Wiedergeboren
1 Fim
Era tarde da noite e o vento soprava calmo do lado de fora, frio e solitário. Era a última noite de Inverno. O dia seguinte logo traria a Primavera… Ah, como ele amava a Primavera. O calor gostoso dos raios de sol aqueciam-lhe a pele alva e a brisa vinha balançar seus alvos cabelos rebeldes. Entretanto, a melhor parte era poder passar mais tempo ao lado dela; poder enroscar seus longos dedos magros em seu cabelo castanho; poder olhar na infinitude daqueles dois lindos olhos olivina; poder distribuir beijos sobre aquela linda pele morena; e poder murmurar palavras românticas ao seu ouvido.
Naquela noite, o albino andou pelas ruas desoladas daquele bairro que conhecia tão bem. Procurou a casa verde-claro no fim da rua e girou a maçaneta de sua porta, que obviamente não fora trancada. Olhou ao seu redor, já dentro da casa, tocou o braço da poltrona em que costumava sentar-se. Viu os retratos dos dois sobre a mesinha simples, ao lado da lareira. Sorriu ao lembrar-se dos velhos dias. Nada havia mudado naquele lugar. As lembranças continuavam a inundar sua memória, numa onda de pensamentos e emoções.
Quando olhou para o buquê de flores que segurava em uma das mãos, lembrou-se o porquê daquela visita. Subiu as escadas silenciosamente e, no total breu, tateou pelas paredes até achar o quarto. Girou a maçaneta com cuidado e entrou.
O quarto continuava o mesmo também. A mesma cama de casal, o mesmo guarda-roupa, a mesma mesinha ao lado da cama. Suspirou, depositou o buquê de flores azuis sobre a mesa e sentou-se na cama, onde dormia a mulher que amava.
De leve, acariciou aquelas longas madeixas chocolate e passou o dorso da mão no rosto da moça. Inclinou-se em direção a ela e passou os lábios em seus olhos fechados, beijando-os com extrema delicadeza. Voltou sua atenção à sua boca. Como amava aqueles lábios… Doces e carnudos, que convidavam os seus para se encontrarem em uma dança lenta e sensual. Lábios que ele conhecia bem. Com o reencontro destes, viu a expressão no rosto da jovem mulher relaxar, sentindo-a corresponder ao beijo. Desceu lentamente ao pescoço e ali sugou a pele tenra.
Afastou-se da figura adormecida e sentou-se novamente. Passou os dedos de leve nas curvas acentuadas da moça e suspirou. Olhou pela janela e viu o quarto ser iluminado pela lua cheia, que alcançava seu ápice no céu sem estrelas. Aquela noite ainda se repetia em sua memória. Começara com um jantar romântico à luz das velas e depois foram ao quarto, onde trocaram carícias e declarações um ao outro e onde dormiram juntos com apenas o lençol a esconder as evidências de um ritual proibido que acontecera sob a luz daquela mesma lua que contemplava.
levantou-se, pegou o buquê de flores que depositara na mesa e deixou-o na cama, no lugar onde costumava dormir: Ao lado dela. Suspirou novamente e murmurou:
– Queria que tudo tivesse sido diferente.
Contemplou o rosto da amada uma última vez, beijou-lhe a testa e foi-se embora.
Na cama, a moça abriu os olhos lentamente com algumas lágrimas quentes lavando-as, e murmurou para o silêncio do quarto:
– Eu também, Gilbert.
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