Winter
3 A Criatura Peluda
Soltou o maior suspiro de sua vida, estava cansado, seus pelos molhados, suas mãos apoiadas em seus joelhos quase dobrados, em pé e finalmente na Última Morada, a última casa élfica amiga antes de verdadeiramente adentrar no norte, isso se você viesse do sul. Cerca de 502 km daqui até a Forja, ou 620 km se você não for um idiota para seguir em linha reta e sim usar a Última Estrada, de acordo com um mapa e o comerciante que vendeu ele. Ou seja, ainda teria de andar mais 620 km ou 17 dias para se reencontrar com Dorian. Isso se ele ouviu seus gritos antes de serem abruptamente separados e não estivesse perdido ou ainda o procurando, concordamos ser péssima ideia tentar cruzar a Floresta de Ghüd'in sozinhos, e mesmo assim tentamos.
"Bem, ninguém pode falar que não sobrevivemos, mesmo andando ao lado do Rio Um que em tese é o caminho mais seguro sem usar a Pequena Estrada, mas os antigos deuses estavam olhando por nós e nos protegeram o máximo que conseguiram, infelizmente todos sabem que os deuses estão enfraquecidos após Winter… Ainda mais num lugar amaldiçoado pela guerra como aquele."
"Hoje é noite de lua cheia, e a lua já está muito erguida, eu realmente precisava correr toda essa distância para não ser pego pelas criaturas da noite e conseguir um lugar seguro, sorte minha que estava perto daqui, será um ótimo lugar para pernoitar, ainda tenho alguns ferros, espero que aceitem moeda pequena aqui, devem aceitar, afinal fazem fronteira com os pequenos."
Após recuperar o folego, limpou a neve que caia em suas vestes e pelos, e começou a olhar em volta a procura de algum lugar para ficar. A muralha era forte, como esperado de arquitetura e engenharia élfica, pareciam grandes blocos de mármore branco puro, com cerca de 10 m de altura, os portões feitos de alguma rocha preta que ele não reconhecia, usando correntes de mithral para mover a vontade e sem muito esforço, quando passou por eles, supôs que deveriam ter 80 cm de espessura.
Analisou a possibilidade de subir aquela muralha lisa, e julgava que mesmo com magia suas chances deveriam ser próximas a zero. Apesar de está nevando, mesmo que pouco, a cidade não dispunha de neve no chão, apenas nos telhados, onde um lençol de neve estava gradualmente se formando e cobrindo os telhados. As ruas eram muito bem feitas, com blocos retangulares de alguma rocha comum, com espaço entre elas, haviam calçadas também, em todas as ruas que ele via, com um sistema para a água escorrer abaixo delas. Os postes eram feitos de ferro com material estranho cobrindo e pintando de branco, mas, percebeu o ferro ao bater levemente neles.
Os postes o deixaram pensando por algum tempo, pois não era fogo que vinha dele, e sim alguma luz mágica quente, também sentiu a presença da arcana correndo nos postes e após se concentrar um pouco mais, sentiu no chão também. Como se a água e a arcana corressem abaixo dos seus pés. Porém, sem conseguir chegar a uma conclusão de como aquilo era feito, deixou de lado.
Deveria ter adentrado pela entrada do comércio ou algum distrito parecido, pois via lojas variadas de ambos os lados da rua, boticarias, livrarias, cervejarias, e opa, uma taverna. Seus pés começaram a andar naquela direção, sua barriga reclamava então não brigaria contra ela.
Muitos elfos andavam pelas ruas, era possível ver três delas, a rua em que estava se bifurca em outras duas, uma aparentemente de casas e outra que leva a uma praça, a taverna nessa. Eles olhavam estranho e alguns até atravessaram para o outro lado da rua, também tinha não-elfos, alguns anãos, halfings, gnomos e até jurou ver um goblin antes de entrar na taverna.
Uma mão barrou sua passagem, não notou que uma pessoa estava fora da taverna guardando ela.
— Suas armas, ponha no barril. — Um barril fora da taverna com várias armas dentro. Isso é um costume comum em alguns lugares ao norte, para evitar brigas armadas dentro, anãos e humanos amam causar. Colocou sua maça de aço com cabo de madeira clara e entrou.
Seus pelos protegiam do frio e as ruas estavam aquecidas pela magia. Mas, nada supera a sensação de ser abraçado pelo fogo de uma lareira ardendo e comendo madeira. Estava lotada, poucos lugares para sentar, mas o balcão até que estava vazio comparado ao resto. Toda na madeira, o chão as paredes e o teto, forrado com lã e palha, detalhes em pedra para estética, algumas armas, provavelmente sem fio, estava pendurada com escudos com as cores élficas, dourado, verde e roxo. As mesas eram todas redondas, e a lareira de pedra no canto oposto ao balcão, que fica na entrada a direita, sentou no segundo banco perto da porta, eles eram redondos e altos, deu um pulo para alcançar. Um elfo que estava no terceiro banco bufou, pegou sua caneca e foi se sentar numa mesa com outros.
Outras linguás pareciam ser proibidas ali, apesar de alguns anãos e gnomos, apenas o élfico reinava naquela taverna, o que é algo bem estranho para uma cidade comercial. O taverneiro estava atrás do balcão no quinto banco, conversava sobre a emissão de uma nota da Forja de como queriam retomar a dádiva para eles, estavam bastante empolgados com a possibilidade de isso realmente acontecer e o movimento de pessoas pela Estrada do Rei aumentar e consequentemente, os lucros deles também.
— Posso me sentar aqui? — Um elfo alto, usando vestes roxas quase negras e quentes chegou perguntando.
— Claro, aparentemente ninguém mais vai sentar aí mesmo.
Soltou uma risada e mexendo a mão falou. — Duas, vinho prata.
— Eu não bebo. Leite com mel para mim.
O rosto dele era meio estranho, obviamente era um elfo, mas quando moveu o rosto para o taverneiro e voltou, sentiu algo bizarro, sua voz era suave, nem fina, nem grossa, tinha um nariz pontudo e orelhas grandes, o cabelo extremamente liso e prateado, usava um colar de ouro com um rubi no meio, brilhando como o fogo na lareira do outro lado da taverna. Apresentava um distintivo no peito esquerdo.
— O que é isso no seu peito?
— Bem forasteiro, meu nome é Noah, trabalho na inteligência da guarda da cidade, esse simbolo. — Um livro aberto e uma espada saindo dele. — É o símbolo da guarda da cidade, e de quase todas as cidades élficas, menos em Ni-vén. Eles gostam de ser diferentões.
— Que legal! Meu nome é Rhogar.
O taverneiro era um alto elfo, meio brilhando e cabelos dourados, usava vestes simples de cozinheiro amarelas. Ele trouxe o leite num copo de madeira e o vinho numa taça de vidro e voltou a conversa com o elfo do quinto banco.
— Então Rhogar, o que está achando da cidade?
— É extremamente linda, eu venho do leste, perto de Lury.
— LURY? — Disse ele com espanto. — Há! Você está muito longe de casa. O que faz alguém sair do fim do mundo e vir para cá?
— Bem, meu amigo, Dorian, foi aceito na escola de magia da Forja, então vim acompanhar ele nessa viagem.
— Que belo amigo você é, nos dias de hoje poucos fariam isso, e onde está Dorian? Na latrina?
— Quem dera… Separamos perto da junção do Grot com o Um. Desde então vago sozinho, estava de noite, alguma criatura nos seguindo, muito escuro e acabamos nos separando, eu gritei que nos encontraríamos na Forja. Acabei chegando a uma pequena vila a quase três dias de caminhada daqui, eles me ajudaram, eu estava machucado e assustado, me falaram o caminho para cá seguindo o rio e agora estou aqui.
O elfo o estudou e finalmente disse:
— Bem, eu sendo da guarda, não posso te deixar de mãos abanadas, quer dormir lá em casa? Amanhã você volta para sua caminhada, daqui saem muitas carroças e às vezes você pode até achar uma caravana indo para forja, pegando a Última Estrada você chega lá andando em menos de 20 dias. Se conseguir arrumar uma carona pode chegar em até metade desse tempo.
— Muito obrigado, aceito sim.
Terminaram suas bebidas, Noah comprou alguns pães assados e queijo, pagou com moedas élficas e saíram junto da taverna.
— Está frio. — Ele reclamou puxando suas vestes. E realmente estava, mas pela sorte os deuses lhe fizeram resistente ao frio. As ruas eram ótimas de andar, ainda nevava um pouco, e cada vez que passavam perto de um poste Noah soltava um leve ar de alívio. — Sinto muito, mas, preciso perguntar. Afinal, o que você é?
Um silêncio perdurou por algum tempo até que finalmente seu coração apertou e sua boca se soltou sozinha. — Tipo, meio que um draconato, mas meu pai nasceu com algo e tinha tanto pelos quanto escamas, já eu e meu irmão nascemos apenas com pelos. Acredito ser algum presente dos deuses para compensar nossa família pelo Winter, afinal, eles me protegem muito bem do frio.
— Que interessante, se você não estivesse atrás do seu amigo, eu imploraria para você ficar e estudarmos você, pode ser que consigamos ajudar alguém com sua benção.
Quanto mais entrava na cidade mais Rhogar se impressionava, todas as casas eram forradas e feitas de madeira, viu poucas feitas de pedra, a arquitetura éflica era belíssima, priorizando paredes lisas e chãos perfeitos, telhados em formato de V ao contrário e bem pontudos para a neve não se acumular, cair, ser derretida pelos postes e descer pelo escoamento na rua. A maioria das lojas exibia vitrines e muitas novidades, bugigangas e “items” élficos e pequenos. Infelizmente todas estavam fechadas.
— É, É aqui. — Disse ele parando na terceira casa depois da esquina. Não passaram pela praça, mas pelo caminho que percorreram, ela não deveria está muito longe. Era como se alguém tivesse posto uma porta numa viela, uma bela porta de pinheiro escuro, com alguns entalhes em élfico antigo que ele não reconhecia, dos dois lados haviam casas, na direita algumas plantas de frio e uma janela e da esquerda uma janela com madeira bordada e alguns glifos antigos.
Entraram pela porta e subiram degraus de madeira em linha reta, entraram por uma porta a direita. Uma sala com uma mesa quadrada no centro, um sofá e duas janelas, uma dava para a rua a outra para a praça, não havia uma casa em cima da casa a esquerda. A cozinha era junta com a sala, tendo um fogão a lenha, uma mesa para jantar e um armário, era bem pequena. Um corredor dava para um quarto e uma latrina.
— Lar, doce, lar. É pequeno eu sei, mas me acostumei a viver assim e não tenho motivos para uma casa maior, só da mais trabalho, e isso eu já tenho de monte, pegarei alguma coberta para você. Tem comida no armário, pode comer.
Assentido, foi até o armário e pegou um pedaço de bolo de frutas e colocou para dentro com água. Noah deu para ele mais um travesseiro, disse que os do sofá eram duros, uma coberta quente, deu boa noite então foi dormir.
Rhogar foi até a janela que dava para a praça. Abriu ela sem muito esforço, e se debruçou sobre a mesma. A noite estava linda, a lua quase no seu auge, dava para ver boa parte da cidade, suas ruas iluminadas magicamente, seus telhados em V cobertos pela neve, elfos, anãos, gnomos e outras criaturas andando para lá e para cá, a neve havia parado, as estrelas olhavam para ele sorrindo, a praça era redonda e muito grande, com algumas árvores cobertas de neve, nos pontos mais altos onde o calor dos postes não alcançavam, as pessoas conversavam, se beijam, crianças brincavam, e de repente, três vezes o berrante gritou.
— Espero que Dorian esteja bem.
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