paz. Pensei muito em nunca contatá-la, adormecer minha completa admiração, mas não fui capaz de conter-me. Vê-la e não poder tocá-la faz de minha vida um suplício sem fim. Sua beleza estonteante me cativa cada dia mais, encontro-me deslumbrado.
Não pretendo atormentá-la, machucar um fio de seus cabelos me enlouqueceria. Compreensível que tema o teor desta carta, mas nunca lhe traria mal algum. Apenas não sou forte o suficiente para manter em segredo o afeto em meu peito. Por favor, aceite minha afeição.
Espero que entenda a profunda devoção em minhas palavras, que eu consiga eficientemente transmutar em tão simples palavras o meu sentimento mais sincero.
Daquele que é tão profundamente seu,
DM.
Ela levou as mãos trêmulas a boca, atordada com o que lera. Deixou o papel cair aos seus pés, sua mente incapaz de entender a gravidade do que acabara de acontecer. Seja quem fosse, ele sabia de seu nome e seu endereço. Talvez até conhecesse a sua rotina, e as horas que estaria em casa. Também sabia que morava sozinha, ou não teria escrito tais palavras, tão íntimas, se outro fosse ler.
Ela estava assustada. Por mais que dissesse o contrário, e se aquela pessoa desejasse fazer algum mal? Não foi capaz de dormir aquela noite, atenta a qualquer barulho que pudesse sugerir alguém em sua casa. Conferiu diversas vezes a fechadura das portas, se assegurando que estava ao menos um pouco protegida.
Sentia-se fraca e vulnerável, exposta. A adrenalina corria por suas veias, e seus pensamentos não descansavam um segundo. Contudo, também estava intrigada. Quem era, e como a conhecia. Seria algum vizinho, alguém do trabalho, ou um completo desconhecido? Estava correndo perigo, ou não passava de um admirador com um dom pelas palavras?
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