Wildland: Return to Zero
8 Capítulo 07 - Motivo Para Voltar
"THORNS per viam non penitus derivant. Introitus tuus ut sit nudis pedibus."
— Isso... – Nem tínhamos acabado de vencer aquela mulher e já surgiram mais? Sozinha eu não conseguiria sobreviver. Eu precisava voltar para o Michel, de toda forma, de qualquer jeito, mesmo que eu tivesse que usar aquelas pessoas para sobreviver. Eu dei aquele líquido no frasco para Liss, mesmo desacordada, abri sua boca e a fiz engolir, no mesmo instante o sangramento dela parou mas ainda continuava desacordada.
— O que porra tá fazendo anão de merda? – Remer apareceu ao lado do anão e o segurou para não cair.
— Eu acho que tomei um dano sem volta, essa era a única poção hahahaha a gente se ferrou por não economizar.
— Por que a Liss? Você gosta dessas loirinhas metidas? Você podia ter usado... – Remer que também estava bem ferido tentava segurar as tripas de Ingo, mas ele sabia que não havia mais jeito de salvá-lo.
— A Ainna... – O anão olhou para o corpo de Ainna jogado alguns metros dali.
— Ela morreu. Vamos todos morrer nessa droga, mas ao menos alguém vai sair daqui vivo. – Remer olhou para mim com fúria. – Escuta novata, pega a Liss e cai fora, corre o mais rápido que puder, tem uma caverna bem na saída do norte, so tem dois guardas, preciso que você use o que for mas mate eles, é a única chance. Tem uma abertura no muro que da pra essa caverna, foi uma cortesia do anão aqui, não deixe que nossos nomes saiam da história, vencemos em 4 um dos 4 cavaleiros da Fortaleza de Kuzle. Haha, isso soa bem não é velho? – Remer olhou para Ingo que havia morrido antes de ouvir suas palavras. Ele deixou cuidadosamente o corpo do anão no chão e segurou suas duas adagas banhadas em sangue. – Não ouviu porra? Pega a loirinha e sai daqui! – Remer gritou e se colocou na minha frente encarando as tropas que vinham a toda velocidade. – Eu não sou pouca merda ok? Ao menos ganho 5 minutos pra você. — Eu não sabia o que dizer ou o que pensar, mas sabia que se não saísse dali morreria. Peguei Liss e com esforço demais, fui me arrastando com ela para o norte.
— Obrigada, não deixarei que isso seja em vão. – Todas aquelas pessoas que nos ajudaram morreram, que inferno era aquele lugar? Por que eu tinha que passar por isso? Tentei não olhar para trás, depois de caminhar alguns minutos ouvi gritos de várias pessoas, parecia que não tinha fim aquele caminho.
Cheguei até o local que parecia ser uma muralha, as paredes eram de tijolos quadriculados e sua espessura parecia impenetrável, havia um portão de madeira a uns metros dali, embaixo do que parecia ser um portão para um corredor para o outro lado da fortaleza haviam dois guardas assim como Remer havia dito, eles me perceberam e imediatamente correram em minha direção com lanças já dispostos a matarem. Eu não tinha pra onde correr, o Remer mesmo disse que eu devia enfrenta-los, mas o que eu podia fazer? Deixei Liss no chão e me preparei de alguma forma, minhas pernas tremiam ao observar aquelas lanças enormes e afiadas nas mãos dos homens que pareciam nem ter 20 anos, eu olhei para minha pulseira e apertei aquele símbolo que me fez quase ‘teleportar’, eu havia ficado embaixo do portão onde os dois estavam, eles haviam se surpreendido com meu movimento, mas um deles, imediatamente, apontou a lança para Liss pensando em matá-la, eu apertei o outro ícone e os feixes luminosos apareceram em minhas mãos, eu atirei ambos com toda força na direção do rapaz que iria atingir Liss, as ‘adagas’ pareceram aumentar o tamanho conforme se aproximavam, o outro rapaz se jogou na frente com um pequeno escudo que carregava em seu braço esquerdo com uma expressão convicta de quem iria conseguir repelir o ataque, mas para minha surpresa, aqueles feixes que arremessei atravessaram o escudo e perfuraram a barriga do homem o fazendo cair no chão, o feixe seguiu até o segundo que estava para abater Liss mas ao ver o que havia acontecido, o mesmo saltou para frente deixando sua lança cair.
— Puta merda...- Eu havia matado uma pessoa. Não havia mais volta, minhas pernas mal se mantinham firmes, quando vi o rapaz no chão com os olhos abertos e uma poça de sangue ao seu redor entendi o que significava aquele mundo.
— Quem são vocês? – O rapaz ficou chocado ao ver seu companheiro morto, eles pareciam inexperientes no campo de batalha, eu tinha uma vantagem, minha mente já estava fragmentada, eu me sentia insana, acho que talvez eu pudesse fazer isso.
— Eu só quero voltar pra casa, por favor, me deixe sair com ela daqui. – Eu pedi com sinceridade para o rapaz, mas ele voltou a se aproximar da sua lança no chão, com medo do que ele poderia fazer, eu ativei novamente aquele botão que me teleportava e parei na frente de Liss, antes dele pegar a lança, ativei a habilidade das adagas de luz e joguei as duas contra as costas do rapaz perfurando-a e atravessando seu corpo, assim como havia acontecido com seu companheiro.
— Desgraçada... Não tem como sair dessa fortaleza, vocês já eram, do outro lado tem o Dumiy, não vai passar. – O rapaz tentou se levantar e cambaleou várias vezes até cair de cara no chão sem vida. Eu já havia matado duas pessoas. Nessa altura já não ligava mais para moralidade ou questionava se tudo aquilo era real. Eu segurei a cabeça de Liss tentando acordá-la, sozinha eu não poderia conseguir.
— Liss, por favor, preciso de você, eu não vou dar conta... – Minhas lágrimas começaram a escorrer, eu não aguentava mais, por mais que eu tivesse ido longe, via em direção à muralha as tropas que já deviam ter aniquilado Remer. Ao olhar mais atentamente, percebi que havia um gigante no meio deles, ele estava comendo alguma coisa, ao notar com mais atenção vi que se parecia com uma perna, então dei conta que a criatura devorava o corpo de Remer que já estava pela metade. Uma lança foi jogada em minha direção, ela passou de raspão cortando um pouco do meu braço direito, eu não ia escapar daquela, tinha mais de 50 soldados, fora aquele gigante e uns cavalos com aparência diabólica.
— Liv... – Liss havia acordado, aos poucos ela abria os olhos com a expressão fraca, só agora percebi o quanto ela era linda, seus olhos azuis contrastavam com seu cabelo louro dourado e sua face angelical, ela parecia pura demais, mas no final, eu quem acabei sendo protegida por ela. O quão irônico tudo aquilo era? Eu lembrei em um rápido flash mental todas as coisas ruins que tinha feito na vida. Aquele ‘dia’ veio à tona, desde que cheguei ali estava evitando me lembrar, eu pensei que minhas memórias tinham sido apagadas, mas eu quem não queria me lembrar... Olhei para os dois cadáveres que eu havia matado, eu comecei a vê-los de uma maneira comum, como se fossem apenas um pedaço de carne espalhado no chão, eu sorri de canto, aquela não era a primeira vez que eu havia visto um corpo.
— Liss, vamos sobreviver. Você consegue fazer aquelas suas magias de levantar a terra de novo?
— Eu só consigo com sacrifícios, minhas invocações são baseadas em sacrificar algo, a lei da alquimia, então sem isso... – Aquilo significava que Liss devia jorrar mais sangue, mas se ela fizesse mais algum machucado em seu corpo ela morreria, eu era a única lá que podia ser usada, naquela altura, ou era isso, ou era morte certa, eu não sei para onde iria se morresse lá, não era o purgatório, afinal, então eu iria para o inferno? Certamente que sim.
— O que eu preciso fazer? Me corte, tire meu sangue.
— Não é simples assim, eu to com pouca mana, precisaria de um órgão inteiro pra levantar terra aqui e nos mandar pro outro lado do portão.
— Arranque meu olho, é a única maneira.
— Liv, não!
— Faça isso droga ou vamos morrer! – Ironicamente, eu que sempre fui vaidosa e egoísta estava pedindo aquilo. Será que era desespero. Eu tinha uma vontade enorme de viver, afinal, precisava voltar pra ele, eu não podia deixa-lo, nunca mais. Por mais que eu fosse ficar caolha, por mais que eu fosse ficar deformada e talvez ele nunca mais olhasse pra mim... Bom, se isso acontecesse, era só eu obriga-lo a olhar.
— Desculpa. – Liss pegou uma de suas facas e enfiou no meu olho, eu senti como se minha cabeça tivesse explodido, ela tirou a lamina rapidamente e eu só vi sangue escorrendo e minha visão ficando preta, coloquei as mãos sobre o olho gritando e suando sem parar, comecei a rolar no chão enquanto ouvia os gritos da tropa vindo, mas naquele instante, também senti meu corpo sendo elevado, abri o olho que ainda me restava e vi que estávamos a mais ou menos 20 metros do chão, alguns soldados tentaram jogar algumas lanças mais elas atingiram o pilar de terra dura, Liss parecia estar bem enquanto controlava o chão, com um impulso fomos para o outro lado da muralha, ela fez uma rampa com terra e caímos no chão, estávamos salvas? Meu olho começou a arder mais ainda, digo, eu já nem tinha um olho, o que seria de mim agora? Talvez minha vida já tivesse acabado, mas eu me lembrei que o mais importante naquele momento era sobreviver e voltar para o Mi.
— Conseguimos, Liv. Só temos que ir o mais longe possível agora! – Liss segurou minha mão e corremos o mais longe possível, adentramos em uma floresta de pinheiros e grama alta, haviam alguns coelhos espalhados por aquelas redondezas, eu iria desmaiar, havia perdido muito sangue.
— Não vou conseguir.. – Eu soltei a mão de Liss e me ajoelhei, eu estava fraca, perdendo a consciência aos poucos, a dor era insuportável.
— Temos que ao menos chegar no próximo vilarejo, eles virão atrás da gente com certeza, se você for a escolhida...
— Escolhida pra quê? Do que diabos estão falando? O tempo todo escolhida, especial e o caralho, me diga o que é esse mundo? O que sou eu? Por quê vim aqui? – Eu não aguentava mais não saber de nada do que acontecia, eu havia me lembrado aos poucos de tudo antes do momento em que eu parei ali, eu tinha que voltar, a todo custo, eu iria.
— Calma, temos que ser fortes, você quer sobreviver não é? Tem alguém que você queira voltar? – Parecia que Liss havia lido minha mente naquele momento, já que estávamos ali mesmo nessa situação, eu decidi falar.
— Eu tenho e vou! Eu tenho uma pessoa que significa mais do que tudo pra mim, alguém que eu sei que irá me acolher, mesmo sem um olho, mesmo sem uma perna, mesmo que eu tenha cometido diversos tipos de pecados com ele, mesmo que eu tenha feito coisas horríveis... Esse é o único motivo que aguentei isso até agora, então me diga se tem algo que preciso fazer pra sairmos daqui, me diga que farei qualquer coisa. – Liss pareceu me olhar com pena, ela ficou em pé na minha frente com uma incrível solidão, parecia que ela entendia bem o que eu sentia.
— Você acha que essa pessoa está lá te esperando?
— Ele está! Ele sempre está por mim! Ele ficará lá pra mim, eu vou ficar com ele pra sempre! – Comecei a gritar bem alto e segurar o meu rosto com sangue ainda saindo pela cavidade do olho que havia perdido.
— E como pode ter certeza que iremos sair daqui? Eu to tentando isso desde que cheguei, eu apenas te dei uma esperança pra não desistir e conseguirmos escapar daquele lugar. Liv, talvez não haja saída.
— Há saída! Vai haver uma! Eu vou achar, eu vou sair daqui porra, eu vou sair mesmo que eu tenha que matar todos esses bastardos, é só eu usar essa pulseira né? Matei dois e posso matar mais uns 100, 200, 300, eu mato quem se opor a mim! – Meu sangue começou a ferver demais, eu espumava pela boca, fiquei em pé e comecei a olhar para Liss com raiva de suas palavras, ela não podia me dizer isso.
— Você está nervosa com a situação? Acha que é a única nisso? – Liss começou a falar em um tom de frieza, ela me olhava com desprezo.
— Eu não ligo pra o que os outros querem, se quer ficar nesse inferno que fique, você não tem ninguém que se importa? Ninguém pra voltar?
— Eu tinha. Eu tinha uma pessoa que também significava muito pra mim, mas acabaram me tirando dela. E eu vou tirar tudo desse mundo agora.
Fale com o autor