Wicked

2 I - we took a wrong turn and fell down a rabbit hole


Notas iniciais
Espero que gostem. Boa leitura!

flashing lights and we

took a wrong turn and we

fell down a rabbit hole

(luzes piscantes e nós

viramos no lugar errado e nós

caímos na toca do coelho)

Wonderland — Taylor Swift

Antes.

Gwen virou a página do grande livro antigo e bufou, cruzando as pernas embaixo da mesa onde estava sentada, apoiando seus cotovelos na superfície de madeira e então segurando seu rosto com as mãos, frustrada.

Seu gato apareceu de repente, ronronando e roçando contra a sua perna, como se quisesse dizer algo.

— Ei, Lúcifer, garoto… — suspirou, alcançando seu gato embaixo da mesa com uma mão e coçando-o atrás da orelha. O felino fechou os olhos em deleite. — É claro que eu tinha que não ter pego toda a coleção de livros sobre vampiros, não é mesmo? Incrivelmente, no único livro que consegui surrupiar não tem nem uma seção sobre a porcaria dos olhos dourados!

Lúcifer a olhou com um olhar julgador e Gwen revirou os olhos, parando com a carícia. Quem diria que um gato pudesse ter tanta personalidade, não é mesmo?

— Não olhe pra mim assim — proferiu, então voltou a acariciar atrás das orelhas do gato, pensativa. — A culpa não é minha.

A verdade era que, se Gwendoline pensava que a culpa era de alguém, esses provavelmente eram os bruxos anciãos do seu coven. Eram estúpidos, estúpidos bruxos prepotentes, narigudos e machistas, que nunca a confiavam missões realmente importantes e relevantes, mesmo que ela já estivesse prestes a fazer vinte e dois anos — e todos os bruxos homens da sua idade, do coven de Salém, já estivessem sendo confiados com missões importantes e tendo o mais alto treinamento há pelo menos três anos.

Naquele coven, sempre haveria um cara que fosse conseguir concluir uma missão qualquer de melhor forma do que ela, e por isso a mulher andava recebendo designações péssimas fazia meses. Eles existiam para proteger o mundo de eventuais monstruosidades — identificando-os, caçando-os e matando-os —, mas Gwen não sentia nem o cheirinho de uma ação fazia meses, cumprindo tarefas cada vez mais tediosas e sem saber qual era o seu verdadeiro lugar no mundo. Havia passado algum tempo desde que sentira a adrenalina da caçada correr nas suas veias pela última vez, e sentia falta demais de se sentir viva assim

Por isso, havia colocado algumas mudas de roupas numa mala, surrupiado livros e dinheiro do seu coven, para então partir de lá sem olhar para trás, com o objetivo firme de seguir algumas pistas que havia encontrado sobre, àquela altura, possíveis vampiros na cidade de Belfast, no estado do Maine.

O seu objetivo quando fugiu do seu coven era mais ou menos claro: identificaria sozinha se a família de possíveis vampiros era perigosa e então… Bom, não havia pensado até esse ponto ainda, mas tinha certeza que na hora saberia o que fazer. Só havia uma coisa que realmente importava: voltar para o seu coven como uma bruxa prestigiada, que era tão boa quanto qualquer outro bruxo da sua idade.

Gwen tinha vontade de sobra de se provar para aqueles velhos.

Contudo, já fazia três meses que estava naquela cidade e até então não havia coletado muitas informações sobre os suspeitos. Sabia de poucas coisas, que havia descoberto praticamente apenas observado-os de longe e usando alguns feitiços simples para que os humanos contassem tudo o que soubessem, sem que se lembrassem disso depois.

Um: eles eram, de fato, vampiros. Não havia dúvida uma vez que se encarasse a estranha e graciosa beleza arrebatadora e os círculos roxos embaixo de olhos tão singulares — nunca tinha visto vampiros com aqueles olhos antes.

Dois: aparentemente, eles viviam muito bem entre os humanos, o que dava muitos nós na cabeça de Gwen, que até então nunca soubera que isso era possível. Nunca havia tido nenhuma lição sobre isso com os bruxos mais velhos, e os livros tampouco comentavam sobre. Havia algo de muito estranho sobre eles, só que ela ainda não havia conseguido descobrir exatamente o que era.

Três: a família Cullen, como havia descoberto que se chamavam no seu tempo de estudo sobre eles, tinha dez integrantes. Oito adolescentes, que supostamente haviam sido adotados pelos dois “adultos”: Carlisle e Esme Cullen. O mais estranho de todo esse cenário, e o que mais perturbava Gwen profundamente, era que a garota mais nova, Renesmee e o cara grandão e bronzeado — Jacob, que Gwendoline achava particularmente assustador, sendo o segundo maior do grupo — aparentemente, eram humanos.

Bom, aparentemente não, pois não restavam dúvidas: eles definitivamente eram humanos. O garoto, Jacob, com certeza era humano, sua pele avermelhada e bronzeada não deixava nenhuma pergunta para trás... Já Renesmee, bem, era delicado, porque ela era tão graciosa e branca quanto os seus parentes, porém corava, e vampiros não coravam, certo?

Então Gwen havia passado algumas noites em claro, preocupada, sem saber em que tipo de esquema maligno, e vampírico, os dois humanos estavam metidos. Ela se perguntava se os Cullen espetavam agulhas nos dois, numa sinistra doação de sangue que talvez não fosse voluntária… Ou seria voluntária? Também não sabia dizer.

O que a levava de volta para os olhos dos Cullen, que não tinham olhos vermelhos. Não… Os olhos deles, com exceção dos dois humanos, sempre variavam em tons de ônix, topaz e dourado, lindos, mas quase horripilantes pela falta de naturalidade da cor. Não que Gwen se importasse muito com esse fato, ela mesma não era nenhum modelo de natural para ficar julgando.

Porém, o que olhos dourados significavam? Ela não tinha a mínima ideia, e tampouco achava essa informação no seu inútil livro de pesquisas. Até então só sabia que a natureza daqueles vampiros parecia a confundir de todas as maneiras, o que a deixava cada vez mais desconfiada e também a deixava incerta de como proceder.

Só que estava empacada na investigação fazia algum tempo: sabia que tinha que fazer algum movimento mais corajoso, mais ousado, se quisesse avançar e descobrir mais informações sobre a família. Informações que, aparentemente, só descobriria no coração daquele mistério todo, metendo-se direto no olho do furação, ou quem sabe até mesmo indo no covil dos vampiros.

— Bom, eu já sei o que vou fazer amanhã — disse, satisfeita, para o gato e empurrando o grande livro para longe, subitamente revigorada. Em algum lugar da pequena casa, o seu celular vibrou, mas ela não ligou, compenetrada no que faria no dia seguinte. O felino continuava a julgando, quase como se soubesse o que viria por aí: — Lúcifer, acho que está na hora de eu voltar para o ensino médio.

•⏪⏪ W. G ⏩

Era uma boa coisa que o dia que Gwen tinha escolhido para tomar o próximo passo na sua missão era muito frio. Era bom que fosse assim, porque seu estômago revirava cada vez mais a medida que se aproximava do campus do ensino médio da escola de Belfast, apertando suas mãos no volante do carro que havia magicamente “emprestado” e tentando controlar sua mente que pensava em absolutamente todas as coisas que podiam dar errado naquele momento.

A garota encostou o carro no estacionamento e respirou fundo, concentrando-se em apreciar a sensação do ar frio no seu rosto, para que se acalmasse, já que isso sempre funcionava. Hoje precisava estar no seu mais absoluto controle, porque tinha que segurar um feitiço um pouco complicado, para enganar os estudantes e fazê-los pensar que ela era uma colega que já estava estudando ali fazia algum tempo, assim se misturando e observando os Cullen com mais facilidade. Quem sabe conseguisse desvendar o enigma que cercava a família com os humanos?

Lembrou-se de Penny naquele momento, imaginando como seria se ela estivesse ali no banco da carona. Pennelope era sua melhor amiga, uma ótima bruxa, alguns anos mais velha… E certamente a xingaria horrores, dizendo que seu plano era um risco grande demais pra estar correndo sozinha daquele jeito, ainda mais sem a autorização do coven. Permitiu-se fechar os olhos por alguns minutos, controlando sua respiração e imaginando que, após xingá-la, Penny riria, diria que não havia ninguém tão irresponsável e impulsiva como ela, então daria um soquinho de brincadeira no seu ombro.

Uma vez que a ansiedade estava controlada, dignou-se a observar o ambiente em que se encontrava e momentaneamente agradeceu pela película escura do carro, porque, nos momentos que o seu pequeno surto havia a levado para outro lugar, o estacionamento havia enchido, e ela imaginava que estivesse quase na hora da primeira aula da manhã. Observou o céu: estava uma linda manhã nublada, esperava que continuasse assim.

Saiu do carro, trancou e rezou, para qualquer que fosse o deus que estivesse ouvindo, para que a polícia não aparecesse naquele colégio atrás do carro, e o dono continuasse pensando que a emprestou… Seria péssimo ir embora da escola de algemas, logo no primeiro dia que estava de volta no ensino médio.

— Ei, amiga, você sabe se tem alguma coisa para entregar hoje no primeiro período? — Gwen blefou para a primeira menina que passou por ela, segurando seu braço e impedindo-a de continuar andando. A garota, que não devia ter mais de 17 anos, a olhou com estranheza por um momento que pareceu durar anos para Gwen, então seus olhos ficaram desfocados por um segundo. Seus olhos voltaram a focar e ela sorriu para a bruxa, desconhecendo que a mulher que a interrogará sorria de volta apenas porque sabia que a magia estava funcionando.

— Não… — Ela estreitou os olhos ao responder, confusa. Parecia tentar buscar algo no fundo da sua mente. — Jules?

— Gwen — ajudou a bruxa, oferecendo um sorriso reconfortante e começando a andar ao lado da garota, que apressava os passos em direção a entrada da escola.

— Não. E sorte a sua, Gwen, porque estamos atrasadas e você não teria tempo de copiar de mim. — E, fácil assim, a estranha já havia sido confundida ao ponto de pensar que eram amigas.

Acontece que a garota, que descobrira se chamar Elizabeth, tinha mais de 17 anos. Na verdade, já estava quase fazendo 19, e Gwendoline aprendeu que ela era uma sênior* e, além disso, também uma pessoa muito amável, mas que não costumava pensar uma segunda vez nas coisas, o que fazia fácil com que continuasse desilusionada e confundida pelo feitiço da bruxa muito facilmente.

Gwen descobrira também muitas banalidades até o intervalo do lanche, perto do meio-dia. Havia acompanhado Elizabeth por várias classes e, em algum momento, de lugar nenhum, aparecera uma segunda garota para acompanhá-las, Ellis, que era surpreendentemente dada a fofoca, porém que também facilmente aceitou Gwen como uma parte do grupo, como se elas já se conhecessem há anos.

Aparentemente, no clube de natação havia um garoto, também sênior, que, com as palavras de Ellis, era muito gostoso e bronzeado, porém corriam boatos de que ele estava namorando escondido com uma garota mais nova do mesmo colégio. Quando Ellis disse o nome do garoto, Jacob Black — Cullen —, Gwen quase engasgou. Era o segundo cara maior dos Cullen e, bem, talvez ele fosse mesmo gostoso, contudo, aquela aparência cheia de músculos trincados deixava-o muito mais assustador do que atraente aos olhos da bruxa.

— O que há com os Cullen? — Gwen perguntou, ao se sentarem numa das poucas mesas vazias do refeitório, que estava cheio de estudantes e incrivelmente barulhento. A bruxa mexeu na comida da bandeja que tinha pego, tentando parecer ligeiramente desinteressada, como se houvesse perguntado aleatoriamente. Pelas janelas, podia ver que o dia havia ficado ensolarado, e alguns alunos até aproveitavam para tomar sol no gramado em frente ao refeitório. Bom, não haveria problema em fazer algum reconhecimento de campo naquele momento, certo? Os raios solares diretos provavelmente fariam com que a família não desse as caras naquele dia, então também não poderiam ouvi-la fazendo seus questionamentos com os seus ouvidos vampíricos ultra apurados…

— A maioria não vem nos dias ensolarados, eles costumam fazer atividades ao ar livre com o Dr. Cullen… Geralmente apenas Jacob e Renesmee vem — Ellis se voluntariou a responder, correndo os olhos pelo refeitório, como se procurasse por eles. Parecia não achar estranho que apenas os dois viessem em determinados dias, não ensolarados, do ano. — Renesmee é legal, no próximo período tenho educação física com ela. Jacob é ok também, eles são os únicos da família que socializam um pouco, os outros só conversam entre si.

Subitamente Gwen se sentiu mais acordada e voltou a sua atenção para Ellis, aquela era uma ótima informação. Não a parte sobre socializar, mas a parte sobre Renesmee… Um plano estava se formando na sua cabeça.

— Que coincidência — sorriu, dissimulada, mas divertida por dentro. Elizabeth levantou da mesa para falar com um grupo de amigos em outro lugar e Gwen não se opôs, porque ela não era mais necessária. Além disso, estava começando a achar engraçado como estava sendo fácil mentir e manter aquela máscara. Então, Gwen decidiu tomar um caminho mais fácil e rápido, que provavelmente a adiantaria muito na missão. Riscos, o que tinha a ver? Estava ficando impaciente. — Também tenho essa aula no próximo período, porque você não me apresenta Renesmee?

A bruxa cerrou suas mãos em punho, sentindo um pouco de tontura, enquanto direcionava sua concentração, e sua magia, para Ellis, falando algumas palavras baixinho numa língua muito antiga. Pôde ver os olhos da garota desfocando por um breve segundo, enquanto a magia fazia com que ela aceitasse a sugestão sem questionamentos.

Um sinal tocou, Ellis abriu um grande sorriso.

— Claro.

Então as duas levantaram — enquanto Gwen limpava discretamente o seu nariz, que sangrava, na manga da sua blusa de inverno —, e caminharam em direção ao ginásio.

Notas finais
*: do último ano de high school dos EUA. Gente, alguém sabe como arruma essa formatação do nyah que deixa os parágrafos tudo espaçados? Tentei de várias formas e não consegui. :/ Espero que não tenha atrapalhado muito a leitura. E aí, o que vocês acharam de Gwen? Por favor, contem, estou curiosa demaisss! Sei que não teve muita ação, ou muito de Cullen haha, nesse capítulo, mas estava ficando grande demais para um primeiro capítulo, então esse acabou ficando só como uma introdução sobre quem é minha OC e o que ela faz da vida. :v Já no próximo, ao que tudo indica, teremos Cullen action! Como vocês acham que será o primeiro encontro de Jazz e Gwen? Qualquer sugestão, ou crítica construtiva, é muito bem vinda. Até o próximo. :)