A taverna estava consideravelmente lotada. “Essa é a segunda maior taverna de Ork” ouviu um Meio-Elfo falar na mesa ao lado após virar um copo de hidromel. Estava numa mesa quadrada no canto, lado oposto a porta, perto da lareira. Um frio dos infernos lá fora, acabara de sair da Mata Fechada, floresta ao lado, caçando, conseguiu 3 coelhos, trocou por uma caneca de hidromel, pão assado, e algumas Barbas, moedas do norte. Era melhor que tentar acender uma fogueira lá fora embaixo da neve, num dia de lua cheia. A Mãe não respondia nas luas cheias. Não depois do Winter. Mas, qual foi a última vez que ela lhe respondeu depois do Winter? Ele não se lembrava.

A taverna por fora era feita de pedra com vigas de madeira, por dentro tinha um telhado todo emadeirado, forrado com palha para aquecer. Um chão de madeira clara, as mesas dos cantos eram quadradas, e o resto era redonda. Rael via as pessoas comendo, bebendo e conversando, não confiava nelas, por trás daquelas caras sorridentes e bêbadas, todas escondem seu demônio interior. Ele ao menos, escondia sua face atrás de uma máscara de verdade, um troféu, dada pelo mestre da sua tribo após seu ritual de passagem para receber seus poderes druídicos. Uma máscara feita da cabeça de um falcão, com o bico preto, e em volta dos olhos, amarelo, o resto branco.

Terminou de beber o hidromel, estava alimentado e aquecido. Pegou suas peles que havia deixado jogadas em cima da mesa, urso marrom, se cobriu para aguentar a nevasca que estava caindo e foi em direção a porta. Ao sair um maldito tiefling azul se bateu contra ele.

Xingou ele devidamente enquanto o maldito entrava, não conseguiu ver seu rosto. Tieflings normalmente não eram de se cheirar, a deusa não gostava muito deles, descendentes de humanos nefastos, que procriaram e fizeram pactos com demônios e diabos.

Noite afora a neve caia, densa, mal conseguia ver 10 metros a sua frente. Tudo era branco, e ele não conhecia aquela cidade, mas lembrava do caminho que veio pelo fogo acesso nos postes das calçadas. Ele procurava um lugar para pernoitar, e sair o mais rápido possível dali quando a lua cheia fosse embora. Normalmente ninguém aborrecia nos telhados, mas a nevasca não o permitia dormir ali. Acabou que seus pés o levaram para a praça da cidade. Apesar do frio e da neve caindo incessantemente como uma chuva, havia pessoas ali, e fogo para se aquecer.

A praça era circular, e quatro ruas principais dava para ela, não ficava exatamente no centro da cidade, mas a chamavam centro mesmo assim. Rael achava aquilo estupido, mas com quem ele iria reclamar? O piso era bem feito, ao menos, pedras bem colocadas, com lugar para a água escorrer, mas estava encoberto pela neve ao redor dela, era possível ver algumas, pois havia postes e fogueiras de pedras em alguns lugares que derretia a neve, e o fogo espalhado pela praça permitia ver ela quase completa. Fora dela, era como se o mundo fosse branco.

Algumas estruturas de madeira estavam espalhadas pela praça: vendinhas, chamavam, era quase uma pequena feira. Limpavam a neve que caia a cada venda, uma se destacava das demais, uma velha estava se desfazendo de bugigangas, seus pés o levaram até lá. Se encontrou na pequena fila para fazer a compra. A velha era feia, pequena, parecia uma anã, cabelos brancos e tão finos que era possível ver o couro, uma puxada e todos caiam, pele mais enrugada que pé de galinha, se vestia simples, apenas lã e peles costuradas. "Não é atoa que está se desfazendo de coisas para sobreviver", pensou. E logo chegou sua vez, ela limpava a neve que caia quando disse sem olhar para ele:

— O que vai querer meu querido? — Sua voz era tão feia quanto sua aparência, lembrava alguém arranhando pedra com as garras de um urso.

— O que tem aí? — Ele falou olhando direito para o que era vendido, haviam anéis, espadas e escudos, flechas e dardos, vários itens que poderiam valer uma pequena fortuna. — Onde conseguiu tudo isso? Roubou foi? — Sua voz saiu mais grossa do que normalmente era, e mais alta do que se atrevia a usar com outras pessoas.

— Eu? Como uma velha fraca conseguiria roubar tudo isso? Não, não. Meu marido? Talvez, achei isso numa tabua solta na nossa casa, e achei bem em vender e com o dinheiro me mudar, talvez, A Forja ou Última Morada. Essa cidade está muito branca para mim. — Ela falava pausadamente como se procurasse as palavras certas e estivesse tentando esconder algo.

Com um movimento nos dedos da mão direita e algumas palavras sussurradas. Alguns anéis e flechas começaram a emanar uma aura. "Quem diria que eu iria encontrar alguns itens mágicos nessa cidade? Ainda mais de uma velha como ela, talvez o marido dela tenha sido algum aventureiro ou ladrão, e acabou não conseguindo vender ou preferiu guardar, tolo".

Dois anéis haviam chamado sua atenção, um pequeno simples de prata com uma pequena pedra ou gema, não conhecia bem sobre gemas e pedras, mas aquilo não era uma esmeralda, mesmo assim, havia uma aura verde em volta, então continha alguma magia. E a segunda era um de pirita com uma pedra vermelha em cima, sua aura era negra.

— Quanto custa esse anel de prata verde e a vermelha? — Apontando para auxiliar a velha em quais anéis ele estava falando, e rezando para sua vista não ser tão ruim quanto sua voz.

— Hmmm, bem, podemos fechar os dois por 30 ferros?

Relutante, pois só dispunha de 36 ferros e algumas barbas, mas aqueles anéis poderiam ser realmente úteis, quem sabe, pagou e voltou a sua busca de um local para dormir fora do frio.

Não tinha um lugar exato, não conhecendo a cidade, simplesmente andou para onde via fogo em meio a névoa, quando se deparou que seus pés o levaram para um pequeno templo, por fora ele era branco assim como o resto do mundo, só havia uma porta dupla e uma janela redonda no topo, e mais nada, não havia indicação de alguma divindade ou coisa parecida.

Ele abriu suas portas de madeira pura bem conservada, e era um pequeno local retangular de cerca de 10 m de largura, 5 de altura e 6 de comprimento, havia um simples altar com nenhuma divindade e alguns escanos escuros, o chão era de tábuas e as paredes internas de pedra com vigas de madeira. Não havia nenhuma porta por dentro, parecia um local para qualquer um ir lá para frente do altar e rezar para os demônios, mas, mesmo em lugares assim, a única Deusa verdadeira atenderia as suas preces.

Ajoelhando-se, começou a rezar, não havia propriamente uma oferenda para dar-lhe, mas ele sabe que ela entenderia, piedosa como uma mãe é com seus filhos.

“Ó, Mãe, aquela que provê o fogo em meio a tempestade de neve e escuridão, aquela que envia ajuda aos necessitados, piedosa com seus filhos, seja também com este um, me ajude a encontrar um local para dormir longe da maldita neve, em dias como esse, você e todos sabem que as criaturas de lua cheia vem, sei que a lua é sua filha, mas você sabe que o outro usa suas criações para nos atacar, seja piedosa.”

Após terminar sua reza, continuo mais alguns segundos ajoelhado até que finalmente se levantou e voltou para o mundo branco e pensando que poderia voltar e dormir nesse pequeno templo.

Mas logo essa ideia foi varrida da sua cabeça ao rever o tiefling de mais cedo, perambulando para algum lugar que a neve não o permitia ver. Mudou seu caminho e decidiu segui-lo, afinal, um tiefling numa noite de lua cheia, andando sozinho numa cidade como aquela, quase no fim do mundo, no meio de uma nevasca e numa provável viela solitária, A Mãe e ele sabiam que algo bom não sairia dali.

Pôs os pés para atravessar os montes de neve que já estavam se formando, forçou ao máximo os olhos para ver atrás da cortina que se seguia, e furtivamente começou a seguir o meio-demônio. No começo, não conseguia entender o padrão, ele parecia está perdido ou procurando algo, passaram duas vezes pela mesma rua, quando estava decidido a aborda-lo e fazer umas belas perguntas, ele ouviu.

Uma, duas e finalmente três vezes o berrante tocar, um frio subiu pela espinha, mais do que já estava, o barulho vindo da praça, metal se movimentando e raspando no couro, flechas sibilando, conjuradores gritando, as criaturas da lua cheia haviam chegado as muralhas e provavelmente estavam batendo nos portões. Em sua volta somente, três coisas reinavam, chamas, filhas da Mãe dançando e cortando aquela névoa que o Outro jogara sobre aquela cidade, e o tiefling que havia parado numa pequena rua, quase uma viela, a poucos metros de Rael.

A insalubre criatura correu para dentro da pequena rua no instante em que o berrante acabou seu terceiro grito, e ele foi atrás. Ficou na esquina, a espreita.

Não acreditou no que viu em um primeiro momento, julgou que algo de ruim iria acontecer, quem sabe um assassinato, um roubo ou coisa pior, o perseguido estava ajudando a velha das vendas a se levantar, ele devolveu para ela um saco de couro, arrumou suas vestes e cabelos, e deu a mão para a anciã andar sem problemas.

Sentindo seu coração apertar e sua mente derreter, já que aquilo não fazia sentido nenhum, foi calmamente em direção a eles, para se desculpar, mesmo que ele não soubesse da perseguição. E ficou surpreso quando a casa da velha era logo ao lado, os dois entraram por uma porta de madeira acabada pelo frio e precipitações e deixaram a porta aberta.

Se esgueirando, olhou para dentro. A idosa pediu para o pobre tiefling se sentar num sofá cortado, desbotado e com lã saindo, e entrou corredor adentro, falando que iria pegar chá para os dois, mas o tiefling disse que não precisava, após insistência.

O comodo era pequeno, o chão de tábuas de madeira escura, as paredes de pedra com fortificações de madeira para não cair e argamassa, e o teto de uma espécie de cerâmica e vigas para sustentação. Havia um tapete destruído no centro, o sofá, uma pequena mesa redonda de serragem compactada, uma estante com livros velhos, mas bem conservados e nada empoeirado e uma raque com algumas plantas que sobreviveram ao Winter para decoração. A iluminação vinha de velas e um archote no corredor, a única saída do cômodo fora a porta.

Pouco tempo se passou até que ela voltou com um bule verde, e duas xícaras.

— Aqui meu jovem, é muito pouco pelo que você fez por mim, agradeço muito. — Falou enquanto colocava o líquido nas xícaras e bebia.

— Q-que isso, não precisava mesmo, mas muito o-obrigado. — E tomou um gole. — Esta realmente muito saboroso, mas não quero incomodar mais você.

Ele fez um gesto para se levantar, mas ela pousou a mão sobre o ombro dele.

— Se não for mais incomodo, pode ajudar essa velinha em um pequeno favor?

— O-o que seria?

— Sabe, estou me desfazendo das coisas do meu marido... Ele era um grande aventureiro e juntou muitas bugigangas e “items” valiosos durante a sua vida. Mas... — Ela pousou o dedo na boca dele. — Ele teve uma morte terrível, sim, sim, ele se juntou com pessoas ruins durante sua vida, fez algumas más escolhas, mas ele não era mal.

"Ele acabou sendo assassinado enquanto procurava algo para alguém, uma missão, seus ossos e corpo ainda estão por lá. Ele me disse aonde iria antes de sair, não é muito longe daqui, mas é perigoso, pois é na Mata Fechada, e dentro de uma caverna, e uma velha como eu não posso ir, e nunca achei ninguém que quisesse pelo pouco que eu podia dar."

"Mas, acabei achando o lugar que ele guardava suas coisas, e enfim posso pagar alguém, e, porque não alguém generoso como você? Eu preciso que você traga qualquer coisa que tenha no corpo dele, e principalmente um anel." — Ela mostrou a mão esquerda. — "Como esse que ele tem na mão esquerda, é nosso anel de casamento. Eu acredito que seria muito difícil você sozinho trazer o corpo dele. Mas, se puder sepultar ou queimar ele seria de grande agrado a mim."

O tiefling ficou pensando durante algum tempo, e Rael também, aquilo era uma ótima oportunidade para ganhar dinheiro fácil, ele conhecia um pouco da floresta, e uma caverna abandonada não deveria ter mais que alguns goblinóides ou criaturas parecidas, e com o "gentil tiefling" seria moleza.

— Sinto muito. — Começou dizendo e entrando na casa. — Não queria assustar vocês, mas deixaram a porta aberta e eu sem querer acabei ouvindo um pouco da conversa. Sou um aventureiro e se eu pudesse ajudar você ficaria muito feliz, principalmente para redimir meu comportamento de mais cedo.

Os dois se viraram e o sangue demoníaco quase se levantou, mas suas palavras doces o acalmaram e ambos o reconheceram.

— Claro! Afinal, por que não mais uma mãozinha extra? — Disse ela sorrindo.

Notas finais
Olá! Espero que tenham apreciado a leitura e adoraria receber feedbacks!