Wiedergeboren
2 Recomeço
Eram nove horas da manhã quando Erzsébet dirigia pelas ruas da cidade. O trânsito estava insuportável e, por isso, decidiu ir andando até lá. Estacionou o carro e saiu, pegando o buquê de flores azuis no banco de trás. Trancou o carro e iniciou seu trajeto.
Andando pela calçada, passou pelo bar. Não era um bar qualquer, mas aquele ao qual costumavam ir para beber juntos. Lembrou-se dos velhos dias em que bebiam como amigos ainda.
Passou também por aquele velho parque de diversões, onde teria ganho aquele enorme urso de pelúcia dele naquela noite de Ano Novo, à luz dos fogos. Sorriu tristemente ao lembrar-se do rosto corado do rapaz e de vê-lo sorrir sem jeito. Ela teria o abraçado e dito que adorara o presente, dando-lhe um beijinho brincalhão em suas bochechas vermelhas.
Decidiu cortar caminho caminho pelo parque, no centro da cidade. Sentou-se por um tempo no banco, logo embaixo da grande macieira no ponto mais alto do parque… Onde ele teria confessado os sentimentos que sempre sentira por ela; onde beijaram-se pela primeira vez e prometeram amarem-se, não importasse o que acontecesse. Suspirou.
Levantou-se e saiu do parque, retomando a caminhada. E quando passou em frente àquele restaurante, sentiu um aperto no peito. Brigaram feio naquele dia. Ele sempre fora impulsivo, mas aquilo era inaceitável. Ele levantou-se da cadeira de supetão.
"Se não tem como me amar mais, então não vejo um porquê para continuar essa palhaçada que você chama de Amor."
Ela ouve sua própria voz gritando ao albino.
"Então saia da minha frente e morra!"
Erzsébet, por sua vez, nunca fora impulsiva. Então, quando suas palavras alcançaram os ouvidos do homem à sua frente, este permaneceu imóvel com olhos surpresos. Cerrou os dentes e os punhos. Suspirou e, com a voz firme, disse:
"Só me esqueça. Finja que tudo isso foi mentira. Que tudo o que eu fiz por você foi por puro amor."
Gilbert deu meia volta e saiu do restaurante, marchando sobre a calçada. Ódio era a única coisa que permeava seus pensamentos. Pensava em esganá-la, destruí-la, matá-la… Mas apenas deixou-a para trás em prantos.
O cantar dos passarinhos interromperam o progresso daquela memória. A mulher já chegava ao seu destino. Passou pelos altos portões de ferro, caminhou por aquelas infinitas fileiras de túmulos até encontrar o de número 1801.
Cabisbaixa, lembrou-se de do dia em que viu no noticiário o acidente que viria a deixá-lo num estado gravíssimo de saúde. Gilbert estava bêbado quando voltava para casa e fora pego de surpresa por um carro em alta velocidade. Era madrugada, mas, mesmo assim, ela se vestiu e foi correndo para o hospital.
Os médicos não deixaram-na vê-lo no momento. Estava em uma cirurgia urgente para tentar reduzir os danos. Não vendo outra opção, dormiu sentada na sala de espera. No dia seguinte, fora acordada por uma enfermeira que perguntara o que Erzsébet era do internado. Após ter respondido que era sua ex-namorada, a moça logo apressou-se em deixá-la entrar. Dissera que Gilbert não tinha muito tempo.
A morena entrou no quarto e deparou-se com o rapaz muito ferido, pela quantidade de aparelhos e tubos a ele ligados. Ela levou a mão à frente da boca, horrorizada. Aproximou-se devagar do albino e sentou-se ao lado de sua maca.
O médico explicara-lhe que o impacto fora demasiado forte, prendendo-o entre as ferragens e o poste contra o qual colidiram. Mas ela só conseguia prestar atenção no homem que tentava respirar à sua frente. Seus olhos estavam fechados, contraindo-se em dor por vezes. E era tudo culpa dela.
Seu coração estava tão despedaçado quanto o corpo do próprio Gilbert. Porque ela sabia que poderia ter evitado o acidente se tivesse medido suas palavras no mês anterior ao do acidente. Com os olhos encharcados, ajoelhou-se no chão e encostou a cabeça maca. Se soubesse que aquilo tivesse afetado Gilbert daquela maneira, se soubesse que o acidente aconteceria por consequência daquela briga…
De repente, sentira uma mão fria segurar a sua. Ela ergueu a cabeça, desejando vê-lo confortá-la com os próprios olhos, mesmo que não tivesse a coragem para enfrentá-lo depois do que lhe fizera. Ela esperou olhos furiosos acusando-a de assassiná-lo, mas apenas encontrou os mesmos olhos indecifráveis do albino que amara. Que ainda amava.
E ela se desculpava inúmeras e inúmeras vezes, segurando-se em sua mão débil e inerte. Mas ele apenas sorriu por debaixo da máscara do inalador. E se desculpou também. Murmurou-lhe que a culpa era somente a dele por fazê-la culpar-se pelas coisas que aconteciam.
"Perdão, Erzsi."
Erzsébet depositou o buquê de flores sobre o túmulo. Toda vez que olhava para as centáureas azuis – que agora decoravam o sepulcro 1801 – lembrava-se dele. Afinal, eram as favoritas do alemão.
O alemão que, mesmo sentindo a morte cada vez mais perto, sorria, fazendo-a sorrir também (mesmo que timidamente). Ergueu a mão com dificuldades, procurando tocá-la em sua face.
"Não importa quanto tempo se passe, não sei se conseguirei amar ninguém além de você. Vou te guardar pra sempre."
E, pela primeira vez naquela manhã, o albino permitiu-se derramar algumas lágrimas.
"Não queria que você morresse quando eu disse aquilo."
"Há coisas… que não podemos escolher. Mas eu escolhi te amar até o fim."
Vendo-o respirar com cada vez mais dificuldade, a húngara abraçou-o com delicadeza no início, mas, sentindo os braços dele se enfraquecerem ao seu redor, aumentou a intensidade no gesto, como se pudesse segurá-lo e não deixá-lo ir. Ele, por sua vez, utilizou suas últimas forças para segurá-la também. A força foi diminuindo até seus braços ficarem inertes.
E, naquela maca, naquele quarto, naquele momento, mais um pássaro voara em direção ao horizonte. Ali, embalado pela única nota que compunha o seu réquiem, adormeceu Gilbert Beilschmidt. Erzsébet beijou-lhe os olhos fechados do sonhador que fora seu amado e passou a mão sobre seu cabelo pela última vez.
No cemitério, a moça olhou para o céu, onde viu um pássaro voar perto do sol. Um pássaro teimoso, que voava cada vez mais alto até tornar-se um ponto no azul do céu do primeiro dia de Primavera.
Sobre o túmulo do rapaz, a copa de uma árvore balançava conforme ditava o vento. Uma flor tímida caíra sobre suas mãos, fazendo-a lembrar-se de que dia era aquele. O dia do recomeço de um ciclo; a Primavera era um renascimento, a estação do renascer da Vida. Tudo se renova, renasce. E retorna.
"Obrigada por caminhar ao meu lado, Gilbert."
E que há de retornar.
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