Wildland: Return to Zero
3 Capítulo 02 - Refúgio
"Optimus maximus portus concipiunt daemonium"
O que diabos era aquilo tudo? Por que eu tinha que passar por isso? Não pensei que algum dia veria alguém assassinado em minha frente, e não obstante, já eram duas pessoas! A visão que tinha das criaturas era quase uma confirmação que estava no inferno, só podia ser isso, não consegui achar outra maneira de explicar o que estava acontecendo. Eu tinha que pensar em alguma coisa, ficar ali parada seria morte certa, foi então que lembrei da maneira rápida como me movi seguindo as instruções da garota loura. Olhei rapidamente para ela que se encontrava trêmula olhando para a horda de monstros.
— Só corre agora, faz o que tinha feito antes. – Ela pareceu recobrar a compostura quando viu que eu a encarava, o adolescente e a mulher que estavam lá também começaram a correr na direção oposta às da criatura. Entramos novamente na floresta densa, eu acabei nem vendo onde os outros estavam indo, só ouvia a voz da garota loura e tentava segui-la, vi que algumas flechas estavam caindo sobre as árvores, se eu fosse atingida, era o fim, levei o meu pulso em direção à boca e repeti o comando anterior.
— ‘Boost’. – Eu senti meus pés mais leves, minha velocidade havia aumentado gradativamente, comecei até a saltar uns galhos com precisão, foi então que percebi que havíamos entrado em uma área aberta cheia de roxas cinzas ao redor com uma trilha que dava para uma aparente estrada de terra, a mulher e o adolescente também haviam chegado lá, e este, parecia bem tranquilo mesmo nessa situação.
— Pensar que teria três mulheres aqui, o gênero masculino realmente tá decepcionando! – Me espantei com a reação do garoto, ele estava calmo demais, talvez também já estivesse lá antes (?) Por outro lado, a mulher de meia idade estava visivelmente chocada e sem fôlego, percebi que ela mal conseguia ficar em pé. De longe eu conseguia ouvir o som dos passos se aproximando, era óbvio que estávamos sendo perseguidos por aquelas coisas.
— O que é aquilo? O que é isso tudo? – A mulher começou a gritar tentando recuperar a respiração, a garota loura olhou rapidamente para todos os lados e apontou para uma direção que parecia ser de uma colina subindo as rochas cinzentas.
— Vamo pra lá. Não dá pra parar! – Ela pareceu dar outro comando em sua pulseira, deu um salto sobre-humano e parou em cima de um rochedo médio, eu tentei falar ‘boost’ na pulseira mais uma vez, mas não havia funcionado, ignorei e tentei segui-la subindo aquele caminho de pedregulhos, os outros dois também foram atrás, mas eu já havia percebido grunhidos estranhos saindo da floresta.
— Eles tão aqui, vai dar não. – O garoto sorriu enquanto disse isso, eu estava nervosa demais para dar atenção às palavras e nem queria olhar para trás, apenas tentava seguir a menina que parecia já estar no topo, ela me esperava enquanto olhava o horizonte.
— O que são eles? Demônios? – Quando cheguei ao topo daquela mini colina, toda suada e com as pernas moles, questionei a garota que me olhou com seriedade. – Eles são goblins, você não reconhece? Bom, pela sua aparência acho que é natural que não. – Olhei para frente e vi que havia um caminho que se assemelhava a um desfiladeiro retilíneo com gramínea verde, haviam espaços entre pequenas rochas altas que podíamos usar para nos esconder, mas creio que não seria o suficiente para escapar.
— Vocês, se escondam em algum lugar ali, eu vou dar um jeito pra atrasá-los. – A garota loura parecia confiante em suas palavras, segurei a mão da mulher de meia idade que parecia que desmaiaria a qualquer momento e fui atrás de uma das pedras, queria correr mas não queria me separar da garota, ela tirou um livro da bolsa que carregava, ele tinha uma capa roxa e alguns detalhes em dourado, parecia emitir um brilho peculiar, ela abriu e foleou algumas páginas, tudo de maneira calma, então olhou pra frente e abriu sua boca emitindo algumas palavras que não entendi. Nesse momento ouvi um estrondo, a terra começou a se mover e o local onde a garota loura estava subiu como se fosse mágica, ao mesmo tempo, as rochas que estavam na parte de baixo desmoronaram, eu ouvi sons de gritos bem altos e alguns gemidos de dor, provavelmente ela havia atingido as criaturas.
— A muié é braba mesmo. – O adolescente fez uma expressão como se estivesse se divertindo, a garota deu um salto e parou na frente de onde estávamos.
— Acho que ganhamos um tempo, vamo pra aquele lado. – Ela apontou uma direção que tinha uma trilha de terra vermelha, parecia sair em outra floresta com várias árvores secas. Seguimos sem pensar, atravessamos a floresta em poucos minutos, não conseguia mais ouvir o som das criaturas ou qualquer outro barulho, paramos em um local onde observei de longe uma fortaleza enorme, aquele mundo já começava a não ter mais nada em comum com o mundo de onde vim, só o fato de lidar com aqueles demônios era a prova derradeira.
— Agora será que dá pra explicar o que foi tudo isso? Meu Deus! – A mulher de meia idade parecia menos apática mas estava nervosa e tremendo, eu tentei ficar calma mas meu coração parecia querer sair pela boca.
— Bom, vocês já viram né? Tem coisas bem perigosas aqui, estamos perto de um lugar seguro aqui, a gente precisa ir pra lá, goblins são persistentes. – A garota apontou para o caminho retilíneo logo à frente, ele parecia levar até a fortaleza.
— Tá, mas como vim parar aqui? Por que eu? – A mulher gritava enquanto parecia ter uma crise de ansiedade e descontrole, de alguma forma eu mantinha a calma, me senti mais segura depois de ver que aquela garota loura tinha certos poderes.
— Não dá tempo pra isso, vamos até o castelo.
— Então vamos conhecer algum castelo? Eu to fora. – O adolescente virou o rosto e começou a andar para noroeste sem se preocupar conosco.
— Você tá maluco? Os goblins podem te farejar!
— Nah, to bem, eu prefiro me virar sozinho, e quem confiaria em um castelo em um território aparentemente hostil? Não tem nada por aqui pelo que vi, se fosse uma cidade até ok, mas meu lema é não confiar em ninguém, então to passando. – O menino tinha algum problema, naquela situação, duvido que a maioria das pessoas se separariam, mas ele pareceu nem querer ouvir a garota e quando percebi, já tinha desaparecido no meio dos rochedos.
— Eu não posso fazer nada né. – A garota olhou para mim e apontou com os olhos o caminho da frente, precisávamos seguir em frente.
A caminhada não foi tão longa, na trajetória, me deparei com algumas criaturas voando pelo céu alaranjado do local, não conseguia saber que horas eram, aquele aparato que eu tinha no pulso só mostrava um número com HP em cima e MP em baixo, além de ‘nível’ e alguns símbolos que não entendi no canto superior direito, queria pedir pra moça nos explicar aquilo mas a urgência no momento era chegar até um local seguro, por isso, aceleramos o passo o máximo que podíamos e chegamos no portão de um enorme castelo de pedras bem polidas, parecia uma arquitetura rústica e bem antiga, mas seu portão era revestido de metal negro com detalhes em chumbo, haviam oito camadas de madeira no meio, nas laterais, dois guardas o protegiam com armaduras douradas que pareciam ter saído de um filme, ambos pareciam estátuas imóveis, mas quando a garota se aproximou eles pareceram a reconhecer e imediatamente abriram o portão que fez um estrondo grave enquanto nos mostrava a breve visão da parte de dentro. Ao entrar, me deparei com uma estrutura enorme que parecia de mogno fazendo várias colunas que sustentavam paredes criando corredores para quatro direções distintas, no meio, havia uma fonte bem grande com a estátua do que parecia ser uma mulher nua com dois chifres e asas, muito bela por sinal, aquilo realmente me assustou, a garota parou de andar e se virou enquanto um homem com roupas brancas – parecendo ser uma túnica — se aproximava de um portão que ficará metros atrás daquela fonte.
— Escutem, aqui é seguro mas não vamos poder ficar muito, só essa noite, eu tenho meio que uma condição pra ficar aqui, mas eles não permitem muitos ‘estrangeiros’, então tentem não falar muita coisa, falem que vocês são duas aldeãs que fugiram de um ataque dos goblins da fila de Milya. – Não entendi muito bem o que a garota quis dizer mas sabia que tínhamos que seguir o que ela mandava. A mulher ainda parecia nervosa, ela tremia enquanto batia os dentes, aquilo estava me irritando.
— Liss! Não vinha aqui há mais de dois meses, o que a traz com duas visitas? – O homem de túnica branca e aparência bem magra aparentando ter por volta dos 50 anos, se aproximou com uma expressão bem amigável como a de um senhor gentil atendente de alguma vendinha do interior. Distante dele haviam dois guardas com as mesmas armaduras dos que estavam na porta de entrada, aparentemente não haviam muitas pessoas dentro daquela fortaleza, vi algumas mulheres com roupas simples carregando alguns cestos, outros homens com livros nas mãos subindo umas escadas, nos corredores vi outros quatro guardas idênticos e perto da fonte, havia um homem com armaduras mas sem o seu elmo, apenas com uma espada enorme nas costas, cabelos longos e uma expressão de poucos amigos que nos encarou com desdém.
— Elas estavam na vila de Milya, foram todos mortos, um garotinho conseguiu sair mas ele não quis vir, deve ter sido comido pelos goblins já. – A garota parecia mentir de maneira natural, eu comecei a ficar com mais medo do que estava quando a realidade batia novamente na porta.
— Não podemos então recusar hospitalidade. Mas amanhã teremos aquela reunião, talvez dê apenas para passar a noite.
— Sem problemas Lorde Kiriel, amanhã iremos para Donava sem demorar, acho que os goblins podem estar nos sondando agora, se o senhor puder mandar o Castiel pra dar uma olhada rápida, acho que ele limparia os arredores.
— Mas quê? Não to trabalhando mais hoje não branquinha. – O rapaz mau encarado que estava sentado na beirada da fonte se levantou e parecia bem nervoso ao se aproximar de nós, eu e a mulher estávamos atrás da garota ainda sem saber como agir.
— Acho que você abriria uma exceção, em nome dos parentes das duas moças que estão aqui certo? – O senhor de túnica olhou para o rapaz e em questão de segundos ele mudou sua postura.
— Como desejar lorde Kiriel, irei limpar todos os goblins da região.
— E-espera, era uma hora, tem certeza? – Eu tive que me intrometer, não sei a que ponto a garota pretendia mentir, mas era perigoso demais deixar um homem sozinho ir de encontro a todas aquelas criaturas.
— Essa daí não sabe nada da companhia? Deve ser uma caipira. – O homem riu de canto e pareceu me desprezar.
— Ele é forte, pode deixar, esse aí já deve ter matado uns 10 mil goblins já. – O rapaz de nariz empinado parecia uma criança orgulhosa de algum feito idiota, mas no caso, aquilo parecia bem impressionante.
— Contamos com você então, as senhoras querem me acompanhar por favor? Irei leva-las a um aposento onde poderão tomar um banho, se trocarem e depois irei pedir para servir o dejejum, por favor, entenda que não temos muitos pratos aqui mas é o suficiente para matar a fome. – Aquele que era chamado de lorde Kiriel parecia ser uma pessoa bem polida e educada, talvez fosse realmente um lorde. Me senti mais tranquila naquele momento e vi que a mulher ao meu lado também conseguia respirar direito, fomos guiadas até um quarto enorme, parecia um quarto de castelo, com detalhes feito a mão, uma penteadeira de madeira envernizada, duas camas de solteiro com lençóis cheios de detalhes bordados, um tapete muito fino que até fiquei com dó de pisar, além de cortinas muito pesadas nas janelas, era um lugar bem frio, como todos os corredores que andamos para chegar até ali.
— Eu chamo vocês pra comerem tá? Tentem tomar um banho e descansar um pouco, acho que tem muita coisa que explicar, mas prometo que faço isso depois ok? Descansem. – A garota loura, enquanto sorria, fechou a porta e nos deixou a sós, a mulher se sentou na cama e se jogou de costas, ela olhava para aquele teto de madeira sem expressão.
— Estamos mortas?
— Eu queria pensar que sim, mas eu ainda sinto a dor dos ralados que tenho, digo, pode ser o inferno, o purgatório, já nem sei mais, mas estamos seguras, vamos tentar descansar, eu ainda sinto meu coração batendo rápido. – Eu realmente parecia que iria enfartar, fui até o banheiro e vi que ele tinha uma banheira de gesso enorme e luxuosa, a garota loura havia deixado uma muda de roupa para nós duas, pedi licença para a mulher, nada me faria relaxar mais do que um banho quente. Fechei a porta e depois que a banheira estava cheia, mergulhei sem pensar. A mulher começou a falar novamente.
— Onde você morava? É Italiana também? – Eu me questionei internamente, pois, claramente a mulher falava a minha língua, assim como todos ali. Será que era o Brasil? Não, a loura não parecia nada brasileira, nem esse lugar nem as pessoas daqui. Eu não podia entender bem como funcionava aquele mundo, olhei para o ‘relógio’ novamente em meu pulso e ele emitia a luz azul em neon com HP: 120, MP: 60, Level: 2, eu não entendia tanto de jogos mas sabia que HP era vida, e MP devia ser algo como resistência, e o level era minha força talvez? De toda forma, eu vi que antes meu HP estava no 98, então acho que descansando eu havia recuperado.
— Sou brasileira, você é italiana?
— Mas como assim? Você tá falando italiano comigo.
— Bom, eu digo o mesmo, você tá falando português claramente.
— Que merda hein? Isso não é uma loucura. Acho que é por ter judiado da minha mãe que parei aqui, estamos em um castigo. Um castigo! – A mulher parecia ter aumentado seu tom de voz e ficado novamente nervosa, eu entendia bem, vários daqueles pensamentos passavam por minha cabeça, mas não queria pensar em nada preocupante no momento.
— Talvez... talvez seja isso, mas se for, ainda vamos sofrer mais né? – Eu disse aquilo logo em seguida já pensei merda, acho que não tinha como não ser pessimista, afinal.
— Quero só morrer em paz, é pedir muito?
— Aparentemente não morremos?
— Mas eu queria descansar, pensei que ao morrer iriamos ficar dormindo, nunca acreditei em nada do tipo sabe. – A mulher falava enquanto ouvia sua voz bem fraca por trás da porta de madeira do banheiro, comecei a sentir pena da mesma, acho que todos nessa situação ficariam meio loucos, mas porque eu estou... normal? O tempo havia se passado muito rápido enquanto eu estava naquela banheira, a água estava bem morna, havia uma pequena janela nos fundos que me fazia enxergar o céu daquele lugar, já havia chegado a noite, aparentemente, aquilo ao menos era igual ao nosso mundo, estava ansiosa para saber onde estávamos, mas depois de todo sufoco que passei, não queria mais receber nenhuma informação chocante e que me fizesse ficar ansiosa, pelo menos, naquele momento. Percebi que a mulher havia parado de falar, talvez tivesse dormido. Me troquei e voltei para o quarto, ela estava largada na cama, tanta pressão psicológica e tudo aquilo realmente esgotaria qualquer um, meus olhos também começaram a ficar pesados, não se ouvia muito barulho naquele corredor que estávamos, eu tinha a sensação de estar em um hotel, ouvia apenas som de grilos e algumas pessoas conversando na parte de baixo (aparentemente aquilo era o segundo andar), aproveitei o silêncio e me deitei, olhei para cima enquanto respirava fundo tentando me lembrar o que havia acontecido antes de ter chegado naquele lugar.
— Você tá acordada? – Ouvi a voz da mulher ressoar pelo silêncio do quarto.
— E acha que eu conseguiria dormir?
— Bom, apaguei aqui, será que vamos voltar para casa?
— Eu não sei mais de nada. Só quero explicações logo.
— Se isso for o purgatório, acha que fizemos coisas ruins antes de vir pra cá? Eu não fui uma boa mãe nem uma boa filha, talvez o inferno seja meu lugar.
— Não é você que decide isso, se existe um Deus ele irá julgar, mas só pelo fato de ainda estarmos vivas quer dizer que acho que isso é uma chance.
— Tem razão, acho que pode ser uma luz no fim do túnel né? – Mesmo diante dessa afirmação, eu sentia que aquele lugar necessariamente não traria nada bom. Não existiria no mundo real um mundo onde criaturas como aquelas estariam presente, eu finalmente comecei a tentar pensar nas coisas de maneira racional, tentando ligar todos os pontos que tinha deixado passar até o momento.
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