Winter's Wall
2 Capítulo 2 - the garden
O dia amanheceu sem que ela percebesse. Logo, o despertador estava tocando novamente. Um novo dia se iniciava, e ela ainda não conseguira digerir os fatos da noite anterior. Alguém havia perturbado sua rotina tão monótona, e ela não foi capaz de contar, em meio a tanto temor, a ponta de esperança que lhe açoitava. Por mais que se sentisse mal, ao menos sentia algo. Sabia não ser o caminho mais saudável a se tomar, logo ela, sempre tão racional, preferiu seguir sua vida sem pensar no ocorrido. Talvez fosse algo que aconteceria apenas uma vez, talvez ela realmente estivesse segura.
Sem opção a não ser, novamente, aceitar o ocorrido, ela seguiu sua rotina. Levantou-se, se arrumou e pegou o ônibus de sempre, com as mesmas pessoas. Logo, o cansaço a tomou, e ela não conseguiu se atentar a nada que não fosse seu trabalho, e as coisas que tinha a fazer. Quando outro turno acabou, ela já havia se esquecido da carta, a catarse tomando-a novamente. Tudo mudou, no entanto, quando chegou na porta de seu apartamento. Desta vez, ao invés da carta, esperava-a um buquê de rosas brancas.
"Podia, ao menos, ser comida" ela sussurrou, segurando as flores em suas mãos e levando-a para dentro. Não tinha nenhum vaso para colocar, em sua casa havia apenas o essencial. Harry as vezes gostava de reclamar que não havia vida ali, era como se ninguém habitasse aquele lugar. Mas não havia nada que pudesse fazer, não tinha tempo nem interesse em decoração. E para ela, estava tudo bem.
Os dias passaram sem que ela pensasse no que ocorrera. Todo o medo, tomado novamente pela monotonia de outro turno, dos problemas de outras pessoas, de sua própria mente preenchendo todo o espaço. Até que uma noite, enquanto chegava exausta do trabalho, sem esperar nenhuma surpresa ou nada diferente, havia outro presente a aguardando. Desta vez, contudo, sentia-se aliviada ao perceber que era comida.
"Finalmente, algo que posso fazer uso" Tamanha era sua fome, que não conseguiu se importar com as implicações daquele presente. Ao menos, teria algo para comer. Na maioria das vezes sua exaustão era tamanha, que não tinha ânimo para se alimentar. Junto ao pequeno pote de sopa, havia anexado um pequeno bilhete. Desta vez, não se deparou com uma grande carta, repleta de juras de amor, mas sim um singelo pedacinho de papel, escrito aproveite.
Por um segundo, questionou-se se aquela sopa estaria envenenada. Ou, no pior dos casos, com algum tipo de droga que a deixasse dormente. Enquanto colocava a embalagem sob sua mesa, questionou-se se era insana o suficiente para consumi-la. O pensamento, contudo, não durou muito tempo. Logo, seu estômago começou a doer com a quantidade de horas que se encontrava vazio. Não teve outra opção, a não ser aproveitar o inusitado presente.
Foi apenas o delicioso aroma preencher-lhe os pulmões, que a escolha mostrava-se simples. O sabor estava incrível, e seus olhos quase encheram-se de água enquanto desfrutava a simples sopa. Um caldo grosso, nada mais, alguns pedaços de batata. Mas para ela, era a melhor refeição que já tivera em semanas. Aos poucos, o restante das preocupações deixavam-na. Certificou-se que as portas e janelas estavam devidamente trancadas, por via das dúvidas, e deliciou-se com sua sopa.
O que havia de errado em desfrutar de um presente, afinal? Ao término, ela lavou o pequeno recipiente, e colocou um filme para assistir. Sentia-se mais disposta após ter comido, e fez algo que há meses não fazia. Descansou, em seu pequeno sofá, assistindo um filme que não se recordava o nome. Era uma história como tantas outras, romântica, e com pouco enredo. Um triângulo amoroso para gerar conflitos desnecessários, e um final feliz. Mesmo que não tivesse prestado muita atenção no filme, acabou por adormecer onde estava, em seu sofá, e finalmente satisfeita.
Na manhã seguinte, acordou no mesmo lugar. Certificou-se que as portas e janelas permaneciam fechadas. As vezes era só um vizinho lhe oferecendo comida, não seria algo tão inusitado assim, ela pensou consigo mesma, arrumando-se para um novo dia. Contudo, naquela noite, enquanto estava chegando em casa, questionou-se se haveria outro presente em sua porta novamente. Teve uma feliz surpresa ao descobrir um novo recipiente com comida, desta vez sem nenhum bilhete, nada que pudesse identificar.
No fundo, sabia se tratar do admirador. Na noite anterior, o pedaço de papel continha a mesma elegante caligrafia. Mas, sem nenhum remorso desta vez, ela apenas pegou sua janta e a trouxe para dentro de casa, deliciando-se com apenas um pouco de arroz e carne. Eram suficientes para saciar sua fome, e ela estava contente.
Assim seguiram-se os dias, todas as noites uma comida nova a aguardava na porta de sua casa. No décimo dia, ela se permitiu sorrir diante dos presentes, deixados tão cuidadosamente ao lado de seu tapete. Virou outra rotina, até o final de semana chegar. Nos finais de semana, ela estava acostumada a não deixar a sua casa, e seu admirador contentava-se em colocar a janta ao lado da sua porta. Ela já abria na esperança de encontrar algo, curiosa para saber o que comeria naquela noite.
Era um sábado frio e chuvoso, e ao abrir a porta nada encontrou. Nenhum recipiente, nada. Não foi capaz de conter o desapontamento, e olhando para os lados, não encontrou nenhum sinal no corredor de que havia alguém a aguardando. Voltou para sua casa, e não comeu nada naquela noite. Estava cansada, e logo adormeceu. Sem antes, contudo, questionar-se se ele havia, ao fim, perdido o interesse. Ou pior, se algo havia acontecido, que o impediu de alimentá-la. Com esses pensamentos, fechou os olhos, e deixou-se levar por mais uma noite solitária.
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