Wildland: Return to Zero
9 Capítulo 08 - Culpa
"Afuerit culpam abesse, ubi non est dilectio."
5 ANOS ATRÁS
Eu saí daquela sala de aula enquanto cantarolava uma música dos anos 90 de alguma [1]boy band que nem lembrava o nome, eu havia tirado um obstáculo do caminho de Mi, e iria tirar todos os possíveis. Mas acho que não era o suficiente. Não... Não. Eu sou muito mole. Que porra era essa? Eu sou muito fraca, ela vai atrás dele. Ele vai dar moral pra ele. Eles vão se pegar. Imaginei ambos em um quarto de motel, eles iriam gemer e gritar, ele iria me trocar, eu iria ver os dois juntos de mãos dadas, eu iria ver eles com aliança, eu veria tudo isso enquanto ela sorria, ele iria andar com seu carrinho de bebê, eles teriam vários filhos e morariam em uma casa enorme. Não. Não. Não. Não poderia deixar isso. Eu fui fraca. Eu daria um fim em que não me restassem mais dúvidas.
Eu sabia que estava sendo egoísta e injusta, depois de tudo que Liss fez por mim, tratar ela daquela maneira me fez morder meu lábio inferior, apesar da dor que sentia por ter tido um olho arrancado, a dor maior que eu sentia era de mim mesma.
— Eu também perdi alguém. – Liss segurou minha mão e voltou a caminhar comigo meio que me arrastando enquanto ia contando sua história. – Eu amava muito uma pessoa, antes de tudo isso... Eu esperei por ele, por muito tempo esperei, mas no final, a vida tomou tudo de mim. – Senti na maneira com que a garota segurava minha mão toda sua dor e desespero, ela devia ter realmente perdido uma pessoa importante.
— Você não pode recuperá-la?
— Ela não está mais nesse mundo. Bom, no outro no caso. – Então essa pessoa havia morrido? Ela tinha que carregar um peso ainda maior que o meu, mas espera... Mi estava me esperando certo? Ele estava me esperando! Como eu não poderia voltar pra ele. Obviamente eu voltaria.
— Ele foi tirado de mim na verdade.
— Mas como assim? – Não sei porque mas comecei a sentir um aperto no peito. Caminhávamos mais rápido por aquela floresta de pinheiros que ficava cinzenta e cheia de neblina, eu sentia meus pés arderem, às vezes minha consciência se perdia e eu cambaleava enquanto Liss me segurava, eu não sei até quando ficaria em pé, ouvia a voz suave e dolorosa de Liss, de alguma forma tudo aquilo era muito familiar, sua voz, seu jeito, o seu toque, ela me trazia um conforto naquele momento de caos e desespero, o terror que havia passado naqueles dias eram eliminados por aquela presença angelical, eu tinha que aguentar por ela e pelo Mi, ele iria me esperar e disso eu sabia.
— Não há ninguém nos esperando. – Liss parou no meio do caminho e me abraçou. Eu senti que ela estava desmoronando. Mi estava me esperando. Ele estava! Ele prometeu! Pela minha cabeça flamejante vários flashs passaram rapidamente, eu vi sangue, dor, sofrimento, a visão do inferno, pareciam chamas me queimando até a alma, como eu poderia sair daquela prisão? Mi iria segurar minha mão e me tirar daquela foça. Onde você está agora?
5 ANOS ATRÁS
— Eu não vou mais deixar você sair. Não espero que me entenda, mas eu também não me entendo. – Peguei aquela lâmina fria e afiada e apontei para o rosto assustado daquela cadela vagabunda. Ela tremia como da outra vez, sempre covarde, querendo pegar o que é dos outros.
— Mas que droga é essa? Livia? Ficou louca? – Michel entrou na sala de Jaqueline, ela estava chorando depois de tomar dois socos na boca, jogada no chão com sangue escorrendo do seu nariz, eu tremia segurando a faca mas minha raiva era tanta que continuava firme.
— Ela só quer me tirar de você! Não tá vendo isso, não tá enxergando porra? – Apontei a faca para Michel.
— Você é louca! Doente mental, solta essa faca! – Michel havia gritado comigo. Seus olhos pareciam de alguém com raiva, não... não era isso. Seus olhos pareciam de alguém com rancor. Alguém que se pudesse, assassinaria uma pessoa. Eu vi pela primeira vez aquela expressão que me fez, sem pensar, cravar a faca em seu peito até ir com o mesmo até a parede da sala, quando senti o seu sangue frio escorrer por minhas mãos soltei a faca e olhei em seus olhos, ele estava com a boca aberta tentando respirar. Aquela vaca começou a gritar mesmo ainda jogada no chão.
— Mi, tá tudo bem, desculpa! – Olhei para Michel que também havia caído no chão com os olhos abertos, ele não movimentava mais seu corpo.
— Socorroooooooo! – A desgraçada não parava de gritar e se debater, aquilo me irritava demais, mas eu só queria que Michel me respondesse.
— Michel, não me ignora. – Me ajoelhei e comecei a balançar os ombros de Michel, os meus joelhos sentiram o sangue que escorria por todo piso de madeira daquela sala.
— Para sua doente, sai daqui, sai daqui! – Jaqueline chorava, gritava, soluçava, digno de uma biscate sem pudor.
— Cala a boca puta! Michel, sabe que não gosto que me ignore assim! – Eu segurei o rosto do mesmo manchando-o com o sangue que havia em minhas mãos, seus olhos verdes abertos pareciam de alguém que já não queria me responder. Ele não podia me ignorar, não podia me deixar assim. Eu era especial para ele, era única.
— Não dê ouvidos pra essa puta, por favor Mi, eu te amo mais do que tudo. – Abracei o rapaz e senti o cabo da faca em minha barriga. Olhei para o corpo dele e sua camiseta azul estava roxa manchada com o sangue que escorria do seu peitoral.
— Malditaaaa! – Jaqueline se levantou e foi até mim com a cadeira, ela arremessou contra o meu corpo, senti uma pancada na cabeça mas logo me levantei, peguei a mesma cadeira e pegando impulso com a mesma, bati contra sua cabeça, ela caiu no chão com um buraco na testa. Agora ela ficaria calada. Soltei a cadeira e voltei a abraçar Michel, comecei a beijar seus lábios, mas o mesmo não correspondia. Ele estava me deixando? Havia me trocado por essa puta? Não, ele não podia. Não mesmo.
— Então, você ficará comigo Liv? – Por que ela me chamava de maneira tão formal? Por que essa garota que me salvou várias vezes, mesmo diante daquela situação, da minha fúria e insanidade aparente, ela me abraçava de maneira calorosa, ela me tocava como se eu ainda fosse humano, por que eu tinha que me apegar a alguém mais? Para ser destruída novamente? Eu não passava de uma psicopata que matou a pessoa que mais amava. Agora eu podia ver, Michel estava morto. Eu dei uma facada em seu tórax. Não é que não me lembrava, eu apenas não queria me lembrar, eu tinha assassinado ele e depois o beijado, eu neguei por muito tempo tudo isso, Jaqueline havia tentado se suicidar depois daquilo mas infelizmente a garota ficou com sequelas e não conseguiu a morte que esperava, eu fui inocentada, dei um depoimento em que havia dito que Michel havia me atacado junto de Jaqueline, devido a sua impossibilidade de falar, ela não pôde negar isso, mesmo com as minhas digitais na faca, também havia da Jaqueline depois que ela tentou desesperadamente salvar Michel ao me derrubar. Tudo em vão. Naquele momento eu havia destruído nossas vidas, eu havia jogado tudo fora por um amor que nunca fora correspondido. Michel dormiu várias vezes com aquela mulher, só de pensar nisso, mesmo agora, anos depois, eu sentia nojo e ânsia, podia dizer para mim mesmo que eu não me arrependia do que havia feito, era melhor ter ele morto do que nos braços de outra pessoa.
— Não me abandone Liss, eu estou sozinha demais... – Comecei a chorar com o único olho que me restava. Ouvia ao fundo lobos uivando e um vento frio surgindo pelas copas daqueles pinheiros misturados com árvores bege que não reconhecia, eu ouvia o som de passos de aproximando, mas estar com Liss era um conforto, mesmo diante da aparente morte que me perseguia todos os minutos naquele mundo caótico.
— Então me ajude, precisamos sair daqui. – Liss segurou em meu rosto com suas duas mãos e limpou minhas lágrimas. Senti um calor no peito que não havia sentido desde o dia em que conheci Michel. O que era aquilo? Eu sabia já, era amor. Afeto. Carinho. Gratidão. Liss era minha heroína, ela me conquistou, não queria me separar dela, por mais que Michel não estava me esperando, se eu tivesse pelo menos alguém...
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