Notas iniciais
O ano começou e eu tive uns problemas com horário e criatividade, mas cá estou com mais um capítulo - e o mais viadão de todos, eu diria. Espero que não desistam de mim e dos meus meninos ♥3

A barraca já estava quase perfeita quando Michael largou tudo e correu floresta adentro após ouvir alguns relâmpagos se aproximando. Seus pés frearam rapidamente quando se tocou que não procurava por Matt. Mas obviamente, pensou, corria para trazer Neil lindo e saudável de volta para o acampamento, como se nada tivesse acontecido, poupando assim qualquer discussão com o amigo.

Mas Michael não contava com a presença ilustre de Mathew.

- Continua aqui, Neil. Apaga não...

Michael seguiu a voz baixa de Matt que parecia vir poucos metros à sua esquerda. Agarrou uma árvore com a mão, inclinando-se para vê-los barranco abaixo. E podia ver muito bem. Matt. Neil. Beijo.

Permaneceu imóvel, até que Neil desmaiara de vez no ombro de Mathew. Não soube se descia ou se voltava. Uma pequena raiva começava a acender dentro de Mike, que não foi, entretanto, o suficiente para ignorar o amigo lá em baixo. Desceu com cuidado, esbarrando nos arbustos que camuflavam a descida íngreme.

Cara a cara com Mathew. Forçou um sorriso para tranquiliza-lo, enquanto se aproximava.

- Parece que nosso passeio deu merda, hein?

- Desculpa, Mike. Pode me ajudar aqui? – perguntou, dando uma breve olhada em Neil.

Um tanto relutante, posicionou Neil em suas costas e concordou em subi-lo primeiro, depois ajudar Matt. Apoiava-se nos troncos com uma mão, enquanto a outra segurava o garoto peso pena sobre sua coluna. Neil era incrivelmente leve – o que assustou um pouco Mike, de início. Já no topo, olhou brevemente para Matt alguns metros abaixo, já sentado na grama molhada a espera dele.

- Ei, Matt... Vou levar ele primeiro, já volto.

Michael avisou, recebendo uma resposta positiva, e seguiu seu caminho. A área do acampamento não estava tão afastada assim, por sorte. O corpo magro sobre si, molhado da chuva e quente, dando a Mike uma leve sensação desesperadora. Sabia que Neil não devia ter vindo. Colocou-o sobre o saco de dormir e voltou para onde Mathew estava.

A chuva já voltando a cair suavemente sobre os meninos – Matt apoiando-se nos ombros de Michael, enquanto mancava, tentando não forçar demais o amigo – que caminharam em profundo silêncio, até a barraca. Matt não demorou a partir para o lado de Neil ainda apagado. Sua mão trêmula seguiu à testa do menino, mais quente do que deveria.

- Mike, pega a mochila dele – pediu, enquanto ajeitava Neil. Congelou por um segundo, antes de tirar as roupas molhadas do menino e vasculhar a mochila atrás de secas.

Michael saiu. Sentou-se em um tronco grosso que atravessava a clareira. A chuva leve fazia seu cabelo grudar em seu rosto ainda mais. Sua cabeça perdida, metros acima de onde estavam, na montanha. Não chegariam mais lá, não com tudo isso. E seu olhar guiou-se para a figura molhada que caminhava desengonçado até ele e se sentava bem ao seu lado.

- E sua perna?

- Não sei. Não tive coragem de tirar a bota.

Michael bufou.

- Idiota. Vai, levanta aqui.

Com o pé de Matt sobre seu joelho, Michael abriu a bota suja, puxando-a devagar, arrancando dos lábios de Mathew um curto gemido, antes de ele puxar sua perna de volta.

- Deixe assim – disse com voz infantil.

- A gente volta amanhã e vê isso, então.

Matt concordou. Ficaram os dois em silêncio, tomando a chuva sobre a cabeça. Possivelmente ocupados com pensamentos da mesma cena. Ambos com suas dúvidas, confusões, conclusões. Perguntava-se se o que tinha feito lá em baixo era errado... E se Neil comentasse algo, o que diria? Se nem ele mesmo conseguia saber o porquê daquilo, como explicaria? Michael não sabia o que pensar. Por um momento, torceu para que aquilo fosse algum tipo de miragem, que fosse só sua imaginação. Não poderia ser real. Matt não poderia...

- Melhor entrar e colocar uma roupa seca, Mathew.

- Você também, Michael – sorriu em provocação.

Michael se levantou, erguendo o braço em ajuda para o outro garoto, que forçou seu orgulho por alguns passos, mas desistiu logo, grudando-se em Michael rapidamente, que largou um sorriso torto.

Largaram-se no interior da barraca, molhando ainda mais o que havia ao redor. Michael fechou o zíper quando notou uma mudança no vento. Cada um puxou sua devida mochila e trocaram as roupas encharcadas e sujas. Exceto Matt, que permaneceu com sua calça.

- Tira – Mike mandou – Se não vamos ter dois doentes, não estou a fim de carregar os dois até em casa.

- Desculpa – Mathew tirou a bota, cerrando os olhos em dor. Após um suspiro fundo, voltou com seu habitual sorriso e seu tom desleixado – Vamos, vire pra lá, Mike.

- Você tá falando sério? – riu – Planejei tudo para lhe ver sem calças, Matty. Como ousa estragar meus planos?

- Vai se foder.

Conforme a noite se fortificava no lado de fora, a dupla iniciava sua refeição com salgadinhos e refrigerantes no lado de dentro. Lanternas acesas, uma delas pendurada ao topo da barraca sendo usada de lustre, mantinha-os com uma boa visão de tudo. Neil ainda dormia; vez ou outra murmurava algo e Mathew ia checar a febre constante que não largava o menino. Quando começou a tremer, Matt obrigou que Michael emprestasse o casaco, já que o seu próprio já estava com Neil.

- Foi um erro trazê-lo, né? – Matt perguntou uma hora, quando o estado de Neil começara a ficar mais preocupante.

- Foi – Mike disse como se esfregasse o erro na cara do amigo, mas quando notou a culpa recaindo sobre seus ombros, tentou retomar – Mas mesmo se ele não tivesse vindo não teria sido de todo uma boa viagem... Lá em cima tá chovendo também, então...

- Mas evitaria muita merda.

- De fato. Agora você vai ter que ver seu tornozelo.

- É... Quanto a isso, acho que está numa boa. Amanhã eu já estarei andando normal.

- É bom que esteja, não vou carregar esse cara de novo.

Faltavam algumas horas para o sol nascer quando Neil acordou. Tonto, apalpou tudo a sua volta após se sentar, buscando retomar consciência da realidade. Em seu lado, Mathew virou-se de um lado a outro, até que parou e abriu lentamente os olhos, tentando fixar o olhar embaçado no garoto que acordara.

- Bom dia – disse com a voz arrastada, abrindo um sorriso. – Como você está?

- Não sei ao certo...

- Quer comer alguma coisa?

Neil hesitou por um instante, mas logo concordou. Mathew se levantou devagar para não acordar Michael e para evitar uma possível dor em seu tornozelo, puxou o resto da refeição que fizeram mais cedo e buscou algo que não fizesse mal a Neil. Uma lata de chá e o pote de biscoitos que Simon botara na mochila do filho. Neil ajeitou-se e pôs-se a comer lentamente. Matt continuou sentado, pegando um ou outro cookie do pote de vez em quando.

O silêncio tenso entre os dois era rapidamente perceptível. Mathew não sabia o que falar; Neil muito menos. Explicar-se não era uma opção, nem mesmo ele sabia por que fizera aquilo. Neil também não sabia o que perguntar, não tinha nem plena certeza se aquilo fora ou não verdade e se aquilo tivesse sido um sonho... Que tipo de sonho era aquele?

- A gente volta hoje cedo – Matt disse finalmente, quebrando o som das árvores lá fora.

- Ah...

- Acha que consegue? – ele pareceu lembrar-se de algo e num pulo curvou-se em direção a Neil, tocando a mão em sua testa – Parece que sua febre abaixou um pouco... Que bom. – retornou a seu lugar com um semblante muito mais aliviado.

Neil ficou quieto; abaixou a cabeça e encarou a lata de chá. Seu cabelo totalmente desgrenhado por conta da chuva cobria seus olhos, impedindo qualquer interpretação que Matt poderia fazer.

- Matt...

- Neil.

Falaram ao mesmo tempo e Matt riu, mandando-o começar.

— Ah... É que eu não sei bem... Minha cabeça está meio confusa...

- Sobre o que?

- Ontem... Eu não sei.

Um suave suspiro vazou dos lábios de Matt.

- Aquilo...

- O que?

- Aconteceu mesmo? Porque... Bom, eu não... Minha cabeça dói e estou um pouco tonto, pode ser que seja só algum efeito...

- Sim.

- Hã? – Neil ergueu o olhar.

- Sim – sua expressão ficou séria, olhando agora firmemente para Neil.

- Ah.

- Desculpa, eu não sei bem o que...

- N-Não... Tudo bem... Eu acho. – voltou a abaixar a cabeça, envergonhado, deixando que um sorriso fino e tímido lhe escapasse sob os olhos do ruivo, que riu sem graça.

O ambiente de momentos atrás voltou. Cada um ali tendo suas interpretações. Mathew passou boa parte do tempo com um sorriso discreto, levemente traçado e completamente idiota em sua face, sem que tivesse consciência disso. Neil só fez terminar sua bebida e largou o pote ainda na metade. Evitou cruzar olhares com o ruivo; sabia que se o fizesse, seu rosto não lhe obedeceria, tomaria um tom avermelhado rapidamente, e as chances de começar a tremer em nervoso eram grandes.

- Neil.

- Hm?

- Acho que você devia dormir, não parece forte o suficiente.

- É, acho que sim.

Então se deitaram nos colchonetes. Matt virou-se para Neil novamente; ele estava com os olhos cerrados, o rosto escondido entre os braços e os ombros encolhidos. Mathew tocou-lhe suavemente os cabelos, o que o fez abrir rapidamente os olhos.

- Posso?

Ele parecia desentendido, mas não negou. Mas Matt também não fez aquilo que lhe passara pela cabeça. Apenas esticou o braço para Neil deitar-se sobre e puxou-o num abraço. Beijou-lhe a testa e ficou a mexer delicadamente nos cachos que se formavam nas pontas de seu cabelo loiro até que adormecesse. Entretanto, se dependesse de Matt, os acontecimentos daquela tarde teriam se repetido.

A claridade da manhã trouxe consigo um vento úmido e frio. Quando Mathew despertou, Michael estava do lado de fora da barraca deitado sobre a grama, encarando fixamente o céu nublado entre os galhos das árvores. Matt vestiu seu casaco e saiu, sentando-se logo ao lado dele.

- Bom dia.

- Oi.

— Já comeu?

- Não.

- Hm... Vou chamar o Neil para arrumarmos as coisas e...

- Espera – Cortou a fala de Matt, que já estava pronto para levantar.

- Oi.

Michael calou-se. Fechou os olhos e inspirou profundamente; soltou o ar bem devagar e voltou a encarar o infinito com os olhos fixos em algum ponto.

- Quero passar no cemitério antes de voltar.

Estava pronto para pergunta-lo o porquê, mas ele já havia levantando num pulo e pegado um chocolate que deixara no chão. “Vai acordar ele logo” – foi a ultima coisa que Mike disse, antes de se perder entre as árvores. Matt assentiu e rumou-se novamente à barraca. Entrou em silêncio e se sentou ao lado de onde Neil ainda dormia. Ficou ali a vê-lo respirar calma e profundamente enquanto pensava na noite anterior, em como as coisas haviam ocorrido rápido demais. E fácil demais. E como tudo isso era um pouco estranho. E como seria mais estranho quando voltassem. E como seria estranho acordá-lo agora e encará-lo, sem saber exatamente o que dizer.

Mas não foi necessário. Enquanto o ruivo afundava em sua mente, Neil abriu lentamente os olhos e cumprimentou-o com extrema naturalidade, que Matt não soube fingir existir. E ambos se encararam em silêncio por um bom tempo. Quando Neil se sentou, Matt levantou rapidamente, gaguejando um pouco ao dizer que já iam arrumar as coisas para sair. E Neil concordou, começando a juntar suas coisas.

A barraca já estava sendo enrolada quando Michael reapareceu, como se nunca houvesse sumido. Mathew olhou-o de canto e hesitou um pouco antes de perguntar onde estava. Mike puxou as coisas que Matt segurava e pôs-se a arrumá-las ele mesmo.

- Eu subi – disse, enfiando o pano da barraca na mochila.

- Por que não avisou?

- Você tinha que ficar aqui em baixo. – olhou rapidamente para Neil, que arrumava uma das mochilas – Desculpa. Eu arrumo o resto.

- Deixa. Já não falta quase nada.

Deixaram o restante dos lanches do lado de fora e fizeram uma ultima refeição antes de voltar pela trilha até a estrada. Foram longos minutos de puro silêncio da clareira onde acamparam até o ponto de ônibus, com algumas paradas por conta da respiração pesada de Neil, que parecia não aguentar o trajeto todo. Finalmente chegaram ao ponto, já passado o horário padrão de almoço.

Neil parecia evitar cruzar olhares com Matt, envergonhado pelos recentes acontecimentos. Michael evitava os outros dois garotos; tinha total consciência do que estava acontecendo bem ao seu lado e isso o incomodava. Mathew evitava Michael, sentindo-se culpado por acabar com a viagem deles; sabia o quão importante isso era, não só para ele, mas para ambos. E lembrou-se de que dia era aquele. E do porquê de Mike ter insistido em fazer tudo direito. E do porquê de ele ter se irritado por não terem chegado aonde sempre iam. E seu sentimento de culpa cresceu significativamente.

Um ônibus velho parou em frente ao ponto no meio da estrada. Os três garotos subiram, rumando ao fundo do veículo, onde podiam sentar os três juntos – Neil novamente sentado à janela, seguido de Matt e Mike com vista total do corredor entre os assentos, além das mochilas jogadas nos dois outros bancos ao lado.

Já conseguiam ver o cemitério poucos metros à frente. Michael puxou sua mochila e levantou do banco, pronto para descer. Apoiou-se em um dos bancos no corredor e mirou Mathew.

- Se quiser, podem ir. Eu vou depois.

- Não – Mathew começou, puxando sua mochila – A gente vai. – disse, dando uma breve olhada em Neil, que assentiu com um movimento da cabeça.

Sem responder, Michael ajeitou a mochila em seu ombro e saiu às pressas assim que a porta se abriu, sumindo com passos largos da vista dos outros dois. Percorreu entre as lápides reflexivamente, parando em frente em uma que tinha o nome de Frank Cook gravado. Largou a mochila no chão e permaneceu parado em frente à peça de pedra.

Os dois seguiram pelo caminho que Mathew sabia de cor. Quando conseguiu avistar Michael petrificado em frente a lapide, fez um sinal para que Neil esperasse pouco atrás, largando sua mochila com ele. Com passos lentos, aproximou-se e tocou-lhe no ombro quando parou a seu lado. Permaneceu em silêncio junto com Michael por longos minutos. Michael manteve a cabeça baixa por um bom tempo antes de tornar a olhar brevemente para Mathew.

- Desculpa, cara – Matt tentou, mas foi totalmente ignorado.

Michael sentou sobre o gramado e permaneceu encarando o nome de seu pai no grande pedaço de pedra.

- Ele ia fazer 40 hoje – Michael disse com um sorriso vazio – A gente sempre ia pra lá em todos os aniversários.

- Mike...

- Eu só queria dar os parabéns pro velho. Não precisavam vir também.

Mathew permitiu se juntar ao amigo naquela grama úmida. Dobrou os joelhos, cruzou os braços e deitou a cabeça sobre eles. Prendeu o olhar em Michael e sorriu suavemente.

- Isso são lágrimas másculas, Mike? – perguntou num sussurro, rindo.

- Vai se foder – xingou, escondendo o rosto nas mãos.

Sem dizer mais nada, Mathew passou um braço sobre os ombros de Michael e bagunçou seu cabelo. Permaneceram ali por mais alguns minutos. Matt se odiando por ter esquecido essa data. Sabia que se fosse o contrário, Mike faria tudo para que o dia fosse o mais perfeito possível. Por isso não conseguiu parar de se desculpar em voz baixa enquanto Mike se recompunha.

Uma chuva forte batia contra o para-brisa do carro. Os dois meninos sentados no banco de trás brincando com uns bonecos de ação que levaram consigo. James e Frank conversavam sobre algum assunto aleatório logo à frente. Uma música animada tocava no rádio, misturando-se às risadas das crianças. Frank parecia ligeiramente tenso no volante e foi questionado sobre isso pelo amigo. Suspirou fundo, pensando melhor.

- Discuti ontem com a Louise, cara – Começou, atraindo a atenção de Michael –Não consegui falar direito com ela hoje.

- Acontece com os melhores – disse, tentando animá-lo.

- Eu temo que ela esteja... – fez uma pausa – Você sabe o quanto ela e o Simon são amigos...

- Não, cara! A Louise? Você acha mesmo? – James parecia surpreso.

- Não sei de mais nada, James...

- Pai – a voz manhosa de Mathew surgia do banco atrás de Frank – Pai, a gente vai se atrasar.

- Estamos quase lá, amigão – James respondeu com um largo sorriso.

Matt sorriu e voltou a brincar. Mas Michael ainda encarava seu pai. Chamou-o com uma voz séria. Chamou-o mais uma vez, até que ele virou o rosto instintivamente para olhar o filho, preocupado. “FRANK!”, James gritou. Frank virou o volante o máximo que pôde. Pneus derrapando no asfalto molhado. Um barulho alto foi ouvido. Metal sendo amassado. Alguns que estavam na rua começavam a gritar e o som passava abafado entre os cacos de vidro trincando. Mathew abriu os olhos com dificuldade. Chamou desesperado por Mike, mas ele estava com a cabeça caída, inconsciente. O menino começou a chorar. Chorar e chamar pelo pai. Mas James estava com o tronco sobre o painel, desacordado. Não respondia. O choro de Matt ficava cada vez mais desesperado, enquanto via algumas pessoas em volta do carro.

- Michael... – a voz baixa e falhada de Frank atravessou os ouvidos de Matt, que começou a chorar mais forte – Shh, shh... Matt, calma – pediu, tentando manter sua voz estável, mas vendo tudo a sua volta embaçado – Vai ficar tudo bem, tá?

Segurou o choro. Soube naquele momento que não ia ficar tudo bem; que seu pai não responder era um péssimo sinal; que Michael não estar gritando era um péssimo sinal; que a voz de Frank estava assim por um motivo. E apesar de tudo isso, ele teria que ser forte. Forte como o boneco que ainda segurava.

Com um balanço da cabeça, Michael sinalizou que já era hora de ir e se levantou, batendo levemente em um dos ombros de Mathew. Quando ele levantou, Michael agradeceu com a voz baixa por ele ter-lhe dado esses minutos. Pegou sua mochila e virou as costas, rumando à rua. Mathew seguiu o amigo e parou quando passou por Neil, esticando a mão para levantá-lo.

Decidiram pegar um segundo ônibus que os deixasse mais próximos de onde moravam.Nessa ultima viagem, o veículo estava mais cheio. Michael sentou-se só, no assento da janela. Nos assentos logo atrás, Mathew e Neil se ajeitaram com as mochilas no colo. Não demorou muito até chegar ao ponto em que Michael desceria – se despediu rapidamente de Matt e sumiu.

Foi questão de minutos até descerem no ponto de ônibus perto da escola. Mathew fez questão de acompanhar Neil até sua casa, até por conta de ele ainda estar com leves sequelas da noite anterior; teria que assumir a culpa em frente a Simon. Foram em um ritmo lento. Matt insistiu em levar a mochila de Neil, ou parte do peso, mas ele somente ajustou a mochila nos ombros e continuou andando.

- Voltaram cedo! – Simon exclamou ao abrir a porta – Vamos, entrem – terminou abrindo espaço à porta para a passagem dos dois garotos.

- Olá, Chloe – Neil cumprimentou a mulher de cabelos escuros sentada no sofá ao entrar.

- Boa tarde, Neil – ela respondeu com um largo sorriso.

Matt cumprimentou-a e Simon fez questão de apresenta-los um ao outro. Chloe Donelly devia estar em seus trinta e poucos anos. Pele clara, cabelos em um tom próximo ao preto, curtos com um corte bagunçado descendo a nuca. Tinha enormes olhos claros que brilhavam sob sua franja. Já estava com Simon há quase um ano e costumava passar os fins de semana lá, junto aos dois.

Neil disse que subiria para guardar suas coisas e Matt o seguiu escada acima. O menor deixou sua mochila em um canto do quarto e Mathew acompanhou-o. Sentaram-se na cama e ficaram em silêncio. Neil juntou as pernas ao corpo e apoiou a cabeça sobre os joelhos.

- Aquela é...

- A namora do meu pai – Neil respondeu, sem mudar a expressão.

- Bonita, ela.

Ele somente concordou, abrindo espaço para mais um longo período de silêncio.

- Quando vocês estavam no cemitério... – Neil fez uma pausa, puxando a atenção do ruivo – Eu comecei a pensar se... Bom, quando eu for... Se vai ter alguém me visitando... E, ah, eu não sei se quero isso... Sabe? Quero tirar o peso do meu pai. Mas se isso significaria fazê-lo ir pra um lugar relembrar todas as coisas ruins, acho que seria o mesmo que nada...

Ouviu as palavras de Neil com atenção e largou um curto suspiro.

- Desculpa. Não sei por que comecei isso...

- Não, tudo bem. Eu só não sei bem o que dizer. Mas Neil, você tem que tentar parar de pensar no que você considera bom pros outros. Olha, vai fazer dez anos que meu pai morreu. Ele faz uma falta do caralho, assim como você vai fazer se você... For. E cada vez que vamos ao cemitério é como se tudo aquilo que esquecemos todos os dias voltasse. E isso não se limita às coisas ruins. Eu busco me lembrar de meu pai pelas coisas que ele fez enquanto vivo e do que conseguimos juntos. E é isso que seu pai e qualquer outro faria. Agora, podemos não tocar mais no assunto do seu estado? Por favor. – Matt terminou, com um olhar sério.

Desculpou-se com um sussurro trêmulo, enquanto uma vontade enorme de chorar lhe invadia. Novamente pediu desculpas antes de esconder o rosto entre os braços. Mathew aproximou-se e pousou sua mão sobre a cabeça do menor, tentando acalmá-lo, mas só parecia conseguir fazê-lo ter mais e mais vontade de chorar. Chamou por Neil com uma voz terna diversas vezes enquanto mexia em seus cabelos, como se o mandasse erguer a vista. E quando o fez, tentou ao máximo virar o rosto e evitar os olhos verdes o observando com atenção.

- Ei, ei, ei – Matt puxou a atenção de Neil quando notou-o lutar internamente para segurar as lágrimas – Tá tudo bem – disse com uma expressão reconfortante no rosto – Para de se torturar com essas coisas...

Neil voltou a esconder seu rosto entre os braços. Medo. Vergonha. Felicidade... Um sentimento forte demais e desconhecido demais para Neil conseguir aguentar. Deu permissão a algumas lágrimas para que escorressem enquanto ainda escondia o rosto, aliviando tudo que não conseguia segurar para si. E Mathew deu-lhe tempo para que o fizesse. E quando Neil voltou a erguer seus olhos escuros, encontrou uma expressão extremamente calma em Matt, e ele mesmo se acalmou também. Mathew tirou uma lágrima perdida que escorregava pela bochecha de Neil e sorriu. E Neil também sorriu; o seu sorriso tímido e contido, mas sorriu.

Reflexivamente, Matt, ainda com as pontas dos dedos emaranhadas entre os fios claros, puxou o rosto de Neil para mais perto. Os olhos azuis escuros se focaram nos verdes e Neil estremeceu. Talvez essa fosse a primeira vez que estavam ambos conscientes sobre isso. E isso fez com que Neil abaixasse o olhar. Não devia fazer isso, pensou, devia deixar as coisas como sempre foram. Soltou-se de seus pensamentos quando sentiu Mathew beijar-lhe a testa. Automaticamente, voltou a encará-lo. E como se fosse natural, Matt tocou-lhe os lábios. E esse toque transformara-se em um beijo, agora esperado por ambos. Sem grandes surpresas. Neil afastou as pernas do corpo, sentando-se melhor na cama, e levou suas mãos trêmulas até os ombros de Matt, que riu numa mistura de surpresa e nervosismo. O momento era só deles. Mathew tomou novamente os lábios de Neil, inclinando-se sobre ele, fazendo-o se deitar lentamente. “Matt”, Neil chamou interrompendo o beijo, olhando-o nos olhos. Encarando-o de volta, o ruivo congelou por um instante. Nos olhos dos dois, estampado a insegurança pelo ritmo em que as coisas se desenvolveram. A única reação que Mathew conseguiu ter foi afundar o rosto no ombro de Neil. E este foi apenas capaz de levaras mãos até as costas do ruivo, abraçando-o suavemente. Permaneceram em silêncio, as mentes vazias.

A voz de Simon no pé da escada chamando-os para jantar foi o que os trouxe ao mundo. Neil respondeu com a voz alta e Mathew ergueu a cabeça finalmente, voltando a encara-lo.

- Vamos – Neil disse pedindo para que Matt deixasse-o se levantar.

Sem responder, Matt sorriu e roubou-lhe um selinho. Dizendo um “tá” sorridente, levantou-se. Quatro lugares à mesa era algo que não acontecia com muita frequência na casa dos Collins. Trazendo um prato grande de macarronada e dispondo-o no centro da mesa, Simon sentou-se ao lado de Chloe. Quando já estavam todos a comer, Simon deu uma olhada breve na mulher, ambos sorriram e ele chamou a atenção de Neil.

- Quero lhe dizer uma coisa, Neil – disse sério.