Notas iniciais
Eu não ando muito inspirada, então talvez demore pra postar. Obrigada pelos comentários e favoritos ♥

Vi o nascer do sol no avião. É incrível o quanto algumas situações te fazem se sentir como um grão de areia em uma praia gigantesca. Conforme as nuvens fofas como algodão eram iluminadas pelos raios quentes e acomodantes do sol, eu me sentia cada vez mais aconchegado e sem força de vontade para enfrentar um dia exaustivo. Iríamos para a casa que Fiske emprestou de um agente Madrigal, dirigiríamos pelas redondezas, investigaríamos algumas casas e procuraríamos provas incriminadoras na web.

Um dia cheio até demais, Amy dormia tranquilamente do meu lado, encostada em meu braço, tirei o livro dela das mãos e coloquei na mochila. Tínhamos um tempo de duas horas até o pouso no aeroporto de Oslo. O ar condicionado mantinha o avião em uma temperatura normal, só que tínhamos que nos trocar pra não nos atrasar. A balancei suavemente para acordá-la, ela se remexeu um pouco, chamei o nome e comecei a fazer cócegas, ela riu e abriu os olhos:

—Seis da manhã?-A voz dela não expressava sono.

—Sim, dá pra perceber porque o céu está em um tom laranja e ao mesmo tempo azulado não é?

—Exatamente. Você nem dormiu né?

—Não. Quando chegarmos, acho que vou tirar um cochilo depois do almoço. Acho que o dia vai ser cheio, então, não sei se vai dar.

—O nosso cronograma vai ser como? Se instalar na casa ou chalé, e investigar duas casas separados ou juntos?

—Eu tenho a pasta de informações dos dois donos das propriedades, a primeira casa está vazia, já que os proprietários estão viajando. Na segunda, no horário que formos, teremos cinco horas, já que eles estarão fora.-Na primeira parte dessa tarefa, vamos bancar Sherlock Holmes, seguindo o que Fiske mandou fazer.

—Seria melhor se formos juntos na segunda, alguns imprevistos podem acontecer e eles chegarem antes da hora, então um de nós dá cobertura. Na primeira você vai sozinho, e a terceira que íamos deixar para amanhã, eu vejo hoje, sendo que os donos também não estarão lá.

—Acho uma boa ideia.-Respondo meio contrariado, a ideia não era irmos juntos em todas, para ninguém ficar pra trás?-Mas talvez seja meio perigoso, nós dois, separados, em casas desconhecidas, sem armas?

—Fiske comentou que na verdade as pessoas que moram lá são pessoas normais. Acontece que se envolveram com as pessoas erradas.

—Por dinheiro? Como sempre?-Se tem uma coisa que move o mundo é o dinheiro, a vida não é resumida só em juntar um monte de cédulas verdes que podem te dar conforto e te fazer esquecer o seu vazio existencial, e você descobre da pior maneira.

—Como sempre. Bom, na pressa eu não trouxe nenhuma arma, vamos ter que ir em uma loja ou ligar para algum agente.

—Eu poderia te emprestar algo, mas é melhor que você tenha a sua. Ou as suas. Não quero chamar nenhum agente, eles estão sempre nos espionando de qualquer forma, não vamos pedir favores se não tivermos certeza que podemos retribuir.

—Você sempre traz essa questão, não acho que eles perdem o tempo desconfiando de nós, já estamos nessa a um ano e meio, e eles tem assuntos mais importantes para cuidar, o mundo pegando fogo, por exemplo.

—A questão é: Nunca saberemos. Fiske assegura que todos eles estão de acordo com nós no grupo, acontece que Madrigais geralmente são veteranos de guerra, soldados, assassinos profissionais, pessoas de outras gerações. Deve ser difícil engolir um pessoal aparentemente inexperiente e jovem.

—Já provamos nosso valor. Sobre favores, eu não me incomodo de ajudar alguém em troca, sempre estamos sem o que fazer em casa.

—Não era você que não queria de jeito nenhum ser incluída nisso de novo?

—Férias não duram para sempre. Se você não vai até a guerra, a guerra vem até você. Não se iluda achando que depois disso vamos descansar em casa, seja lá o que perturbou nossa paz irá durar muito tempo.

— Tem toda a razão. Não é pessimismo, é realismo. –Admito, não sei se o plano que Amy propôs é o melhor, mas até chegarmos, nos instalarmos e irmos para as casas, teríamos tempo pra discutir.

—Então, vamos amanhã para a casa da prima de terceiro grau de Sinead, laços realmente familiares, ela também é uma agente e tem uma loja de armas.

—Quando você pesquisou sobre ela? E perguntou para Sinead? Disse que esqueceu de se preparar por distração;-Ela parece estar escondendo algo a algum tempo, não sei se é coisa minha, Amy tem andado distraída, esquecida, dispersa, emocional, em alguns momentos ela está normal, e de repente, não está mais.

—Eu falei com ela a algum tempo, e foi porque Fiske havia comentado de ir para cá.-Ela olhou para o celular, analisando o horário.-Estamos meio atrasados.

Muito suspeito. Alguma coisa está deixando-a preocupada, eu tenho certeza disto. Me divido entre perguntar sobre isso ou deixar para lá, as vezes deixar as coisas como estão pode melhorar a situação, se ela não me falou nada sobre, foi uma escolha, uma escolha que me deixa muito chateado.

Me levanto e vou para o banheiro dos homens, pego a minha mochila grande de lona, e coloco meu celular dentro, vou até o banheiro, coloco as roupas, me sinto um esquimó, com tantas camadas e camadas intermináveis. Minha mochila está muito mais leve sem as roupas, então coloquei meu celular e pacotes de salgadinhos que compramos antes da viagem. Na verdade eu odeio salgadinhos, mas não tinha outra coisa.

Amy estava me esperando no banco quando fui sentar, parecendo tão desconfortável quanto eu, ela mostrou o celular e falou sobre quanto tempo ainda tínhamos, uma hora. Que passou muito rápido, conforme íamos arrumando nossas coisas e cronometrando nosso tempo, configurando nossos celulares, tomando café da manhã, ovos mexidos com suco de laranja e torta de maçã, escovando os dentes, arrumando o cabelo. Quando o auto falante anunciou meia hora para o pouso, perguntei quais informações Amy tinha sobre o caso:

—Não vai dar tempo de falarmos sobre isso agora, quando chegarmos na casa eu compartilho as minhas informações e você compartilha as suas.-Ela pareceu se lembrar de algo.-O que eu sei é que onde vamos ficar é um chalé relativamente grande, de um amigo de Fiske, Gwidion, e que ele é um Lucian, sinta-se a vontade.

—Eu não sou um Lucian. Posso até ser do clã, mas não me identifico como um. Eu sou um Madrigal, e você já sabe disso a muito tempo, isso foi meio venenoso.-Eu especialmente odiei essa frase de Amy, eu não me junto a meu clã faz bastante tempo, e não sei o que sentir em relação a isso. A verdade é que algumas pessoas de lá eram muito mais acolhedores do que minha própria família, imagino que eles se sintam traídos por eu ter abandonado meu posto. Isso sempre me traz dor, não tenho coragem de falar com eles, não tenho coragem de ir até a base, não tenho coragem de mudar meu status para agente Lucian ativo, Madrigais e Lucians podem estar de acordo agora, porém, um desertor é um desertor.

—Sinto muito.- Ela percebeu que foi rude, nunca disse pra ela nada sobre isso, mas sempre mostrei um claro incomodo quando tocava no assunto. O clima entre nós ficou meio esquisito, então passamos a imaginar como o chalé seria, eu comecei:-Acho que é parecido com meu antigo chalé na Suiça(agora já não é tão terrível falar do meu passado com Vikram e Isabel) grande, aconchegante de uma maneira rústica, com quartos espaçosos e bem decorados.

—Acho que deve ser um chalé pequeno, com um sofá macio, tapetes peludos, uma lareira na parede, quadros de paisagens. O típico clichê de filmes.

—O típico clichê de filmes românticos, devo acrescentar.-Eu dou um sorriso sincero e ela também.

O avião começou a fazer aquelas pequenas descidas pré-pouso, essas descidas sempre dão uma sensação estranha de montanha russa. O nosso tempo de relaxar está oficialmente terminado, infelizmente, logo quando estava divertido.

O avião pousou e vi pelas janelas a manhã de Oslo, o céu agora estava em um tom azul e branco, algumas nuvens arriscavam aparecer, o sol estava escondido atrás delas. Quando o ícone de cinto de segurança se apagou, nós pegamos nossas malas, checamos se não esquecemos nada e saímos depois de esperar todas as inúmeras pessoas que estavam na nossa frente.

Aquela adrenalina de uma nova aventura parecia me contagiar, aquele sentimento de não saber o que vai acontecer. Depois do ônibus do aeroporto nos levar até a sala de desembarque, avistamos um sujeito de touca vermelha, de sobretudo azul escuro com óculos de grau amarelos, o estilo extravagante me lembrava de Alistair. Gwidion nos cumprimentou carinhosamente, com abraços apertados e alegres. Ele era carismático, falava de uma forma bem humorada e parecia muito mais com um gênio Ekaterina do que com um Lucian calculista. Pegamos as outras duas malas, e fomos para um carro prata e comum.

Ele nos levou até a casa, dirigindo meio loucamente, fiquei o tempo todo segurando a trava de segurança do carro. As paisagens metropolitanas e urbanas deram lugar a bonitas paisagens nevadas, com arvores verdes e casas de madeira. Ele falou sobre absolutamente tudo durante a viagem, que durou 3 horas, e deu várias dicas e conselhos sobre o funcionamento da casa:

—Só usem o chuveiro do quarto amarelo se for necessário, pois o aquecedor está com problema e a água esfria depois de 7 minutos. Os outros banheiros estão certinhos, o único problema é que o do banheiro de vocês usa bastante energia, então nada de usar dois chuveiros ao mesmo tempo.

—Tudo bem.-Amy concordou gentilmente, percebi que ela havia gostado de Gwidion-Como assim de vocês?

—Vocês não vão dividir o quarto?-Gwidion riu, enquanto eu e Amy nos encarávamos, confusos.-Pensei que eram um casal, pelo jeito alguém vai ter que ficar com o pequeno e simples quartinho amarelo!-Outra risada.-Sabem como é, o chalé era um lugar romântico pra mim e pra minha esposa.

A mulher de Gwidion tinha falecido a quatro anos, vi uma pontada de tristeza nos olhos dele, não fizemos nenhum comentário.

Quando chegamos a cidadezinha Havoysund, eu estava quase explodindo de alivio, além de estar com fome, havíamos passado o tempo inteiro no carro, para não nos atrasarmos. Depois de alguns minutos, chegamos ao chalé.

—Ultimas recomendações, crianças, tenham juízo e cuidado. Como em toda situação perigosa, convém usar de todas as habilidades, todas as cartas nas mangas que tiverem. Boa sorte e não estraguem tudo!-Ele sorriu e deu marcha-ré, acenou pela janela, se afastando com o carro.