Why Me?
68 Capítulo 68 - New Beginnings
Notas iniciais
Meus olhos focavam a terra úmida e os pequenos brotos de flores que cresciam, ainda não chegando a mostrar suas belas faces ao mundo. Em uma das mãos, eu segurava uma faca que eu não usava muito, e na outra, uma maçã a qual eu cortava e comia pedaços. O cheiro de grama recém cortada inundou minhas narinas e procurei tal origem, curiosa, encontrando Tobin que estava cortando o excesso com um aparador.
Enquanto meu olhar acompanhava o vizinho em sua tarefa, os cantos de meus olhos captavam outra imagem. Virei minha cabeça e encontrei com o garoto que não se importou de subir os degraus da varanda, parando ali mesmo e me encarando com um curto sorriso receptivo. Esforcei-me para poder retribuir e acabei falhando, então preenchi minha boca com outro pedaço da maçã.
— Ei — chamou ele e eu prensei meus lábios juntos.
— Oi.
Carl enfiou as mãos nos bolsos nervosamente, desviando o olhar.
— Você está pronta? — Questionou e eu olhei para ele, suspirando. Em seguida, assenti lentamente e um sorriso abriu em seus lábios. — Estão te chamando.
— Eu preciso de um minuto — pedi e ele assentiu.
— Já usei o meu — comentou enquanto analisava a grama aparada por Tobin.
Sentei-me com as pernas balançando no ar enquanto respirava lentamente, tentando evitar os pensamentos ruins. A última visita à Hilltop não acabou muito agradável, e imaginava que todos que estavam embarcando haviam precisado desse tal minuto, até porque precisaríamos de todos os santos para não topar com Negan no caminho.
O dia anterior foi difícil. Meu corpo ainda doía pela pancada, e meu emocional estava destruído, mas ainda me mantinha de pé, sabendo que precisava estar ali pelas pessoas. Talvez a barreira que eu havia passado tanto tempo construindo não estivesse totalmente caída, então aproveitava cada tijolo como se fosse o último. Ter de ver Olivia morta, Spencer com suas tripas fora do corpo, Rosita sendo ameaçada, Eugene levado e as incansáveis piadas de Negan, deixando todos ao redor confusos, não tendo noção do que ele podia estar falando, tudo fora um conjunto para me deixar trancada no quarto durante dias. Mas eu não daria essa vitória para o grande líder.
— Eu contei ao meu pai — disse Carl rapidamente, me pegando desprevenida. A lâmina deslizou da casca da maçã e parou sobre meu dedo, cortando a ponta. Uma boa quantidade de sangue passou a deslizar pela minha mão e um "ai" escapou de minha boca. — Você se machucou?
Neguei com a cabeça enquanto colocava o dedo entre meus lábios e sugava o sangue, enrolando o corte na barra de minha camisa xadrez, o vermelho sendo camuflado no tecido da mesma cor. Levantei o rosto para encontrar sua expressão de susto e senti meu corpo perder o arrepio que havia percorrido cada perímetro de minha pele alguns segundos antes.
— O que você disse? — Perguntei, mesmo sabendo a resposta.
— Eu senti que meu pai tinha de saber — disse o garoto, segurando em minha mão para que eu pudesse descer da cerca.
— Agora ele vai ficar nos encarando com dó, e isso é o que eu menos preciso no momento — arqueei as sobrancelhas e cruzei os braços.
— Ele não fará isso. E também não contará para ninguém.
Dei de ombros e ajeitei a jaqueta azul nos ombros, sentindo os pelos artificiais fazendo cócegas em meu pescoço. Carl seguiu o caminho na frente e me deixou respirando durante mais alguns segundos, tomando toda minha paz interior para poder aguentar uma viagem sem qualquer ataque de pânico. Posicionei a mão sobre a coxa e comecei a movimentar meus dedos, apertando e puxando o tecido para depois soltar, repetidamente, até sentir que estava preparada para adentrar o trailer.
Saltei os degraus do automóvel enquanto segurava firmemente o cabo de madrepérola, ignorando os olhares ao meu redor. Assim que cheguei ao interior, encontrei Carl já sentado no banco da mesa, Tara e Rosita lado a lado no pequeno sofá e Michonne já sentada no banco do passageiro. Sentei-me de frente para o garoto e percebi o pequeno livro de palavras-cruzadas sobre a superfície metálica, e a ruguinha localizada entre suas sobrancelhas mostrando sua concentração. Assim que Rick adentrou o trailer, disse que seria uma viagem tranquila e sorriu, pegando no volante.
Carl me pedia ajuda com o jogo de vez em quando e Rosita conversava com a amiga em sussurros. Michonne e Rick estavam rindo de algo que não consegui escutar e eu focava na janela, analisando toda a estrada vazia que corria em minha visão, ansiosa para o momento em que chegássemos ao ponto em que tudo deu errado. Por sorte, o Grimes deve ter tomado outra roda, sabendo que todos havíamos passado pelo grande trauma, com exceção de Tara.
Assim que o trailer estacionou, Rick avisou que teríamos de caminhar um tanto até a comunidade, e desembarcamos. Carl aproximou-se de mim e sua mão encostou à minha, me deixando um tanto nervosa. Por mais que tivéssemos tempo de história, não tínhamos o costume de segurar mãos, mas imaginei que ambos pudéssemos usufruir do conforto. Seus dedos entrelaçaram aos meus e nossas palmas colidiram, gerando alguns arrepios em minha espinha.
Quando chegamos ao portão, demos com Maggie e seu grande sorriso pendurado nos lábios, exibindo os dentes de felicidade. Rick apressou o passo em sua direção e abraçou a mulher durante alguns segundos. Senti o aperto de Carl aumentar e imaginei que aquilo pudesse ser uma grande emoção para ele.
Atrás da mulher apareceram Daryl e Jesus, Sasha surgindo de perto da horta. Maggie caminhou em minha direção e eu me soltei de Carl, abraçando-a durante alguns segundos. Seus olhos claros estavam cristalinos, algumas lágrimas deslizando pelas bochechas rosadas. Assim que me soltei dela, olhei para o lado e encontrei o garoto se soltando de Enid, que havia acabado de se virar em minha direção. Não a abracei, não achei que fosse apropriado, mas sorri em sua direção para lhe garantir que tudo estava bem entre nós.
O grupo todo estava com sorrisos presos aos lábios, e haviam acabado de se cumprimentarem com abraços calorosos. Logo em seguida, partiram para a casa que ficava localizada ao fim da pequena comunidade, seguindo em direção à porta. Comecei a andar ao lado de Carl e o garoto posicionou uma mão sobre meus ombros e torceu a boca.
— Agora vem a parte difícil — sussurrou ele.
Encarei-o com uma das sobrancelhas arqueadas, sem entender sua fala. Percebendo, completou em seguida:
— Vamos conversar com o líder deles. Meu pai disse que não é um cara amigável.
— Eu já me cansei de líderes não amigáveis — comentei e estiquei os braços para poder alongá-los. — Acho que vou ficar do lado de fora.
— Tem certeza? — Questionou enquanto seguia com os passos no mesmo ritmo.
Assenti com a cabeça e ele me deu um leve aperto no ombro, sorrindo para mostrar que entendia meu ponto. Seguindo seu caminho, deixou-me para trás e eu observei o grupo adentrando a casa. Enid ficou do lado de fora também, mas não deixou de os acompanhar até a porta.
Parei por alguns segundos para observar a paisagem ao meu redor e respirei fundo, sentindo o ar fresco descer pelos meus pulmões e gelar meu nariz. A comunidade de Hilltop era pequena, porém, agradável. Tinha algumas árvores e pequenas hortas que ficavam à direita de quem entrasse pelos portões, além dos containers que eram utilizados como alojamentos. À esquerda, algumas tendas de madeira para trabalhos manuais e os moradores fazendo o que tinham de fazer.
Segui até a casa para perto de Enid e sentei-me sobre os degraus sujos de terra, sem me incomodar. A garota permaneceu de pé, encostada às paredes avermelhadas enquanto suas mechas esvoaçavam conforme o vento soprasse. Posicionei minha mão sobre meus fios e comecei a trançá-los lentamente, procurando passar tempo. Notei que uma pequena multidão estava se aproximando de nós, e estas pessoas se mantiveram paradas ali, com olhares frenéticos e curiosos. Olhei para eles e para a garota atrás de mim, mas ela me deu o mesmo olhar que eu lhe lancei.
— Está tudo bem lá dentro? — Questionou uma mulher de pele escura e cabelos presos, seus olhos focados em Enid.
— Meu grupo está conversando com Gregory — afirmou a garota. — É sobre aquele assunto que eu comentei.
As pessoas passaram a se entreolhar e eu fitei Enid novamente, agora em plena confusão. A garota fez um sinal para que eu aguardasse.
— Você tem certeza disso, Enid? Tem certeza de que vai dar certo? — Questionou a mesma mulher.
— Eu não tenho certeza, Bertie — a garota respirou fundo e deu um passo à frente —, mas tenho certeza de que não sabemos o dia de amanhã, e não sabemos de nada além da justiça de cada um. Eu sei que devemos lutar.
A mulher ficou calada por algum tempo e eu aproveitei para encarar a multidão e analisá-los um por um. Aquelas pessoas estavam tremendo de medo com antecedência, mas algo em suas linguagens corporais me dizia que estes aceitariam lutar. Enid tinha uma postura confiante, exalando o ar que aquela comunidade precisava para dar o próximo passo. Sorri para ela e voltei a encarar o povo.
Em seguida, Enid sorriu para todos e eles retribuíram o gesto, permanecendo no mesmo local. A garota adentrou a casa e só voltou com todo o grupo que se espalhou pela pequena varanda de modo a poderem ter visão das pessoas que estavam agora com uma aura de confiança em si. Prendi minha trança com um pequeno elástico que tinha em meu pulso e levantei-me observando o grupo de Alexandria focado na situação.
— O que está acontecendo? — Questionou Maggie, seu sotaque se sobrepondo na fala.
— Oi… então, caso você não se lembre, eu sou a Bertie, e eu devo minha vida a todos vocês. Duas ou mais vezes, todos nós devemos — pronunciou-se a mesma mulher. — A Enid disse que vocês querem que nós lutemos contra os Salvadores junto de seu grupo, é verdade?
Maggie permaneceu em silêncio, trocando alguns poucos olhares com Rick e Michonne, que permaneceram imóveis enquanto uniam suas mãos. A mulher virou-se para as pessoas e seguiu dizendo:
— Sim.
— Você acha que podemos vencer? Que podemos realmente acabar com eles? Nós?
— Eu acho — prosseguiu a ex-fazendeira.
— Enid disse que vocês podem nos mostrar como — a mulher abriu um curto sorriso e percebi que ela havia se livrado de todo o nervosismo presente em seu corpo, apenas pelo modo como seus ombros relaxaram. — Eu estou pronta.
O restante das pessoas concordou com Bertie, todos abrindo pequenos sorrisos de conforto e deixando a tensão se esvair. Rick e Michonne sorriram um para o outro, entrelaçando seus dedos como se sentissem que a maré estava para eles naquele dia. Carl sorriu para Enid e em seguida, colocou sua mão em meu ombro novamente, aproximando-se de meu ouvido e sussurrando:
— Estamos perto da vitória.
Não foquei em mais nada, apenas em minhas memórias de treinamento das pessoas da comunidade. Lembrava-me de ensiná-los como fui ensinada, e muitas vezes agi de modo duro com aqueles. Meus olhos estavam arregalados, como se o tamanho de meu campo de visão não fosse o suficiente para captar cada cena que passava em minha mente, e eu senti meu nariz coçar como se o choro estivesse ali, preparado para ser derramado. Apenas não o fiz porque Jesus começou a falar, e disse algo que me atraiu a atenção:
— É hora de vocês conhecerem o Ezekiel. Rei Ezekiel.
[…]
Chegamos em um local abandonado, vazio até para errantes, e estacionamos. Dois homens montados em cavalos e vestidos com trajes à prova de balas aproximaram-se e Jesus conseguiu conversar com eles. Não foquei em nada além do canto dos pássaros que era sereno, e assim acompanhamos os tais guardas.
Estes nos guiaram até portões que já estavam abertos e adentramos. Meus olhos se arregalaram no mesmo instante com tamanha surpresa e meu corpo perdeu o equilíbrio com o tamanho do local. Aquela era a maior comunidade que eu havia visto, formada por diversos prédios de tijolos vermelhos ao estilo sulista e grandes plantações as quais eram cuidadas por alguns moradores. Em grupo, algumas pessoas praticavam exercícios e outras apenas liam livros ou conversavam sob a sombra das árvores que rodeavam a calçada. Woodbury, a Prisão, Alexandria ou o pouco que vi da sede dos Salvadores não era nada comparado ao tal reino. Toda a área verde, população e sociedade estabelecida ali era radiante aos olhos do nosso grupo, que não via nada parecido há tempos.
Percebi que havia entrado em transe quando Carl me chamou e eu não escutei da primeira vez, precisando que ele tocasse em meu braço para fazer com que minha atenção voltasse a ele. Virando-me no mesmo instante, percebi que ele indicava o prédio em nossa frente, e todos adentravam o local. Fizemos o mesmo.
Chegando lá, me deparei com um lugar escuro e silencioso, sendo um grande auditório cheio de cadeiras empoeiradas e um grande palco com cortinas vermelhas, como aquelas que você vê em teatros de cidades pequenas. Mas quando foquei, realmente, no palco, senti meu corpo inteiro gelar e um arrepio correr minha espinha. Ao centro, um trono de madeira com uma corrente presa à um dos pés, e a outra extremidade estava no pescoço de um tigre. Sim, um tigre.
Sentado sobre o trono, um homem de trajes pesados, com um grande sobretudo de couro cobrindo-lhe o corpo. Seu cabelo era trançado em dreadlocks esbranquiçados com algumas penas presas à raiz. O homem segurava um cajado revestido em madeira de carvalho com a ponta de aço moldado em uma águia. Supus que ele fosse o tal rei. Ao seu lado, um garoto loiro segurando um bastão de madeira clara e outro homem em trajes vermelhas, com um grande sorriso colado aos lábios. Mas meus olhos não desgrudavam do tigre.
— Jesus! — Chamou o homem com o cajado. — É um prazer vê-lo, velho amigo!
— Realmente é um prazer! — Exaltou o homem do sorriso.
— Jerry. — Apreendeu o outro, mas sem tirar o sorriso do anterior. — Diga, que novas traz ao bom rei Ezekiel? São novos aliados que trouxe?
— De fato são, Vossa Majestade — Jesus aproximou-se do palco, tendo um tom calmo demais para quem estava vendo um tigre em sua frente. — Este é…
Os olhos azulados de Jesus pousaram sobre nós e encontraram todos nossos olhares assustados. Ele então procurou o que nos assustava e entendeu a situação, sorrindo de canto.
— Certo. Esqueci de falar…
— Sim, um tigre. — Rick comentou com sarcasmo no tom.
O tigre soltou um rugido e eu me assustei um tanto, agarrando a mão de Carl com força em um impulso. O garoto assustou-se com minha ação, mas sorriu ao ver minha expressão de medo. Soltei-me dele e revirei os olhos.
— Este é Rick Grimes, líder de Alexandria, e esses são alguns do grupo dele — continuou Jesus enquanto seguia para frente e nós também.
— Sejam bem-vindos ao Reino, bons viajantes. O que os trazem à nossa bela terra? — O homem fez uma leve pausa, analisando-nos com cautela. — Por que buscam uma audiência com o rei?
Nosso grupo se espalhou pelo auditório, alguns se sentando e outros se mantendo de pé. Carl partiu para a esquerda e eu segui próxima a ele, sentando-me sobre uma das cadeiras que tinha menos poeira, colocando meus pés sobre o assento da frente.
— Ezekiel — começou Rick, parecendo um tanto desconfortável, como se não soubesse como agir. — Rei Ezekiel. Alexandria, Hilltop e o Reino… Nossas três comunidades têm algo em comum. Todos servimos os Salvadores. Alexandria já lutou contra eles, e vencemos. Pensamos tê-los dizimado, mas não sabíamos na época o que sabemos agora.
Rick fez uma curta pausa e olhou para baixo, como se tivesse vinte cactos dentro de sua boca e cada vez que falasse, um espinho lhe perfurava. Imaginei que todos ali sentissem o mesmo, já que estivemos presentes na situação em que nosso líder estaria trazendo de volta.
— Derrotamos apenas um posto avançado. — Prosseguiu o homem. — Nos disseram que vocês têm um acordo, que os conhecem. Então sabem que eles dominam através da violência e do medo.
O rei tinha um sorriso talhado no rosto, mas seus olhos diziam o contrário. O homem ajeitou as pernas descruzando-as e cruzando-as novamente, demonstrando o desconforto que o consumia.
— Vossa Majestade, só contei a eles… — Jesus pronunciou-se, mas fora logo interrompido pelo rei.
— Nosso acordo com os Salvadores não é conhecido do meu povo, por bom motivo — o líder do Reino tirou o sorriso do rosto e encarou diretamente o outro, sua voz monótona. — Nós lhe contamos esse segredo quando nos contou sobre os problemas de Hilltop, não esperávamos que contasse…
— Podemos ajudar um ao outro. — Jesus tentou argumentar, mas pela segunda vez, fora interrompido. Agora por Jerry.
— Não interrompa o rei. — O homem falou com palavras pausadas, agora sem sorrir.
— Nós o acolhemos em nosso círculo de confiança — prosseguiu o Rei. — Por que o quebrou?
— Porque quero que ouça os planos de Rick.
O rei removeu os olhos penetrantes de Jesus e voltou-os para Rick, ainda com a mesma expressão. Observei Carl por cima de meu ombro para ver sua reação e ele mordeu o lábio inferior, demonstrando seu nervosismo.
— E que planos você tem, Rick Grimes de Alexandria?
— Viemos pedir ao Reino, ao senhor, que se juntem a nós na luta contra os Salvadores, lutando pela liberdade para todos.
Fazia sentido. Se o Reino se juntasse a nós, teríamos pessoas e armas extras para poder lutar, e teríamos uma chance ainda maior de ganhar.
— O que pede é muito sério — comentou o rei.
— Muitos dos nossos, boa gente, foram mortos brutalmente pelos Salvadores — Michonne entrou na conversa, trazendo um tom calmo e convincente.
— Quem? — Perguntou Morgan.
Mordi o lábio inferior, lembrando-me de que ele e Carol não estiveram presentes no momento, nem depois, já que haviam se separado do grupo antes. Senti um leve aperto no coração de imaginar que nenhum dos dois tinham a mínima ideia do tal massacre.
— Abraham — disse Rosita, prosseguindo. — Glenn. Spencer, Olivia. Eugene foi levado. Eles levaram Daryl, ele escapou. Cada segundo que está fora, ele está em risco. Ia dizer que tinha razão?
Morgan olhou para o chão, não conseguindo encarar nenhum de nós.
— Não. Eu… Eu sinto muito que tenham morrido.
— Negan matou Glenn e Abraham na porrada — Rick tomou a palavra.
— Ele aterrorizou Hilltop. Soltou errantes lá só para dar seu recado — comentou Sasha.
— Sequestrou Carl e Mari e os assediou — o Grimes disse e eu senti meu corpo gelar novamente, focando o chão.
— Eu achava que podíamos viver com um acordo — pronunciou-se Jesus. — Muitos de nós achávamos. Mas isso está mudando. Então vamos mudar o mundo, Vossa Majestade.
— Quero abrir o jogo sobre o que estamos pedindo — voltou a dizer Rick. — Minha gente é forte, mas não somos suficientes. Não temos armas… Pelo menos, não o bastante. Poucas armas, ponto final.
— Temos gente — disse o homem à esquerda do rei, o mesmo guarda que nos guiou até os portões. O olhar do líder o fuzilava enquanto ele falava — E armas. Se atacarmos primeiro, juntos, podemos derrotá-los. Vossa Majestade, chega de esperar a situação piorar além do que podemos aguentar. Vamos corrigir a situação. A hora é agora.
Um silêncio estabeleceu-se no local, deixando todos mais nervosos do que antes. Estiquei as pernas procurando por mais conforto e respirei fundo, tentando ler o rei, mas aparentemente, o homem escondia bem suas emoções.
— Morgan, o que você acha? — Questionou seu líder.
— Eu? — O homem cruzou os braços.
— Fale.
— Pessoas vão morrer — bela maneira de começar, idiota. — Muita gente e não só dos Salvadores. Se pudermos achar outro jeito, temos de fazê-lo. Talvez dependa apenas do Negan, de capturá-lo, prendê-lo. Talvez…
Puta merda.
— Já é tarde — levantou-se o rei. — Rick Grimes de Alexandria, deu ao rei muito o que pensar.
— Quando eu era criança, minha mãe me contou uma história — Rick parecia nervoso, mas ainda tinha sua ótima característica de líder: a persistência. — Havia uma estrada para um reino e havia uma pedra na estrada. E as pessoas costumavam evitá-la, mas os cavalos quebravam suas pernas nela e morriam, rodas de carroça soltavam-se. Perdiam as mercadorias que vinham vender. É o que aconteceu com uma garotinha. O barril de cerveja de sua família caiu. Quebrou. A terra absorveu tudo e a cerveja se foi. Era a última chance da família dela. Estavam com fome. Não tinham dinheiro. Ela sentou-se lá e chorou. Mas ela pensou por que aquilo ainda estava lá para ferir outra pessoa. Então ela cavou a pedra da estrada com suas mãos até sangrarem, usou tudo que tinha para tirá-la. Levou horas. E então… Quando ela ia fechar o buraco, viu algo dentro. Era um saco de ouro.
— Muito bem — o tal Jerry voltou a sorrir.
— O rei tinha posto a pedra na estrada porque ele sabia que a pessoa que a tirasse, que tomasse uma atitude, merecia uma recompensa — prosseguiu Rick. — Merecia que sua vida mudasse para melhor… Para sempre.
Após um curto momento de silêncio, os olhos do rei desgrudaram-se de Rick, como se sua história não fosse de sentido algum, e olhou para todos nós, sorrindo.
— Convido todos vocês a cearem conosco e ficarem até amanhã.
— Precisamos voltar para casa — afirmou Rick.
— Anunciarei minha decisão ao alvorecer — retrucou o rei, seu tom sério e um tanto provocativo. Em seguida, ele bateu o cajado duas vezes no chão e saiu de cena.
Fomos escoltados por Morgan para fora do auditório. O mesmo nos disse que nos guiaria até os alojamentos, e foi o que fez. Guiou-nos até um grande estabelecimento de tijolos vermelhos e com um saguão agradável, lembrando hotéis com algumas estrelas. Pegando chaves atrás do balcão, colocou-as contadas em quatro.
— São cinco quartos, contando com o meu. Os alojamentos têm uma cama e um sofá cada, falta apenas dividir as duplas. Um dorme comigo.
— Faremos o seguinte — Rick olhou para todos nós, suas mãos fixas na cintura. — Michonne e eu ocuparemos um, Tara e Rosita em outro, Jesus e Sasha, Carl e Mari e Daryl vá com Morgan.
Senti um leve arrepio nas costas e respirei fundo.
— Eu poderia mudar de dupla? — Questionei, arrancando olhares duvidosos.
Todos ali pareceram confusos com minha pergunta, incluindo Carl, mas ele pareceu ter entendido mais tarde. Seus olhos traziam uma leve sensação de tristeza. Olhei para Rick que assentia lentamente, umedecendo os lábios. Afinal, ele sabia, e deveria entender a situação.
— Eu pego um quarto com Mari e Rick dormirá com Carl — Michonne tomou a palavra.
[…]
Assim que adentramos o quarto, Michonne encostou-se à porta agora fechada e me encarou com a cabeça um tanto inclinada, seu olhar penetrando meus olhos. Tentei desviar, envergonhada, mas algo me trazia conforto ali. Foquei no quarto, vendo as paredes limpas e iluminadas pelo sol do fim de tarde. De mobília, apenas uma cômoda ao lado da porta, um sofá sobre um tapete oriental e um vaso vazio.
— O que houve? — Perguntou a mulher.
— Como assim?
— Você sabe sobre o que eu estou falando — Michonne prosseguiu.
Sentei-me sobre o sofá e entrelacei meus dedos sobre os joelhos, inclinando-me para poder focar o tapete e cada um de seus detalhes. Provavelmente feitos à mão. Senti uma leve movimentação ao meu lado e olhei por cima do ombro, encontrando a morena que ali se sentava, aproximando-se um tanto para trazer ainda mais conforto.
— Está tudo bem? — Questionou.
Umedeci os lábios e senti algumas lágrimas se formarem em meus olhos, mas ri para disfarçar e evitá-las.
— Por favor, não me diga que vocês terminaram o… relacionamento que vocês têm.
Olhei para ela com uma sobrancelha arqueada e chacoalhei a cabeça. Não tinha imaginado que as pessoas pudessem ter pensado em uma suposta separação.
— Não — neguei e mordi meu lábio inferior. — É complicado.
— Eu percebi que vocês andam um tanto separados ultimamente — desviei meu olhar. Eu sabia que Michonne o tratava como seu próprio filho, e sabia que tinha de tomar cuidado com minhas palavras para que não lhe desse a impressão errada. — Carl é louco por você e…
— Negan nos fez fazer coisas que não queríamos — despejei as palavras e me arrependi em seguida.
Senti como se um peso fosse embora de meus ombros, mas ainda assim, meu peito pesava tanto quanto. Agora talvez um tanto mais, pelo fato do arrependimento de ter lhe contado algo tão particular. Michonne aproximou-se um tanto e tive medo de que ela percebesse minhas lágrimas já formadas.
— Você quer compartilhar sobre? — Sussurrou e eu abaixei meu rosto, ainda nervosa.
Meu estômago parecia ter se formado em uma bola que quicava em todos os cantos de minha barriga. O nervosismo e a ansiedade estavam me comendo viva, e eu sentia que precisava compartilhar com alguém, já que Carl havia vivenciado junto e ninguém mais sabia sobre. Talvez aquele fosse o momento para eu poder me abrir. Ou a pessoa certa.
— Ele nos colocou em um quarto e… e nos mandou fazer… com todos seus homens olhando e… eu… — tentei prosseguir, mas as lágrimas começaram a cair.
Me odiei pela situação. Chorar na frente de quem não me conhecia era como estragar minha imagem que eu havia demorado para construir. Quis me bater, ou sair correndo, mas os braços negros da mulher me agarraram em um abraço profundo, que pareceu tirar toda a energia ruim de mim. Todos meus traumas evaporaram naquele instante, e eu me senti leve.
— Não tem problema chorar. Isso faz sentido — disse a mulher, seus lábios encostando em meus ouvidos enquanto sua voz calma ecoava em minha cabeça. — Fique tranquila, libere sua tristeza.
[…]
Acordei naquela manhã com uma manta de tricô sobre o corpo e a cabeça encostada em uma almofada azul sobre o sofá. Levantei o rosto e senti o calor do sol queimar em minha pele, e meus olhos arderem. Passei as mãos pelo rosto e senti algumas lágrimas secas sobre as bochechas, e lembrei-me de ter dormido enquanto ainda chorava. Respirei fundo e me levantei, esticando as costas.
Sentei-me sobre o sofá e olhei para os lados, encontrando uma das portas no pequeno corredor fechadas, e outras duas abertas. As abertas eram quartos, e imaginei que a fechada fosse um banheiro. Mesmo com duas camas — de casal, aparentemente confortáveis, por sinal — eu acabei dormindo no sofá. Michonne deve ter se importado o suficiente para colocar uma manta sobre mim e um travesseiro para apoiar minha cabeça.
Levantei-me em um impulso e ajeitei a jaqueta sobre o corpo, calçando minhas botas novamente antes de explorar o local. Assim que cheguei ao corredor, a porta do meio se abriu, revelando Michonne com uma toalha em mãos. A mulher sorriu de canto e eu retribuí, sem o mesmo ânimo matinal. Até porque eu me sentia exposta demais para poder olhá-la com os mesmos olhos.
— Aqui tem água corrente — afirmou. — Delicie-se. Logo estaremos de saída.
Aproximei-me e cheguei até a pia. A mulher me deu espaço e eu fechei a porta, procurando privacidade. Enxaguei meu rosto com a água gelada, que repuxou minha pele em plenos milésimos de segundos. Peguei uma toalha sobre uma pequena cômoda branca e enxuguei cada gotícula visível e invisível a olho nu. Meus olhos, então, fixaram-se ao espelho, vendo as pálpebras ainda inchadas, não sabia dizer se era pelo choro ou pelo sono.
Respirei fundo e resolvi enxaguar mais uma vez, na intenção de tirar a sensação irritante das bochechas quentes pelas lágrimas que rolaram ali. Coloquei a toalha de volta ao lugar e passei uma mão pela franja, jogando-a para trás. Saí do banheiro e encontrei Michonne com a Katana nas costas, preparada para sair.
— Rick já passou por aqui. Eles estão nos esperando no saguão.
Assenti e segui para fora do quarto. Então descemos as escadarias laterais e encontramos o restante do grupo localizado no centro de um grande tapete claro. Imaginei a dificuldade que era mantê-lo limpo. Encontrei Carl ao lado de seu pai com o chapéu em mãos, e ao me ver, abriu um sorriso tímido, amedrontado de minha reação. Não lhe dando o que esperava, sorri de volta, com entusiasmo por vê-lo naquela manhã. Aproximei-me do garoto e toquei-lhe o ombro, deitando meu rosto rapidamente ali, apenas para lhe mostrar que eu estava bem.
Todos saímos do saguão e nos encontramos com a brisa matinal e o cheiro de hortaliças frescas, além da terra úmida pelo orvalho. O rei não estava ali, quem nos esperava era o mesmo guarda do dia anterior, que nos guiou pelos campos de treinamento de arco e flecha. Observei cada um dos jovens próximos à minha idade que lançavam flechas no centro dos alvos, e senti-me um tanto tensa, lembrando-me do centro de treinamento de Woodbury. Carl encarava o local com encanto no olhar, além de um certo receio que seu corpo trazia.
— O que você achou daqui? — Perguntou-me sem tirar os olhos de seus arredores.
— Intrigante, mas irrealista — afirmei e ele assentiu.
— Mas seguro — reforçou sua ideia. Seu olho pousou sobre mim e eu arqueei uma sobrancelha. — O Reino é seguro.
— O Reino tem ligações com os Salvadores, Carl — retruquei e ele negou com a cabeça.
— O povo não sabe. É seguro.
— Está bem, Carl — chacoalhei a cabeça. — O que você não está me contando?
O garoto abriu a boca para tentar rebater, mas negou com a cabeça e baixou o rosto, sabendo que não haveria discussão.
— Meu pai disse que Negan fez algumas provocações…
— Ele sempre faz, Carl, você não pode se afetar com isso — interrompi-o antes que pudesse dizer qualquer outra coisa. — Às vezes ele blefa para nos atingir.
— Não dessa vez — o garoto levantou o olhar. Permaneci quieta, percebendo sua dor.
— O que ele disse?
Carl respirou fundo e olhou para baixo, novamente. Seus passos desaceleraram e ele me olhou de relance.
— Negan disse que adoraria te ter como uma de suas esposas. Falando em vários comentários inadequados sobre seu corpo ou… você sabe.
Mordi meu lábio inferior e desviei o olhar, deixando minha boca aberta em um "o".
— Talvez… talvez ele estivesse blefando, Carl… talvez…
— Mari — o garoto disse em um tom calmo. — Não é mais seguro para você ficar em Alexandria.
Abri a boca e balbuciei palavras, mas não consegui dizer nada. Eu sabia que ele estava certo. Abaixei o olhar e segui o caminho em silêncio.
— Assim é a vida aqui — disse o guarda, me arrancando dos pensamentos. — Todos os dias.
— Mas tem seu custo — olhei para a frente e encontrei o rei, que estava de costas para nós, observando seu povo em seus devidos treinos. — E eu queria mais disso. Queria expandir, criar mais lugares assim. Homens e mulheres perderam seus membros. Crianças perderam seus pais, porque eu os mandei à batalha contra os perdidos quando não precisava.
— Isto é diferente — Rick interferiu, já parecendo irritado.
— Não é.
— É — persistiu o Grimes. — Os mortos não governam. O mundo não é assim fora de seus muros. As pessoas não têm essa vida fácil. Algumas não têm nada.
— Tenho de me preocupar com meu povo — interrompeu o rei.
— Você se chama de rei — Daryl adentrou o assunto, dissipando sua invisibilidade. — Com certeza não age como um.
— Tudo isso teve um custo — Ezekiel continuou. — Foram vidas, braços, pernas. A paz que temos com os Salvadores é incômoda, mas é paz. Tenho de mantê-la.
— Tenho de tentar — disse Rick após um longo período de silêncio.
— Apesar de o Reino não lhes dar a ajuda que desejam, o rei simpatiza com sua situação. Ofereço asilo a nossos amigos Daryl e Mari enquanto eles precisarem. Eles estarão seguros aqui.
Todo o restante da conversa me fora um breu. Passou em questão de segundos, já que minha cabeça estava focada em sua fala anterior, imaginando que Rick já havia tomado providências para me estabelecer no Reino, como um refúgio. Eu não precisava daqui, realmente. Precisava?!
Quando me dei conta, já estávamos no portão, todos se despedindo de Daryl e Morgan, agradecendo o rei pela estadia, mesmo que saíssem sem o que quisessem. E meu transe apenas finalizou quando Carl se aproximou de mim, suas mãos geladas encostando em minhas bochechas quentes de nervoso.
— Você fez isso — sussurrei e ele assentiu com a cabeça.
— Desculpe — pediu e encostou nossas testas, agora nós dois compartilhando da mesma respiração.
— Eu não quero ficar aqui, ainda mais nesse momento — disse eu e ele negou com a cabeça.
— Não posso arriscar isso — o garoto disse, sua voz trêmula.
— Você não pode decidir por mim, Carl — entrei em desespero, a realidade batendo em minha cabeça. — Não posso ficar aqui e…
— Eu venho te visitar — ele afirmou e beijou a ponta de meu nariz, aquecendo a área. — Aqui é seguro.
Não quis chorar novamente, e tive uma luta difícil com as lágrimas já formadas, mas acabei vencendo. Fechei o curto espaço entre nós e selei meus lábios aos seus, abraçando seu pescoço para poder ficar o mais próximo possível. O garoto afastou-se e passou o polegar por minhas bochechas.
— Você vai se sair bem — afirmou ele. — Eu sei disso.
Selei meus lábios aos dele uma última vez e abri mão de sua presença, vendo-o se afastar de mim, partindo para os portões e indo embora. Olhei para os lados e me deparei com Daryl e Morgan, cabisbaixos. Só então a ficha caiu: eu estava só.
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