Winter

6 Capítulo 6 – Está tudo bem agora


Capítulo 6 – Está tudo bem agora

Sherlock esperou pacientemente acariciando seu cabelo longo enquanto ela chorava cada vez mais, sem soltá-lo por nenhum segundo. Muitos minutos depois ela parou de tremer e começou a se acalmar, seu choro diminuiu até desaparecer, mas Kitty continuou abraçada a ele. Sherlock escutou uma exclamação de Joan, estava preocupada com a demora deles. Julgando que seria uma má ideia submeter Kitty à conversa gritada naquelas condições, começou a bater no tronco da grande árvore, esperando que Joan escutasse lá embaixo.

– O que ele tá fazendo? – Bell perguntou.

– Está respondendo. Disse que a encontrou e está com ela. Está bem, mas machucada e muito assustada. Ele está tentando acalmá-la e fazê-la dizer alguma coisa.

– Pergunte a ele se há sinais de abuso ou alguma tortura grave.

Joan repetiu os gestos do marido, transmitindo o código morse através do tronco da árvore. Pouco tempo depois teve uma resposta.

– Ele disse que não, mas está preocupado com os ferimentos. Parece que ela foi forçada a caminhar algemada até aqui e caiu várias vezes. Os joelhos e pernas da calça estão rasgados e ensanguentados. Uma parte da camiseta dela também, mas ele acha que isso foi feito pelas unhas de Gruner. Alguns hematomas também, de quando ela lutou com ele e as marcas de algema nos pulsos.

Metros acima, Sherlock continuava suas tentativas de acalmar a jovem amiga, que permanecia em silêncio. Aos poucos sua respiração ficava mais calma.

– Kitty, escute... – ele falou baixinho, como se temesse assustá-la com qualquer tom de voz mais alto – Está tudo bem. Joan, Bell, Gregson e alguns policiais estão lá embaixo. Há uma ambulância a caminho...

– Não vou pro hospital – ela falou com desespero em sua voz – Não quero ir. Aquele monstro não fez nada comigo, nada do que vocês estão pensando. Se alguém vai cuidar de mim, só aceito que sejam Joan e você – ela falou tropeçando nas palavras e ainda com um tom de choro.

– Sim, Joan e eu vamos cuidar de você, mas sabe que há um processo, precisa deixar ao menos que vejam seus ferimentos. Então Joan cuidará de você em casa. Somente Joan e eu, eu prometo.

– Não quero que me encham de calmantes e me levem pra um hospital pra vestir aquelas roupas horríveis, tirar fotos de mim e me examinar como se eu fosse uma cobaia... Eu não quero viver isso de novo!

– Não vão. Não vou deixar. Vamos pra casa. Quando chegarmos lá vamos fazer chá e cuidar de você.

Ela assentiu positivamente com a cabeça.

– Gruner... Você disse... Está morto?

– Sim.

Kitty finalmente o encarou, assumindo uma expressão ainda maior de tristeza quando viu que Sherlock também estava machucado.

– Quando cheguei e o vi atirando em todas as direções eu o surpreendi e nós lutamos. Eu e Joan o nocauteamos. Quando estava sendo preso, ele acordou e recuperou a arma. O policial que o matou salvou minha vida por pouco.

– Tem certeza?!

– Sim, eu vi! Nem deve mais estar lá embaixo quando nós descermos. Me diga... Pelos ferimentos que encontrei em Gruner... Você ao menos pensou em mata-lo.

– Aquele monstro ia me prender numa das árvores, me torturar, me abusar e depois me matar! Eu soltei as algemas e tentei asfixiá-lo. Ele se soltou e nós lutamos. Ele me prendeu no chão, eu me soltei, consegui derrubá-lo e o chutei até não poder mais – ela dizia tudo de uma vez quase chorando de novo.

– Kitty. Kitty! Calma... Está tudo bem agora. Eu estou com você – falou a abraçando de novo – O que fez depois?

– Me lembrei do que me disse há dois anos quando planejei acabar com ele... Ele não estava em condições de se levantar... Então subi aqui antes que me visse.

– Shhhhi – a tranquilizou voltando a acariciar seu cabelo – Tudo acabou. Estou orgulhoso de você. E o dia em que você vai ser uma grande detetive está bem mais perto agora... Nós vamos descer e Joan vai cuidar de você lá embaixo. Não vou deixar que te arrastem pra longe de nós nenhum segundo, eu prometo – disse enquanto tirava o paletó por cima da camisa e a ajudava a vesti-lo, seus tremores também se deviam ao frio e com suas roupas danificadas, queria que ela se sentisse mais protegida.

– Sherlock... Eu quero ver o corpo.

– Tem certeza?

– Nunca tive tanta – ela disse quase com o mesmo olhar decidido e faiscante de sempre – Se eu não vê-lo morto ele sempre vai existir na minha cabeça, me perturbar nos meus sonhos... Eu preciso dar uma certeza a mim mesma de que isso acabou pra sempre. Talvez o que aconteceu... Não tenha sido completamente ruim. Ele poderia nunca estar morto se não tivesse feito tudo isso. Agora... Talvez eu possa seguir em frente, finalmente. E não quero que você ou Joan se culpem por tudo que houve hoje. Nenhum de nós tem culpa, nem o coitado do carteiro. Em algum momento isso vai ficar pra trás.

Sherlock olhou-a impressionado, sabia o quanto Kitty era forte, e agora também o quanto era frágil, mas ouvi-la proferir tais palavras depois da manhã terrível que tivera era algo que ele não espera escutar tão cedo.

– Isso também não foi culpa sua, quero que se lembre. Eu devia ter passado mais tempo olhando pela janela.

– Eu já disse que não quero que se culpe.

Sherlock lhe mostrou um pequeno sorriso e com todo o cuidado do mundo, analisou o melhor caminho para descerem e em alguns minutos estavam no chão. O consultor ergueu Kitty no colo e caminhou até Joan e Bell que estavam de costas conversando com um dos policiais e se viraram para eles. Joan demonstrou emoções que balançavam entre nervosismo e alívio e apenas abraçou a garota como pode.

– Você tem certeza de tudo que disse lá de cima?! – Bell perguntou discretamente a Sherlock.

– Absoluta.

– Você está bem? Dentro do possível? – Gregson questionou Kitty.

Ela assentiu positivamente.

– Acha que pode andar sozinha? – Joan lhe perguntou.

– Quero tentar.

Sherlock a colocou no chão e ela apertou os olhos quando sentiu as pernas doerem, mas após alguns passos duvidosos conseguiu se equilibrar bem e andou sem problemas.

– Temos uma ambulância à espera – o capitão falou.

– Sem hospitais. Eu prometi isso a ela.

– Ela precisa de cuidados imediatos.

– Um processo que ela não precisa viver duas vezes. As lembranças de sete anos atrás estão mais vivas agora do que nunca, inclusive as do hospital depois que escapou, e ela não tem que revivê-las se Gruner não fez nada com ela. Os ferimentos são vários, mas leves. Eu e Joan podemos cuidar. No máximo aceitaremos um tubo de oxigênio por alguns minutos.

– Você também, está cheio de hematomas.

– Já conhece minha opinião sobre hospitais, capitão... A menos que seja impossível evita-los. Por favor... Eu sei que Kitty não esconderia de mim se ele tivesse feito alguma coisa e não encontrei nenhum mínimo sinal disso. Ela não tem que ganhar experiências extras para acrescentar à sua lista de lembranças ruins.

Gregson o olhou como quem olha para o filho atrevido de oito anos que acabou de dizer alguma coisa absurda, mas tomou alguns segundos pensando sobre o que Sherlock dissera e concordou.

– Isso foi uma decisão dela?

– Puramente. Ela me pediu isso chorando lá em cima.

– Tudo bem. Confio muito nas habilidades de Joan. Se ela me disser o mesmo eu libero vocês dois.

O detetive suspirou irritado, e Kitty se aproximou dos dois no instante seguinte.

– Capitão... Eu quero ver o corpo – falou olhando para o saco preto fechado no chão a alguns metros.

– Tem certeza disso?

– Sim. Se eu não vê-lo morto por mim mesma isso nunca vai acabar de verdade.

O capitão assentiu e ordenou que um dos subordinados abrissem o saco. Kitty se aproximou. Joan e Sherlock se entreolharam e seguiram para o lado dela. Ela pareceu congelar no momento em que viu os olhos sem vida de seu raptor, seu olhar pareceu perdido, mas depois Sherlock e Joan puderam ver um brilho de satisfação ali e mil emoções se misturaram nos olhos cinza, raiva, medo, alivio... Kitty o olhou de cima a baixo.

– Agora você teve o que você merece... Sua coisa nojenta – disse com desprezo.

Temendo que as coisas pudessem piorar, Gregson ordenou que o corpo do criminoso fosse levado embora dali e Kitty observou os policiais se distanciando até sumirem.

– Precisamos cuidar de você – Joan a chamou – Isso deve estar doendo bastante.

– Nenhuma dor é maior do que a que esse monstro me causou por sete anos. Esses machucados não são nada. Agora que ele teve o que merece, agora que sei que posso viver em paz, essa dor nem me incomoda.

– Encontramos as algemas, a chave, e o seu casaco – Bell surgiu de repente – Vamos cuidar do caso discretamente. O capitão está fazendo tudo pra manter a imprensa bem longe. E tudo que você precisar, pode contar conosco, Kitty.

Ela assentiu e agradeceu, seguindo com o restante do grupo para fora dali e divertindo-se com a discussão entre Sherlock e Joan. Ela queria que os dois fossem ao hospital, Sherlock se recusava de todas as formas, especialmente pelo que havia lhe prometido em cima da árvore. Kitty riu ao olhar para o lado e ver Bell e Gregson revirando os olhos diante da briga boba que estavam tendo. Kitty vivera os últimos sete anos para destruir a vida de Gruner, e mesmo agora que isso havia acontecido, mesmo que não por suas mãos, não tinha certeza de que tudo que havia passado poderia desaparecer, provavelmente não, talvez nunca se livrasse completamente daquele trauma, mas pensando em sua vida após conhecer Sherlock e cada momento que passou com ele e Joan, dos mais complicados aos mais simples, seu coração se aliviou. Se aquela vida era tudo que lhe restava sentia-se a pessoa mais segura e satisfeita do mundo, ainda que no presente momento estivesse machucada, assustada, com medo. O casal de consultores lhe ensinara a jamais ficar no chão após uma queda, e ela tinha aprendido isso bem. Não tinha ideia do que sua vida seria agora, mas certamente conseguiria fazer algo de muito bom com ela. Finalmente chegaram até onde viaturas e uma ambulância esperavam. Gregson e Bell foram transmitir informações e Sherlock e Joan ainda discutiam, mas pareciam ter chegado a um acordo. Eles aceitariam cuidados básicos na ambulância, mas não um hospital.

– Já pensou no que vai fazer agora? – Sherlock perguntou quando os três estavam sentados lado a lado numa maca já com os machucados limpos e Joan os acompanhava.

– Está pensando em ir embora de novo? – Joan lhe perguntou – Tem que se recuperar...

– Não, eu não quero ir embora. Eu construí uma vida aqui desde que voltei. Eu tenho um lar e pessoas que se importam muito comigo. Eu não sei o que vai ser agora, mas agora posso realmente seguir em frente.

Os dois consultores a abraçaram entre eles e Kitty fechou os olhos, inspirando fundo. O mundo parecia ter desabado sobre ela naquela manhã, mas lá dentro sentia que estava tudo bem, como sempre estaria a partir de agora.