Winter
4 Capítulo 4 – Sua vida é preciosa
Capítulo 4 – Sua vida é preciosa
– Calma! Calma... – Bell pediu ao homem caído, se baixando e o ajudando a ficar sentado – Somos da polícia – esclareceu enquanto puxava um canivete pra cortar as cordas que o prendiam.
– Joan – Gregson chamou baixinho – Acho que você é a mais indicada pra tranquiliza-lo.
A chinesa aproximou-se e se abaixou ao lado de Bell e da pobre vítima que respirava ofegantemente. Joan logo percebeu que ele tremia, suas pupilas estavam dilatas, seu rosto demonstrava que vivera momentos agonizantes enquanto era arrastado até ali e provavelmente seus batimentos cardíacos estavam assustadoramente acelerados. Ela tocou seu ombro na tentativa de lhe passar algum conforto.
– Calma, tudo acabou... – ela dizia – Ned é o seu nome, não é?
Ele balançou a cabeça afirmativamente, ainda tremendo muito, enquanto esfregava os pulsos machucados pela corda.
– Ned, vai ficar tudo bem. Nós vamos ajudar você. Eu sinto muito, ainda mais por isso ter acontecido bem na nossa porta. Eu prometo que vamos compensar isso, mas agora precisamos que nos ajude.
Após tomar algumas respirações ele pareceu mais calmo e assentiu.
– Escute, o homem que trouxe você aqui... Pode falar dele? Havia uma garota ruiva de olhos claros com vocês?
– S-sim... Ele... Apareceu do nada quando fui fazer sua entrega. Apontou a arma e me obrigou a entrar na van. Me amarrou e ficou esperando a garota. Quando ela o viu começou a chorar, ela queria gritar e usar um spray de pimenta, mas ele a ameaçou com a arma, a obrigou a deixar a caixa lá dentro e escrever alguma coisa. Disse que se ela gritasse ou tentasse alguma coisa ia cometer uma chacina lá dentro e ela seria a primeira a morrer. Depois trouxe nós dois pra cá. Está com o rosto coberto por uma daquelas toucas com aberturas pra os olhos, nariz e boca. Está usando uma combinação estranha de roupas e... – ele parou por um momento, parecendo lembra-se de algo e praticamente arrancou os sapatos que estava usando e os atirou para longe – Me forçou a trocar os sapatos com ele. Acho que calça um número a mais do que eu, isso ficou folgado.
– A garota, por favor, concentre-se nela – Sherlock pediu com a voz mais desesperada e educada que podia ao se abaixar na frente deles.
Joan podia ver o pânico dele crescer e seus olhos ficarem vermelhos com o que Ned falou em seguida.
– Agora lembro! Ele bateu na minha cabeça com a arma! Antes disse pra falar pra Sherlock Holmes e Joan Watson que Gruner venceu.
Todos ali congelaram. Joan sentiu seu coração falhar e viu lágrimas inundarem os olhos de Sherlock, ele vinha tentando segurar sua tensão, mas estava ficando difícil.
– Pra onde?!
Ned ergueu a mão trêmula apontando para trás, onde a trilha de terra se perdia entre as árvores.
Gregson chamou alguém pelo rádio e se dirigiu ao grupo no chão.
– Há uma ambulância a caminho, você será levado pra fora desse lugar e bem cuidado – disse a Ned – Não precisa mais se preocupar.
Dois policiais o ajudaram a se levantar e o levaram embora enquanto Gregson chamou os demais para continuar seguindo.
– Capitão... – Sherlock o chamou tentando manter a calma – Se aparecermos num grupo grande e armado, a primeira coisa que ele vai fazer é matar Kitty, se não já tiver feito pior.
– Nós vamos cercá-lo sem dar sinal de nossa presença. Se ele tentar alguma coisa nós vamos agir e você tem até aí pra dar um jeito de rendê-lo – respondeu, continuando a andar.
– Sherlock...
– Eu vou sozinho. Sei o que pensa e eu acredito na sua força, mas não há porque arriscar nós dois. Eu vou me mostrar sozinho.
Joan nada disse, ele tinha razão.
******
Kitty tentou a todo custo parar de chorar e manter o controle. Havia treinado anos para momentos perigosos, especialmente para a situação em que estava agora. Lembrou-se de quando Sherlock lhe dissera dois anos atrás que um dia ela seria uma detetive, estaria pronta, embora não fosse ser naquele momento. Estava na hora de evoluir, de alguma coisa acontecer. Estar ao lado de Sherlock e Joan a fez sentir o quanto sua vida era preciosa, preciosa o suficiente para não desistir dela. Se perdesse a vida, levaria Gruner consigo ou no mínimo o deformaria ainda mais. Continuava tentando soltar suas algemas, estava quase lá.
Gruner parou de arrastá-la quando considerou que estavam longe o suficiente. Haviam deixado o entregador para trás há cerca de meia hora. Seu raptor a soltou e se distanciou por alguns passos, olhando em volta e analisando o lugar. Ele parecia estar procurando alguma árvore em especial. Quando fixou o olhar em uma árvore um tanto jovem com o tronco mais fino, Kitty imediatamente soube que ele a prenderia ali e a forçaria a reviver todas as piores lembranças de sua vida. Sentiu as lágrimas voltarem a seus olhos e escorrerem por seu rosto, mas não desistiu de seus planos. Estavam tão isolados que o canto dos pássaros nas árvores altas parecia vir de um microfone. De repente a ruiva escutou um em especial que se destacava de todos os outros, por alguma razão aquele som lhe pareceu familiar, mas seu cérebro estava cheio demais para dar importância.
– Agora você vai pagar tudo que me deve – Gruner disse com um sussurro assassino ao se virar e agarrar seu rosto entre as mãos – Por ter fugido, por ter feito aquilo com minha mão, por ter sobrevivido, por ter conhecido Holmes e por ter me deformado. Seria muito mais fácil ter partido desse mundo antes.
– Nunca... Nunca vou me arrepender de ter conhecido Sherlock e Joan! Sherlock me salvou e fez viver de novo! Joan me acolheu de uma forma que eu nunca vou poder retribuir à altura! Eles são muito melhores que você! Você nunca vai ser capaz de se igualar a um mínimo deles! Você é só um psicopata nojento e covarde!! Se não estivesse com essa arma eu já teria te matado!!
Ela se calou quando Gruner atirou para cima, por sorte não matando nenhum pássaro desavisado, e baixou a arma para Kitty na direção de seu peito enquanto tornava a puxar seu cabelo.
– É melhor ter cuidado com o que fala... Isso aqui não é um brinquedo. Não ia gostar de ter uma amostra do estrago que isso pode te fazer, senhorita Watson Holmes... Posso chamar você assim? Seu verdadeiro nome se perdeu, você tem um novo... Sim, eu sei disso. Como pretende se chamar caso saia daqui com vida? Não se dê ao trabalho de pensar nisso nos seus últimos momentos, não vai precisar! – Gritou enquanto cravava as unhas no abdômen da garota, a ferindo e rasgando o tecido de sua camiseta, arrancando um grito dela – Vai! Anda! Na direção daquela árvore.
Ela não teve escolha senão obedecer. Sabia o que Gruner ia fazer. A torturaria até se cansar antes de violentá-la outra vez. Com seus braços presos nas costas e ao redor do tronco de uma árvore, não poderia se mexer, fugir, nem lutar. Estava a um tris de soltar as algemas e lutava para fazer isso imediatamente. Gruner lhe deu as costas enquanto procurava a chave em seus bolsos para prender os braços de Kitty na árvore.
******
Gregson, Bell e os policiais restantes estavam camuflados em posição estratégica desde o momento em que haviam encontrado o spray de pimenta de Kitty e escutado a voz distante de Gruner gritando com ela. Sherlock tentara dar sinais de sua presença, mas não haviam recebido nenhum retorno ou sinal de Kitty. Talvez nem os tivesse ouvido. Sherlock quase teve um ataque ao ouvir um tiro ser disparado e tudo ficar em silêncio. Ele abraçou Joan perto de si e fez sinal para que os demais nada fizessem ainda. Levou alguns segundos para tomar uma decisão e soltou Joan.
– Fique aqui – falou baixinho. Proteja-se em algum lugar. Me deixe ir na frente.
– Sherlock...
– Me deixe ficar alguns passos a sua frente, por favor...
Ela não o contrariou, era raríssimo ver Sherlock pedir por favor, até mesmo para ela, e pelo jeito como os olhos azuis a fitaram, ela quase pode sentir o mesmo desespero dele, embora o seu não estivesse menor. A trilha de terra parecia se estreitar e desaparece ali. Joan saiu dela e procurou se camuflar entre as árvores, vendo que Gregson estava a apenas alguns metros dela, enquanto Sherlock desaparecia na direção do disparo. Seu coração ficou ainda mais acelerado ao escutar um grito de Kitty ao longe e Sherlock acelerar seus passos, provavelmente temendo que Gruner já tivesse iniciado seu ritual de tortura.
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