Why Me?

65 Capítulo 65 - Out


Notas iniciais
Hey, fic atualizada novamente, então boa leitura!

Carl encostou a cabeça ao azulejo novamente, soltando um longo suspiro pelos lábios roxos. Encostei a minha sobre seu ombro, deixando meus fios molhados correrem pelo peitoral úmido. O vapor ainda predominava o ambiente, mesmo com o registro fechado e as poucas gotas que caíam sobre nós, sendo o único fator que seguia nos aquecendo.

Não havíamos trocado uma única palavra desde o último acontecimento. Carl passou o trajeto da volta segurando minha mão com força, como se tivesse medo de que nunca mais fosse me tocar. E eu, em conjunto, não removi minha mão uma única vez de seu ombro, fazendo movimentos tranquilizantes com o polegar, sabendo que ele necessitava do consolo.

Depositei um curto beijo logo abaixo de seu maxilar rígido pela luta contra as lágrimas. Em seguida, indiquei para que saíssemos do box. Carl se levantou e pegou sua toalha, oferecendo-me a minha.

[...]

Nos encontrávamos agora no parque, sentados ao gramado, tentando aproveitar o máximo do sol do meio-dia. Eu convenci Carl a sair de casa, já que estávamos habitando o quarto dele há três dias, e um ambiente aberto seria melhor.

Notei que Enid estava parada ao lado do parque, nos encarando. Olhei para Carl, que seguia fitando o gramado com precisão. Uma ruguinha surgiu entre suas sobrancelhas, demonstrando a tensão presente em seu corpo. Talvez seus pensamentos tivessem o dominando. Voltei meu olhar à garota no canto e fiz um sinal para que ela se aproximasse, e ela o fez. Imaginei que Carl precisasse de sua companhia.

— Eu vou estar do outro lado — avisei-o e recebi um rápido olhar em resposta.

Levantei-me e abri espaço para que Enid se sentasse no meu lugar. Procurei não intrometer meu olhar entre eles, então apenas parti para o portão leste, onde não havia visão da vigia. Quando alcancei o topo, desci um tanto e saltei com os joelhos dobrados, caindo sobre o gramado. Minha faca estava comigo, em meu bolso, abaixo de todos aqueles casacos pesados, e eu me encontrava no meio da floresta vazia.

Anteriormente, Carl e eu encontramos um pequeno riacho próximo, com um grande píer. A zone parecia ter sido protegida com algumas grades, por motivos desconhecidos, mas era totalmente seguro, então eu soube para onde ir.

Caminhei mata adentro observando as árvores que me cercavam. Nenhuma era frutífera, eram apenas altas e cobriam a luz solar. Peguei minha faca e segui caminhando, procurando evitar barulhos. Ao meu lado, um errante se aproximava, e tinha algo nele que o diferia: grandes bolsas de pus abaixo do queixo. Contorci meu rosto e olhei para minhas roupas, sentindo o cheiro de limpeza.

Alguém me mataria se eu as sujasse.

Olhei para o outro lado e encontrei uma árvore menor, com galhos à mostra e à altura normal. Peguei minha faca e comecei a cerrar um dos galhos, tentando criar uma ponta. O errante se aproximava, movido ao barulho que eu fazia batendo os pés contra as folhas secas. Assoviei e ele grunhiu. Quando estava perto o suficiente, desviei-me de suas mãos e ele perfurou a barriga com o galho. Então eu dei a volta e finquei a lâmina em sua nuca, matando-o de vez.

Sem sujeira, sem problemas.

Após alguns minutos de caminhada e mais três errantes mortos com uma tática perfeita para não sujar a camisa branca e os casacos, encontrei as grades do riacho e adentrei-as pelo buraco que Carl fizera ali. O píer localizava-se à frente, então andei mais um tanto até pisar sobre a madeira. Sentei-me em sua ponta e coloquei a faca ao meu lado, sem preocupações. Nenhum errante conseguiria entrar no local.

Parei para observar o riacho que corria sutilmente entre as pedras, fazendo um som agradável e tranquilizante. Permiti-me respirar fundo e sentir o ar gélido descer em meus pulmões. Era um conjunto de pássaros cantando e as folhas das árvores batendo com o vento. Permiti-me tomar aquele momento como meu, para que eu pudesse ser quem eu era e não ter problemas com isso.

Afinal, Carl estava certo, o plano de Carol me consumiria. Eu consegui conquistar parte da confiança, ou apenas olhares tranquilos dos cidadãos. Exceto que agora seus olhares eram de pena, pois eles souberam do que houve. Tomei aquele tempo para ficar ao lado de Carl, mas quando eu estava longe dele, fazia cara triste e caminhava só pelas ruas da cidade, conseguindo com que algumas pessoas parassem, colocassem suas mãos em meus ombros e me dissessem que tudo daria certo.

O fato era que eu estava me aproveitando da situação para o plano. Eu não estava tão triste assim, a raiva era maior que a tristeza, e a cada toque de dó eu sentia mais vontade de procurar por Negan e enfiar a faca em suas entranhas, para uma morte lenta e dolorosa.

Mas para os outros, eu era a cidadã triste e traumatizada, como Carol. E era o que eu queria ser. Até Enid devia estar mais traumatizada que eu, e ela sequer havia ido ao encontro dos Salvadores.

— Ei — uma voz soou atrás de mim e eu me virei com a faca já em mãos, em um movimento de reflexo. Soltei o ar que havia segurado ao ver o rosto, acalmando-me. — Sou eu, fique calma.

Sorri para Carl, que agora estava sentando-se ao meu lado, colocando as pernas para balançar no ar.

— Como você soube que eu estava aqui? — Perguntei e ele olhou para baixo, observando a correnteza.

— Sentido, eu acho…? — Sorri e balancei meus pés. — Eu só soube. Por que você me deixou sozinho?

— Eu te deixei com a Enid — afirmei e ele torceu a boca. — Achei que você precisasse da companhia de uma amiga.

— Queria a sua companhia, no momento — ele umedeceu os lábios. — Enid precisa cuidar da Maggie.

Ficamos em silêncio ao fim de sua fala. Eu estava impressionada por ele ter vindo atrás de mim, ou por ter dito algo. Carl acordava no meio das noites com pesadelos, ofegante e com suor grudando seus fios ao rosto. Quando não era ele, era eu, imaginando o bastão batendo contra minha cabeça, ou a de qualquer um. Às vezes, meu pesadelo era Negan matando meu irmão.

— Você está bem? — Perguntou ele.

Assenti com a cabeça.

— Não se preocupe comigo — disse eu e ele torceu a boca. — Você está bem?

— Não quero que isso seja apenas sobre mim — ele afirmou. — Você tem todo direito de estar mal, e eu quero poder ajudar.

— Eu gosto que seja sobre você.

— Três dias sobre mim foram suficientes. Eu estou bem, não perdi o braço e nem tive os miolos estourados por uma bosta de taco de baseball.

— Eu também estou — respondi e ele sorriu de canto. — São só os pesadelos.

— Tudo bem, eu entendo.

Sorri e olhei para seu rosto. Carl tocou minhas bochechas e aproximou-me de si, selando seus lábios aos meus. Fazia algum tempo que não nos beijávamos, então degustei da maciez de sua língua sobre a minha. Carl se afastou um tanto e seu olho estava mirado em minha boca, enquanto os meus eram fixos ao seu.

— Nós tínhamos tanta intensidade no início do relacionamento — Carl comentou e eu soltei uma curta risada.

— Agora somos um casal de velhos — ri e o garoto soltou uma gargalhada.

— Mas estamos em boa forma — Carl passou o braço sobre meus ombros.

— Definitivamente — sorri e ele beijou o topo de minha cabeça.

[...]

Esgueirei-me atrás de uma árvore, esperando a mulher que estava na vigia se virar. Assim que o fez, corri em disparada e atravessei a cerca, adentrando o pátio vasto. Ao meu lado, havia uma grande parede grifada em tinta preta: "C". Era o bloco de celas, exatamente aquele que Carl dizia viver.

Empurrei a porta e olhei ao meu redor, no corredor escuro. Caminhei até seu final encontrando um portão e tentei empurrá-lo em silêncio, entrando na área das celas. Eram muitas, e tinha uma escada para um segundo andar. Caminhei sorrateira, como haviam me ensinado no treinamento. Segurei as lágrimas e passei pelas grades, esgueirando-me para ver mais perto seus interiores. Na terceira, encontrei apenas o vazio, mas seu chapéu estava sobre a cama.

Péssima ideia, Mari. Péssima ideia.

Corri para fora do bloco e trombei com alguém, ambos caindo ao chão. Congelei no mesmo instante, sabendo que poderia ser qualquer morador. Assim que levantei meu olhar e encontrei seus olhos azuis tão assustados quanto os meus.

— O que você faz aqui? — Perguntou Carl.

— Eu… eu não consigo… — tentei dizer, mas o pânico ainda estava presente em meu corpo.

Carl parou de me encarar e agarrou meu pulso, me levantando junto de si mesmo.

— Venha, não podemos ficar à vista — o garoto me puxou para longe do bloco.

Corremos até uma porta que levou a força de Carl para ser aberta, e um ruído estridente ecoou nos vastos corredores ali dentro. O garoto me levou até uma sala e fechou a porta atrás de mim. Rapidamente, pegou uma lamparina apagada e acendeu-a, iluminando nosso caminho. O local para qual Carl havia me levado era cheio de estantes com livros. Haviam algumas almofadas no chão. Deduzi que fosse uma biblioteca.

— Eu gosto de ficar aqui quando estou irritado — comentou, se sentando em uma almofada e puxando outra para perto de si. — Fiz parecer mais confortável, já que só eu fico por aqui…

— Desculpe — disse eu, baixando meu olhar.

— Pelo quê? O que houve?

Permaneci quieta, deitando minha cabeça em seu ombro e deixando as lágrimas rolarem.

— Você prefere ficar em silêncio?

Assenti e ele posicionou sua mão em meu cabelo, acariciando-o. O garoto abraçou minha figura e não soltou até seu suspiro de sono.

Olhei para cima e encontrei Negan, rindo suavemente enquanto seus olhos estavam fixos aos meus.

— Achou que eu não fosse voltar? — Perguntou antes de descer seu taco de baseball em mim.

[...]

Acordei com os braços de Carl em torno de meu corpo enquanto sua cabeça repousava em meu pescoço. Meu susto ao acordar deve tê-lo alarmado, já que ouvi seus gemidos logo em meu ouvido.

A cena do pesadelo pareceu tão vívida que demorei alguns minutos para cair na realidade. Eu estava no mesmo quarto em que adormeci, o quarto de Carl, onde eu dormia todas as noites. E ele não era mais aquela criança que mal cabia em suas roupas e tinha bochechas tão grandes para seu rosto.

Minha respiração era ofegante e eu me sentei na cama, tentando recuperar a estabilidade de meu corpo trêmulo. Carl sentou-se ao meu lado e segurou meu corpo, acariciando minhas costas, assim como eu fazia com ele quando seus pesadelos lhe atormentavam.

— Shh… vai passar — sua voz era tão suave que permiti-me fechar os olhos para acalmar.

Parei de tremer e minha respiração voltou ao normal, então Carl me soltou e olhou direto em meus olhos, segurando meu rosto com os dedos esguios.

— Eu estou bem — confirmei e ele assentiu. — Acho que vou sair, para tomar um ar.

— É melhor você ficar por perto — ele sugeriu e eu mordi meu lábio inferior. — Fique fazendo aquele exercício que eu te ensinei.

Assenti e posicionei minha mão sobre o edredom, amaciando-o com os dedos. Carl havia dito que aquilo ajudava com que sua calma voltasse, então eu passei a fazê-lo.

— Vou tomar banho, depois podemos ir ao parque.

— Ok — concordei e ele se levantou, caminhando em direção ao banheiro.

Eu permaneci ali, amaciando o edredom com os dedos. Amaciando o edredom com os dedos. Amaciando o edredom com os dedos. Amaciando o edredom com os dedos. Amaciando o edredom com os dedos.

Apenas parei quando Carl voltou para o quarto, com a toalha em volta de sua cintura e seu peito ainda molhado, combinando com o cabelo. O garoto aproximou-se de mim, sorrindo de canto, vendo meu movimento repetido com a mão.

— Está mais calma? — Perguntou ao caminhar até o guarda-roupas.

Assenti e parei de amaciar o edredom, olhando para o garoto enquanto ele procurava por roupas. Quando Carl deixou a toalha cair, virei meu rosto para outro lado. Sempre sentia que eu estava invadindo sua privacidade quando nos víamos em situações como essas, o que não era igual aos nossos banhos, onde tudo parecia apenas afeto e tranquilidade. Assim, desse jeito, soava como algo que eu não gostaria de pensar sobre ele.

— Você prefere ir até o parque ou ficar aqui em casa? — Carl subiu seus jeans escuros pelas pernas. — Talvez você possa me ensinar a cozinhar. Mas primeiro precisa tirar esses pijamas.

Sorri para ele e me levantei da cama, caminhando ao guarda-roupas, logo ao seu lado. Eu havia praticamente mudado para sua casa, pois a minha era muito quieta sem ninguém morando comigo, então todas minhas roupas estavam junto das suas.

Retirei minha blusa vinho e coloquei-a em cima da cômoda, ficando apenas de calças de moletom. Eu não usava sutiã para dormir, mas não era constrangedor, já que minha intimidade com Carl era extensa. Peguei um sutiã qualquer que estava pendurado ali e vesti-o. Antes de colocar uma camisa, o garoto abraçou-me por trás, segurando minha cintura, e eu senti seu peito nu contra minhas costas. Ele enfiou o rosto em meu pescoço, suspirando.

— Carl, você… — no mesmo instante, Rick abriu a porta do quarto e encontro nossa situação. Nos separamos rapidamente e eu abracei meu corpo tentando fazer com que ficasse menos visível.

O homem fechou a porta no mesmo segundo.

— Hm… Carl, talvez você deva descer — sua voz soou abafada do outro lado. — Eu queria que você fizesse uma lista dos remédios na enfermaria.

Mordi meu lábio inferior, olhando para baixo.

— Ok, eu já vou! — Avisou o garoto, colocando sua blusa cinza.

Carl olhou para mim e eu soltei uma curta risada de nervoso.

— Isso foi constrangedor — afirmei e ele assentiu.

— Acho que nosso passeio foi cancelado — concluiu e colocou uma camisa xadrez por cima da blusa. — Ou você pode ir comigo…

— Eu passo — neguei com a cabeça e sorri, pegando minha camiseta verde e colocando-a rapidamente, pois estava começando a sentir o frio. — Acho que vou pegar um livro em casa. Você quer ajuda com o curativo?

— Não, eu faço — afirmou e eu assenti.

Peguei o casaco militar e coloquei-o junto das calças escuras. Carl sentou-se na cama e pegou a caixa de bandagens. Puxei minha faca debaixo do travesseiro e coloquei-a em meu bolso, evitando que a calça a marcasse.

— Agora vou ter que escutar a conversa de meu pai — o garoto soltou um riso abafado.

— Você quem me abraçou — provoquei-o.

— Não jogue a culpa para mim — Carl revirou os olhos e eu sorri, calçando minhas botas.

Olhei para minhas roupas e não senti firmeza em uma imagem de cidadã ideal.

— Eu estou transmitindo um ar de nunca-matei-ninguém-nem-nada-na-vida? — Questionei-o.

— Não, seu cabelo está bagunçado.

— Certo, então vou arrumá-lo — caminhei até a porta.

— E eu já estou indo para a enfermaria — Carl andou em minha direção e depositou um rápido beijo sobre meus lábios antes de descer as escadas.

Sorri para mim mesma e abri a porta do banheiro, encontrando-o ainda quente pelo banho de Carl. Caminhei até a pia e o espelho, puxando-o e revelando o armário, que continha uma escova para cabelos. Penteei meus fios lentamente, procurando deixá-los bem ajeitados. Passei uma mecha de minha franja para trás da orelha e analisei meu reflexo durante alguns segundos.

Minhas bochechas estavam fundas, mais do que o normal, e meus lábios, ressecados. Talvez porque eu não estivesse comendo direito, ou me cuidando bem, mas Carl estava parecido, então não havia problema. Havia?

Escovei meus dentes rapidamente e joguei água em meu rosto, apenas para acordar de vez, então desci as escadas. Não encontrei mais ninguém na casa. Meu estômago roncava e eu decidi que uma barrinha de cereais me faria bem, e procurei por uma nos armários. Assim que encontrei, abri-a e mordi um pedaço.

Saí da casa e fechei a porta, descendo da varanda até a calçada. Pude ouvir os portões se abrirem, então imaginei que Rick estaria de partida, mesmo que Carl não tivesse me dito nada sobre. Andei pelas ruas com os pés batendo de modo oco no asfalto, sem rumo algum. Eu só precisava de ar fresco. Talvez eu fosse buscar o tal livro, mas a ideia não parecia convincente.

Peguei a rota até a antiga casa de Deanna e subi a varanda. Assim que pisei no último degrau, vi movimentação logo atrás, e reparei que eram vários homens, todos vestidos como guardas. Meu peito gelou no mesmo instante e só piorou ao ver Negan ao lado de Rick próximos à horta.

Droga, Carl.

Em minha mente, tentei passar todos os motivos que levaria Negan à visita. Verificação, mortes, tortura, sequestro, bombas, detonação, extermínio, provocação, ameaça, vingança, paz, armas… Armas. Droga, armas. Virei a rua no mesmo instante e corri em direção ao arsenal, abrindo a porta rapidamente. Olivia estava sentada em uma das poltronas que rasguei, mas agora tinha um remendo. Ela me encarou com desdém, de cima para baixo.

— Posso ajudar…?

— Só passando por aqui — tive certeza de que minha voz estava trêmula.

— Me chame se precisar — ela comentou e seguiu lendo a revista que tinha em mãos.

Respirando forte, caminhei sorrateira até a parte de trás, onde ficava a dispensa. Eu sabia que Olivia tinha um caderno em que fazia anotações sobre os produtos, pois, quando eu costumava fazer meus assaltos, riscava alguns elementos para parecer que haviam esgotado. Procurei em cada estante e em cada caixa, mas nada encontrei. Droga. Eles vão levar as armas.

Torcendo meus dedos e olhando para cima, esperando que o Universo fosse simpático com todos nós, respirei fundo e saí do arsenal. Foi então que ouvi disparos e vieram da enfermaria. Meus antebraços ganharam tensão e eu senti um arrepio correr por minha espinha. Novamente, recorri ao Universo, na esperança de que não tivesse nada a ver com Carl.

Olhei para trás e avistei mais homens caminhando, e alguns em minha direção. Virei-me de costas e retirei a faca do bolso rapidamente e coloquei-a dentro de minhas calças, assim, tendo uma desculpa para não encontrarem caso fizessem revista.

Um homem de grande porte, careca e vestindo roupas surradas caminhou até mim, desajeitado, caindo para cada lado. Ele me encarou durante alguns segundos e abriu um sorriso malicioso. Passei a mão sobre meu cabelo, ajeitando qualquer mecha fora do lugar. Agora, mais do que nunca, precisava passar a imagem de cidadã perfeitamente inocente.

— Quem são vocês? — Questionei.

— Viemos pegar algumas coisas — disse ele enquanto se aproximava. — Vou ter que tocar seu corpo agora.

Fiz minha melhor expressão de susto e levantei as mãos em modo de rendição. O homem colocou as suas dentro de minha jaqueta, descendo pelas laterais das costas e chegando até o traseiro, onde repousou-as e apertou. Arregalei os olhos e encarei-o com raiva, tentando disfarçar com inocência. Sem muito sucesso, imagino. Suas mãos passaram para frente, aproximando-se da área mais íntima de meu corpo. Temi pela faca.

— Ei, Dave, isso não é uma revista! — Afirmou uma voz rouca logo atrás de nós. Reconheci-a no mesmo instante e senti meu corpo gelar mais uma vez, desfazendo-se do ardor da raiva. — Tire suas mãos sujas da garota.

Não ousei olhar para trás, e abaixei meu rosto em seguida, em conjunto dos braços. Ouvi os passos pesados se aproximarem e vi as pernas de Negan com o canto do olho.

— Olha só! É a latina! — O homem pareceu comemorar. Mordi meu lábio inferior e segui encarando o chão. — Como ousa, Dave? Ela já tem seu dono! Não se toca em mulher dos outros.

— Desculpe, Negan — disse o guarda, afastando-se.

O líder deu mais alguns passos até ficar em minha frente. Senti seu olhar pesando em mim.

— Levante seu rosto, querida — ordenou e eu o fiz, encarando-o nos olhos. — Uau, você tem o mesmo olhar do garoto! Exceto pelo fato de que ele tem o olhar pela metade.

Negan riu e seu guarda riu junto, e eu segui encarando-os.

— Jesus! Ao menos admita que foi engraçado — ele abriu o sorriso e eu olhei para outra direção. — Ok, vamos voltar ao trabalho: Dave, ajude com as armas. Ah, querida, eu deixei um colchão para você e o garoto. Nunca se sabe quando vocês pretendem, não?!

Internamente, revirei os olhos. Vendo a movimentação partir para outro lado, caminhei para longe, segurando meu estômago e sentindo-o doer de tanta tensão. Encostei-me à uma árvore e fiquei ali alguns segundos, me concentrando na folhagem se debater, esperando que me acalmasse. Quando senti meu corpo se soltar, olhei para a frente e avistei Negan segurando o bendito caderno.

E então, tudo passou muito rápido. Olivia foi levada para outro canto, junto de Negan; Rick passou as mãos pelos cabelos e caminhou para longe de minha visão e alguns minutos demoraram até Carl tocar meu ombro e afirmar que haveria um encontro na capela.

Mataram alguém, foi tudo que consegui pensar.

Caminhei até o local da reunião ao lado de Carl, que tinha as mãos enfiadas no bolso e nada dizia. Ao chegarmos lá, encontramos quase todos os moradores da comunidade, todos sentados e aguardando algo. Carl sentou-se em um banco e eu fiquei próxima, cruzando minhas pernas trêmulas. Rick entrou pela porta principal e subiu ao altar, olhando para todos nós. Medo expresso em seu rosto. Ele respirou fundo e olhou para baixo, e então, começou:

— Eu pensei sobre esconder algumas das armas. Já fiz isso antes. Imaginei que pudesse enterrar algumas lá fora. Mas e se os Salvadores encontrassem nossas armas? E se eles nos encontrassem com as armas? — Rick fez uma curta pausa enquanto caminhava pelo centro da capela. — Eles matariam um de nós. Talvez não só um, mas vários. Talvez mais, até. Não importa quantas balas temos. Ainda não é suficiente. Eles venceriam.

Carl tocou minha mão rapidamente e eu olhei para baixo, vendo ele retirá-la em seguida. Só então me lembrei do rifle que eu tinha escondido, antes pertencendo à Reg.

— Esconder armas não é a resposta, não mais — prosseguiu nosso líder. — Uma Glock 9 e uma .22: é o que estão procurando. Quem as tem?

Senti alívio ao saber que não era meu rifle. Talvez tivéssemos uma chance, afinal. Rick seguiu pedindo para que alguém se manifestasse, mas ninguém o fez, até Eugene comentar sobre a falta de algumas pessoas. Rick olhou diretamente para mim e eu me questionei sobre o olhar, arqueando minhas sobrancelhas.

— Vamos verificar a casa de Deanna — afirmou o homem, caminhando até a porta.

Assim que ele saiu da capela, olhei para Carl, confusa, sentindo-me traída.

— Minha casa?! Carl! — Chacoalhei a cabeça. — Rick ainda acha que eu faria algo assim?

— Eu não sei, Mari — ele tentou me acalmar, mas não surtiu efeito. — Talvez seja apenas uma verificação.

— Não tem sentido! Eu não escondo armas!

— Vamos até lá — o garoto levantou-se e seguiu para fora da capela.

Caminhamos em direção à minha nova casa e adentramos, encontrando Rick, o Padre Gabriel e Aaron verificando o local. Estava tudo uma zona de guerra: sofás virados, livros no chão, quadros caídos e eu não tive coragem de imaginar como estaria o andar de cima.

— Ei! — Chamei sua atenção ao ver Rick jogando mais livros ao chão. — O que você está fazendo?

— Eu preciso encontrar as armas, Mari — o líder afirmou, vasculhando em cada canto. — Fique fora disso.

— Pai, ela nunca faria isso — Carl se manifestou atrás de mim.

— Isso não tem nada a ver — o homem nos encarou durante alguns segundos. — Não me interrompam, preciso continuar procurando.

— Achei que você tivesse mudado, Rick! — Disparei e saí da casa, pisando duro.

Assim que cheguei do lado de fora, ouvi os passos de Carl me seguindo. Logo que pisei no asfalto, encontrei Enid atrás de um homem, que tocava seu rosto, sendo o mesmo que apalpou minha bunda. Já estava com o sangue borbulhando de raiva, e ver aquela cena novamente me estressou.

— Ei! Tire as mãos dela — afirmei e o homem deu um passo para trás. — Quem você pensa que é?

— Mari — alertou Carl, mas sem muita força nas palavras.

— Calma aí, garotinha — o guarda riu e virou-se em minha direção.

— Você não tem direito algum de tocar nas pessoas desse jeito! — Cuspi as palavras e ele voltou a rir. — Vai se foder!

— Será que você é agressiva assim na cama? — O homem abriu um sorriso malicioso e eu quis avançar nele, mas Carl tocou meu ombro. — Vou deixar essa passar, mas na próxima…

O homem jogou as bexigas verdes que estavam em suas mãos e Enid as pegou. Ela olhou para mim como se me agradecesse.

— Obrigada — concluiu meus pensamentos.

— Tanto faz — disse eu e saí pisando duro.

[...]

Meu pé batia constantemente na cama de meu quarto. Meu peito subia e descia abaixo de meus braços enquanto eu suspirava, olhando para o teto. Eu estava lutando contra as lágrimas de raiva, vendo toda aquela bagunça que eu teria de arrumar mais tarde e sabendo que Negan poderia voltar a qualquer instante e tirar mais alguma coisa de nós. Como se já não bastassem as armas, suprimentos, medicamentos e amigos.

Ouvi a porta chiar e olhei na direção do som, encontrando Rick abaixo do aro. O homem tinha as mãos enfiadas nos bolsos e olhava para mim com compaixão e culpa nas órbitas. Encarei-o com raiva, ainda pelo ocorrido e puxei minhas pernas para perto de meu corpo.

— Eu sei que você está brava comigo — ele comentou.

— Mistério descoberto — afirmei com sarcasmo.

— Quero que saiba que eu não duvidei de você, Mari — o homem afirmou, sentando-se na ponta de minha cama, uma das únicas que ainda restavam na comunidade.

— Você veio até minha casa e vasculhou cada canto — fixei meu olhar ao seu. — Rick, isso é insano. Já deveria ter superado os acontecimentos anteriores. Já devia saber que eu jamais faria algo para prejudicar a comunidade, e que eu melhorei muito nos últimos tempos. Você sabe que tudo aquilo foi obra do Governador e eu terei de conviver com isto para o resto da vida. E ainda desconfia de mim? O que eu te fiz?!

Rick umedeceu os lábios, piscando com força. Seu suspiro foi audível e ele acabou por abaixar o rosto. Até seus gestos lembravam Carl.

— Eu não vim aqui na esperança de encontrar algo que você tivesse escondido — respondeu em tom calmo. — Eu confio em você. Não confio em Spencer.

Engoli em seco, me sentindo horrível por ter dito tudo aquilo. Droga, burra, idiota. Spencer tinha todo um histórico de esconder e roubar coisas, e eu não me toquei que ele já morou naquela casa. Respirei fundo e posicionei uma mão acima de meus olhos, me sentindo envergonhada.

— Merda… Rick, eu…

— Não peça desculpas — ele sorriu em compaixão. — Eu imagino que foi seu pensamento porque não temos uma ótima história. Mas não precisa se preocupar com isso; eu confio em você.

Sorri com gentileza, tentando parecer menos incomodada.

— Sinto muito por você se sentir assim. Não consigo imaginar o que o Governador fez, mas sei que deve ter sido horrível — o homem torceu a boca, olhando novamente para mim. — Saiba que eu não tenho dúvidas sobre sua personalidade; sei que é boa pessoa. Carl não a amaria, caso não fosse. — Senti minhas bochechas arderem e soube que eu estava corada. — Eu te vejo como outra filha, Mari. Quero que saiba que pode contar comigo.

— Nossa… eu… obrigada, Rick — senti todo o conforto voltar para meu corpo.

O homem sorriu para mim e seu rosto saiu da seriedade e partiu para o cinismo.

— Agora, sobre certo acontecimento hoje — ele comentou e eu senti minhas bochechas se aquecerem novamente. Droga. Minha expressão se fechou antes de qualquer fala.

— Não, não, aquilo foi um acidente e nada mais — respondi, mas não pareceu mudar sua opinião.

— Tudo bem. Só sejam seguros.

Eu fiquei sem expressão quando as palavras saíram de sua boca e o assisti sair do quarto. Franzi o cenho enquanto meus dedos beliscavam a ponte de meu nariz. Sentei-me de pernas cruzadas e ri sozinha com toda a situação. Foi então que recebi minha segunda visita naquela noite:

— Não me diga que meu pai veio ter a conversa com você também — Carl adentrou o quarto, parando ao lado da cama em minha direção.

— Queria poder negar — sorri e ele virou o rosto, bochechas avermelhadas.

— Isso é tão constrangedor — ele riu. — Mas me sinto confortável com essas pequenas coisas.

— Como assim? — Questionei-o enquanto dava leves tapas no edredom para que ele se sentasse ao meu lado.

— É que… Tipo, essas conversas. Todo o conjunto — o garoto baixou o olhar enquanto ajeitava os pés na cama. — Me fazem sentir normal.

— Achei que você não gostasse de ser normal — inclinei o rosto, colocando uma mecha de meus cabelos atrás da orelha.

— E não gosto. Só faz parecer que não é o fim de tudo — ele comentou e eu assenti. Às vezes eu me sentia assim, olhando no espelho e vendo alguns cortes no corpo, cicatrizes, coisas que nunca estariam estampadas em minha pele caso não fosse o apocalipse. Quando segurava uma arma, só conseguia pensar que eu jamais precisaria ter os dedos cheirando pólvora, nada além de perfume. — Mari? Está tudo bem?

— Sim, sim, desculpe — disse ao chacoalhar a cabeça, sorrindo com leveza. — Só me deixei levar pelos pensamentos.

— No que estava pensando?

— Nesse assunto; sobre a vida "normal" — fiz aspas com os dedos e ele assentiu com a cabeça. — Eu não gosto muito de pensar sobre isso… parece que estou idealizando uma fantasia.

— Por que? — O garoto encostou o corpo em uma almofada, cabeça apoiada na mão.

Rolei os ombros para trás e torci a boca, encarando o edredom.

— Não é nossa realidade. E ficar pensando em como seria minha vida sem um apocalipse incomoda, já que não consigo me lembrar de grande parte das memórias — comentei.

— Você não é justa consigo mesma — ele afirmou, agora eliminando o sorriso e aderindo-se à seriedade. — Deveria sair um pouco dessa realidade cruel, sei lá, relembrar como era viver de verdade.

— De que adianta, Carl? Ficar pensando no passado e imaginando o futuro? — Franzi o cenho. — Eu praticamente vou ficar revoltada por estar vivendo nessa merda de mundo e não posso fazer nada a respeito. Não podemos ficar despistando o que está acontecendo.

— Se é o que você pensa…

— É o que eu sei — afirmei e ele não pareceu contente com a resposta.

— Também foi legal o que você fez para a Enid — ele trocou de assunto e eu assenti.

— Aquele cara estava fazendo o mesmo comigo — comentei. — Só explodi, nada demais.

— Você a defendeu — ele provocou.

— Eu só fiz o que era necessário. Não foi nada por ela.

Carl sorriu e eu revirei os olhos, escorregando meu corpo até ficar deitada, apenas com os joelhos dobrados para cima. Seu olhar estava sobre mim e eu havia colocado o meu sobre ele. Ficamos respirando o mesmo ar durante alguns segundos até que ele posicionou uma mão em minha bochecha e aproximou-se, colidindo os lábios suaves contra minha testa. Logo que se afastou, sorriu de canto e suspirou.

— Não sei o que vamos fazer agora — comentou e eu arqueei as sobrancelhas, prestando atenção —, Negan nos deixou sem nenhuma arma.

— Vamos encontrar uma saída — afirmei, mas ele não pareceu convencido. Nem eu estava, na verdade.

— Espero que sim, mas não acredito muito — Carl suspirou novamente e eu o olhei com tristeza. — Nunca teria que passar por uma situação dessas se o mundo não estivesse assim.

Completamente irritada com seu comentário, coloquei-me de cotovelos e olhando em sua direção, negando com a cabeça.

— Se o mundo não estivesse assim, jamais teríamos nos conhecido — disse, ríspida.

— Não foi isso que eu quis dizer — ele franziu o cenho, sentando-se sobre as pernas.

— Foi o que me pareceu — respondi e virei-me para a parede. — Acho que já foi o suficiente por hoje, Carl.

Senti a movimentação do lado da cama e assim soube que ele havia se levantado.

— Por que você está irritada? — Questionou em tom alto.

— Eu não estava, até você vir com esses papos…

— Você vai negar meus direitos de agir como uma pessoa normal?! — O garoto mordeu o lábio e riu, sarcástico. — Pelo menos eu não finjo ser assim.

O encarei, agora com raiva no olhar. Carl não pareceu comovido com minha expressão, apenas seguiu em pé, me encarando de volta.

— Saia daqui — abaixei meu tom de voz e olhei para o chão. Notando que Carl ainda estava parado, repeti: — Saia daqui.

E ele o fez.

Notas finais
Eu sei que ninguém gosta de ler as notas finais, ou se interessa pelo que a autora tem a dizer, mas eu acho importante deixar algumas palavras aqui. Quem sabe o que pode acontecer? Não sei se já viram ou leram "Os 13 Porquês", mas virou um grande assunto ultimamente em todas as redes sociais, e muitas vezes, vi pessoas se identificando com a protagonista, Hannah. Isso é perigoso, até porque é a realidade e, definitivamente, acontece. Sei que não é de muita ajuda, mas eu sei como é se sentir abandonada ou poeira do mundo, mas quero dizer que eu estarei disponível para ajudar quem precisar. Podem me chamar por MP, pedir meu número, meu Facebook, ou qualquer outro meio de contato, mas eu estou me disponibilizando e aceitando de braços abertos qualquer pessoa que se sentir "deixada pelo mundo". Vocês são únicos, e importantes, e quem ousar dizer o contrário não deverá te afetar. Saibam disso. Ah, e obrigada por lerem. Até mais!