Why Me?

62 Capítulo 62 - Bad habits


Rick me encaminhou até a capela, onde um grande grupo de pessoas aguardava por seu líder. Ali estavam Maggie, Heath, Glenn, Daryl e Aaron. Notei que Carol estava encostada ao canto e havia um homem que eu não conhecia segurando uma caneta, inclinado em uma mesa. Seus olhares se levantaram e foram direcionados a mim, surpresos com minha presença.

As pessoas da Prisão sabiam de meus feitos e presenciaram cada cena. Carol havia dito que a ideia errada ainda era presente na cabeça de algumas pessoas, mas mesmo assim, Michonne tentava me defender, e obtinha sucesso, na maior parte das vezes. Maggie e Glenn estavam indiferentes. Carl havia comentado comigo algo sobre Enid passar tempo com o casal, então imaginei que eles teriam mais simpatia com ela do que comigo. Normal.

Daryl estava ao seu canto, observando o homem com a caneta, vagarosamente. Seus fios rebeldes caíam sobre a testa e ele não fez questão de removê-los dali. Nunca havia conversado com ele, mas imaginei que ele não fosse uma pessoa de conversas.

— Vamos começar — ordenou Rick, fazendo com que todos dessem um passo à frente, inclusive eu.

O homem que segurava a caneta tinha uma mão enfaixada, então parecia ter dificuldade ao rascunhar. Olhei atentamente, vendo que seu desenho havia se transformado em corredores e pequenos quartos, onde ele havia escrito algumas coisas. Rick só havia me dito que era uma comunidade que eles pretendiam invadir, mas não era pelo mal, mas para evitar o mesmo.

— Passando a entrada, há um arsenal no fim do corredor — comentou o homem.

— Seguimos direto para dentro e começamos pelas armas — Glenn sugeriu enquanto colocava ambas as mãos acima das folhas de papel.

— Não, primeiro temos de apagar todos eles — disparou Rick, causando todos a olharem em choque.

— Quantas pessoas vigiam a entrada? — Perguntei para o homem, que pensou durante alguns segundos antes de responder.

— De dia, um; de noite, dois.

— Não podemos chegar com qualquer desculpa — comentei, variando meu olhar para cada pessoa presente. Carol abriu um curto sorriso lateral. — Temos de soar convincentes, dar algo que eles queiram.

— Comida? Suprimentos? — Perguntou Aaron, olhando diretamente para Rick.

O local remanesceu em silêncio, onde cada pessoa passou a encarar cada alma presente na capela.

— Eles querem o Gregory — disse Maggie, quebrando o silêncio.

— Não podemos simplesmente levar o Gregory — Rick respondeu, parecendo irritado com suas poucas ideias.

— Quem é Gregory? — Perguntei.

— O líder de Hilltop — respondeu Maggie. — A comunidade que nos ajuda.

Um curto flashback surgiu em frente aos meus olhos, e pude ouvir a voz familiar do Governador soando em meus ouvidos. Senti que cada osso de meu corpo estava prestes a virar farinha, e quase tive dificuldades em manter a postura. Mesmo tonta, fiz questão de encarar Rick, umedecendo meus lábios e preparando-me para falar.

— Em primeiro lugar, devemos trazer confiança, mostrar que cumprimos com nossas obrigações — o Governador caminhava em direção aos quadros pendurados na parede suja. Suas mãos atrás do corpo e a postura rígida. — Devemos mostrar que somos o tipo de comunidade que ajuda, que acolhe.

Cruzei minhas pernas abaixo da mesa, olhando para os outros guardas que estavam ao meu lado. Todos pareciam completamente fixados ao líder, encarando-o como os urubus costumavam encarar carniças. Exceto pelo fato de que se tratava de humanos.

— Levamos caixas vazias, se quiserem suprimentos; levamos baldes vazios, se quiserem água; levamos um corpo aleatório, se quiserem a morte — Phillip virou-se, com o queixo acima de nós, mantendo o olhar sobre a mesa. — Nunca levaremos o que pedem, de verdade. Trabalhamos em teoria.

— Como acreditarão em nós? — Perguntou um homem negro ao meu lado, vestido em jaquetas pesadas.

— Manipulação — despejou o Governador, soltando um riso abafado. — O uso das palavras corretas fazem acreditar que cumprimos nosso dever. Não podemos mostrar medo, apenas confiança.

— E se der errado? — Perguntou outro homem, sentado de frente para mim.

— Então teremos nossos atiradores espalhados — o homem estalou a língua. — O posicionamento é muito importante, como já lhes ensinei nos treinamentos. Vocês já devem estar fartos de saber.

Todos os guardas passaram a se entreolhar, tentando esconder a confusão presente. O Governador, que não era uma pessoa tola, olhou em minha direção, maxilar rígido. O homem passou a batucar os dedos sobre o braço, então eu soube que era um dos primeiros sinais de seu limite estourado.

— Dois atiradores tomam conta do carro. Dois linhas de frente, corpo a corpo ou armas de rápido disparo, quatro soldados em seguida, sendo dividido em dois corpo a corpo e dois atiradores normais. Pelo perímetro, espalhamos de quatro a seis atiradores de distância, alojados aos arredores — respondi, com o olhar para baixo, levantando-o somente ao final da frase.

— E como segue a estratégia? — Perguntou o Governador, de queixo ainda empinado.

— Os atiradores que tomam conta devem estar um à frente e o outro atrás. Os linhas de frente liberam o perímetro, devem ser os soldados mais ágeis e rápidos. Os soldados em seguida devem ser fortes e hábeis ao manusear suas armas — os outros homens ao redor da mesa passaram a me encarar com raiva. Alguns apenas me ignoraram. — Já os atiradores à distância devem arranjar um local alto e livre dos errantes que possam os atrapalhar, ou ficar entre árvores ou estruturas onde possam amarrar arame com latas que façam barulho assim que errantes ou humanos se aproximem.

Após o final de minha fala, um silêncio dominou o local. Mais uma vez, os homens se entreolharam, mas o Governador não retirou o seu de mim. Seus lábios estavam curvados em um curto sorriso, mostrando orgulho em saber que havia me treinado corretamente.

— Vocês deveriam ter vergonha — pronunciou-se ele, desencostando-se da parede e vario seu olhar para cada canto da sala. — Uma garota bem mais jovem que vocês, sabe muito mais. Adivinhem quem vai estar na missão?

Grunhidos surgiram, como reclamações; mas eu só podia sorrir e me sentir orgulhosa de mim mesma.

— Eu tenho um plano — comentei. — Fizemos algumas vezes em Woodbury, mas requer cautela.

[...]

— Como a garota sabe de tudo isso? — Perguntou Heath, confusão expressa em seu olhar. — Ela vai conosco?

Rick e os antigos moradores da Prisão passaram a trocar olhares. Aaron parecia tão confuso quanto o homem e os outros estavam surpresos, suas expressões me deixando tensa. O Grimes me mirou e eu desviei, esperando que ele não me revelasse no próximo segundo. Enquanto o evitava, parei o olhar em direção à Carol, que, de braços cruzados, me olhava de volta.

— Não seja tolo, Heath — comentou Carol. — A garota mal acerta um errante.

— Mari lê muitos livros sobre estratégia de guerra. Então ela sugeriu algumas coisas e resolvi trazê-la — completou Rick. — Podemos dispensar a reunião?

Os outros participantes da conferência assentiram, e assim, todos se direcionaram à porta, sobrando apenas eu e Rick dentro da capela. O homem me lançou um curto olhar e eu fiz questão de sorrir em agradecimento, antes de me encaminhar à saída.

— Você fez bem — afirmou ele.

— Obrigada — respondi por cima do ombro e saí da capela.

Do lado de fora, pude ver vários carros já preparados para a busca, inclusive o trailer. As pessoas que, antes estavam na reunião, agora se localizavam na entrada do depósito. Avistei Maggie saindo com uma M16 pendurada em seu peito, só então percebi a gravidade da situação. Jurei que a brisa havia se tornado mais fria, mas era apenas minha barriga reagindo ao nervosismo.

— Eu deixei os biscoitos na porta de sua casa — soou uma voz atrás de mim, e então, me virei.

Olhando para trás, encontrei Carol encostada à parede externa da capela. A mulher tinha seus braços cruzados acima do peito, expressão séria. Sorri ao me aproximar.

— A última vez que provei deles, eu estava na enfermaria e mal sentia o gosto por culpa dos remédios — respondi, umedecendo meus lábios ressecados.

— Agora é sua chance — concluiu a mulher.

— Obrigada por me encobrir durante a reunião — agradeci, desviando o olhar.

Carol não havia mudado sua expressão, apenas desencostado da parede.

— Não se acostume — respondeu a mulher. — Eu não faço gentilezas.

Assenti em silêncio, deixando escapar um curto sorriso enquanto a mulher caminhava em direção à rua. Logo, olhou em minha direção por cima do ombro e me analisou mais uma vez.

— E, só para que saiba; você foi ótima na reunião.

— Obrigada.

Assisti a mulher andando até o arsenal cujo eu já havia me familiarizado anteriormente. Quando Carol saiu de meu campo de visão, decidi passar na casa de Carl. Dobrei a esquina com as botas estalando sobre o asfalto frio e subi os degraus da varanda. Observei o trailer estacionado em frente a casa ao lado, onde as pessoas presentes na conferência estavam ali depositando suprimentos e armas.

Encostei meus punhos na porta branca, batendo duas vezes e aguardando. Não demorou muito para se abrir, revelando a figura de Rick com uma bolsa transversal parecendo pesada. O homem me lançou um curto sorriso e um leve aceno de despedida, assim, encaminhando-se até o trailer. Carl apareceu logo atrás, encostando-se ao aro da porta, me olhando. Um curto sorriso se formou nos lábios.

— Quer entrar? — Perguntou, abafando sua risada, como se já soubesse a resposta.

Revirei os olhos e ele abriu espaço para que eu adentrasse a casa. Carl fechou a porta e caminhou em direção ao andar de cima. Estive poucas vezes no local, mas os moradores atuais estavam mantendo bem. A equipe de limpeza colaborava bastante com a poeira e sujeira que saía dos sapatos dos exploradores. Olhei por cima do ombro de relance e avistei a Katana de Michonne ainda pendurada na parede. Antes que eu pudesse dizer algo, a mulher abriu a porta da casa e pegou a espada do suporte. Seus olhos me miraram, e eu estava ainda parada no início da escada, mãos sobre o corrimão, observando-a.

— Carl está lá em cima? — Perguntou, indicando com o dedo. Assenti com a cabeça e a mulher deixou um curto sorriso escapar. — Cuidado, vocês dois.

Sorri de lateral e observei-a sair, tomando liberdade para subir o resto da escada. Ao chegar no segundo andar, caminhei com passos curtos pelo pequeno hall de portas, procurando onde Carl pudesse estar. Ouvi um barulho à minha esquerda e adentrei o cômodo, lentamente. Assim que avistei um berço, tentei fechar a porta e sair correndo. Mas então veio o choro, e eu soube que minha calma já era.

Judith estava de pé em seu berço, segurando as laterais com os dedos minúsculos e com os olhos cheios de lágrimas. Aproximei-me dela, tocando seu pequeno rosto molhado com as lágrimas.

— Ei, ei, não chore — tentei pedir, mas não surtiu efeito.

A criança seguiu chorando, cada vez mais alto. Tentei pensar em mil e uma possibilidades de fazê-la parar, mas nenhuma era válida. Qual é, Mari, não é tão impossível assim, pensei, respirando fundo. Retirei minhas mãos de seu rosto e limpei as lágrimas em minha calça. Olhei de um lado para o outro, mas não encontrei nenhum brinquedo, ou qualquer coisa que a acalmasse. Ouvi passos atrás de mim e encontrei Carl em frente à porta, abafando a risada com a mão.

— Não fique aí parado. Me ajude! — Ordenei e o garoto aproximou-se do berço, ficando ao meu lado.

— Você não sabe cuidar de uma criança? — Perguntou, arqueando a sobrancelha. — Finalmente encontrei algo que você não saiba fazer.

Com meu cotovelo, empurrei-o na costela e ele apalpou a região atingida, soltando um suspiro, seguido de outra risada. Logo, o garoto estendeu seus braços e pegou a pequena garota em seu colo, ajeitando-a em seus braços rapidamente, com pequenos pulos. Respirei fundo, eliminando o nervosismo, impressionada com a habilidade que ele tinha com a criança.

Por alguns segundos — que mais me pareceram uma eternidade — meus olhos fixaram-se na maneira como Carl segurava Judith. A garota eliminou qualquer resquício de choro em si e ocupou o rosto com um sorriso. Não pude evitar sorrir junto. O moreno me encarou, sorrindo em conjunto.

— Como você conseguiu? — Perguntei e ele começou a brincar com os pequenos dedos da irmã.

— Acalmá-la? — Assenti e ele voltou a olhar na direção da garota. — Não sei. Ela sempre fica calma comigo.

— Mal a conheço e já sei que não gosta de mim — resmunguei e Carl estendeu seus braços.

— Pegue-a — disse ele.

— Eu não sei como! — Respondi. — Não faça isso comigo.

— Vamos, você aprende — o garoto colocou sua irmã em meus braços e eu tentei imitar a posição em que ele a segurava anteriormente. Sucesso.

Judith continuava com o sorriso no rosto, o que era um bom sinal. Aproveitei para focar em suas feições; os olhos lembravam os de Carl, pelo formato, mas eram em um tom escuro de azul. Fios loiros de cabelo caindo com leveza pelas laterais do rosto. Ela não era pesada como eu havia imaginado.

— Converse com ela — sugeriu Carl, cruzando os braços acima do peito. — Para familiarização.

Estranhei-o e arqueei minha sobrancelha. O garoto revirou os olhos e voltou a brincar com os dedos da criança.

— Ei, Judy, onde estão seus copos? — Mordi meu lábio, escondendo o riso. Carl havia dito a frase anterior com uma voz boba.

— Eu não vou fazer isso — respondi, franzindo meu cenho.

— Só uma vez — Carl sorriu novamente. — Por mim.

Respirei fundo e variei meu olhar entre os dois irmãos.

— Seu irmão é um idiota, não acha, Judith? — Forcei minha melhor versão de voz de "bobo" e pareceu entreter a garota. — Ela concorda.

Carl me deu um leve empurrão e soltou outra risada. Decidi que estava na hora de devolver sua irmã aos seus braços, já que a câimbra estava atingindo os meus. O garoto pegou-a e fez os pulinhos para ajeitá-la no colo. Abracei meu próprio corpo e toquei meu pescoço, sentindo os gélidos rubis. Às vezes eu me esquecia de que os usava o tempo todo, por hábito.

— Ela gosta de você — afirmou Carl e eu revirei meus olhos, bufando. — É sério!

— Certo.

— Judith não tem o apelido de Bravinha à toa — respondeu o moreno, brincando com os pequenos cachos loiros. — Na primeira semana, toda vez que ia no colo de meu pai, chorava. Na verdade, Judith só gostava de mim e do Daryl.

— E sua mãe? — Perguntei, encostando-me à parede ao lado do berço.

O garoto fechou o rosto no mesmo instante. Não conseguia me lembrar de sua mãe, mas eu sabia que ela era falecida. Só não imaginava que ainda causava tanto impacto em Carl.

— Desculpe, eu…

— Tudo bem — o garoto mordeu o lábio inferior, me cortando. — Você não deve se lembrar. A Judith nunca teve a oportunidade de conhecê-la.

— Eu não consigo me lembrar — respondi mais para mim mesma do que para ele.

Seu olhar pousou em mim e um curto sorriso surgiu em seus lábios, desaparecendo em seguida. Aproveitei aquele momento para analisar o cômodo, mas acabei falhando, pois, o local era praticamente vazio; além do berço, uma cômoda ao canto com brinquedos empilhados acima.

— Hm… Sobre o que se tratavam os planos de seu pai? — Tentei quebrar o gelo.

— Tem esse cara, o Jesus — começou o garoto e eu soltei uma curta risada.

— Jesus?

— Sim, e ele invadiu nossa casa, como um ninja — disse o garoto, empolgação surgindo em seus traços.

— Ele tentou matar alguém? — Perguntei ao ver Judith brincando com as pontas do cabelo de Carl e sorri.

— Não. Eu o peguei vendo os quadros da casa — respondeu Carl, ajeitando-a novamente. — Então eu apontei uma arma para sua cabeça e meu pai e a Michonne foram ver o que acontecia.

— Seu pai e Michonne? — Arqueei minha sobrancelha. — Isso é novidade para mim.

— Para mim também — respondeu ele. — Achei que havia te contado.

— Não — sorri e acenei com a mão, insinuando um "tudo bem". — Prossiga.

— O Jesus acabou por falar sobre sua comunidade, Hilltop — lembrei-me da reunião, onde Maggie havia insinuado o nome anterior —, e meu pai juntou o grupo para ir até lá e acabaram como uma aliança. Tem algo que eles têm falado, uma comunidade, creio eu, que está atacando eles. Então precisam de ajuda. Se não me engano, pediram a cabeça do líder.

Por isso meu plano se encaixou perfeitamente, pensei.

— E qual o nome dessa outra comunidade?

— Não me lembro — Carl arqueou a sobrancelha, pensativo. — Acho que era Negan, algo assim. Sei que Daryl disse que já encontrou pessoas alegando serem "Negan" também.

— Isso é estranho — comentei. — Negan é um nome, não?

— Aparentemente, uma comunidade, também.

— Só espero que não prejudiquem aqui — concluí. — Alexandria já passou por danos suficientes.

— Eu que o diga — murmurou Carl, com tristeza, mas fui capaz de ouvir.

Respirei fundo e assisti-o colocando sua irmã de volta ao berço e passando sua mão pelo rosto da mesma. Inclinei-me à beirada e brinquei com os dedos da garota. Carl, agora com os braços livres, caminhou para trás e fez um sinal, para que saíssemos do cômodo. Sorri pela última vez para Judith e caminhei para fora do quarto.

Ao voltar para o pequeno hall, Carl encostou-se à parede que ficava entre duas portas. A gaze que cobria seu olho estava um tanto amarelada por conta do suor. Me perguntei se ele tinha uma troca, e gostaria de perguntar se eu podia ajudá-lo a colocá-la. Ouvi barulho do lado de fora da casa, parecendo com gotas de chuva batendo contra o telhado. Olhei de relance para a janela do quarto que tinha a porta aberta e avistei o vidro molhado.

— Parece que estamos presos — comentei.

— Você queria ir junto? — Perguntou Carl, inclinando sua cabeça. — Digo, com eles?

— Não — torci a boca. — Estou um tanto de saco cheio de conflitos.

— Minha presença é ótima, pode admitir — Carl apoiou as duas mãos na parede atrás de si e colocou um sorriso cínico em seu rosto.

— Sua presença é maravilhosa — aproximei-me, enlaçando minhas mãos em seu pescoço, unindo nossas respirações com a proximidade —, mas preciso voltar para casa e tomar um banho… limpar esse bonitinho — apontei para minha coxa, onde havia uma parte da calça saltada por culpa do curativo logo abaixo.

Carl sequer encostou suas mãos em mim, e, para minha surpresa, desviou o olhar enquanto umedecia os lábios com a língua. Inclinei minha cabeça, tentando encaixar nossos olhares, mas não tive sucesso. O garoto respirou fundo e olhou para baixo.

— Ou você poderia tomar banho aqui — levantou o olhar rapidamente, e, como se tivesse se arrependido, baixou-o. — Nós dois.

Não o culpei por desviar sua face da minha, já que naquele momento, minha surpresa fora tanta que pude imaginar que minha expressão era um tanto inapropriada. Pressionei meus lábios juntos e tentei sorrir, processando as palavras.

— Tudo bem — respondi ao passar meus dedos abaixo da gaze.

O moreno enlaçou seus dedos aos meus e caminhou em direção à uma porta, que supus ser o banheiro. Assim que estávamos ambos do lado de dentro, Carl trancou a porta e abriu o registro, deixando a água aquecer enquanto voltava seu olhar ao meu. O banheiro da casa era grande, composto por armários e uma enorme pia, e, para combinar, um imenso box. Deixando a porta de vidro aberta, o garoto aproximou-se de mim novamente.

— Eu vou tirar a gaze — afirmou e respirou fundo. — Não é uma imagem bonita.

Assenti, mesmo que eu discordasse, mas imaginei que ele faria questão de colocar todos os argumentos possíveis para me fazer acreditar do contrário.

Os dedos esguios do garoto tocaram a parte traseira da cabeça, desfazendo o nó da gaze e retirando-a com cuidado, olhando para baixo. Quando o curativo chegou em seu ponto crítico, levantou o olhar para mim, como se perguntasse se podia prosseguir e eu abri um curto sorriso, então ele retirou a parte final e segurou o algodão que ficava logo à frente do olho furado. Pude ver a área de sua boca ficar branca pela pressão que seus dentes colocaram sobre o lábio inferior, então passei minhas duas mãos por seu rosto, em forma de apoio.

O olho perdido de Carl não era tão ruim quanto eu havia imaginado, mas era ruim. Ainda estava inflamado, pois a vermelhidão cobria os arredores. Era como um buraco de bala, mas pegando a córnea. Analisando um ferimento daqueles eu só podia agradecer por ele continuar vivo.

Carl percebeu que eu estava gastando tempo demais o encarando e posicionou as mãos em minha cintura, mais precisamente, na barra de minha blusa, e a removeu, deixando-me com o sutiã à exposição. Senti minhas bochechas queimarem naquele instante e olhei de relance para baixo, onde seus olhos estavam fixos; em meus seios.

Escorreguei meus dedos para a barra de sua camisa e fiz o mesmo, removendo-a com cuidado. Assim que a retirei, uma parte de sua franja levantou-se e pude ver o ferimento claramente. Procurei ignorar, para não deixá-lo desconfortável. O garoto removeu os sapatos com os próprios pés, e eu abaixei para remover minhas botas. Agora eu conseguia sentir o piso gélido do banheiro com meus dedos do pé, trazendo arrepios ao meu corpo. Em seguida, desabotoei minhas calças e ele fez o mesmo com suas próprias. Enquanto deslizava o material pelas minhas pernas, revelei o curativo que envolvia minha coxa, o desfazendo e colocando as bandagens acima das do garoto. Carl voltou a unir nossas respirações através da proximidade e deslizou os dedos para minhas costas, tocando o fecho do sutiã, o qual abriu rapidamente. Ajudei a removê-lo com meus braços e deixei a peça cair, enquanto mais arrepios desciam minha espinha ao sentir o toque do garoto nas laterais de meu corpo.

Fizemos o mesmo das calças com o que sobrara em nossos corpos. Evitei olhar para baixo, não querendo constrangê-lo — ou me constranger com a visão — e ele pareceu fazer o mesmo. Carl adentrou o box e esticou o braço, oferecendo-me a mão para que eu fosse junto. Abraçando meu próprio corpo, o fiz, e adentrei o local. Senti as gotículas de água quente escorrerem por minhas costas e dei dois passos para trás, molhando meu rosto e cabelos.

Carl sorriu para mim e aproximou-se novamente, envolvendo suas mãos em minha cintura, abraçando meu corpo nu. A água agora escorria pelos seus ombros, partículas acumuladas na franja. Passei minhas mãos pela mesma, puxando-a para trás e revelando seu rosto. Meus polegares dançavam pelas áreas onde havia gotas que se recusavam a escorrer.

Sendo levemente mais alto que eu, o garoto baixou um tanto a cabeça. Seu corpo era escorregadio contra o meu, mais parecendo uma dança a um abraço. Sem desgrudar suas grandes palmas de minha cintura, subiu-as até meu rosto, empurrando as mechas grudadas ao mesmo para trás. As mãos desceram um tanto até meu pescoço, onde segurou e me puxou para mais perto, envolvendo seus lábios aos meus. A água tornara o beijo mais suave e seus lábios mais macios, fazendo a textura ser compatível à minha.

Saindo da área da ducha, Carl empurrou-me até a parede, onde posicionou uma mão acima de minha cabeça. Mal vi nossa posição, pois o garoto não perdeu tempo ao envolver, novamente, nossos lábios. Minhas mãos deslizavam pelo pescoço, encontrando mechas perdidas de seu cabelo e afastando-as dali. Sua palma desceu até meu quadril, dedos esguios explorando minha barriga, até encontrar a cicatriz. Desgrudando seus lábios dos meus, baixou o olhar e encontrou a superfície danificada que seus dedos tocavam. Cometi o acidente de olhar juntamente, e acabar mirando outro local. Assim que Carl percebeu, suas bochechas coraram, assim como as minhas.

Tentando mudar a situação, peguei o xampu na prateleira e comecei a passar no cabelo do garoto, misturando aos fios e deixando a espuma cair pelos ombros. Sorri ao ver Carl tentando pegar fôlego fora da área da ducha. O garoto fez o mesmo em meus cabelos, limpando a espuma que estava prestes a cair em meus olhos. Empurrando minha franja para trás, seus lábios selaram com minha testa, e eu sorri, meus olhos ao dele.

Carl terminou de lavar os resquícios de condicionador de meus cabelos e eu me virei de costas, para ajudar a molhar. Enquanto eu posicionava minhas mãos em minha nuca, esfregando os fios, as mãos do garoto desciam pelas minhas laterais, alcançando minha barriga novamente, fazendo mais arrepios descerem em conjunto de suas mãos. Mais uma vez, os dedos tocaram a cicatriz.

— O que você tem com minha cicatriz? — Comentei, rindo abafadamente.

— Marcas de coragem — afirmou o garoto.

— O quê? — Perguntei, não o entendendo.

— Coragem de como você saiu e enfrentou os Wolves.

— Eu o fiz porque Carol mandou — virei-me de frente, suas mãos desgrudando de minha barriga. — Não foi por livre e espontânea vontade.

— A Carol deixou um pote com biscoitos aqui — beijou minha bochecha e posicionei minhas mãos em seu peito nu, sorrindo. — Podemos comer, mais tarde.

— Estes biscoitos têm meu toque, sabia?

— Você ajudou Carol?

— Sim — beijei a ponta de seu nariz e selei, rapidamente, nossos lábios. — Ela está me ajudando.

— Com o quê?

— A me misturar — respondi e notei uma mudança de expressão em sua face.

— Por que você quer se misturar? — Perguntou, arqueando a sobrancelha novamente. — As pessoas gostam de você assim.

— Não, Carl. As pessoas não gostam de mim assim — respondi, também fechando meu rosto. — Eu não sou nenhuma filha do líder ou garota ingênua, e o que eu passo aos moradores daqui, definitivamente não é confiança.

— Então você pretende agir como a Carol? Fingida?!

— Se é o necessário para que as pessoas não desconfiem de nada, então sim. Eu pretendo — o garoto me lançou um olhar de preocupação e raiva ao mesmo tempo, mas procurei ignorá-lo.

— Você quem sabe. É a sua vida, afinal — bufou o garoto.

Após um longo momento de silêncio, apenas nós dois nos entreolhando, torci a boca e passei minha mão por seu rosto, abrindo outro sorriso quebra-gelo.

— Ei, não vamos deixar que isso estrague o momento — afirmei e selei, mais uma vez, meus lábios aos seus.

O garoto retribuiu meu sorriso e virou-se de costas, entregando-me o sabonete em mãos. Comecei a fazer movimentos rotatórios pelas suas costas enquanto apoiava minha outra mão nas mesmas. Com as pontas de meus dedos, pude sentir cicatrizes e machucados. Nunca havia julgado cicatrizes como algo estranho, para mim, eram marcas de guerra, significado de que você lutou, sobreviveu até aquele ponto. Percebi que Carl passou a estranhar meu toque, então comece a distribuir beijos por cada uma das cicatrizes que se estendiam pela área.

Quando acabei, Carl pegou o sabonete e fez o mesmo movimento rotatório que eu havia feito anteriormente, só que, desta vez, na parte da frente de meu corpo. Suas mãos encostaram em meus seios, mas não de qualquer maneira sexual, e sim, um toque ingênuo. Cuidado.

Logo, finalizamos o banho, e Carl empurrou a porta de vidro e saltou para o lado de fora, pegando uma toalha e a amarrando ao redor da cintura. Glorifiquei assim que ele cobriu sua região, pois já estava me constrangendo o suficiente. Pegou outra toalha e me ofereceu. Saí do box assim como entrei, abraçando meu corpo. Peguei o material macio e enrolei-o em meu corpo, prendendo ali mesmo. Encontrei outra, pendurada em seu devido lugar, e peguei-a também, secando meu cabelo com leves apertos. Assim que acabei de passá-la em meus fios, direcionei-a aos fios de Carl e comece a secá-los também.

Meus pés estavam sobre o piso gélido, trazendo o oposto do que foi o banho; péssimos arrepios. Algumas gotas ainda escorriam de meus ombros, mas caíam na toalha, sumindo no material. Carl destrancou a porta e nós dois caminhamos, com as roupas nos braços, até seu quarto.

Assim que adentramos o cômodo, despejei minhas roupas em cima de sua cama, ajeitando as que eu usaria novamente. Minhas calças estavam sujas, mas a blusa era limpa, então a vestiria junto das mesmas roupas íntimas. Carl aproximou-se do armário e caçou por roupas novas, separando-as ao lado das minhas. Deixei minha toalha cair ao chão e comecei a me vestir.

Quando terminei, sentei-me em sua cama, joelhos dobrados quase encostados ao meu peito. Usava minha mesma blusa branca de mangas pretas e estava apenas de calcinha na parte de baixo. Carl terminou de colocar sua blusa verde com botões apenas na gola e jeans limpos, ficando descalço, assim como eu. O garoto pegou as toalhas no chão e levou-as de volta ao banheiro.

— Deixe uma — pedi e o garoto me entregou uma das toalhas brancas. — Meu cabelo está pingando.

Enrolei-a em meu cabelo e voltei a me encostar em um dos travesseiros que cobriam a cama. Assim que Carl voltou, deixou a porta aberta e sentou-se ao meu lado, mãos afundando na colcha macia, em suas laterais. Podia sentir o cheiro do sabonete impregnado em sua pele e imaginei que a minha exalava a mesma fragrância. Mesmo que eu não vestisse calças, o garoto manteve seu comportamento e não olhou, uma vez sequer, para baixo. Sorri em sua direção, ele ainda estava com seu olho exposto.

— Preciso da gaze — comentou ele, levantando-se mais uma vez da cama.

Abaixando-se, retirou uma pequena caixa debaixo da cama e colocou-a sobre a colcha. Voltou a sentar-se e eu me coloquei de pernas cruzadas, inclinada para frente, analisando a pequena caixa de metal. O garoto a abriu e retirou um pacote de gazes novas e pegou uma rodela de algodão.

— Posso te ajudar? — Ofereci e ele me encarou durante alguns segundos, como se estivesse pensando na resposta.

Em seguida, assentiu levemente e eu me aproximei, pegando a gaze em minhas mãos, rasgando o pacote com meus dentes. Carl segurou o algodão com a ponta dos dedos, logo em frente ao olho ferido.

— São duas voltas — afirmou o moreno, quase que em um sussurro.

Dei as duas voltas e amarrei no final, ajeitando os fios de cabelo presos. Carl virou-se em minha direção, agora com o toda aquela camada de gaze cobrindo metade de seu rosto. Sorri de maneira triste, mas o garoto não percebeu.

— Você precisa colocar em sua coxa? — Perguntou ao ver os pontos sobre minha pele.

Assenti e ele pegou outro pacote de bandagens e amarrou-as ao redor, colocando um dedo por dentro para ver se estava apertado. Assim que terminou, sorriu para mim e eu retribuí. Voltei à minha posição inicial, puxando meus joelhos para meu peito mais uma vez. Carl colocou sua mão acima de minha coxa, aquecendo a região. Seu quarto não era tão frio quanto o meu, então apreciei a climatização ambiente.

Ouvi barulhos por perto, como passos na escada, e estranhei. Judith estava em seu quarto, Rick e Michonne foram para a busca, assim como qualquer pessoa que pudesse adentrar a casa. Carl me lançou seu olhar duvidoso e eu lhe lancei o meu, ambos olhando para o aro da porta ao mesmo tempo.

Notei que a expressão de Carl empalideceu no mesmo instante e minha expressão não devia ser a melhor também. Enid estava ali, parada, boca entreaberta, variando seu olhar entre nós dois. Não demorou muito tempo para que a garota saísse correndo e os passos na escadaria voltassem. Carl olhou para mim e saiu em disparada, atrás dela. Imaginei que ela havia visto que eu não usava calças, e a toalha em meus cabelos poderia ser suspeita. Se ela ao menos soubesse que não houve qualquer maldade, pensei comigo mesma.

Ouvi Carl chamar por Enid, mas sem respostas, apenas o som da porta de entrada batendo em um estrondo. Assustei-me e abracei meus joelhos com mais força. Em seguida, mais passos na escada e a imagem de Carl estendeu-se à minha frente, parado e com um olhar desolado no rosto. Torci a boca e o encarei.

— Não consegui alcançá-la — respondeu, voltando para a cama, onde se sentou.

— Qual o problema? — Estava confusa com sua expressão.

— Ela interpretou errado — afirmou ele, umedecendo os lábios ressecados.

Quis responder com diversas soluções para o problema, mas todas voltavam-se ao mal, então resolvi ficar quieta e seguir os conselhos de Carol. Posicionei uma mão em seu ombro e sorri de canto.

— Tenho certeza de que ela vai entender — afinal, eles eram amigos.

Carl me estranhou, levantando o olhar durante alguns segundos e o baixando novamente, chacoalhando sua cabeça.

— Enid não sai comigo há uma semana — comentou. — Ela deve estar brava, algo assim.

"— Creio que você deveria tomar cuidado com suas palavras — sussurrei. — Não acho que gostaria de ser jogada para os errantes."

"— Você é desnecessária — Enid soltou em um murmuro audível. — Age de maneira infantil porque tem medo de perder o "amado", que nem ama tanto assim."

— Eu não acho que ela esteja brava — respondi-o e ele sorriu de canto. — Mas se você acha que sim, corra atrás dela.

— O que deu em você? — O garoto duvidou enquanto soltava uma leve risada. — Não muito tempo atrás você teria revirado seus olhos e reclamaria sobre ela.

— Faz parte das mudanças — comentei e ele pareceu gostar da ideia.

Novamente, o silêncio dominou o ambiente e apenas o aceitamos. Carl passou a olhar para o teto enquanto eu encarava a gaze em minha coxa, apalpando a região dos pontos, testando meu nível de dor.

— Ei, Mari — chamou-me, levantando o olhar. — Você não acha que estamos em perigo, certo?

— Se o plano que eu sugeri der certo, estaremos bem — respondi. — Já deu certo outras vezes.

— Você aprendeu em Woodbury?

Assenti de modo triste.

— Quase seis meses de treino intenso, todos os dias — minha vez de baixar o olhar.

— Como era? — Perguntou, cativando minha atenção em sua fala. — Digo, como era a divisão?

Respirei fundo e mordi meu lábio

— Você é pequena e ágil, precisará do treino intenso, mesmo assim. Consegue fazer fácil manuseio das armas? — A mulher analisava meu físico, tocando em meus braços finos e apertando-o com leveza.

Assenti, colocando uma mecha de cabelos atrás da orelha, sentindo meu coração acelerado pelo nervosismo que me dominava. Ao meu redor, pessoas mais velhas tentando esfaquear animais já mortos, ou lutando contra soldados que eu via nas escoltas noturnas.

— Certo, então vamos fazer a separação de modo fiel ao seu corpo, para que você não acabe o dia morrendo de dor e desejando apodrecer na cama — a mulher pegou um papel na mesa e retirou uma caneta do bolso, começando a rabiscar linhas. — De manhã, assim que acordar, vamos colocar às seis, você come reforçado e desce até aqui, treino de corpo a corpo. Até o meio-dia. Então você almoça e voltamos à programação, treino de mira. Isso até as seis da tarde, e, ao pôr do sol, você terá aulas de estratégia e posicionamento. Só após o final que você comerá e poderá dormir novamente.

"O Governador pediu horários reservados para o treinamento psicológico, e vou logo avisando; não é um treino leve. Você não vai se sentir bem no começo, mas nós nos acostumamos após umas semanas. Prepare-se para começar sua nova rotina, pois você terá de se adaptar. Em Esparta, as crianças que nasciam fracas eram mortas, e aqui não é diferente."

— Se eu não responder ao treinamento, eu serei morta? — Perguntei, sentindo tensão correr em minhas veias.

— Não, é só modo de falar. O máximo que farão é te colocar na equipe de limpeza — sorri levemente e a mulher o retribuiu, ajeitando a faixa em seus cabelos enrolados. — Bem, meu nome é Kethra, mas eu sou conhecida como Wincaid aqui. Eu passo o treinamento de atiradores, então você já deve saber o horário para me encontrar, certo?

— Após o almoço.

— Isso — a mulher assentiu com a cabeça. — Dispensada. Vá curtir seu último dia de descanso.

Um dos guardas me indicou o caminho. Tudo que pude observar no tempo em que ele caminhava à minha frente, era a imensa arma pendurada em suas costas. Os soldados de Woodbury andavam sempre armados, equipados para qualquer combate surpresa, por mais que a cidade não recebesse nenhum. Talvez o Governador tivesse poder acima dos outros, então eles ficavam amedrontados.

— Aqui dentro — disse o homem corpulento, apontado para a sala.

Assenti e adentrei o local, onde havia apenas uma mesa e duas cadeiras, uma de frente para a outra. Antes que pudesse me sentar, ouvi um barulho atrás de mim e vi o portão se fechando. Engoli em seco, sem saber o que estava por vir. Cada músculo de meu corpo doía como uma tortura, de tanto apanhar no treinamento do dia. O que eu mais fiz foi cair, não conseguindo revidar um movimento sequer. O chefe do treinamento de corpo a corpo, Murphy, selecionou de seus melhores soldados e ordenou que nós lutássemos. Acabei saindo de lá e passando na enfermaria local antes de voltar para o treinamento, quando um dos guardas disse que o Governador havia me chamado. E lá estava eu, me sentando na cadeira e olhando fixamente para a pequena lâmpada pendurada acima de mim, refletindo no metal da mesa.

Outro ruído surgiu atrás de mim e olhei por cima de meu ombro, vendo o Governador entrando e sorrindo de relance para mim. Não o retribuí, apenas o encarei até que ele se sentasse à minha frente. Desde que meu treino havia começado, três dias atrás, o homem só havia aparecido durante às noites, batendo na porta de minha casa ou me chamando em seu escritório.

"Eu sei que o dia foi difícil hoje, amanhã também será cansativo, mas logo você se acostumará. Tenho certeza de que, no final, você será uma grande soldada. Talvez, até a melhor. Você tem futuro, Mari. Você vai se destacar."

Após deixar suas palavras causarem um impacto, o homem me dispensava e eu ia para minha cama, com o sorriso de olho-a-olho, levando suas palavras comigo e respirando fundo, tendo de encarar dia por dia, mas com motivações guardadas em minha memória.

O líder tinha sua postura rígida, colocara os dois cotovelos acima da superfície da mesa e as mãos sobre a boca, olhando por cima para mim.

— Como foi seu treino hoje? — Perguntou, solenemente.

— Eu não estou me saindo bem — respondi, me ajeitando na cadeira e sentindo a dor atingir meu quadril. — Me saí muito mal no corpo a corpo, mais cedo.

— Seus treinadores disseram que você está se saindo bem no domínio das estratégias e na mira. O corpo a corpo é só questão de tempo — o homem afirmou, sem desmanchar sua postura. — Você tem de confiar mais em seu potencial.

Baixei o olhar, assentindo.

— Já devem ter te avisado que o pior dos treinos é o psicológico — comentou o homem, retirando as mãos de seu rosto. O tapa-olho cobrindo parte da face e causando mais impacto em sua postura. — Eu sei que você é forte, e sei que você vai conseguir.

— Sobre o que se trata?

— Não faça muitas perguntas. Você terá de esperar — o homem concluiu e levantou uma mão, como se acenasse para alguém do lado de fora da sala. — Tragam-no!

Em questão de segundos, um outro guarda apareceu segurando um homem, puxando-o pelos braços. O indivíduo estava gritando, se debatendo, mas ele estava magro demais para lutar contra o outro homem. O Governador se levantou da cadeira, dando espaço para que o homem fosse posicionado ali. O soldado passou a amarrar as cordas nas laterais da cadeira, colocando-o preso.

— É forte para seu primeiro treinamento, mas o impacto causado marca — o Governador aproximou-se do homem que choramingava, mas não formulava palavras reais. — Facilitarei para você.

O Governador socou o rosto barbado do homem e fez com que ele desmaiasse. Inconsciente, jogou sua cabeça para o lado, quase caindo. O líder aproximou-se de mim e colocou uma chave de fenda em minha frente. Olhei para o objeto e olhei para o homem, que ainda tinha a mão acima da mesa.

— Você só comerá quando matá-lo com a chave de fenda.

Adrenalina percorreu meu corpo e eu senti que ia vomitar, meu estômago parecia estar enrolado em um nó único, envolvendo parte de meus outros órgãos, pelo aperto que sentia em meu peito.

— O que ele fez? — Perguntei, olhando para o homem, sentindo meus olhos marejarem.

— Não interessa o que ele fez, ou não. Quando você encontrar alguém, deve sempre tomar providências.

— Eu devo matar todos que encontrar em minha frente?! — Perguntei, levantando o tom de voz. — Isso é loucura!

— Mari, faz parte do treinamento.

— Então talvez eu não queira seu treinamento — respondi, levantando-me da cadeira.

— Se esta é sua decisão, então você morrerá de fome, aqui, nessa sala gélida.

— Me diga o que ele fez! — Bati minhas duas mãos na mesa, fazendo a chave de fenda rolar para o lado.

— Este homem foi pego roubando nossos alimentos e matou duas pessoas. Dois moradores inocentes — o Governador pressionou os lábios e respirou fundo. — Melhor matá-lo agora, pois depois que ele acordar, eu não o deixarei inconsciente novamente.

— Não! Governador, por favor! — Tentei pedir, mas o homem deixou a sala.

Durante longos minutos, estive ali, sentada, variando meu olhar entre o homem e a chave de fenda. O que aprendíamos no combate, era como matar errantes, mas matar pessoas não estava no pacote, apenas lutar contra elas para ter uma chance de fugir. Era desumano matar algum indefeso. Meu estômago começou a roncar e eu senti que estava prestes a chorar. Toquei o cabo da arma, analisando-a e olhando para o homem. Aproximei-me dele, analisando seu rosto, tentando imaginar um errante no lugar, mas sem sucesso.

Segurei a chave de fenda com ainda mais força que pude ver o esbranquiçar de meus punhos. Minha respiração tornou-se ainda mais rápida e senti lágrimas rolando pelas minhas bochechas. Respirei fundo, mas não ajudou. Fechei os olhos e tateei suas pálpebras, sentindo seus globos oculares com as pontas de meus dedos e deixei alguns soluços saírem pela minha boca. Olhei mais uma vez e levantei a chave de fenda, mirando a direção que eu pretendia acertar. Fechei os olhos e removi minha mão, caso eu errasse.

— Desculpe — sussurrei e abaixei a arma com força.

— Não! — Disse o homem antes, mas já era tarde. Eu havia acertado seu olho.

Olhei para ele, esperando que ainda estivesse vivo, mas vi seu peito parar de mover-se e seu olho esquerdo aberto, dominados pela morte.

Meu corpo estava coberto de arrepios e eu tentava gritar, mas nada saía de minha boca além dos soluços. Virei para o lado e vomitei qualquer conteúdo que tivesse em meu estômago, tossindo e soluçando ao mesmo tempo. Nada era audível, nem mesmo meus próprios barulhos. Minha mente fazia um ruído absurdo eu só conseguia chorar, encolhida no chão sujo, encostada à parede de concreto.

Senti a palma de uma mão pesada acima de meu ombro e eu voltei a chorar, ainda mais forte.

— Acalme-se — dizia a voz suave. — Você se saiu muito bem. Eu sabia que conseguiria.

Olhei para o lado e vi o Governador passando seus dedos longos pelo meu cabelo e segurando minhas mãos sangrentas.

— Shh, tudo ficará bem — o homem ajudou meu corpo trêmulo a se levantar e seguiu passando a mão pelo meu cabelo. — Vamos, tenho uma refeição completa para você.

— Era horrível, Carl. Não desejo para ninguém — disse em baixo tom, sentindo o gosto de sangue por ter mordido meu lábio anteriormente. O garoto percebeu minha expressão e envolveu meu corpo em um abraço. — Ele me tornou em uma criatura. Eu não consigo chorar ao lembrar daquilo.

— Liberte-se disso — o garoto afirmou, passando suas mãos pelas minhas costas. — Você não precisa estar nesse inferno.

— Não sei o caminho para sair dele — respirei fundo e fechei meus olhos, deixando-me envolver pela sensação. O cheiro do sabonete havia passado para sua blusa.

— Tudo bem, nós daremos um jeito nisso.

Notas finais
Quis retratar o Governador aqui, porque se tem uma personagem que eu adoro escrever sobre, é ele. Mas quero relembrar também que o cara não era bom, não pensem que agia como uma figura paterna para a Mari. Uma vez eu li sobre os soldados das forças rebeldes africanas, e eles escolhiam crianças para suas tropas, porque, segundo eles, era mais fácil de manipular e torná-las frias para matar. Então uni esta informação aqui, fazendo com que o Governador trouxesse confiança à Mari, tornando ela uma pessoa que seguisse suas ordens, pois sabia que ele estava "certo". Espero que tenham gostado! Até mais