Winter
5 Capítulo 5 - Fim do pesadelo
Capítulo 5 – Fim do pesadelo
Procurando pelas chaves em seus bolsos, Gruner cometeu o erro de dar às costas à consultora, que no exato momento em que se soltou das algemas colocou-as no pescoço de seu agressor, tentando estrangulá-lo. Gruner, que já havia encontrado as chaves, deixou-as cair no chão, fazendo-as se perderem entre as folhas secas, e derrubando também sua arma. Levou as mãos ao pescoço, lutando para se libertar enquanto Kitty forçava o aperto. Gruner forçou-se na direção do chão, fazendo os dois caírem. Kitty perdeu as forças momentaneamente ao sentir o impacto em seus joelhos machucados e soltou o criminoso. Gruner apanhou a arma e a avançou para cima dela, a prendendo entre ele e o chão. Aquilo trouxe à Kitty as piores lembranças de sua vida e sentiu seu sangue congelar enquanto Gruner lhe apontava a arma e rosnava de raiva. Podia ver seus olhos em chamas e seus dentes rangendo através da touca.
– Não... – ele dizia parecendo enlouquecer – Morrer é muito fácil. Eu não vou dar isso a você – falou enquanto guardava a arma.
Os dois voltaram a lutar pelo domínio, Kitty tentando tudo para se libertar, mas Gruner a prendia pelo pescoço e os pés. Ela conseguiu desequilibrá-lo e quase levantar-se para correr, mas Gruner a prendeu pelo casaco e ela habilmente o tirou, vendo que mesmo com a proteção do tecido seus braços tinham ganhado alguns arranhões, bem como seu rosto. Gruner ergueu-se para correr atrás dela e a agarrou pelos braços, levantando um pouco sua camiseta e tocando as malditas marcas feitas com fero quente ali.
– É uma pena não haver material para uma nova tatuagem aqui, mas há outros meios de fazer isso – ele disse com satisfação ao escutá-la chorar mais uma vez.
Aproveitando que ele a segurava com apenas uma mão, Kitty lhe tomou o casaco e jogou-o sobre sua cabeça, confundindo-o por tempo suficiente para chutá-lo entre as pernas e fazê-lo se curvar. Deixando-se ser tomada por toda a raiva e angústia acumulada nos últimos sete anos, Kitty o chutou diversas vezes até vir a sua cabeça o momento em que Sherlock conversara com ela há dois anos e as lágrimas voltaram ao seus olhos com os sentimentos completamente opostos que tomavam seu coração. Aproveitando que Gruner se contorcia de dor e gemia no chão sem conseguir sair do lugar, tirou a arma dele e a jogou para longe, em seguida procurando uma árvore na qual pudesse subir e se esconder e talvez se livrar do perigo dentro de algum tempo ou estar entregue à própria sorte. Estava transtornada demais para procurar o caminho de volta. Sabia que àquela hora com toda a certeza Sherlock e Joan já estavam procurando por ela, essa era sua única esperança. Escalou uma das árvores maiores e com mais folhas, ficando alto o suficiente para Gruner não poder vê-la, apesar da dor quase tê-la impedido de subir.
– Eu sei que você está aí!! – Gruner gritava enquanto tentava se levantar – Eu vou te achar!!
Kitty escutou os passos do monstro que roubara sua vida circulando pela clareira e ficou no mais absoluto silêncio, tentando até respirar mais devagar. Tremeu assustada e por pouco não caiu quando o fugitivo encontrou a arma e começou a disparar tiros para todo lado. De repente Kitty ouviu barulhos que pareciam vir de uma luta e o som dos tiros indicava que eram disparados sem querer. Olhou para baixo, mas estava alto demais e as folhas bloqueavam parcialmente sua visão. Notou que havia mais pessoas ali, mas não se atreveu a descer.
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Sherlock agarrou Gruner por trás, pressionando seu pescoço, e fazendo com que ele disparasse aleatoriamente, e tentou a todo custo tirar a arma dele. Uma bala perdida podia matar qualquer um em volta. Gruner reagiu, golpeando o britânico no estômago, chutando suas pernas e ainda conseguindo acertar sua testa. O consultor intensificou a pressão em seu pescoço, mas o bandido ainda não desistiu. Sherlock quase teve um ataque quando Joan apareceu atrás dele e golpeou a mão de Gruner com seu porrete. O revólver caiu no chão e Joan o chutou para longe, ainda acertando alguns golpes no seu ex-chefe depois disso. Ficando em choque, o criminoso tornou possível que Sherlock o virasse para encará-lo e o prendesse pela camisa.
– Isso é pelo que você fez com Joan! – Gritou ao chutar suas pernas para imobilizá-lo – E isso por tudo que fez a Kitty – sussurrou perigosamente ao lhe dar um soco e nocauteá-lo.
Gruner gemeu de dor e caiu desacordado. Sherlock o analisou. Estava sujo de terra, lama, havia sangue em suas unhas e dedos, o que fez o detetive congelar por dentro, suas roupas com certeza haviam sido roubadas de pelo menos dois varais diferentes e pelo menos um deles sem vigilância ou proteção, uma vez que havia arranhões provocados por unhas felinas num dos pés de Gruner. O rosto coberto pela touca que ai até o começo do pescoço, a fim de esconder o estrago que Kitty lhe fizera dois anos atrás. Estava magro, embora ainda muito forte, e mesmo que seu rosto não tivesse sido destruído possivelmente não teria a mesma cara bonita de antes. Finalizando sua análise por enquanto, Sherlock virou-se para Joan e abraçou, segurando-a firmemente em seus braços.
– Eu tô bem – ela falou diante de sua preocupação.
– Você tem que parar de fazer isso comigo.
– O mesmo vale pra você. Agora precisamos achar Kitty.
Separam-se quando pouco antes de Gregson, Bell e os policiais invadirem o local, arrodeando o bandido e logo recuperando a arma usada por ele.
– Os tiros pararam de repente – Bell falou – Quando vimos alguém cair pensamos que um de vocês podia ter ido junto.
– Está tudo bem – Sherlock lhe respondeu.
– Sherlock – Joan voltou até ele com o casaco de Kitty, intacto, mas manchado de terra e sangue.
Sherlock olhou em volta fitando o topo das árvores mais altas. Caminhou pelo lugar por alguns minutos, analisando o tronco de cada uma e voltando-se para os outros.
– É melhor termos uma ambulância lá fora. Não sei o que vou encontrar lá em cima.
– Kitty subiu numas das árvores...? – Gregson o questinou.
– Sim, eu a ensine tudo que eu pude até hoje, inclusive isso.
– Ela está ferida – Joan lhe disse – Acha que pode ter ido tão longe? Nem a estamos vendo, deve ter ido muito alto.
– Você deve ter uma ideia ainda melhor do que eu do que um ser humano é capaz de fazer quando está entre a vida e a morte, Joan. Ela pode já ter nos visto, mas esta com medo. Eu vou trazê-la em segurança.
– E se for uma armação de Gruner e ela nem estiver aqui? – Bell lhe perguntou – Você nem tá armado.
– E é assim que deve ser. Eu tenho certeza que Kitty está lá em cima.
Ouviram passos e tiros de repente. Gregson e Bell tomaram a frente dos dois consultores desarmados e viu Gruner caindo morto a alguns metros. Um dos policiais ainda tinha sua arma estendida.
– O desgraçado acordou quando o estávamos algemando e puxou a própria arma das nossas mãos. Um segundo a mais e ele poderia ter acertado sua cabeça, Holmes.
– Criminoso morto em combate – Gregson avisava pelo rádio.
– Por favor, deixe a imprensa fora disso o máximo possível – Joan sussurrou para o capitão, que assentiu positivamente.
– Vou cuidar disso também.
– Parece que tudo finalmente acabou – Bell falava mais para si mesmo do que para os outros, um tanto chocado.
– Fique aqui e não saia de perto de Bell – Sherlock pediu a Joan, mesmo vendo Gruner morto.
– Vá busca-la – a oriental respondeu, o olhando com confiança – E não vá cair – falou com ênfase – Você já tem hematomas suficientes da briga de agora a pouco.
Ele lhe mostrou um pequeno sorriso e iniciou sua subida. A árvore era alta, mas não tanto, apenas tinha muitas folhas, suficientes para bloquear a visão. Sherlock observou as folhas e galhos, tentando deduzir a direção de Kitty, não demorando muito para conseguir isso.
– Kitty...? – Chamou-a ao encontra-la sentada e o mais encolhida possível num dos galhos mais grossos e firmes.
Ela soluçava, tentando ficar em silêncio. Seus olhos e seu rosto cheios de lágrimas. Tinha arranhões no rosto e nos braços, além das roupas rasgadas por onde estavam visíveis os cortes feitos pelas unhas de Gruner e as várias vezes em que a garota tinha caído no chão.
– Kitty – chamou-a de novo, ainda sem uma resposta – Sou eu, Sherlock.
Ela o olhou assustada e sua expressão se suavizou ao reconhece-lo. Cuidadosamente Sherlock seguiu para se sentar o lado dela e a abraçou, sentindo-a agarrá-lo com firmeza e permitindo que ela chorasse em sua camisa tanto quanto quisesse.
– Está tudo bem. Gruner se foi. Nunca mais ele vai fazer nada, nem a você, nem a ninguém – dizia baixinho enquanto afagava seu cabelo ruivo.
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