Wildland: Return to Zero
18 Capítulo 17 - Sem Deus
Quando convivi com minha mãe eu via o quanto ela tinha sofrido na infância, esse monstro havia feito várias vítimas, minha mãe tinha depressão e crises de ansiedade, além disso, também morreu de câncer, e agora a mãe iria ter o mesmo destino que a filha. Foi quando um dia as coisas começaram a virar de cabeça pra baixo com uma proposta, na verdade, era mais uma ordem que aquela seita havia me dado. Eles viram o quanto eu subi e pediram pra que eu me tornasse a líder deles, mas em troca, eu teria que fazer um grande sacrifício. Eles queriam que eu matasse minha vó. Todos eles sabiam que ela estava nas últimas e sabiam o que ela havia feito pra mim, todos queriam vingança, eles sabiam que ela não tinha salvação e merecia pagar, e na verdade, naquele momento, a morte para ela seria um alívio, eles alegaram que apenas queriam libertá-la e ao mesmo tempo, provar que eu sou uma líder digna que tem o poder para ser sua comandante. Eu aceitei, mesmo hesitando por alguns dias, afinal, o que eu tinha a perder? Eu poderia ganhar mais. Mais. Mais. Mais. Queria mais poder, queria mais bens, mais desejos, mais pessoas ao meu redor, queria ser uma rainha. Eu não podia abaixar a cabeça e ser a pessoa miserável que fui por 15 anos. Com 20 anos eu já tinha me tornado uma adulta que poderia ter tudo que desejava. Foi naquela fática terça-feira que eu vi que era capaz... Capaz de ser um monstro irreparável. Minha avó estava em sua cama tomando soro, ela passava por seções de terapia constantes e mal conseguia andar, uma empregada ia ajuda-la de vez em quando, mas ela passava o dia em sua cama ou vendo tv na sala, aproveitando seus últimos momentos sozinhas e na escuridão que ela mesmo plantou. Eu me aproximei e com os olhos frios, sentei ao lado dela.
— Vó, você não teme morrer?
— Eu já estou morta faz tempo.
— Por que não tem medo? Não tem arrependimentos?
— Nunca me arrependi de nada. Fiz tudo por mim.
— É, talvez eu tenha tido uma influência muito ruim.
— Você não vai ser igual sua mãe, uma tola que abandonou tudo por Deus, aquele Deus sem sentido. Fico feliz por você. – Naquele momento, meu coração começou a disparar. Minha vó estava feliz por mim? Feliz por quem eu tinha me tornado? Eu havia me tornado quem ela queria? Que porra era essa? Tudo que eu mais desprezava nessa vida era minha vó e o quanto ela tirou da minha infância e adolescência, ela que havia alimentado meus traumas, que havia abandonado minha mãe quando ela mais precisou. Ela tinha me tirado tudo, sempre brigou e ofendeu meu pai depois da morte da minha mãe, de tanto ela falar ele acabou se matando, ela tirou tudo que podia de mim e agora dizia estar feliz por eu ter me tornado uma satânica porca e vadia? Estava tudo sendo planejado por ela?
— O que você fez comigo?
— Você apenas cresceu. Não foi em vão, você vai sobreviver, vai ter tudo que não tivemos.
— Eu não tenho nada! Cala a boca! Você me criou para não ter nada.
— Eu te criei para isso mesmo, mas você foi forte e venceu as dores, agora tem tudo, não é bom isso? Não é bom ser a única e viver por si mesma?
— Sabe o que é bom? – Eu me levantei chorando, peguei o travesseiro que estava do lado da cama e comecei a pressiona-lo contra a cabeça da minha vó que nem tinha forças pra se defender. – O bom vai ser quando você se encontrar com o capeta e pagar por tudo que fez! – Minhas mãos tremiam, as pernas fraquejavam, eu não podia vacilar agora, porque... Eu era aquilo. Fiquei por quase cinco minutos com o travesseiro pressionado com força contra o rosto da minha vó, ela havia morrido em menos de 2 minutos, mas eu continuava a apertar enquanto chorava, gritei várias vezes para que alguém pudesse me parar, mas nada podia parar o ser que já habitava dentro de mim. Saí daquela casa maldita e fui ao encontro de Leslie depois de ligar para o mesmo.
— Por que me chamou aqui? Não nos vemos há 1 ano mocinha, você... mudou. – Leslie tinha a mesma expressão bondosa e singela de sempre, apesar de também estar com câncer, ele parecia muito forte, uma das pessoas mais felizes que já vi.
— E se eu falar que matei alguém?
— Como é?
— Eu matei minha avó. Eu sou uma assassina. Eu sou satânica, eu sou uma vadia que dá pra vários caras, eu sou uma viciada, uma bêbada sem futuro, me importo apenas comigo, com minha aparência e meus bens, finjo ser educada, puxo saco das pessoas para agradar a todos, quero ser amada, quero ser adorada, quero ter tudo que não tive na infância, eu quero tudo, eu tenho tudo! Mas por que eu sinto que não tenho nada? Leslie, eu me tornei o diabo? Eu realmente... – Me levantei e comecei a olhar para o céu enquanto meus olhos ardiam. Eu não tinha me tocado até agora onde estava. Eu criei um buraco enorme onde não podia sair mesmo se escalasse para sempre. Deus. Havia um Deus. Se havia tantos demônios por aí, certamente havia um Deus. Eu seria obliterada, certamente já estava condenada. Naquele momento, eu puxei um estilete do meu bolso e cravei em meu pescoço.
Fale com o autor