Notas iniciais
Demorei um tiquinho, mas espero que não me abandonem (TT^TT)! Esse capítulo foi um pouquinho complicado, tive que cavar a cabeça do Matt, espero que as coisas fiquem um pouco mais claras agora ♥ Juro que não foi meramente um filler ;-; q

Neil olhava para o pai com uma mesma expressão séria que ele fazia, mas com um quê de dúvida. Simon permaneceu sério por mais um curto período de tempo, quando começou a rir nervoso. Neil ficou ali parado sem entender nada enquanto via o pai puxar a mão de Chloe para cima da mesa e segurá-la.

– Vamos nos casar! – Simon disse com entusiasmo.

O menino abriu um sorriso enorme quando o casal dava um breve beijo. Seu pai seria feliz, e era somente o que pensava. E não podia deixar de ficar feliz por isso. Naquela hora tudo o que Neil conseguia ver era seu pai sorrindo como nunca havia visto antes. E Chloe sorrindo de volta. E o quanto eles pareciam se adorar. E como seu pai parecia realmente feliz naquela hora. Quando Neil virou o olhar para Mathew, ele também sorria. E tudo isso fez o coração de Neil se encher com um sentimento bom. Quando sentiu a mão de Matt tocar a sua sob a mesa, olhou-o curioso. Matt tinha um sorriso terno e olhava de canto para Neil, que pareceu ter entendido.



Batendo a porta depois de entrar, Michael largou sua mochila na sala e seguiu reto para seu quarto, acordando Louise, que dormia no sofá da sala ainda com as roupas que usara para trabalhar naquela manhã. Cumprimentou o filho, mas ele parecia já ter se trancado no quarto. Com passos e voz arrastados, seguiu até o cômodo do garoto, chamando-o. Bateu na porta e entrou. Michael estava deitado na cama de bruços, completamente largado. Louise seguiu devagar e sentou-se na beirada da cama suavemente.



– Como foi?

– Legal – disse desanimado.

– É mesmo?

– Não.

– Por que não, querido? Você adora aquele lugar...

– Deu tudo errado – respondeu com um tom de voz de quem quer encerrar o assunto e ficar só.

E Louise entendeu. Afagou os cabelos dourados do filho e sorriu carinhosamente. “A cada ano, parece-se mais com o Frank”, ela sussurrou com um sorriso nostálgico enquanto tirava alguns fios do rosto do filho, logo em seguida levantou-se e saiu fechando a porta.



Já era bem tarde quando o barulho do telefone lutou com a televisão pela atenção de Louise. Prontamente o tirou do gancho e surpreendeu-se ao ouvir Mathew do outro lado. “É raro contar com suas ligações, Matt”, ela comentou antes de ir chamar o filho ainda no quarto.



– Querido, o Matt no telefone.

– Dormi.

– Certeza?

Como resposta, Michael jogou cobertor sobre o rosto e virou-se na cama. Com um suspiro, Louise fechou a porta atrás de si e mandou o recado a Matt, que agradeceu e desligou. “Ele está puto” foi a única coisa que Matt conseguiu pensar enquanto seguia seu caminho para casa.

Durante todo o resto do fim de semana, Mathew tentou ligar para Michael mais uma ou duas vezes, mas sempre havia uma desculpa para não atendê-lo. E quando a segunda-feira chegou, não achou oportuno esperar pelo amigo e saiu o mais rápido possível de casa. Estava nos portões da escola bem mais cedo que o costume, consequentemente. Afastou-se desses e sentou-se no meio fio, já puxando do bolso o cigarro que vinha tentando evitar. Seu pé batia repetidamente no asfalto enquanto os olhos vagavam nervosos aos jovens que se aproximavam do prédio em busca de um em especial. Quando finalmente o viu, encararam-se por uma fração de segundos. Mathew se preparava para um aceno simpático quando Michael passou reto em direção à porta do velho prédio, forçando-se a desviar o olhar.

Com seus passinhos apressados, mochila e cabelos balançando a cada passo, Leslie correu atrás de Michael até alcança-lo nos corredores. Chamou-o com sua voz fina e ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha assim que ele lhe deu atenção.

– O que você quer?

– O que aconteceu?

– É sobre o trabalho?

– N-não, mas...

– Então acho que não temos nada do que falar. – respondeu frio e retomou seu caminho.

– Mike – insistiu, apressando-se atrás do garoto – Michael! – ergueu o tom de voz, tendo novamente sua atenção. Retornou com sua voz calma – Aquilo ali fora...

– Não sei por que você ainda tenta. O Matt já tem outra vadiazinha pra ele, esquece.

– Então é isso?! – perguntou, mas Michael já havia se afastado.

Suspirou. Parecia ter entendido. Entretanto, saber quem era essa outra talvez não fosse sua prioridade agora. Apesar de tudo, ela não conseguiria ver esses dois agindo dessa forma por muito tempo e torcia com todas as forças para que fosse algo passageiro.



Evitaram também estabelecer qualquer contato Neil e Matt, por vergonha talvez. Mathew manteve-se quase que praticamente isolado naquela semana, não fosse Leslie cumprimentando-o vez ou outra, mas ele logo fugia. Foram dias longos e lentos. Já não lembrava quando fora a última vez em que havia fumado tantos maços de uma vez. Já começava a ter a certeza que morreria de câncer de pulmão antes dos 30.



Mas foi no fim daquela semana que uma ameaça maior e mais rápida que um câncer pareceu surgir. Depois de evita-la por tantos dias, chegou o momento de se cruzarem. Helen entrou resmungando pela porta sobre algo do trabalho e encontrou o filho com o videogame acoplado na televisão da sala, imerso num ambiente denso em tabaco e um cigarro preso entre os lábios contraídos em concentração. Questão de poucos instantes para ela estar na frente do garoto; segundos para meter-lhe um tapa que faria o cigarro voar alguma boa distância e deixar uma bela marca avermelhada por onde suas unhas compridas rasparam o rosto do menino. Atónito, Mathew só encolheu-se como pôde para evitar que qualquer coisa o atingisse. Não contente com a falta de reação, Helen pôs-se a elevar o tom de voz, fazendo o mesmo discurso de todas as vezes, dando abertura à termos novos, inútil drogado. Quando sentiu o controle do videogame atingi-lo nos braços que tentavam esconder seu rosto, Matt levantou aos gritos da mãe e saiu pela porta antes que fosse pior, batendo-a com força atrás de si.

Desceu correndo a escada do prédio, até se ver parado na calçada. Um vento frio o fez lembrar que só vestia bermuda e uma camiseta fina; estremeceu. Andando sem um rumo certo, tentou pensar para onde poderia ir agora, já que Michael mal o olhava na cara; sabia que aparecer lá de repente poderia não ser uma boa ideia, nem tinha coragem de fazê-lo. Então pensou em procurar pela única pessoa que ele sabia que podia contar naquele momento.



Com uma leve ansiedade, tocou a campainha do pequeno sobrado e cruzou os braços, desviando o olhar da porta. Tornou a olhá-la de canto de olho quando foi aberta.



– Oi... Matt? O que você...?

– Oi – sorriu sem graça.

“Quem é?” gritou uma voz de dentro da casa. Leslie só fez fechar a porta atrás de si e encarar o garoto a sua frente.

– Aconteceu alguma coisa?

– Não... Sim... Não sei – terminou com um riso forçado.

– Problemas em casa? – Matt balançou a cabeça positivamente – E como está sem falar com o Michael, achou conveniente vir aqui? – perguntou séria, deixando o garoto sem reação.

– É... Sou um idiota. Me desculpa – estava pronto para se virar, quando ouviu Leslie rir.

– Brincadeira. Quer entrar?

– Sério?

– Sério.

Entrou rapidamente seguida de Mathew. Leslie queria evitar qualquer comentário de sua mãe e correu escada acima puxando o garoto pelo braço, mas ainda conseguiu ouvir um “Matt? Quanto tempo!” e algo que não conseguiram entender. Quando finalmente entraram no quarto da menina, um clima desconfortável preencheu o ambiente. Matt olhou em volta; pouca coisa havia mudado. A parede azul com uma grande janela em seu centro coberta por uma cortina fina em um laranja intenso tinha em seu canto esquerdo uma mesa de madeira com um computador e livros sobre; à frente da janela, uma cama simples com cobertas igualmente cor de laranja. Na parede oposta, um armário alto de portas que corriam escondia uma provável desorganização; pendurado em um suporte especial, via-se logo ao entrar pela porta um violão e um teclado logo abaixo, ambos com aparências antigas e desgastadas.

Leslie se sentou na cadeira em frente à escrivaninha e abraçou os joelhos antes de apontar com o queixo a cama para o ruivo; cobriu as pernas frias do ar noturno com o enorme moletom verde que estava usando e tornou o olhar a Mathew, que já tinha sentado com as pernas cruzadas sobre a cama, os tênis velhos largados no canto, tentando esquentar-se após a caminhada lá fora.

– Falei com o Michael... – ela começou depois de algum tempo, atraindo o olhar curioso de Matt. Ele permaneceu quieto, então ela prosseguiu – Ele disse que você começou a ficar com alguém.

Nesse momento ele congelou. O quanto Michael sabia? O quanto teria contato para Leslie?

– Por sua reação, devo considerar como uma informação verdadeira.

– O que ele disse?

– Nada de mais... Mas dá pra ver que isso o incomoda.

– Ele também não gostava muito de você quando...

– Digamos que é diferente agora – cortou-o.

– Você acha?

Leslie balançou a cabeça em concordância. Mathew deixou-se deitar na cama e fechou os olhos. Ele não conseguia não achar que Leslie sabia de Neil e que Michael o odiava agora por isso e que dali para frente sua vida seria um completo caos existencial e vazio interno. Sendo essa previsão hiperbólica ou não, ele já começara a sentir na pele o peso de ser um lobo solitário. Não é todo mundo que nasce já dividindo o berço com alguém, ele pensou, vai ser difícil me acostumar com isso agora. Ele soltou um suspiro longo que chamou a atenção da garota.

– Ei, Matty – chamou com um tom intrigado. Ele deu um muxoxo como resposta – Tudo bem?

– Tudo...

– Tudo?

– Tudo.

Ele permaneceu de olhos fechados até senti-la pular na cama. Semicerrou os olhos, o mínimo para ter a imagem da garota, que posicionava sua visão sobre a dele. Terminaram por se encararem por alguns segundos, em silêncio.

– Tudo?

– Sai daí – disse enquanto erguia um braço para tirá-la de cima de si, mas foi segurado por ela – O que...?

Ele não teve tempo de reação. Quando percebeu, as duas mãos de Leslie estavam segurando seu rosto de forma que ele não tivesse como desviar o olhar. E ali ele desistiu. Ela observou intrigada além do verde, além da tentativa vã de ser impenetrável.

– Você não tá legal, né, Matt? – Leslie perguntou já sabendo a resposta, sentando-se na beirada da cama.

– Para com isso.

Odiava como Leslie o lia tão facilmente e como sempre fazia isso, propositalmente ou não. O que odiava mais era ela estar sempre certa. Quando a ouviu se desculpar, acreditou que ela desistiria. Não podia estar mais errado.

– Uma hora você vai falar.

– Quem sabe?

– Você não vai aguentar guardar tudo pra você, mesmo. Já deixo dito.

– É, é.

– Então por que não poupa ambos e diz logo quem é?

– Agora é isso? – Matt riu – O que o Mike disse?

– Acho que ele tem ciúmes.

– E você não?

– Não.

– Sei – provocou.

– Cala a boca.

Ainda deitado, Mathew prendeu o olhar no teto claro do quarto enquanto construía lentamente um calmo sorriso. Uma mínima sensação de paz começava a brotar dentro de si, talvez por finalmente se sentir confortável depois dos últimos dias; talvez por ter alguém o entendendo sem ao menos dizer uma palavra, poupando assim o trabalho de se expressar, erroneamente ou não. Sentada encolhida num canto da cama, observando o garoto viajar em pensamentos, Leslie sentiu-se na obrigação de permanecer quieta, dar esses minutos a ele. Sentiu os cantos dos lábios se curvarem enquanto o olhava.

– Pretende dormir por aqui? – perguntou finalmente, após alguns poucos minutos, puxando Matt de seus devaneios.

– Posso?

– Não vejo porque não.

– Não vai incomodar? Não precisa, se for o caso...

– Minha mãe te adora, vai gostar de ver você por aqui de novo – Leslie terminou com uma risada curta. Mathew sorriu.

– Ela deve sentir tanto a falta de minha bela presença por aqui...

– De fato – Leslie levantou-se da cama, o agasalho batendo na altura dos joelhos – Vou trazer as coisas pra você.

– Vou dormir aqui? – levantou a cabeça, encarando-a um tanto surpreso – Quer dizer, esperava que me largasse na sala...

A garota só fez negar com um aceno da cabeça e rir enquanto saía pela porta. Matt pôde ouvi-la pedir para a mãe cobertores e travesseiro. Ele voltou a repousar a cabeça na cama; fechou os olhos e imergiu nos poucos barulhos que entravam naquele quarto – a televisão no andar inferior, as janelas batendo vez ou outra pelo vento no lado de fora, os passos no corredor. Rapidamente retornou Leslie arrastando um colchão extra, equilibrando cobertores e tendo o rosto coberto pelos cabelos agora soltos, seguida da mulher de longos cabelos castanhos escuro, presos em um rabo de cavalo alto, que carregava um travesseiro.

– Matt! – Isabelle Foster exclamou ao ver o menino finalmente, que levantou-se de imediato – Que surpresa vê-lo por aqui. Como você está?

– Vou bem, e a senhora?

– Muitíssimo bem.

– Podem me ajudar aqui, por favor? – Leslie pediu quando se via imobilizada com os cobertores cobrindo totalmente sua visão.

Matt correu e puxou os cobertores, ouvindo um sonzinho de alívio sair da garota. Isabelle colocou o travesseiro sobre a cama e se despediu, sumindo pelo corredor – seus passos descendo a escada ecoaram pelo andar. Largando o colchão ao lado de sua cama, Leslie jogou o travesseiro ali e se sentou.

– Posso perguntar uma coisa?

– Diga – ele respondeu enquanto ajeitava o cobertor no lugar.

– O que exatamente rola na sua casa? – Mathew parou – Digo, eu sei que sua mãe é um pouco... Complicada, mas...

Ele se sentou no colchão, recostando-se na cama atrás de si. Abaixou o olhar por um instante, tentando buscar uma explicação compreensível, mas nem ao menos ele sabia direito. Ou fingia não saber.

– Complicada... – repetiu – Não sei...

– Eu tentei ignorar isso também – Leslie apontou para a região ainda vermelha onde as unhas de Helen rasparam – Tem alguma coisa a ver?

Sem nenhuma expressão significativa no rosto, Mathew só assentiu com a cabeça. Leslie suspirou e pousou sua mão sobre a cabeleira ruiva. Ela sempre soube, vagamente, porém, sobre a relação conturbada na casa do garoto, mas ele nunca entrara em detalhes; não esperava também que a contasse agora. Mesmo sem poder ver seu rosto, ela sabia que Matt agora estava começando a rachar suas barreiras. Talvez fosse melhor parar de cutuca-la antes que rompesse, ela imaginou. Suavemente, começou a afagar os fios que se entrelaçavam em seus dedos finos. Ela não sabia exatamente o que fazer nessa situação e não queria abrir mais a Mathew, a não ser que ele se prepusesse para tal, o que não parecia ser o caso no momento.

– Às vezes – ele quebrou o silêncio de algum tempo – eu acho que sinto falta disso. Da gente. – terminou com um ar pensativo – Um pouco...

Ela não respondeu. Só puxou sua mão de volta, desfazendo qualquer contato com ele. Era como se uma flecha lhe atingisse a testa com uma nota “idiota” presa nela. Leslie tinha total consciência de que não devia se sentir feliz por ouvir isso, não devia ter aquele frio, definitivamente, não devia querer estar com ele agora. Fechou os olhos com força por pouquíssimos segundos, tentando afastar sua linha de pensamentos.

– É... – foi só o que ela conseguiu responder.

– Me desculpa. Por tudo.

– Esquece, Matt. – ela disse com tom de desinteresse – Já foi.

Mathew tombou a cabeça para o lado desanimadamente, encostando-a no joelho de Leslie. Ele fechou os olhos e franziu o cenho, murmurando algo ininteligível logo em seguida.

– O que? – Sem uma resposta imediata, ela puxou a franja ruiva para trás a fim de tentar decifrá-lo – O que foi?

Retornou à expressão indiferente, fazendo Leslie bufar e largar seus cabelos antes de jogar o corpo para trás, tombando na cama, fazendo um barulho abafado de impacto contra o colchão. Mathew riu baixo.

– Ainda sabe desenhar? – ele perguntou ainda apoiado na perna da menina.

– Talvez – sua voz saiu com um suave toque de animação.

– Quer tentar?

Estampou um sorriso contido quando voltou a se sentar e notou os cantos dos lábios do garoto suavemente arqueados, enquanto ele se esticava por cima da cama para a conhecida gaveta de materiais de Leslie na escrivaninha do outro lado. Voltou puxando uma pasta que mal fechava pela quantidade de folhas soltas e um estojo branco com manchas de canetas de todas as cores esquecidas abertas ou estouradas. Começaram a trabalhar em seus traços aleatórios, movimentos rápidos com o lápis, iam formando cenários rabiscados que tomavam forma a cada traçada.



O fraco reflexo da lua sobre as nuvens carregadas já atravessara metade do céu quando começaram a largar pilhas de papeis amassados e riscados. O travesseiro da cama já tinha sido jogado em um canto, as cobertas completamente bagunçadas sob uma quantidade incontável de pedaços rasgados de papel branco. Mathew estava sentado na ponta da cama, com uma fresta da janela aberta por onde fazia a nicotina fugir; o cigarro pendia entre os dedos da mão esquerda, enquanto na outra rodava um lápis qualquer. Sentada no chão e usando a cama como mesa, Leslie estava concentrada finalizando o rabisco de gárgula no papel levemente amassado.



A respiração funda chamou a atenção da garota, mas sem fazê-la desviar o olhar de seu trabalho.

– Acho que ela me odeia – Matt disse por fim.

– O que? – Leslie tornou a olhá-lo reflexivamente, com um claro semblante confuso – Quem?

– Minha mãe – respondeu antes de tragar longa e lentamente.

Largou tudo o que fazia e prendeu os olhos em Mathew. Olhos fechados, cabeça recostada na parede; a mão que guiava o cigarro até sua boca pareceu, aos olhos de Leslie, ter estremecido por alguns segundos.

– Como assim? – ela ouviu sua própria voz falhar.

– Não sei quando foi – começou a falar, fixando o olhar nas cinzas crescentes do cigarro – Talvez depois da morte do meu pai. Ou ela sempre foi assim, mas não me lembro.

Todo o conhecimento de vocabulário de Leslie pareceu ter se esvaído; ela somente se sentou na cama, em frente ao garoto, a boca ligeiramente entreaberta.

– Quer dizer, é lógico, não teria como não ser assim – ele começou, sua voz saía com um leve pesar – Eu acabei com a única coisa que ela mais amou – ele fez uma pausa curta, levando o cigarro aos lábios mais uma vez, rapidamente, soltando a pouca fumaça que foi sugada pela janela – Se eu não tivesse mandado eles irem mais rápido, se eu ficasse quieto, não teríamos batido... Meu pai ainda estaria aqui, Frank também...

Leslie ainda não lembrara como reproduzir sons. Absorvia os mínimos das falas, feições e gestos do garoto, mas continuava sentada ali o encarando, agora com as sobrancelhas curvadas numa mistura de surpresa e dor.

– Se eu não tivesse insistido, minha mãe ainda seria feliz. E o Mike também... – A voz de Matt estremeceu e pareceu ter um leve desespero em seu fundo.

– Mas – ela se esforçava para buscar os sons – a culpa não é sua, Matt.

Ele somente ergueu os olhos verdes, que Leslie achou ter visto um brilho triste, e fitou-a sem dizer nada. Mas ela entendeu. Ele sabia o que ela diria. E ela não conseguia pensar em mais nada que pudesse ser dito, ele não mudaria a forma de pensar, continuaria se afundando na culpa. Leslie só conseguiu se aproximar lentamente dele, pousando a mão em seu joelho e trazendo sua atenção em um gesto de compaixão e compreensão.

– Isso – Matt ergueu o queixo, lembrando da existência dos finos cortes que já sumiam de mais cedo – Faz com que eu me lembre disso todo dia. Talvez eu mereça...

Com uma expressão levemente horrorizada, Leslie abanou a cabeça negativamente sem tirar os olhos do garoto.

– Não...

Voltou a encará-la e abriu um sorriso quebrado. Em sua mente, desculpou-se milhares de vezes. Pensou estar exagerando, talvez a usando como forma de expelir aquilo que vinha guardando desde o dia do acidente. Quando ele retomou consciência de realidade, Leslie o havia abraçado e ele já estava cedendo. Ela sussurrou-lhe algo aos ouvidos, mas não foi capaz de compreender. Sentiu seus olhos marejarem e engoliu em seco. Não ser ele quem estava a proteger alguém lhe parecia estranho, talvez desconfortável. Mas finalmente permitir que tudo fluísse talvez lhe fizesse algum bem. Seus olhos começaram a fechar lentamente assim que percebeu que estava deitado. Os dedos finos de Leslie lhe acariciando os cabelos enquanto ele, calma e silenciosamente, adormecia.



A luminosidade invadiu as pálpebras de Mathew junto com uma brisa quente que vinha de algum ponto do quarto. Ele abriu os olhos, vendo as cobertas laranja forte cobrir-lhe metade do corpo. Sentou-se devagar, um tanto confuso. Ajustou a visão e focou Leslie em frente ao guarda-roupa, de costas para a cama; as costas nuas eram cortadas apenas pelo sutiã, os longos cabelos presos em um coque alto e bagunçado. Ele ficou observando-a vasculhar por entre as gavetas por algum tempo antes de ela se virar com uma camiseta larga com um unicórnio estampado entre as mãos, pronta para vesti-la. Parou quando cruzou olhares com o garoto.



– Bom dia – Leslie forçou um sorriso – Eu não quis te acordar mais cedo.

Mathew balançou a cabeça e esticou os braços para se espreguiçar. Levantou finalmente, vendo toda a sujeira de papel empilhada em um canto próximo à porta. Passou as mãos rapidamente sobre os cabelos, tentando em vão ajeitá-los. Voltou o olhar para Leslie, que agora tentava colocar a camiseta sem derrubar o penteado, e arqueou ligeiramente os cantos da boca.

– Obrigado – ele se aproximava dela, sua voz saía mais baixo que o costume – Por me ouvir... Obrigado.

Leslie sorriu sem graça.

– Acho que eu já vou – ele olhou brevemente pelos cantos do quarto, procurando seu velho par de tênis – Já atrapalhei demais aqui – terminou enquanto puxava-os para perto da cama e se sentava para calçá-los.

– Coma alguma coisa antes, pelo menos – Leslie tinha uma quase ordem em seu tom de voz.

– Eu como em casa, não...

– Você não vai – interrompeu-o, um resquício de preocupação escapou em sua fala – Então pega pelo menos um café.

Ele sorriu torto enquanto terminava de amarrar os cadarços sujos. Fitou Leslie de cima a baixo assim que voltou a se levantar – a camiseta muito maior que seu corpo minúsculo batia no meio das cochas, cobrindo parte dos jeans escuros e ligeiramente largos que caíam sobre suas meias roxas. Virou-se para pegar os papeis do chão.

– Suas roupas parecem pijamas – Ele disse por fim, amassando ao máximo o lixo.

A menina apenas bufou antes de se virar de costas a ele e enfiar os pés nos tênis pretos. Recolheu o que faltava no chão e guiou-o escada a baixo. Passos diretos para a cozinha. Um cômodo amplo e claro, as paredes azulejadas em um perfeito branco contrastavam com a pedra preta da pia. Leslie puxou duas canecas com uma mão enquanto pegava o bule com café até a metade com a outra e se sentaram ao balcão de madeira que cortava a cozinha em duas áreas.

– O que pretende fazer hoje? – ela perguntou enquanto enchia os copos como líquido quente.

Matt deu de ombros. Puxou a caneca e aproximou-a do rosto, inalando o cheiro forte característico do café.

– Eu acho – ela disse entre goles – que devia ir falar com o Mike.

– Acha, é?

Leslie observou-o fitar o fundo da caneca, como se conseguisse enxergar além da cor escura, e afastar-se mentalmente. Por um segundo ela achou ter dito besteira, mas então ele ergueu o olhar com um sorriso que brilhava.

– Lógico... – ele disse por fim, rindo de si mesmo. Que idiota, pensou – Só complico coisas simples – terminou pensando alto, mas ainda sussurrando para a caneca. Leslie não respondeu, sorriu enquanto voltava a tomar do café.