Winter Wood
2 Qual o problema com os adolescentes?
Todos estavam em completo choque, inclusive o xerife. Nunca havia acontecido nada parecido em Winter Wood. Os seis adolescentes presentes no local não esboçavam nenhuma reação, até quando Tessa conseguiu processar o acontecido e começou a chorar. O choro fez com que o xerife se lembra-se para o que tinha sido treinado e começasse e organizar a situação.
– Todos se afastem! Mas não saiam da praça, preciso resolver isso primeiro, depois eu cuido de vocês crianças. –ele foi até a viatura e chamou por reforços.
As crianças foram até a enorme fonte que ficava no meio da praça e ficaram ali sentados sem nem mesmo olhar um para o outro por mais tempo do que conseguiram contar. Algumas horas depois, o xerife foi ao encontro deles e falou.
– Crianças, não se preocupem, foi só um ataque de animal, mas vocês passaram por uma experiência muito traumática, por isso vou pedir pra irem até a delegacia, onde a senhorita Whitmore, a nova psicóloga da cidade vai conversar com vocês.
Adam fitou o xerife de baixo a cima e percebeu que nenhum deles estava mais nervoso que ele.
– Não foi ataque de animal, não é mesmo? – perguntou o garoto com um sorriso que variava entre a decepção total e o completo sarcasmo. Não houve resposta.
– Eu não vou conversar com psicóloga nenhuma! – protestou Jack. Jack era complicado. A camisa vermelha xadrez sobre uma branca, o jeans desbotado, os cabelos castanhos desgrenhados, e aqueles olhos verdes faziam-no parecer despreocupado, mas havia muitas coisas sobre ele que ninguém sabia, e ele não tinha a intenção de conta-las a primeira pessoa que aparecesse dizendo que era confiável apenas porque tinha um diploma.
– Nem eu. Tenho cabeleireiro e depois prometi a minha mãe que faria comprar com ela. – não poderia ter saído de ninguém menos do que Tessa. Lara bufou ao escutar a outra falando aquilo, o que acabou chamando a atenção do xerife para ela.
–Senhorita Lara! – começou de maneira irônica – tem alguma desculpa pra não falar com a psicóloga também? Ou só esta aqui porque sentiu saudades. Adam olhou para ela e deu um perfeito sorriso sarcástico. O ou...tinha acabado de se lembrar dos problemas com Adam e olhou para ele de forma suplicante. Antes que ele pudesse ter a boa vontade de salvar o pescoço da menina ou o xerife de compreender o que estava acontecendo, eles escutaram um barulho de salto alto batendo.
O que todos viram com surpresa foi uma ruiva com um coque despojado, olhos castanho-esverdeados, sardas, uma blusa de alcinha de cetim azul, saia tipo secretaria sexy, longas pernas de modelo cobertas por uma meia calça preta transparente e usando sandálias de salto azul cobalto. Ela parecia ser apenas alguns anos mais velha que eles.
– Prazer, sou Cinthia Withmore, será que temos algum voluntario?
Aquilo não era bem o que Jack esperava de uma psicóloga, mas nem que ela fosse a miss universo ele abriria sua mente pra ela. Como ninguém levantou a mão, ela chamou um por um, e algum tempo depois todos puderam ir para casa, quer dizer, quase todos. Assim que colocou os pés pra fora da delegacia Lara se lembrou da triste realidade. No fim das contas, a ideia absurda de roubar Adam não deu em nada e ele perdera a chance de roubar Tessa. Fazia uns seis graus La fora, e ela não podia ficar parada esperando um milagre. Já estava para sair andando quando sentiu uma mão em seu ombro. Virou-se assustada e para sua surpresa deu de cara com Adam.
– Sabe ratinha... Eu não sou tão sociopata quanto todos dizem. – ele tirou uma nota de 50 pratas da carteira e entregou para Lara, que ficou olhando como se a nota fosse explodir dali a alguns segundos. Adam sorriu como se a probabilidade de ela estar certa fosse mais alta do que deveria, mas ele apenas continuou andando.
– Mas só pra avisar, se contar pra qualquer um que eu fiz isso, juro que só vão achar todos os seus pedaços no natal do ano que vem. – e desapareceu na escuridão.
Lara ficou ali parada olhando pra nota por alguns segundas ainda sem acreditar no que tinha acabado de acontecer. Por que ele havia feito aquilo? Ela não queria saber. Já tinha problemas de mais e Adam não seria facilmente solucionado, especialmente porque a parte dos pedaços parecia ser verdade. Estava exausta. Acabou por decidir deletar Adam, aquele dia e todos os outros problemas e só se preocupar em encontrar um lugar pra dormir em que não fosse morrer congelada.
Já estava escuro quando Tessa chegou em casa, Ela entrou e tentou subir a escada na ponta dos pés para não ser percebida. Não adiantou muito, porque assim que subiu dois degraus escutou atrás de si:
– Ola querida? Como foi dia? Se divertiu? Porque eu não, tendo que fazer compras sozinhas e pedir desculpas até a morte por você ter simplesmente faltado a cabeleireira! – o tom era simpático, mas Tessa sabia muito bem que não havia um pingo sequer de simpatia ali.
– Mãe, desculpa! Eu juro que não fiz por mal, é que... – Nem tinha acabado a frase e o famoso olhar de Larissa Lubrient fez com que se calasse.
– Já para o seu quarto! – ela nem tinha levantado a voz, mas também não era preciso.
Tessa subiu as escadas de cabeça baixa. Entrou no quaro, soltou a bolsa em cima da penteadeira, soltou os cabelos castanhos, colocou a camisola e caiu na cama exusta. Poucos segundos depois, começou a escutar um susurro. Abriu os olhos assustada procurando por alguém. Olhou para o despertador e percebeu que já eram cinco para as três da madrugada, o que significava que havia dormido mais do que pensava. Julgando não passar de um sonho, ela recolocou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos. Para o desespero de Tessa, ela escutou novamente os sussurros, que alias, pareciam cada vez mais perto. Tão perto que ela quase podia sentir a respiração de alguém em seu cabelo. Ela arregalou os olhos e ficou imóvel esperando que algo acontecesse. A janela se abriu com um estrondo e Tessa se levantou gritando. Ao dar de cara com o espelho Tessa viu uma mulher fantasmagórica e cadavérica que arregalava os olhos e apontava para ela. Com os sussurros se tornando vozes altas que repetiam sem parar um nome que ela não podia compreender, ela começou a andar para trás com tamanho desespero, que passou pela janela e se esquecendo de que sua sacada não tinha grade, acabou pisando em falso e caído.
Tessa abriu os olhos. Tinha parado de gritar e a essa altura esperava estar tendo uma conversa com um anjo. Mas o que percebeu a deixou mais assustada ainda do que estava a segundos atrás. Sem nenhuma explicação lógica, Tessa ainda estava na reta da sacada, porem flutuando com se estivesse presa por cabos invisíveis. Mas não havia cabos, nem nada. Ela ficou parada alguns segundos com medo até de respirar, até que simplesmente o incrível feito chegou ao fim e ela caiu, parando de novo a uns trinta centímetros do chão. Dessa vez caiu logo em seguida batendo as costas no chão dolorosamente. Ficou ali na grama de seu jardim ofegando e olhando para o céu, e quando se atraveu a olhar para o lado, avistou um bilhete. Resolveu abrir e dentro estava escrito: “praça central as 3:00”.
Jack estava parado em uma avenida principal de Winter Wood. Eram cinco para as três da manha e sua namorada Stefany tinha ligado pra ele e pedido que ele fosse encontra-la. Winter Wood de madrugada era completamente deserta e Jack era o único naquele frio. Tremendo, ele torcia para que Stefany estivesse indo terminar com ele, porque se não estivesse, ele terminaria depois dessa. Ela chegou. Naquele frio dos infernos, usava um vestido que era quase uma saída de praia, os cabelos loiros oxigenados soltos e maquiada como se houvesse acabado de sair de uma boate. Jack nem se lembrava mais do porque havia começado a namorar com ela.
– Jacksinho, antes de mais nada eu gostaria de dizer que eu nunca quis magoar você, mas e eu o Brad... – Jack entendeu... Brad. De qualquer forma, ele não se importava. Nem escutava mais o que Stefany falava, quando realmente parou de escutar.Tudo ficou escuro e ele não viu mais nada. Quando abriu os olhos estava parado no mesmo lugar de antes na mesma posição exata de antes, mas a cena que viu o deixou chocado. A rua estava escura, pois os postes elétricos estavam dobrados ao meio e jogados pela rua, assim como carros que se encontravam de ponta cabeça e todas as vitrines das lojas ao redor estavam quebradas. No meio de tudo isso, Stefany estava jogada no chão aparentemente inconsciente. Jack começou a ofegar. Por acaso tinha passado um furacão e ele não notou? Não achava que fosse isso. Andou até a ex-namorada rezando para que ele estivesse viva. Em cima dela havia um bilhete escrito: “praça central, 3:00”.
Ana estava voltando pra casa. Tinha passado na casa de uma amiga depois de sair da delegacia e agora, quase três da manhã, ela voltava sozinha pela rua principal, mas não havia problema, pois nada nunca acontecia mesmo naquela cidade. Ana tinha 17 anos, era morena e tinha longos cabelos castanhos assim como os olhos. Normalmente parecia segura e despreocupada, mas na situação em que estava, ela passava a mão sobre os braços para se aquecer e andava cada vez mais rápido. Ouviu um barulho e deu um pulo, percebendo o quão idiota havia sido ao ver que um gato tinha derrubado uma lixeira ao caçar uma ratazana. Continuou andando e desesperada, começou a ter a sensação de estar sendo seguida. Olhou para traz, mas não viu qualquer sinal de vida. A situação se repitiu algumas vezes, até que uma das luzes se apagou logo acima de Ana. Ela acelerou ainda mais o passo e todas as luzes pelas quais ela passava se apagavam. Com isso, e sensação ainda mais forte, ela começou a correr, até que algo muito rapido esbarrou nela com tamanha força e velocidade, que fez com que ela caísse olhando para cima, vendo que não só as luzes explodiram assim que ela gritou, mas também pode ver literalmente as correntes elétricas fora dos fios, fazendo um circulo no alto sobre sua cabeça. Com os olhos arregalados, ela sentiu algo cair sobre si e ao olhar avistou contrastando coma jaqueta preta, um bilhete...
Adam estava no movimentado bar do Bill. Movimentado, é claro, pelas piores pessoas que você poderia conhecer em Winter Wood. Não fazia ideia de que horas eram, tudo que sabia era que já tinha ganhado a maior grana no poker e estava prestes a ganhar mais. O jogo já estava no final e não havia ninguém melhor que ele em toda a cidade melhor nisso do que ele. O oponente fez a jogada. Era um brutamontes que tinha pelo menos o dobro do tamanho de Adam e tantas cicatrizes quanto tatuagens. Adam tirou o cigarro da boca, soprou a fumaça e abriu um sorriso esplêndido. Era muito dinheiro na jogada e antes de ouvir a resposta de Adam, seu “simpático” oponente segurou a parte de baixo de mesa e a atirou contra Adam, que por sorte tinha reflexos realmente muito bons. O metido a presidiário, chegou a arremessar facas, sem muito sucesso, e como é comum naquele tipo de lugar, logo todos aderiram a briga e começaram a discutir entre si. 5 minutos depois aquilo era a própria visão do inferno, e Adam não tinha escapado da briga. Começou a ficar realmente nervoso, pois seu adversário tinha acabado de se lembrar do motivo de tudo isso. Adam engoliu em seco com o coração a mil por hora, quando:
– FOGO! SAIAM TODOS DAQUI! ESTA PEGANDO FOGO! –gritou o barman.
Todos se viraram assustados e a confusão ficou maior ainda. Com surpresa Adam percebeu que estava ficando cada vez mais quente. Julgando ser uma vitima das chamas olhou para corpo procurando o motivo de tamanha temperatura. Perdeu a fala quando percebeu que desde a ponta de seus dedos, até o ante braço, estavam em chamas. Ele não sentia dor e nem estava tão quente assim, o que o fez ficar olhando aquilo por cerca de uns cinco segundos até a ficha cair. Quando deu pelo fato, começou a ir em direção a saída, e como era apenas um garoto de dezessete anos, no meio de gigantes, saiu facilmente antes que todo mundo e para sua sorte, tinha começado a chover. A água apagou as chamas e Adam ficou olhando para os próprios braços até perceber no chão, um pequeno papel.
Lara estava andando havia muito tempo. Não havia hotéis em Winter Wood e mesmo que tivesse, ela havia gastado boa parte do dinheiro que tinha com um belo jantar, já que não sabia quando comeria novamente. Cansada, com frio, e sem ter para onde ir, Ela encontrou um beco sem saída, curto, estreito e vazio e se sentou abraçada aos joelhos na esperança de se manter aquecida.
Flashback on:
Lara devia ter cerca de cinco anos de idade. Estava sentada na escada de Kid´s Home abraçada aos joelhos e com cara de emburrada. Percebeu a presença de alguém e ao olhar para cima, viu Marabelle.
– O que foi princesa? – perguntou docemente a mulher.
Lara pensou antes de responder, suspirou e respondeu:
–Odeio a Phebe Parker!
– Como assim odeia? O seu coraçãozinho é bom de mais para ter um sentimento como esse!
– Não é não! Odeio ela! Odeio, odeio e odeio! – retrucou a menina pirracenta – Ela pega as minha bonecas, rouba minhas fatias de bolo, me chamou de espantalho e nesse exato momento acabou de me chamar de “senhorita sem sobrenome” – terminou com um esplendido beiço.
Marabelle arregalou os olhos, mas depois sorriu e levantou o rosto de Lara com delicadeza até elas estarem olhando uma nos olhos da outra, e então disse:
– Nem sempre as coisas saem da maneira que esperamos Lara. Quando tudo der errado, confie em você, mas se não tiver mesmo jeito, lembre-se de que sempre pode contar comigo princesa.- ela piscou um olho e a pequena Lara sorriu.
Flashback of:
Lara começou a chorar. Tinha apenas quinze anos, como poderia resolver isso? Ainda por cima não tirava a cena do assassinato da cabeça. Quanto mais pensava, mais chorava e quanto mais chorava, mais a o vento aumentava e logo já tinha se transformado em uma verdadeira ventania, que se transformou em chuva. Lara ficou ainda mais irritada com o tempo ruim e deu um grito de ódio, exatamente ao mesmo que tempo que um trovão ribombou no céu. Percebendo, mesmo que intuitivamente, algum tipo de relação entre as duas coisas, ficou parada olhando para fora do beco de olhos arregalados e com o rosto ainda vermelho. Viu uma figura se aproximar. Era apenas uma silhueta contra a luz branca de um relâmpago, e tudo que a figura fez, foi soltar um papel e desaparecer. Lara se esgueirou até o local, pegou o bilhete e voltou correndo para seu canto. Abriu e la estava escrito : “quero te ajudar Lara, me encontre na praça principal as 3:00”. Era uma péssima ideia, mas algo dentro de Lara dizia que ela deveria ir. Começou a escutar o relógio da torre da cidade badalar as três horas, então se levantou e saiu correndo afobada.
Colocou os pés na praça no extato momento que o relógio tinha acabado de bar as três badaladas completas, e parou de correr no exato momento que viu Adam, Tessa, Ana, Jack e um outro garoto que ela não conhecia. Todos pararam de correr assim que deram de cara com os outros, e a expressão de surpresa era geral.
Delegacia de policia de Winter Wood.
– xerife!
–O que foi senhorita Withmore?
–Precisa ver os relatórios das crianças com que conversei hoje cedo.
– Desculpe, mas achei que fosse assunto sigiloso...
– E é. Mas essa é uma exceção. Me traga as fichas deles.
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