— Você é esperta, sobreviveu, mas até aqui só. – Ele tinha aprendido a falar? Como isso? Antes só estava grunhindo. Ou eu que comecei a entender ele? Imediatamente apontei as duas mãos para ele e comecei a tentar machucá-lo mas só uma pequena fumaça saía de suas escamas que pareciam duras como aço. – Já que é assim... – Eu tentei algo, apertei o símbolo do raio e deixei meu dedo apertado nele, o jacaré humanoide se surpreendeu e antes de poder se afastar, um raio havia atingido sua cabeça e feito o mesmo cuspir sangue, aproveitei isso e corri, sabia onde era a saída agora, só precisava abrir aquelas rochas, vi algo brilhante no chão...

— Não vai sair! – A criatura, nervosa, mirou seu cajado em minha direção e uma enorme onda de fogo vinha com tudo, não tinha como fugir, ela pegava todos os cantos do corredor, eu mirei as mãos pro chão e concentrei todo meu poder nele, fiz isso dando três golpes e fazendo um buraco de mais de um metro, eu cai nele e a onda de fogo passou por cima de minha cabeça e atingiu aquelas rochas que cobriam a saída. – Ele apesar de tudo ainda é uma besta. – Saí do buraco, mas na minha frente, a criatura me esperava sorrindo, ele moveu seu cajado e atingiu minha cabeça me jogando para longe, caí em cima do corpo de Lou.

— Não há perdão para os demônios! – Apertei as setinhas seguradas daquela vez, eu via o brilho do colar se apagando, mas era tudo ou nada. Eu tinha me lembrado.

Eu havia começado a me lembrar, na verdade, nunca tinha esquecido. Eu me fazia de boazinha, que hipócrita. Por que eu achava que podia merecer o perdão de Deus? Nem eu poderia me amar ou perdoar, na verdade, durante meus 21 anos, eu acho que nunca amei ninguém. Porque eu sentia uma frieza enorme dentro de mim que não conseguia ser mudada mesmo que eu mergulhasse no sol, todas as feridas criadas eram uma desculpa do meu condicionamento, tudo que mais precisava era de mim mesma e uma brecha para que eu pudesse aceitar os pecados que cometi e que vinha a cometer. Minha mãe morreu quando eu tinha 7 anos em um acidente de carro, meu pai, depois disso, virou um alcóolatra e depois de 2 anos acabou se enforcando no seu quarto enquanto eu estava na escola. Fui a primeira a ver a cena do seu corpo pendurado balançando de um lado para o outro. De início não entendi, tinha apenas 9 anos, eu segurava suas pernas tentando tirá-lo de lá gritando para ele acordar, fiquei meia hora até minha garganta começar a doer, só depois que um vizinho apareceu que a polícia foi chamada, eu não aceitei sua morte, pensei que ele estava em algum hospital dormindo e iria voltar pra casa, mas naquela altura eu já estava morando com minha avó, uma mulher cruel e sádica, ela matava gatos na rua usando a desculpa que eles acabavam com seu jardim, mas na verdade, ela tinha uma única planta em seu jardim, e ela era venenosa.

Minha vó me batia quando eu usava um copo e não lavava, ela me colocava trancada no quarto simplesmente por eu chegar atrasada da escola em casa. Ela já marcou meus braços com um cinto quando eu falei alto com ela, fora as vezes que sujei o chão comendo, ela me deixou seu comida por dois dias, senti que iria morrer, mas o que eu poderia fazer? Estava sem casa, sem família, sem um rumo. Eu não conhecia Deus naquela época, apenas a solidão e uma triste vida em uma casa que cheirava a mofo e que eu era refém de uma velha louca que parecia cuidar de mim por uma obrigação dada pelo estado. Aos 12 anos fui entender o calabouço em que estava, foi então que, após o começo do ensino médio, comecei a conhecer pessoas que foram aos poucos libertando minha mente, mesmo vendo que o caminho que eu estava trilhando era o rumo do inferno. Comecei a andar com três garotos que beijava frequentemente, chegamos até a fazer sexo grupal, eu virei uma putinha desleixada, não tinha perspectiva de futuro ou de vida, morando com minha avó, eu iria sofrer agressões físicas ou verbais, não teria nenhum bem que queria enquanto não trabalhasse e não teria chance alguma de socializar com pessoas boas estudando em uma escola decadente cheia de pessoas ruins. Eu estava conformada. Comecei a descobrir sobre o catolicismo, mas aquilo pra mim parecia uma mentira muito babaca que enganava as pessoas, como todas as religiões. Eu me entreguei aos prazeres mundanos e momentâneos da vida, como sexo, drogas e bebida. Não ligava mais pras ofensas e agressões da minha avó, chegava em casa de madrugada e ela já nem tinha mais forças para me ferir, eu não ligava para suas ofensas e se ela me deixasse sem comida, eu conseguia qualquer coisa dos homens, felizmente eu era bela, isso havia me salvado naquela maldita cidade do interior da Inglaterra, não consegui nada até agora, mas eu conseguia sobreviver.

Um dos professores da escola, Leslie, o tutor de gramática, um dia começou a me falar sobre Deus. Ele achava que me daria uma lição de moral com papinho clichê e falando essas coisas de Jesus e que qualquer crente iria se ajoelhar e dizer amém, entretanto, eu queria que ele se fodesse. Apenas ouvia porque ele vinha até mim no intervalo onde eu ficava na sala de aula dormindo. Aos poucos eu ia pegando mais nojo de toda aquela merda, ele tentava me convencer com calma e paciência, mesmo eu fazendo expressões de asco ele insistia em me falar da bondade de Deus, de como Jesus se sacrificou por nós e como era errado eu me envolver com aquelas pessoas. Foi em um dia que meus amigos me chamaram para ir em um lugar depois que viram que Leslie me enchia sempre. Eu os acompanhei e vi que eles também tinham ideias deploráveis em suas cabeças, mesmo que isso eu já soubesse. Eles me apresentaram a uma seita satânica onde, se eu me entregasse, poderia ter qualquer coisa. Naquele ponto já achava tudo daquele tipo uma merda completa, mas decidi aceitar suas condições para não ser excluída daquele grupinho de depravados doentes, e foi isso que fiz, comecei a segui-los e ser adepta a esse grupo que acreditava que alguma entidade poderia lhes ajudar. Ninguém poderia ajudar ninguém nesse mundo degradado. Todos estavam condicionados de acordo como nasceram, em suas famílias, trabalho e ciclo de amigos. Eu estava presa a um ciclo maldito, porque o diabo me ajudaria. Mas incrivelmente, depois que comecei a andar com aqueles rapazes e ir em um lugar que eles chamavam de igreja satânica, as coisas começaram a mudar.

Minha vó descobriu que tinha câncer, eu comecei a receber propostas de emprego como modelo, aceitei alguns e ganhei uns trocados com algumas fotos, a maioria delas sensuais, mas isso era o de menos para mim. Cada vez mais haviam homens em minha cola, eu conseguia praticamente almoçar e jantar de graça, comecei a ir cada vez menos para casa, e quando ia, via minha avó agonizando na cama e cuspindo sangue com o avanço da doença.

As coisas estavam se encaminhando, eu vi ao meu redor que aquela possibilidade de entidade paranormal pudesse ser real, tentava sempre ser o mais cética possível, mas aquela coincidência era demais pra mim. Comecei a trabalhar em um restaurante onde o dono abusava de mim, mas em compensação, tinha um salário muito bom pra uma assistente, eu não ligava dele me foder todas as noites mesmo sendo um gordo escroto, consegui dinheiro para alugar um apartamento e ter minhas coisas, eu não dependia mais daquela velha. Minha vó tinha pouco tempo sobrando, um dia ela me visitou pedindo ajuda, chorou ajoelhada implorando para que eu a salvasse. Aquele momento foi o ápice da minha vida, eu vi tudo que ela havia feito pra mim bem na frente dos meus olhos, suas palavras soavam com alívio, finalmente havia conseguido minha vingança, ela pagará por tudo que fizera não só pra mim mas para minha mãe.