Winter Wood
1 Obra de arte da morte.
Era uma manha pálida. A neblina estava espessa e fria e se alastrava por toda a cidade de Winter Wood havia dois dias. O frio não dava trégua e aquele céu branco ajudava a completar o clima mórbido daquele domingo.
Foi na sexta-feira a noite, quando madame Marabelle Winter Wood, viúva do fundador da cidade e também a pessoa mais velha de lá, foi encontrada morta em sua cama. A pericia concluiu que era morte natural, mas os rumores na cidade eram outros. Marabelle tinha 105 anos de idade, e mesmo assim o rosto continuava belo. Tinha longos e rebeldes cabelos loiros que viviam presos em uma trança, que contrastava lindamente com seus enormes e profundos olhos negros.
Não chegou a ter herdeiros, mas deixou um testamento. Estranhamente logo após ter sido lido, ninguém mais viu o tal do testamento e a mansão dos Winter Wood foi trancada com todos os pertences de Marabelle dentro dela.
Ela tinha um fascínio pelas crianças de rua, presentes em Winter Wood mais do que em qualquer outro lugar. Tamanho era seu amor, que construiu uma Instituição chamada Kid´s Home, onde abrigava as crianças, dava comida e roupas até que fizessem dezoito anos, e depois lhes indicava trabalho. Visto de fora, parecia um orfanato comum, e talvez realmente fosse, mas tinha a sina de sempre ser habitado pelas crianças mais problemáticas.
Mas fora isso, o verdadeiro motivo por aquela manhã de domingo ser tão deprimente, era que durante quase um século, a minúscula cidade perdida no tempo, e que nem sequer aparecia no mapa, tinha sido protegida por uma misteriosa mulher, e agora, quase que instintivamente todos sabiam que tudo podia acontecer.
Uma das várias crianças ajudas pela instituição de Marabelle era Lara. Ela havia sido encontrada com alguns meses de vida e desde então vivia em Kid´s Home. Foi sem duvida a pessoa que mais se abalou com a perda de Marabelle e agora se encontrava em uma situação que simplesmente se sentia perdida. Tudo sairia do controle sem a viúva Winter Wood.
Nesse momento todos se encontravam na praça principal, pois o bispo faria uma proclamação. Ele tinha o péssimo habito de achar que era dono da cidade. No centro da praça havia um palco montado e sobre ele um pedestal com um microfone. Sentados em uma mesa sobre o palco, estava a família Lubrient, a ultima das cinco maiores famílias da cidade. Elas haviam se unido para fundar Winter Wood, mas a maioria acabou simplesmente desaparecendo no sopro do vendo com o passar dos anos e tudo que restou delas foram as increveis mansões cada uma em um dos quatro cantos da cidade e a dos Winter Wood no centro. Estranhamente os Lubrient sobreviveram e agora eram a elite principal da cidade.
O bispo entrou. Ele era um homem que já devia ter ultrapassado os 90 anos, mas estava bem longe de fazer o tipo “bom velinho”. Usava uma túnica que o fazia parecer mais o papa do que um bispo, era baixo e encurvado e nunca sorria. Sempre ranzinza, tinha um queixo longo e pontudo e mais rugas do que era possível contar. Sem duvida, a noticia da morte de madame Marabelle o tinha deixado de bom humor. Lara o odiava.
Ele subiu no palco, pediu silêncio e começou a falar:
- Caros cidadãos de Winter Wood. Agora que Madame Marabelle Winter Wood morre – ele falava aquilo com um gosto macabro – finalmente tenho o gosto de lhes informar que a Instituição Kid´s Home será fechada e o dinheiro antes gasto com aqueles delinqüentes será convertido em verba para a nossa igreja. Houveram múrmuros de indignação e do meio da multidão se sobressaiu uma voz:
- Não pode fazer isso! – era Lara – e todos que vivem lá? Para onde irão? Morar na rua? – os múrmuros aumentarm.
- Silêncio! – gritou o Bispo – Agora que você não tem mais a proteção daquela velha louca, senhorita Lara “sem sobrenome”, a primeira confusão que você começar, resultara em você atrás das grades! E isso serve pra qualquer outro jovem que resolver se rebelar!
- Pelo amor de deus, estamos no meio do verão e esta prestes a nevar! Vão morrer congelados! – suplicou Lara.
- Alguém tire essa delinquente daqui! Rápido! – ordenou o Bispo.
Antes que Lara pudesse protestar mais, dois guardas do tamanho de armários apareceram e a arrastaram pra fora da praça. Tentou ainda comover alguém ali presente, mas então se lembrou com uma dor estranha no coração, que era uma órfã, agora moradora de rua e que para o resto da sociedade praticamente não existia. Marabelle tinha morrido a apenas dois dias e as coisas já estavam saindo do controle. Mal tinha acabado de chegar a essa conclusão e os guardas do Bispo a arremessaram para frente, fazendo com que caísse no chão batendo os cotovelos. Ela se virou pra frente pronta pra começar uma briga com eles, mas percebeu que eles eram o triplo de seu tamanho e essa com certeza não era uma briga em que ela queria realmente se meter. Eles se viraram e foram embora.
Depois de alguns segundos sentada ali, tentando recuperar seu orgulho e pensando no que fazer, considerando que não havia comido nada o dia todo e sem um tostão no bolso, pelo visto não ia comer...ou dormir, já que também não tinha casa, se levantou e começou a procurar uma vitima em potencial que logo ficaria sem carteira. Afinal...ela tinha que comer.
A poucos metros dali, estava uma viatura da policia. Dentro dela comendo frango frito estavam o Xerife Martin e o novato Mc Quinley.
O xerife explicava algumas coisas para o parceiro entre mordidas no frango.
- Escuta, vai ser fácil trabalhar aqui! Nada acontece nessa cidade, o Maximo que temos são alguns adolescentes revoltados, e alguns tipos que é melhor eu te explicar pra você não ficar achando que são só crianças.
- Ce, ce, certo chefe! – respondeu o companheiro gago.
Pelo vidro da frente viram um garoto de uns 17 anos descer de uma moto, tirar o capacete e ficar encostado nela por um tempo observando os passantes.
- Ta vendo aquele garoto ali? Tem cara de problema né? Bem, não é só a cara! Aquele é o Adam, rei dos problemas por aqui! Se tiver confusão, tem Adam, e cuidado! Conversar com ele pode ser assustador!
- Qua, qua, qual é Che, chefe! Pra mim parece só um moleque metido a bad boy!
- É! Um moleque metido a bad boy com fama de sociopata! Cuidado com ele.
- E a que, quela ali? – perguntou Mc Quinley apontando pra uma menina com cara de rica que passava segurando a coleira de um pudlle.
- Não se preocupe, aquela é Tessa Lubrient, a ultima coisa que vai ter com ela é problemas, a menos é claro, que alguém fale mal de sua roupa e ela venha nos fazer perder tempo! – respondeu o xerife rindo e fazendo o companheiro rir.
Passaram-se alguns segundos até que o xerife apontou pra um garoto na rua.
- Ta vendo aquele ali? Aquele é o Jack, é um bom garoto, mas bem problemático! Varias vezes foi parar na delegacia depois de uma confusão alegando que não se lembrava de nada.
- Nossa Che, chefe, essas crianças de, deveriam frequentar o psicólogo!
- Não á psicólogos em Winter Wood. Por isso contratamos uma. Ela deve chegar logo.
Lara mal tinha começado a andar quando avistou o alvo ideal. Tessa Lubrient. Para Lara ela não passava de uma patricinha mimada. Tessa sempre tinha sido tratada como princesa. Havia crescido na mansão Lubrient e sempre teve o mundo a seus pés. Os cabelos castanhos estavam sempre com os mais diversos penteados especialmente no estilo medieval. A pele claro aparentava ser cuidada como se fosse a coisa mais importante do mundo. As roupas, sempre caríssimas e de marcas importadas. Seria um alvo fácil. Tudo que Lara teria que fazer era se aproximar, puxar conversa e a garota nem perceberia Lara pegando a bolsa. Mas não era tão fácil...A vida toda Lara tinha aprendido a se virar e ter de lidar com alguém como Tessa a fazia querer pular nos trilhos do trem. Ela era pequena e magra, o que a deixava ágil. Os cabelos eram loiros e iam até a altura dos ombros com uma franja comprida e mal cortada. Tinha sardas no nariz e olhos negros tão impressionantes quanto os de Marabelle. As roupas que usava eram doadas pelo Instituto Kid´s Home, por isso eram maiores do que deviam, especialmente o casaco bege, que mais parecia um sobretudo. A única coisa dela, era um cachecol listrado de vermelho e branco que sempre esteve com ela. A ultima coisa que queria era ouvir sobre shoppings, lojas e roupas caras...
Foi quando percebeu Adam indo para um beco sem saída. Adam era encrenca. Isso era um fato. Os cabelos loiro- escuros, a jaqueta de couro preta, os olhos que mesmo azul-piscina eram flamejantes, o sorriso arrogante , tudo isso contribuía para formar a imagem do perfeito psicopata. roubá-lo era a pior ideia que Lara já tinha tido na vida. Ele nunca se abalava. Por que estava cogitado essa ideia? Não sabia, mas resolveu colocar em pratica. Começou a segui-lo tentando passar despercebida. Ele caminhou até o fundo do beco e ficou ali parado. Um pouco atrás dele tinha uma lata de lixo, atrás da qual Lara poderia se esconder sem ser vista e pegar a carteira do bolso dele.
Obviamente essa foi uma péssima ideia. A menos que estivesse completamente drogado, ele perceberia sua presença. Mesmo assim Lara se esgueirou pra perto, e quando estava quase alcançando, Adam agarrou seu pulso com força e ficou a encarando com os olhos azuis fuzilando.
- Olha só! Acho que peguei uma ratinha ladra! – Lara entrou em desespero.
- Me solta, seu doido psicótico! — os protestos foram em vão, pois ele segurou o braço dela e começou a arrastar a menina para fora do beco. Assim que chegaram na calçada, ele a jogou para frente e magra como era, Lara acabou novamente indo ao chão. Duas vezes em um só dia era de mais e vermelha de raiva, Lara percebeu que dessa vez o chão estava coberto de neve. Olhou para cima com ódio no olhar, e lá estava Adam com aquele maldito sorriso refletindo sobre o que faria com ela. Os únicos fora de suas casas, eram Adam, Lara, Tessa, Jack e mais dois adolescentes. Para Lara pareciam pouquíssimas testemunhas das quais alguém como Adam se livraria ou persuadiria muito facilmente. Foi quando Lara percebeu a viatura e começou a gritar como uma louca. O sorriso de Adam desapareceu e ele parecia reunir toda a paciência do mundo, quando ouviram um estrondo ensurdecedor. Todos que estavam na rua taparam os ouvidos e movidos pela curiosidade, passado o barulho eles começaram a correr na direção que parecia ter ocorrido o curioso evento.
A viatura também saiu em disparada pra ver o que estava acontecendo, e quando chegou la, encontrou os seis adolescentes, quase todos com expressões do choque, fazendo um circulo ao redor de algo.
- Da licença, saiam da frente, mantenham distância! – pedia o xerife, que só se calou quando botou os olhos na cena macabra.
Ali, na neve, se encontrava um corpo humano, com os membros separados do troco, embora muito próximos, como se tivessem sido cortados vagarosamente e com muita calma, o que contrastava com a maneira selvagem e primitiva que os órgãos internos tinham sido arrancados para fora do corpo, e alguns até desaparecido. Os olhos arregalados demonstravam choque e no pescoço da vitima havia o desenho de um pentagrama. Todo aquele sangue sobre a neve comparava a cena a uma macabra obra de arte pintada pela morte.
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