Why Me?

67 Capítulo 67 - Puppet


Notas iniciais
AVISO: esse capítulo tem cenas que podem ser fortes para alguns leitores.

Toda vez que eu socava algum dos três que haviam me rodeado, eu acabava levando outro soco. Meu estômago, minha cabeça, meus olhos, tudo doía com intensidade. Ainda assim, aquela era uma surra leve, perdendo para algumas outras que levei em algumas brigas que me envolvi. Mas do mesmo modo, três ainda eram mais que uma única pessoa, então chegou o momento em que não consegui mais me defender e acabei apagada novamente.

Eu soube que estava sendo carregada. Não do modo delicado como Carl costumava me carregar, subindo e descendo as escadas enquanto suas mãos acariciavam minhas costas, ou do modo brincalhão quando ele me jogava sobre o ombro e me levava a qualquer lugar que encontrasse. Esses braços que me seguravam eram rudes, brutos e grandes demais para meu corpo. Senti uma leve tontura e minha cabeça começou a latejar. Eu não enxergava nada, claramente, haviam colocado uma venda em meus olhos, pois ainda era possível ver algumas formas refletidas do outro lado.

Gemi de dor e tentei me movimentar, mas era difícil fazer qualquer esforço. Apenas levantar meu braço já era como carregar uma tonelada. Vozes estavam abafadas em minha audição, e logo, senti minhas costas fazendo impacto com o chão. Apalpei minhas calças, procurando por minha faca para me defender, mas encontrei a bainha lisa, e não sentia meu rifle nas costas. Tentei lembrar-me de como fui apagada, mas não tive sucesso.

— O que faremos agora? — Perguntou uma voz masculina.

Respirei fundo e ergui os braços até a venda, tentando removê-la, quando duas mãos pesadas pousaram sobre as minhas e as abaixaram. Gemi mais uma vez pelo esforço e encostei minha cabeça na suposta parede, deixando-a cair para o lado.

— Vocês foram idiotas o suficiente para não amarrarem as mãos? — Questionou outra voz. — Temos sorte de ela estar tão fodida que mal consegue se mover. Senão…

— Ela não veria nada, Simon. Eunice chutou a cabeça dela em cheio.

— Você não sabe. — A segunda voz soou e eu levantei a cabeça e deixei-a cair novamente. — Chamem Negan, digam que ele tem mais uma surpresa hoje.

As mesmas mãos pesadas encostaram-se nas laterais de meu rosto e arrancaram-me a venda, revelando um ambiente difícil de distinguir por conta da visão turva. O homem que estava em minha frente era familiar; o mesmo cara que estava naquela noite do massacre de Glenn e Abraham. Tentei levantar os punhos, na intenção de fazer qualquer movimento, e quase chorei quando percebi que estava fraca demais. Em seguida, o escuro dominou toda minha visão e eu não tive mais consciência de nada.

[…]

Outro par de mãos frias encostou em meu rosto naquele dia. Eu estava começando a perceber que não dava todo o valor necessário às mãos quentes de Carl, repletas de cuidado, quando a frieza dos dedos me encostava ao rosto. Levantei o olhar e percebi o rosto barbado que tapava minha visão, e notei também que o ambiente em que me encontrava era mais claro.

Meus olhos falharam ao tentarem se ajustar à iluminação, mas eu me esforcei para que conseguissem. O sorriso maligno e cínico estava entre minhas órbitas, dominando minha mente e me fazendo querer correr, mas ainda sentia a fraqueza em meus membros. Tentei olhar para o lado, evitando o homem.

— Quem diria — disse pausadamente enquanto ria, abafado. — Hoje é o dia de pague um e leve dois, e ninguém teve a proeza de me avisar? Cara! Isso é demais. Você não tem noção de como eu estou animado agora.

Fixei-me aos seus olhos negros e ali pousei toda minha aura raivosa. Respirei fundo e deixei de tentar me mover, aceitando que não havia muita escapatória.

— Quero lhe contar algo sobre mim, para que você deixe de pensar que eu sou uma alma péssima; eu sou igual ao Rick. A única coisa que nos difere é que eu sou foda, e o Rick é um babacão. Mas eu preciso dele para meu império continuar funcionando — ele riu mais uma vez. Inclinando-se para trás. — Você matou dois de meus homens. Parece até combinado! Vocês planejaram esse ataque? Se sim, foi bem falho, já que você estava na floresta, feito uma covarde, se escondendo nas árvores, não, querida?

Senti meu estômago se revirar. Querida. Eu não entendia uma única palavra que saía de sua boca, mas tinha uma vaga noção que afastava de meus pensamentos.

— Você deve estar se perguntando por que foi espancada — Negan umedeceu os lábios ásperos. — Bom… o fato é que isso não foi planejado. Eu jamais deixaria que te espancassem. E Carl também não deixaria barato, se soubesse que você está aqui.

Quis socá-lo, espancá-lo e assisti-lo morrer engasgado com o próprio sangue. Carl.

— O que… o que você fez com ele? — Questionei em palavras pausadas, mal conseguindo formar a frase e sentindo dor nos pulmões por ter me esforçado para falar.

— Nada. E não farei nada desde que ele colabore comigo — Negan riu lentamente. — Sabe, querida, ele me impressionou. O garoto simplesmente saltou de um dos meus caminhões e matou dois dos meus homens, com uma de minhas armas! Esse garoto é foda, agora entendo o porquê de você estar com ele, mesmo com aquele buraco nojento que tem no lugar do olho.

Mordi o interior de minha bochecha e torci para que Carl colaborasse, conhecendo seu jeito.

— Você não sabe de nada.

Negan reposicionou-se no chão e inclinou a cabeça, desafiando-me com o olhar sarcástico.

— Talvez não mesmo, mas sei de algo que você não sabe — o homem sorriu, cheio de malícia. — O garoto, além de ser um puta de um corajoso, filho do líder e ter um buraco no rosto, me prendeu em seus dedos. E você, por outra via, não me impressionou de modo algum até agora. Matou dois de meus homens, me irritou, foi espancada sem qualquer defesa, mal consegue falar ou olhar para mim… Sua punição deveria ser bem pior da qual eu planejei, até porque você não é nada.

Umedeci meus lábios e ergui o queixo, encarando-o com desdém.

— Não se sinta mal, querida, não é nada pessoal, mas você realmente não tem importância para seu grupo — ele riu e deu de ombros. — Talvez tenha, para Carl, até porque você é a garota que abre as pernas para ele, mas isso não te traz mérito algum. O moleque é um adolescente cheio de hormônios, então não veja isso como especial.

— Você não sabe de nada — disparei e Negan voltou a rir.

— Agora você está me atraindo a atenção — o homem encarou-me um tanto mais e levantou-se, caminhando em direção à porta de ferro. — Sente-se no colchão à sua frente enquanto espera pela punição. Obrigado e volte sempre!

Antes que eu pudesse pensar em me levantar, outros dois homens adentraram a sala e amarraram meus pulsos e tornozelos com cordas. Senti a textura encostando em minha pele e tentei me mover para evitar, mas apenas fracassei. Como nas vezes anteriores.

As outras horas passaram rápido em minha perspectiva, já que eu mal conseguia me manter sentada sobre a superfície fina que era o colchão sujo e empoeirado posicionado no centro das quatro paredes de concreto. Nem as salas do Governador eram tão sujas quanto aquela, e eu estava começando a passar mal com o odor de urina e palha velha.

A única coisa que me trazia curiosidade era a janela escura à minha direita. Olhei para ela com as sobrancelhas arqueadas, questionando-me do porquê de ela estar ali, se era escura e não refletia nada que poderia haver do outro lado. Respirei fundo e voltei a focar em meus pulsos que doíam por conta das cordas ásperas.

Tentei focar meus pensamentos em momentos bons que vivenciei até ali, mas minha mente era traiçoeira contra minha vontade. Meu foco pairava sobre as torturas que presenciei junto do Governador, ou as que eu fiz participação. Lembrei-me de como não me comovia vendo o sangue escorrendo de todas as partes possíveis, alagando os tecidos das roupas vestidas pelas vítimas, muitas vezes sendo pobres inocentes.

Ouvi o ranger da porta de ferro e olhei para frente, quase surpresa do que estava vendo. Questionei-me se minha imaginação havia ultrapassado seus limites, mas percebi que era real quando vi a expressão no rosto do garoto. Carl não usava seu chapéu, nem as bandagens no olho perdido, e tinha o cabelo rebelde por toda a face, mas não tinha um arranhão sequer. Seu único olho me fitava com dor, vendo minha situação que eu mal pude imaginar um mísero detalhe. Quis gritar por ajuda e tentar me levantar, portanto, logo percebi que Negan estava atrás do jovem, com seu taco de baseball, Lucille, pressionada contra a xadrez do garoto.

— Boa noite, Mari — perguntei-me como ele havia descoberto meu nome. — Você deve estar se perguntando como sei seu nome, e a resposta é que Carl acabou por deixar escapar. E nós temos notícias! — Suas mãos pesadas e gélidas encostaram em meus pulsos, junto da lâmina da faca que havia acabado de sacar do bolso traseiro, cortando as cordas. Ele estava me libertando? — Bom, por onde começo? Ah sim, eu sugeri para seu namorado que meus homens viessem te visitar durante as noites como punição, mas ele quase chupou minhas bolas para que eu não deixasse isto ocorrer, dá para acreditar?!

Negan revezava o bastão de mão em mão, apontando para meu rosto e o de Carl.

— Acho que eu estava errado quando disse que você era apenas uma garota que abria as pernas para nosso pequeno assassino em série; você é a única garota que abre as pernas para ele! — O homem voltou a rir e empurrou Carl para frente. — E todo esse drama me deu uma nova ideia: deixar Carl fazer isto por ele próprio, e nós assistiremos pela janela. Não é genial?

O olho de Carl arregalou e eu entendi que Negan não estava apenas me punido, mas também estava se aproveitando do garoto para aumentar minha dor. Olhei para a direita e percebi que aquela janela escura fazia sentido, era o tipo de vidro fumê que colocavam para que a pessoa do outro lado tivesse visão da sala, sem que a pessoa da sala tivesse visão de fora.

Carl parecia devastado, mais do que eu, imaginei. Meu estômago já devia se encontrar fora de mim, de tanto alvoroço que fora feito. Olhei para Negan, esperando que ele compreendesse minha situação e nos livrasse daquilo, mas o homem não pareceu se incomodar com nada. Não era daquele jeito que havia planejado o momento, não naquela situação, muito menos sem qualquer sentimento além do desespero. Aquele não era um ambiente agradável, aquele não era um cenário adequado.

— Vocês só sairão daqui quando terminarem, então não há pressa alguma — Negan caminhou até a porta mais uma vez. — Divirtam-se.

— Você não pode nos obrigar — cuspi as palavras.

Isso atraiu a atenção do homem. Meus pulmões haviam parado de doer e imaginei que a dor da surra estava passando. Umedeci meus lábios e senti gosto de sangue na boca, imaginei que havia um corte em meus lábios.

— Posso sim, na verdade — admitiu ele, sem qualquer comoção, levantando Lucille. — Ou seu namorado pode acabar como os outros dois de seu grupo.

Olhei para Carl, esperando que a qualquer momento ele começasse a rir e me dissesse que era uma brincadeira. Que tudo aquilo não se passava de uma piada e que estávamos livres para ir embora, mesmo com a surra tendo parecido muito real. Mas isso não ocorreu. O garoto retirou a camisa xadrez e a blusa cinza, colocando-as ao lado do colchão.

Senti um arrepiou gigante percorrer por cada traço de pele existente em meu corpo e quis chorar, mas me recusei. Assim como me recusei a tirar minha blusa, logo atraindo a atenção de Negan e fazendo-o tirar à força. Acabei apenas de sutiã, ainda vestindo minhas calças e tremendo de frio e nervoso. Carl não olhava para mim, tornando a situação ainda mais constrangedora. Aquela mesma sensação de falta de ar voltou e eu senti que ia vomitar naquele instante. Procurei por qualquer coisa que eu pudesse agarrar com os dedos e acabei usando minhas coxas como apoio.

Amaciando minha coxa com os dedos. Amaciando minha coxa com os dedos. Agarrando minha coxa com os dedos. Ferindo minha coxa com as unhas.

Negan puxou minhas calças enquanto eu estava concentrada em não entrar em pânico e eu me assustei ainda mais.

— Não quero tecido neste corpo — gargalhou e saiu da sala, trancando a porta.

Me senti péssima por estar à beira de um ataque de pânico enquanto Carl continuava estável. Não era justo, eu deveria colaborar com ele, até porque eu estava sendo egoísta de agir daquele jeito.

Carl removeu os sapatos e os colocou ao seu lado. Seu rosto estava apagado e ele parecia estar no piloto automático enquanto abaixava as calças e se aproximava de mim. Era impossível descrever o sentimento naquele momento, mas senti que o garoto compartilhava do mesmo, apenas pela conexão. Era um misto terrível de medo, nervosismo e tristeza. O garoto engatinhou em minha direção e posicionou uma mão em minha cintura, me inclinando ao colchão, deitando minhas costas nuas no tecido imundo.

— Por favor, me deixe inconsciente, soque meu rosto… qualquer coisa, Carl… — pedi, desesperada, sufocada com minhas palavras e pensamentos. — Eu juro que não sentirei dor, só me soque na lateral da cabeça, forte, para que eu apague e…

— Me desculpe — sussurrou o garoto enquanto direcionava suas mãos na altura de meu sutiã, se desfazendo dele.

As mesmas mãos desceram para o meio das costas e me deitaram sobre a fina camada do colchão novamente. Eu quase conseguia sentir o frio do chão. Carl não olhou em meus olhos em momento algum, e nem eu fiz, como deveria. Quando senti seus dedos puxando o que me restava de tecido no corpo, sabia que não havia mais volta. E então mordi meu lábio para segurar o choro de desespero. Mesmo com toda aquela tensão, Carl tentava agir de modo delicado, como se cada um de seus toques fossem controlados para não desatar os nós que seguravam minha instabilidade emocional. Eu estava sendo extremamente egoísta. Carl não me merecia.

Olhei para cima, procurando consolo no teto e na pequena luz pendurada. Procurei não sentir nada e me desconectar de meu corpo, mas quando senti a respiração pesada do garoto em meu pescoço, acabei por suar frio. Pude ouvir seu curto sorriso e soube que ele ouviu o meu também. Quando baixei meu olhar para seu rosto, acabei por estar despreparada, e foi-se a primeira estocada, a qual fez jus ao ricochete de uma arma; meu corpo deslizando levemente pelo colchão enquanto pude ver as veias saltando dos braços dele, que me cercavam.

Na segunda estocada, minha garganta secou de modo absurdo. Nenhuma das vezes em que passei sede podia se comparar àquela necessidade de água. Outro suspiro escapou de seus lábios, como um lamento inconsciente de sua alma, passado diretamente para a minha.

O buraco presente em seu rosto só me fez querer gritar. Foi como se todos os itens presentes naquele minúsculo cubículo de concreto fossem um conjunto perfeito para criar pânico dentro de mim. E meu único foco era em não ter um ataque de pânico. Não naquele momento. Eu jamais poderia mostrar tanta vulnerabilidade à Negan.

Na terceira estocada, parei de focar em Carl e senti meu peito sendo prensado pela tristeza. Nenhum momento havia me trazido tanta angústia quanto aquele, e nenhum medo havia sido maior do que aquele de sair correndo e ter de arcar com mais consequências. Minha melhor e única opção era ficar ali, esperando o final.

Já não contando mais, pus-me a chorar dolorosamente. Não pela dor no ato, mas pela injustiça de ter Carl em um momento tão importante sendo colocado na pior das situações. Pela raiva da frieza de Negan, que colocou o garoto em tal posição causada por mim. Seu corpo não tinha o calor que costumava ter. Tão gélido quanto as mãos do líder maldoso. Senti pequenas lágrimas caindo sobre minha barriga e algumas molhando meus seios, secando rapidamente.

Cada vez que eu fechava meus olhos, sentia que o escuro me chamava baixinho, para que eu ficasse ali que tudo ficaria bem, mas eu duvidei. Acabei tendo coragem para mantê-los abertos e focados em Carl, tentando trazer o único conforto que eu podia lhe dar: o olhar.

Minha única necessidade havia se tornado o toque. Quis tocar o rosto dele e dizer que tudo ficaria bem, mas sabia que não podia. Não era justo com ele.

[…]

Carl amarrava seus cadarços enquanto sentado à beira do colchão, já vestido com suas calças. O único som presente era o de meus fracos soluços que não passavam. Eu já devia ter parado de chorar desde o momento em que o ato fora finalizado, mas não consegui. E notei que Carl não parecia se sentir bem com minha situação. Só não o queria se culpando por algo que era minha culpa.

Meus joelhos estavam grudados aos meus seios nus enquanto abraçava minhas canelas. Eu estava sentada na outra extremidade do colchão, vestida apenas em minhas partes de baixo, pois não tive força para colocar a blusa e a calça.

— Foi uma adrenalina e tanto — disse Negan, adentrando a sala e direcionando nossos olhares até o alto ruído da porta enferrujada. — Um tanto mais de treino e vocês poderão fazer um filme! Temos até uma câmera pronta!

O homem gargalhava e eu tentei, ao máximo, evitar seu olhar.

— Termine de vesti-la, Carl, e então levarei vocês de volta à Alexandria. Quando acabarem, dê uma batida no portão e eu abrirei.

Negan deixou o cômodo, se é que aquilo podia ser chamado assim, e deixou-nos ali, em silêncio. Carl se levantou e caminhou até onde estavam minhas roupas, pegando-as e se aproximando de mim. Seu rosto ainda estava devastado, talvez não tão traumatizado pelo que demonstrava, mas eu soube que tudo aquilo havia o afetado tanto quanto a mim. Ele revirou minha blusa do avesso e levantou meus braços para colocá-la. O mesmo com as calças.

Cheguei a ficar me corroendo por dentro pelo fato dele não ter me tocado para consolar meus nervos em nenhum dos momentos, mas aí acabei por entender que ele deveria estar fazendo o mesmo que eu e respeitando o espaço que ambos precisávamos. Carl foi até a porta e bateu uma vez, aguardando a resposta. Em um momento de adrenalina, levantei-me e eu seguida, caminhei para trás do garoto.

A porta se abriu, revelando o corpo de Negan, sorrindo como sempre. O homem nos fez um sinal para que o seguíssemos e atravessou um grande corredor.

Se eu imaginei que a pior parte daquele dia seria o que havia ocorrido do lado de dentro, eu estava enganada. Por fora era tudo pior. O corredor estava lotado de homens nos rodeando. Respirei fundo olhando para eles com o canto dos olhos e percebendo os gestos obscenos que faziam com suas mãos, insinuando o ato. Tentei ignorar quando um dos homens deu um tapa em meu traseiro, fazendo-me tropeçar no chão.

Logo, Negan abriu outra porta ao fim do corredor e eu pude jurar que a expressão "luz no fim do túnel" fez efeito em minha cabeça. Ali estava o carro que nos levaria de volta à Alexandria. Mas os Salvadores tinham algo meu que eu jamais poderia ter de volta.

[…]

A chegada em Alexandria fora uma vitória para meu estado. Toda a viagem mais me parecera alguns minutos extras de tortura, pois Negan insistia em fazer comentários cínicos sobre o que havia acontecido e falava sobre Daryl ser um bom escravo.

O fato é que eu avistei Daryl do lado de fora, vestido em roupas imundas e com o rosto sujo de poeira. Ele estava trabalhando de escravo, segundo Negan, e percebi o olhar de Carl para ele, e o olhar dele para nós. Mas não podíamos fazer nada, sabendo que o líder dos Salvadores era uma das piores pessoas que já haviam cruzado nosso caminho, senão a pior.

No portão, Tobin e Spencer estavam vigiando toda a área, e apenas Spencer desceu para puxar as grades. Seu olhar para mim era de raiva, como se ele quisesse deixar explícito que sabia que isso aconteceria. Eu sei, Spencer. Eu sei.

Negan pediu para que caminhássemos ao seu lado, e o fizemos, seguindo pelas ruas vastas de Alexandria enquanto os moradores paravam suas tarefas e focavam seus olhos em nós dois. Senti-me como a traidora em suas visões. Mal eles sabem… O homem perguntou à Carl qual era sua casa e ele indicou a grande estrutura pintada de branco ao fim da rua. Em seguida, com Lucille em mãos, o líder bateu na porta e revelou Olivia, que colocou uma expressão assustada no rosto.

Seus olhos variavam para mim e para Carl, como se sua maior dúvida fosse escolher a quem perguntar primeiro.

— Carl, onde está… — Pronunciou-se, variando o olhar de Carl para Negan, já dentro da casa.

— Enid está bem — o garoto a cortou rapidamente.

— O que houve? — Perguntou para mim e eu neguei com a cabeça.

— Você está com Judith? — Sussurrei enquanto Carl prestava atenção no homem. Olivia assentiu.

— Bom, bom, bom, bom, bom, bom! — Negan exclamou ao olhar pelo lugar. — Onde está Rick?

— Eu… eu, hm — Olivia começou a gaguejar e eu senti meu peito se apertando. Toquei no bolso como de costume e não senti minha faca de madrepérola.

— Não ligo — cantarolou o líder. — Onde está Rick?

— Hm… fora. Procurando por coisas para você — afirmou a mulher.

Carl parou atrás de Negan, olhando-o furiosamente e eu caminhei até seu lado, apenas encarando a situação sem qualquer emoção presente. Eu sentia que todas os meus sentimentos foram deixados dentro daquela sala.

— Legal, eu vou esperar — disse o homem com seu sotaque sulista.

— Ahn… ele foi bem longe. Acho que eles podem não voltar hoje — a mulher tinha a voz trêmula e toda sua linguagem corporal estava errada. — Estamos ficando quase sem nada. Nós estamos praticamente morrendo de fome aqui.

Negan inclinou-se e pude ver sua expressão de puro sarcasmo.

— Morrendo de fome? Você?! — Apontou para a mulher, diretamente em sua barriga. — Com "praticamente" você quer dizer "não realmente"?

Olivia passou alguns segundos o encarando antes de começar a chorar. Revirei os olhos com a situação e umedeci meus lábios secos, olhando de relance para Carl, que em momento algum deixou a raiva sair de sua expressão. Parecia que ele estava apenas esperando para que Negan o olhasse e visse. E ele o fez, mas apenas ignorou o garoto.

— Sério?! — Negan se aproximou de Carl a parou em sua frente. — Vocês realmente não têm senso de humor.

O homem colocou a mão sobre a face e eu percebi que o olhar de Carl amoleceu ao pousar em Olivia, que chorava dolorosamente.

— Licença… qual é mesmo o seu nome? — Perguntou o líder ao se aproximar da mulher.

— Olivia — disse ela, com raiva em seu tom.

— Certo, Olivia. — Caminhando em direção da mulher, tocou-a no braço enquanto soltava um longo suspiro. A morena estremeceu ao toque e virou-se, assustada — Sinto muito por ter sido tão rude com você. E parece que vou ficar por aqui durante um tempo, esperando pela volta de seu tão corajoso líder, e se você quiser, eu acho que poderia ser agradável foder você até o talo. Aqueles dois já tiveram sua dose hoje e acabei ficando sedento. Eu digo, se você concordar comigo…

Antes que pudesse continuar sua frase, Olivia levantou a mão e estalou os dedos no rosto de Negan. Carl olhou para mim com susto, e voltou a encarar o homem que havia acabado de se recompor e soltou uma lenta risada, aproximando-se da mulher e sussurrando:

— Estou 50% mais atraído por você agora. — Negan riu e recuou. — Vou dar uma volta e esperar minhas coisas chegarem aqui. Olivia, o que acha de nos fazer limonada? Eu sei que deixei alguns pacotes de limonada em pó.

— Eu deveria ficar com você — disse a mulher e ele logo a interrompeu.

— Faça. Tome seu tempo, faça bem — provocou-a e sorriu. Olivia deixou a casa com pressa e o líder virou-se para nós, abrindo os braços, receptivo. — Eu quero um tour. Mas quero que você, querida, tome um banho antes, pois você pareceu merda agora.

Respirei fundo e olhei para Carl de relance. Negan pareceu notar, pois o comentário a seguir fora para nós.

— Eu sei que vocês não estão morrendo de fome, tive a prova viva disso hoje — Negan umedeceu os lábios e apontou para Carl —, digo, você viu o jeito como ele te comeu?!

— Deixe ela em paz — disse o garoto e o homem esticou o rosto, impressionado com o tom de voz.

Não, Carl.

— Isso que eu vi no garoto é o que me fez gostar dele — aproximou-se de mim e tocou a ponta de meu nariz. — Você deveria tentar qualquer hora. Agora vá para seu banho, e não demore. Quero que pegue alguma parte de nosso tour.

Assenti e caminhei para o segundo andar, procurando o banheiro ao lado do quarto de Carl. Adentrei-o e comecei a me despir após trancar a porta. Cada peça que eu retirava de meu corpo parecia como uma libertação diferente. Removi a jaqueta preta e coloquei-a no cesto, sentindo que havia tirado o peso de minhas costas. Removi a camiseta suja de suor e terra e coloquei-a no cesto, sentindo que eu havia tirado a derrota de mim. Removi as calças imundas com rastros de terra e folhas e coloquei-as no cesto, sentindo que havia retirado minha vulnerabilidade. Removi as roupas íntimas com cuidado, sentindo que meu corpo era porcelana, e coloquei-as no cesto, como se fossem pétalas de flor. Mas de uma flor em solo infértil. E assim, liguei o chuveiro e deixei a água aquecer em meu toque.

Quando senti que já estava amornando, entrei embaixo dos jatos em um só impulso e ali fiquei durante alguns longos minutos, deixando-a escorrer em meu corpo, limpando cada rastro do que eu havia passado. Cada gota que pingava em meus ombros eliminava um traço de meu estresse, ainda correndo por meu sangue. Após terminar todo meu ritual de limpeza, fechei o registro e puxei a toalha para me enxugar.

Parei de frente para o pequeno espelho do armário e encarei meu rosto e as clavículas no pequeno quadrado. Puxei os fios molhados para trás e passei a perceber os arranhões espalhados por minhas bochechas até o queixo, e o corte que sangrava no canto de minha boca. Percebi alguns hematomas formados em meus ombros e olhei para baixo, encontrando mais deles espalhados pelo resto de meu corpo. Mordi o lábio inferior e senti uma leve dor, mas respirei fundo e saí do banheiro.

Adentrei o quarto de Carl o mais rápido que pude, sabendo que Negan estava rodando pela casa e podia me ver a qualquer momento, e seria melhor que me visse vestida. Ouvi o ranger da porta e olhei para trás, segurando a toalha forte enquanto meus fios pingavam nas costas. Os dois haviam acabado de adentrar o cômodo e a expressão de Negan era algo que ficaria marcado em minha mente durante alguns dias.

— Já está pronta para o segundo round? — Brincou e eu abaixei o olhar. Mesmo que eu sentisse toda a raiva do mundo, me recusava a sair do papel. O plano ainda era importante. Negan continuava achando que eu era fraca, e isso era bom. — Espero que tenha relaxado, já posso ver que seus ombros estão menos tensos. Quero dizer, eu mal os vi antes, já que estávamos prestando atenção em outras partes.

— Você já viu o quarto? — Questionou Carl em um tom ríspido.

Negan esticou o rosto e sorriu novamente, olhando para o teto mais uma vez.

— Sim. Já é o bastante. Vamos para os outros!

Assim que o homem deixou o cômodo, respirei fundo e rolei os ombros para trás. Peguei algumas peças de roupas que eu havia deixado na casa de Carl e comecei a vesti-las; a blusa branca de mangas escuras, calças pretas e a jaqueta militar. Coloquei as botas que havia deixado no banheiro e deixei meus fios secarem ao natural. Procurei por Carl e Negan nos corredores e acabei os encontrando no último quarto.

Caminhei lentamente até o lado do garoto, que segurava Lucille e eu fiquei confusa com a cena. O encarei de sobrancelha arqueada e percebi que ele estava assustado. Só descobri o motivo quando olhei para frente e encontrei o grande líder carregando Judith em seu colo. Engoli seco em conjunto de Carl, respirando pesado.

— Acho que deveríamos tomar um ar — disse Negan enquanto olhava fundo nos olhos claros da criança. — Essa pequena anjinha não parece contente com esse quarto.

Negan ajeitou-a em seu peito e caminhou para as escadas. O olho de Carl encontrou os meus e ele parecia desesperado. Peguei sua mão levemente e apertei-a durante alguns segundos, trazendo conforto, mas não obtive muito sucesso. Soltei-a e caminhamos atrás do homem, que já havia se estabelecido na varanda da casa, com duas cadeiras ao seu lado e Judith em seu colo.

— Sentem-se! A limonada já está chegando — convidou ele e acabamos por tomar lugares na varanda. — Eu estava pensando em fazer macarrão para nós. Lucille está faminta! E já que não temos sangue, molho vermelho serve como estepe. Vocês sabem cozinhar?

Permanecemos em silêncio. Eu olhava para o homem com raiva, mas ainda escondendo certa intensidade.

— O que houve?! O gato comeu suas línguas? — Negan pôs-se a rir enquanto nos encarava.

— Não — afirmou Carl —, não sabemos.

— Isso é bom. Significa que eu terei a honra de ensiná-los — o homem abriu um sorriso de canto.

[…]

Carl encostou-se ao balcão da cozinha enquanto lavava as mãos na pia, limpando-se após lavar o resto da louça, e respirava fundo. Aproximei-me dele e desamarrei o avental de sua cintura, puxando-o e colocando acima de um armário. O garoto olhou para mim e umedeceu os lábios, sem qualquer sorriso. Eu sabia que a presença de Negan o deixava nervoso, por mais que ele tentasse esconder, mas todos esses anos convivendo com o garoto eu acabei por aprender todos os sinais que seu corpo trazia.

Negan estava do lado de fora da casa naquele momento, conversando com um de seus súditos. Aproveitei o momento para manter contato visual com Carl, tentando passar todas as emoções o mais rápido possível. O garoto umedeceu os lábios e puxou minha cintura em desespero, segurando minhas costas com uma mão e minha cabeça com a outra. Deitei o rosto em seu peito, sentindo-o fazendo movimentos fortes de acordo com sua respiração. Ficamos naquela posição até que o ranger da porta de entrada soasse novamente, e então nos separamos.

— O almoço estava ótimo — disse o homem, inclinando-se para trás. — Eu gostaria muito de dormir, mas temos que voltar ao trabalho, não? — Seu olhar era cínico, para variar. — Enquanto eu converso com meus guardas, vocês podem dar uma volta. Sei lá, caminhar, correr, foder mais um pouco, ou fazer alguma sobremesa. Só guardem as energias para buscar mais suprimentos para mim. Eu soube que quando as mulheres fazem demais, acabam com assaduras…

— Sinceramente? Vá se foder! — Exclamei, já em meus nervos, me arrependendo no mesmo instante.

O homem franziu o cenho e me encarou, com a cabeça inclinada. Caminhando até a mesa, passou os dedos esguios sobre o cabo do taco de baseball e voltou até nós, girando Lucille no ar. Seus lábios saíram da única linha para um sorriso.

— Eu mudei de ideia — afirmou ele, olhando para o chão. — Vou liberar Carl e conversar com Mari durante alguns minutos extras.

Carl olhou para mim e para o homem, que seguiu aguardando para que o garoto saísse da casa. Entendendo o recado, lançou um curto olhar para mim, como quem diz "se cuida". Umedeci meus lábios e cruzei os braços, passando a encarar o líder, que girava Lucille entre os dedos, perigosamente.

— Sabe, querida, você é uma garota bonita e tudo mais, mas é fraca — afirmou arqueando a sobrancelha, sem tirar o sorriso da cara. — Me diga, você sabe usar uma arma? Eu soube que te pegaram com um rifle e uma faca, mas não me disseram que fez bom uso deles.

Eu matei dois dos seus, como eu não fiz bom uso?

— Não — menti e ele umedeceu os lábios rachados.

— Imaginei… você deve ter pegado o rifle porque pareceu legal, certo? Assim como Carl escolheu aquela metralhadora… isso não é um tanto ridículo?

Encarei-o. Ele estava acreditando.

— Mas ainda assim, o garoto é um projeto de assassino em série, e você… digamos que ainda está em estado larval, ou nem isso — torceu a boca. — Me sinto péssimo por ser a pessoa que te dirá todas essas realidades, mas alguém tem de fazê-lo, certo? Então pare de tentar me enfrentar, isso é bonitinho demais, eu não consigo aguentar.

O homem começou a rir e eu assenti lentamente, olhando para baixo. A única coisa que eu queria no momento era poder derramar algumas lágrimas para tornar a cena ainda mais real, mas infelizmente, meu corpo não quis colaborar comigo.

— Vou te liberar agora — disse ele, sorrindo mais uma vez. — Desculpe qualquer coisa.

Caminhei para fora da casa e encontrei os guardas de Negan encostados à cerca, encarando Carl. Um dos homens fazia alguns gestos indicando o olho, tirando sarro do garoto, e ele pareceu perceber. Cheguei ao seu lado e encarei o homem que fazia graça e arqueei uma sobrancelha.

— Eu quero voltar para meu quarto — disse ele e eu assenti. — Não quero ficar longe de Judith.

Voltamos para dentro da casa no mesmo momento que Negan estava saindo, e ele não fez nenhum comentário. Subimos as escadas e chegamos até o quarto, fechando a porta. Judith fora colocada de volta ao berço e Olivia saía do quarto, caminhando até o andar inferior. Carl deitou em sua cama e ajeitou a cabeça no travesseiro encostado na parede, encarando o teto. Eu me deitei ao seu lado, mas sem tocá-lo, apenas focada em meu campo de visão.

Sua aura não irradiava o comum. Agora era raiva, uma frustração incessante, e compartilhávamos da mesma situação desde o momento em que fomos enfiados naquele cubículo de concreto. O garoto respirou fundo e chacoalhou a cabeça.

— Você quer conversar sobre o que ocorreu ou prefere fingir que não ocorreu? — Questionou e eu olhei para ele. Sua franja estava jogada para trás, revelando as cicatrizes.

— O que você quer?

— Eu não sei. Queria ter alguma palavra, mas nada sai — afirmou e eu assenti.

— Não consigo dizer nada também.

— Sinto muito que isso tenha ocorrido com a gente — disse rapidamente e eu torci a boca.

— Eu também.