Why Me?

63 Capítulo 63 - Something's wrong


Notas iniciais
Opa, capítulo problemático e cheio de drama é comigo mesma.

— Algo está errado — disse Carl, andando de um lado para o outro.

Acertei meu terceiro dardo na borda da prancha, torcendo a boca em decepção. Ajeitei minha postura para que fosse mais fácil de mirar, estreitando meus olhos, os quais eu podia ver Carl, pelo canto.

— Já era para terem voltado — o garoto chutou minhas botas que estavam ao lado da parede.

— Ei! Cuidado! — Respondi, tirando minha atenção do jogo.

— Mari! Eu estou falando com você! — O garoto abaixou minha mão com a sua, fazendo com que meus olhos pousassem em sua figura preocupada.

Respirei fundo e coloquei o último dardo acima da cômoda, caminhando em direção à prancha para retirar todos os outros. Olhei por cima de meu ombro e notei que o garoto estava, agora, com uma sobrancelha arqueada, esperando por respostas.

— Você está duvidando de meu plano, Carl — respondi ao colocar o último dardo alinhado aos outros. — Às vezes tiveram algum contratempo.

— Eu vou esperar no portão da frente — concluiu ele, me ignorando por completo e calçando seus sapatos.

— Eu vou com você — respondi e caminhei em direção às minhas botas.

— Não precisa — o garoto amarrou o último cadarço e levantou o olhar em minha direção. — Tenho de falar com Enid, antes.

— Ah, sim — respondi, sem muito entusiasmo e o garoto ajeitou sua franja acima das bandagens, escondendo boa parte delas.

— Não vou demorar — ele caminhou em minha direção e beijou minha testa, fazendo um curto sorriso escapar de meus lábios. Olhei para cima, meus olhos encontrando o dele.

— Acho que vou explorar sua casa, então — dei de ombros e sentei-me em sua cama, sorrindo.

— Você tem que parar de ser tão curiosa — o garoto pulou na cama, ficando em cima de mim, cada braço e perna de um lado de meu corpo, como se estivesse me cercando.

— Já que não me quer aqui, também — provoquei-o, tocando a ponta de seu nariz com meu dedo —, vou trabalhar meu novo plano.

— Plano? — Carl franziu o cenho.

— De me misturar na comunidade — respondi e ele se afastou instantaneamente, de modo a me deixar um tanto incomodada.

— Ainda não desistiu deste plano? — Perguntou e sentou-se na ponta da cama.

— Não vou desistir, é a única opção favorável — afirmei e ele torceu a boca, indignado.

— Você quem sabe, certo? — Bufou e revirou os olhos, se levantando e caminhando em direção à porta. — Até logo.

Ouvi seus passos na escada e ajeitei-me entre os travesseiros, passando a encarar o teto.

Carl não estava errado em reclamar sobre a demora do grupo. Eu também estava preocupada, só me recusava a admitir que meu plano talvez desse errado. Rick o aceitou sem qualquer rastro de dúvidas, depositando toda sua confiança em meu treinamento, que, por mais que fosse intenso, ainda tinha chances de trazer instintos errados. Mas ninguém pareceu recuar, e eu me senti no poder. Afinal, em Woodbury, a única vez que algo deu errado, foi quando houve a invasão do grupo de Rick. Então a cidade caiu, e que permaneça em paz.

Ouvi conversas do lado de fora e procurei me concentrar para entender algo que se tratava. Caminhei até a janela lentamente e olhei entre as cortinas, tentando ver de onde vinham os sons, e dali encontrei duas mulheres fumando em uma varanda. Revirei os olhos, tendo em vista de que não era nada de importante para mim, até ver a reação delas em direção aos portões principais. Em seguida, barulho de carro e avistei, de longe, o trailer.

Mal pude conter meu sorriso; calcei minhas botas, correndo na direção das escadas. Quando desci a varanda, encontrei o trailer estacionando em frente ao depósito, dali descendo todos que partiram na missão. Meu sorriso apenas cresceu.

[...]

Depois de ajudar todos com suas armas, guardando-as de volta ao arsenal, encontrei Carol sentada no balanço que estava pendurado ao teto da varanda da segunda casa. Caminhei em sua direção e sentei-me ao seu lado, só então notando que ela tinha um terço em mãos.

— Perdão, eu não percebi — disparei, ameaçando me levantar, quando ela me deu um sinal com suas mãos para que eu ficasse. Junto de um curto sorriso.

— O plano deu certo — afirmou a grisalha, ajeitando suas pernas acima do assento almofadado.

— O que causou a demora, então? — Perguntei e notei que sua expressão se tornou sombria.

Carol baixou o olhar para o terço e continuou a respirar de modo calmo, de modo a deixar pensar que ela estava tentando recuperar energias. Pensei que não seria adequado perguntar sobre a missão, então resolvi trocar o assunto:

— Posso te ajudar com o jantar hoje? — Perguntei e ela levantou o olhar, sorrindo de canto.

E lá estávamos nós, trabalhando na sopa de ervilhas. Carol estava cuidando da sopa em si e eu estava amassando a massa com um rolo, para fazer pães de acompanhamento. Antes disso, a mulher não disse mais nada além de ajuda para meu trabalho. E meu único objetivo, além do pão, era respeitar seu silêncio.

Algo em Carol me dizia que ela tinha muito a esconder. Não sabia dizer se eram seus olhos ou sua aura que me trazia sinais de que algo não estava certo. Lembrava-me pouco de sua presença na Prisão, mas Carl sempre trouxe que ela era alguém forte, corajosa. Mas sobre seu passado? Eu não tinha uma única ideia do que ela pudesse ter vivido.

— Quem vem jantar conosco? — Perguntou ao retirar a sopa do fogo, mexendo, vagarosamente.

— Creio que Carl, Michonne e Rick — respondi e separei a massa em pequenas bolinhas.

— Rick não virá — ela afirmou. — Ele está cuidando de algumas situações.

— Certo, então seremos apenas nós — respondi ao colocar a massa na forma que Carol havia separado, e a mulher enfiou-a dentro do forno.

— Coloque a mesa para mim, Mari, por favor — pediu a mulher, indicando o armário dos pratos.

Assenti e cacei pelos pratos, copos e talheres que necessitava para cumprir o trabalho. Assim que coloquei todos acima dos jogos americanos, Carol trouxe a sopa em uma grande tigela e colocou-a ao centro da mesa. Os pães ainda estavam dentro do forno, então imaginei que fosse demorar um tanto para terminar de assar; logo olhei para a mulher, esperando que me desse uma tarefa.

— Vá chamar Carl — pediu a grisalha e eu assenti. — Diga que a sopa vai esfriar.

Caminhei para fora da casa, sentindo o vento gelado batendo contra meu corpo, em contraste com o ambiente aconchegante da casa. Imaginei que todos concordavam comigo, já que, na rua, estava apenas eu. Sequer ouvia sons de conversas ou passos, além dos meus. Dobrei a esquina e encontrei a casa branca que era a enfermaria e olhei janela adentro, procurando por Denise, mas não a encontrei. Passei meu olhar por cima do ombro e encontrei Abraham caminhando em direção aos portões.

— Ei! — Chamei-o e o ruivo se virou, assustado, mas pareceu aliviar a expressão ao me ver.

Sorri enquanto caminhava em sua direção. Normalmente, eu não esboçaria qualquer movimento com meus lábios, mas eu estava dentro de meu plano, então teria de treinar. O ruivo carregava uma metralhadora em seus braços e imaginei que ele estaria em seu turno de vigia.

— Está com pressa? — Perguntou, sorrindo de volta.

— Procurando por Carl — respondi, sem mais delongas.

— Eu o vi perto do lago — Abraham pousou o indicador sobre a testa, pensativo. — Não tenho certeza se ele ainda está lá.

— Tudo bem — dei de ombros. — Como foi a busca?

Por mais que eu tivesse ouvido por Carol, queria novas perspectivas. A curiosidade para saber o que havia ocorrido de tão mal para deixa-la em péssimo estado me corroía por dentro. Abraham trocou o peso de seu corpo para a outra perna, colocando a metralhadora acima do ombro e passando os dedos pelo bigode.

— Foi… boa — hesitou ao dizer, então soube que havia algo de errado. — Consegui um prêmio — bufou ao indicar seu braço, abaixando a jaqueta pesada e revelando um curativo.

— Oh, eu sinto muito — respondi e cruzei meus braços. — Eu fiquei preocupada, vocês demoraram para voltar.

— Houveram complicações — pude ouvir o som de seu suspiro —, mas no fim, tudo se acertou.

— Fico feliz em saber — sorri de canto e ele assentiu. — Vou deixá-lo em paz, agora.

— Como quiser — respondeu e seguiu marchando em direção aos portões.

Nenhum dos que embarcaram na missão parecia querer contar sobre a mesma. Em Woodbury, quando algo dava errado, o Governador evitava ao máximo comentar sobre os acontecimentos. E eu sabia que era algo podre. Algo errado. Aquilo que Carl havia me dito, sobre a comunidade de Hilltop e os supostos "Negan", tudo me trazia calafrios à espinha. Um péssimo pressentimento.

Olhei para frente e avistei as folhas laranjas da grande árvore movendo-se de acordo com o vento. O céu era cinzento, dando ideia de chuva, mas apenas ameaçando, já que o outono em Virginia não costumava ser úmido. E então vi Carl encostado à árvore, com um pé na casca e o outro no chão coberto pela folhagem. Estreitei minha visão e vi que ele olhava para cima, sorrindo, então estranhei.

Caminhei em sua direção e ele não pareceu notar, até que alguém pulou da árvore, e esse alguém era Enid. Revirei meus olhos internamente, tentando manter compostura e coloquei um curto sorriso no rosto, pigarreando ao chegar atrás de Carl. Os dois olharam em minha direção, olhos perdidos.

— O jantar está servido — afirmei e cruzei as pernas, analisando-os.

Carl olhou para Enid, com a boca entreaberta, insinuando que diria algo em seguida. Aguardei, impaciente, tentando controlar minha paciência, dosando-a para a situação.

— Enid pode jantar conosco, certo? — Perguntou para mim e a garota pareceu surpresa pela atitude do moreno.

— Claro — respondi, sem hesitar.

Ele sorriu em minha direção, mas desta vez, eu não retribuí.

A caminhada de volta para a casa fora silenciosa, Carl ao meu lado e Enid atrás de nós. Senti que meu apetite havia evaporado, e as ervilhas já não me pareciam mais saborosas. Logo que chegamos à entrada, empurrei a porta e adentrei, evitando que meu olhar colidisse com o de Carl, me sentando à mesa. O garoto sentou-se ao meu lado, e Enid, na ponta. Quando Carol voltou ao aposento, sua expressão era de surpresa.

— Oh, Enid se juntará à nós? — Perguntou, colocando a cesta de pães ao lado da sopa.

— Sim — respondi, seca. — À convite de Carl.

Carol sorriu para mim, sem qualquer ingenuidade envolvida, apenas provocação. Minha postura indicava meu incômodo, imaginei, pois, seus olhos não me deixaram até que eu voltasse com um sorriso em meu rosto.

Ouvi barulho nas escadas e olhei para trás, avistando Michonne saltando os degraus. A mulher olhou para os pães na mesa e pude jurar que a vi salivar. Então, quando estávamos todos sentados, Carol sorriu e deu-nos permissão para nos servirmos.

— Meu pai não jantará? — Perguntou Carl ao preencher seu prato, voltando-o ao jogo americano.

Michonne e Carol trocaram olhares, e, mais uma vez, despertando curiosidade em mim.

— Rick está tratando de alguns assuntos, agora — afirmou Michonne, molhando o pão na sopa e mordendo a área molhada. — Eu guardarei um pouco de sopa para ele comer mais tarde.

— Se sobrar, claro — disse Carol e enfiou a colher em sua boca. — Mari está aprovada na culinária.

Sorri para a mesma e degustei da sopa que havia feito. Saboreei do caldo o máximo possível, delirando a cada colherada. Notei que todos ao meu redor pareciam estar na mesma situação que eu, inclusive Enid.

De repente, ouvi batidas na porta e Carol levantou-se, caminhando em direção da mesma. Ergui meu olhar, procurando enxergar o que se passava. E então, avistei Daryl, com nervosismo expresso no rosto. Antes mesmo de poder ver qualquer outra coisa, Carol saiu da casa, fechando a porta atrás de si. Michonne olhava em minha direção, vendo onde meus olhos estavam fixados.

— A sopa ficou ótima, Mari — afirmou a mulher, com uma expressão séria.

— Obrigada — sorri de canto e peguei um pão da cesta.

Carl levantou o olhar de seu prato e sorriu para mim, timidamente. Olhei de relance para Enid e notei que ela o mirava, e, assim que me notou, desviou de volta para sua sopa.

Quando todos terminaram, deixando apenas o prato de Carol, onde o conteúdo já devia estar frio, levantaram-se e me ajudaram a retirar a mesa. Carl sentou-se no sofá e Enid sentou-se na poltrona ao lado, ambos conversando. Achei que seria melhor para minha consciência evitar, então passei a lavar a louça, esvaziando minha mente para os acontecimentos. A porta se abriu e eu olhei por cima de meu ombro, vendo Carol ali, que pegou a sopa da mesa e colocou-a dentro de um pote que estava no armário, posicionando-a na geladeira, para mais tarde, imaginei.

— Você tem de treinar seu olhar para Enid — sussurrou ao passar perto de mim, enquanto eu enxaguava um prato.

— É tão visível assim? — Indaguei, suspirando. — Digo, eu não estou errada, estou? Ela fica ocupando os lugares sem aviso prévio…

— Carl a convidou, certo? — A mulher pegou um dos pratos e me ajudou a lavar. Assenti e ela prosseguiu: — Carl é um garoto difícil.

— Eu que o diga — murmurei e a grisalha ouviu.

— Quero dizer; ele não gosta de mudanças. Desde o começo do apocalipse, que eu me lembre — a mulher enxaguou seu prato e me passou o detergente para que eu limpasse o meu. — E sei que ele não gosta da ideia de você querer agir como cidadã.

— O que há de tão errado? — Indaguei, olhando por cima de meu ombro e vendo os dois ainda rindo na sala. — Eu só quero me misturar. É fácil para ela, por que não pode ser para mim?

— Porque você era o fantoche do Governador — despejou, sem se incomodar com minha reação surpresa. — Carl usa Enid como um meio de fazer você sair deste papel. Ele age pelo subconsciente.

— Enid só me traz raiva, mas a raiva não me tirará desta situação — respondi, fechando meu rosto.

— Ah, sim. Tirará — a mulher respondeu, olhando para mim, severamente. — Uma hora você vai explodir com ela, ou com ele, e as pessoas vão voltar a ver você como a maníaca solitária da comunidade.

— Alguém me via dessa maneira? — Soltei uma leve risada, enxaguando meu último prato.

— Eu via — a mulher riu em conjunto, pegando o pano para secar a louça.

— E o que mudou sua visão?

— Eu te conheci melhor — afirmou e encostou-se ao balcão. — Mas ainda faltam mudanças.

— Que tipo de mudanças? — Questionei, mantendo contato visual.

— Não sou um poço de respostas — a mulher torceu a boca. — Algumas coisas você terá de encontrar sozinha.

[...]

Sentei-me na ponta da cama e descalcei minhas botas, colocando-as no canto do quarto. Quando voltei à colcha macia, escutei risos abafados do lado de fora do quarto e revirei meus olhos tão intensamente que senti que eles saltariam para fora e fugiriam de mim. Respirei fundo e coloquei meus braços às minhas laterais e esperei a porta se abrir.

Assim que se abriu, revelou Carl em sua camisa xadrez amarela, ainda com o sorriso estampado no rosto, fechando-se assim que me viu. Arqueei uma sobrancelha e forcei meus lábios para o mesmo formato de seu rosto, prensando-os com força. O garoto caminhou em minha direção e descalçou seus sapatos também. Deitei-me de costas para ele, colocando minhas mãos abaixo do travesseiro, em silêncio.

Havíamos juntado as duas camas de seu quarto nos dias anteriores, formando uma cama de casal improvisada, mas que era suficiente para nós. Senti a movimentação do outro lado e notei que Carl estava adentrando os cobertores. Não sabia sua proximidade até sentir sua respiração em minha nuca e seus dedos tocando meu pescoço, retirando as mechas de cabelo da região. Decidi me virar para sua frente, colidindo nossos olhares.

Carl agora estava apenas com uma blusa cinza de mangas longas e boxers, já que não dormia mais de jeans. Ele tomara coragem de sentir-se à vontade, assim como eu, e ambos por causa do banho. Eu estava com as calças de moletom que havia encontrado no armário de Deanna anteriormente, e a blusa vinho. Retirei minha jaqueta verde, já que o cobertor assumira a função de me proteger do frio.

— O jantar estava realmente bom — ele sorriu de canto, ajeitando as mechas de meu cabelo para fora de meu rosto.

Sorri para ele e peguei sua mão com a minha e beijei o punho suavemente, acariciando seu braço com as pontas de meus dedos.

— Michonne roubou a parte de Carol da geladeira — o garoto soltou uma genuína risada, a qual eu me juntei. — Até Enid gostou.

— Vocês fizeram as pazes? — Perguntei e ele assentiu.

— Ela apenas se sentiu mal de ter invadido um momento privado, nada demais.

— Entendo. — Respondi, seca.

— Enid está nervosa por causa de Maggie — respondeu ele, respirando fundo. — Ela disse que sua casa está exalando tensão.

— Carol também está estranha — afirmei. — Você soube de algo, sobre a missão?

— Mich me contou algo, mas você não deve comentar com ninguém — ele disse e eu assenti. Então prosseguiu: — Ela disse que algo deu errado e Maggie e Carol foram sequestradas.

— Como assim? — Perguntei. — Conte-me a história toda!

— Bem, ela disse que eles mataram todos que estavam ali — o garoto começou e desviou o olhar, pensativo. — Mas tinha um grupo fora do aposento e eles levaram as duas. Ninguém sabe ao certo o que houve lá dentro, nenhuma delas comentou — respondeu ele, torcendo a boca.

— Nunca teria imaginado — respondi. — Mas que bom que estão todos mortos.

— Sim, agora teremos paz, eu espero.

Ainda assim, tinha um pensamento que não saía de minha cabeça: algo está errado.

Baixei o olhar para seu peito, com hesitação espalhada por toda minha aura. Carl deve ter notado, pois sua mão encostou na lateral de meu rosto e seus lábios alcançaram minha testa, em um curto e delicado beijo. Quando se afastou de mim, seus dedos voltaram-se para meus cabelos, deixando as ondas escorregarem entre os espaços.

— Seu cabelo está mais curto — afirmou e eu soltei uma curta risada, desentendida.

— Jessie o cortou faz um tempo — respondi e ele riu. — Você só percebeu agora?

— Praticamente — revirei meus olhos. — Mas está ótimo.

— Obrigada…?

— Talvez seja porque você tenha o ajeitado de outro modo.

Recapitulando, eu havia mudado meu cabelo. Agora eu o penteava e ajeitava, para ser uma presença plausível. O que antes era apenas jogado para todos os lados possíveis, agora eram os fios escovados, mantendo-se perfeitamente em minha cabeça.

— Faz parte do…

— Plano. Eu sei — me interrompeu e franziu o cenho, indignado. — Só me prometa algo.

— O quê?

— Não quero que você se deixe amolecer — ele respondeu, expressão tão séria que fez o clima tornar-se obscuro.

— Carol é "amolecida"? — Questionei-o e o garoto negou com a cabeça. — Então o que faz você pensar que eu ficarei assim?

— Nada. Só quero que me prometa — persistiu.

Revirei os olhos novamente e respirei fundo, recuperando a paciência para voltar meu olhar ao seu.

— Eu prometo.

[...]

Escutei a porta da casa bater e despertei. Eu sempre tive o defeito do sono leve, acordando da mais profunda fase dormente com qualquer barulho próximo. Podia ser contado como vantagem em um apocalipse, mas não em uma comunidade onde a segurança predominava. Sentei-me na cama e analisei o quarto, vendo Carl, virado de costas para mim, cabeça afundada no travesseiro. Levantei-me e peguei minha jaqueta, bocejando e alongando meus braços.

Meu primeiro impulso ao ouvir barulhos estranhos no meio da noite era pegar minha jaqueta. Mesmo que não fosse sair.

O segundo impulso era procurar por minha faca.

Caminhei até a janela para tentar ver algo, e acabei encontrando a única peça do quebra-cabeças, sendo ela, Carol. Com uma grande mochila nas costas.

Algo está errado, posicionei meus dedos acima das têmporas, respirando fundo.

Corri até a cômoda de Carl e peguei minha faca de madrepérola. Retirei as calças de moletom e coloquei as jeans em uma velocidade incrível, ajeitando a faca no bolso da frente. Minha jaqueta verde estava em meu corpo em um piscar de olhos, e assim, saí do quarto, sorrateira, para não acordar Carl.

Desci as escadas e abri a porta da frente, vendo Carol já distante. Estreitei meus olhos e tentei raciocinar o caminho mais rápido, então saí em disparada. Assim que cheguei perto dela, parei em sua frente, fazendo-a saltar de susto. A mulher me olhou com tédio, analisando-me de cima para baixo.

Algo está errado. Algo está errado. Algo está errado.

— O que você faz aqui? — Perguntou e seguiu caminhando. Acompanhei-a de costas.

— O que você faz aqui? — Retruquei e ela ajeitou a mochila no corpo.

— Eu vou embora. Não posso mais ficar — respondeu sem manter qualquer contato visual.

— Você não pode ir! — Exclamei e ela parou de andar.

De um instante para o outro, Carol trocou sua expressão de tédio para tristeza. Depois de Carl ter me contado que ela fora sequestrada, parei para analisar cada etapa do dia, onde ela pudesse deixar qualquer rastro de memórias implícitas. Agora, apenas de ter seu olhar fixado em mim, eu pude sentir sua dor. Eu estava desolada, parada no meio da rua, praticamente de madrugada ainda. A mulher voltou a andar na direção dos portões, ignorando completamente o que havia acabado de ocorrer.

— Carol! — Repreendi-a e ela virou-se, agora totalmente irritada.

— Você queria respostas, certo? — Sabia que não era uma pergunta recíproca e mantive-me calada — Bem; comece pelos pequenos passos. O resto é por você.

Ela fez um sinal com os dedos na testa e saiu caminhando. Desta vez, não a chamei.

Algo está muito errado. Senti dor em minha nuca.

Quando Carol estava fora de meu campo de visão, abracei meu próprio corpo e caminhei rua abaixo até a casa. O frio da madrugada era ainda pior que o restante do dia, trazendo suas brisas gélidas que arrepiavam da cabeça aos pés e faziam a dor entre os olhos voltar em uma intensidade absurda.

Algo está muito errado. Muito errado.

Voltei para o quarto, adentrando o conforto do calor ambiente e descalcei meus sapatos mais uma vez, retirando minha jaqueta e colocando-a acima da cômoda. Carl continuava dormindo, fios rebeldes esparramados pelo travesseiro branco. Retirei as calças novamente e as troquei pelas de moletom, sentando-me na cama. No mesmo instante, o garoto grunhiu e levantou a cabeça, olhando para mim com seu único olho entreaberto.

— Mari? — Sua voz sonolenta chamou por mim. Virei-me em sua direção.

Algo está errado. Algo está errado.

Algo está errado.

Olhei para o garoto sentindo minhas bochechas se aquecerem. De repente, senti as mesmas ferverem e lágrimas deslizando acima da pele. Algo está errado. Quando eu menos esperava, soluços escapuliram de minha garganta e eu já não conseguia mais controlá-los. Carl colocou-se sentado e abraçou minha pequena estrutura, segurando forte em minhas costas, dedos deslizando pelos ossos saltados. Algo está errado, não conseguia controlar minha respiração. Choro de pânico. De tristeza, de ansiedade, de erro. Algo está errado.

— Ei, ei — chamou-me, passando os dedos esguios em meu pescoço, deitando minha cabeça logo abaixo de seu queixo.

Por mais que eu quisesse, não consegui me sentir confortável. Minha única sensação no momento era de mal-estar, um péssimo pressentimento, algo me rodeando. Algo está errado. Minha respiração tornou-se audível e eu mal conseguia mexer meus braços, encolhendo-os no abraço de Carl.

Algo está errado, gritava minha mente.

Algo está errado, vozes soavam em meus ouvidos.

Algo está errado, berrava o garoto.

Braços passaram por minhas pernas e costas, levantando-me da cama e me guiando até o banheiro. Meus olhos embaçados pelas lágrimas mal enxergaram tudo que estava ao meu redor. Algo está errado, gritava a voz rouca, atrás de mim. Em seguida, meu choro não era o único no cômodo.

Senti um gosto amargo na boca e posicionei a mão acima dos lábios, tendo a sensação do estômago embrulhado dominando meu corpo fraco. Algo está errado, gritei ao afundar o rosto no vaso, esvaziando tudo que eu havia ingerido anteriormente. Meu corpo doía e eu sentia os arrepios subindo e descendo em minha espinha, fazendo-a de escorregador. Ouvi Carl chamar por meu nome e outras vozes se misturando à dele, mas não consegui distinguir nada além de minha garganta fechada. Meus ombros estavam rígidos, tensos, mal consegui movê-los.

— Pai! Algo está errado! — Gritava o garoto enquanto eu respirava com dificuldade.

Fechei meus olhos por um instante e os abri novamente, enxergando líquido vermelho escorregando pelas laterais do vaso. Algo está errado. Senti a dor abundante em meu nariz e levei meus dedos trêmulos até a região, afastando-os apenas para vê-los e senti a pressão cair logo que vi mais sangue.

Pisquei duas vezes e olhei novamente para o vaso, mas sem qualquer rastro de sangue. Levantei o olhar e avistei Carl agachado ao meu lado, sobrancelhas moldadas de forma preocupada na expressão, assim como os lábios entreabertos também indicavam. O garoto posicionou as duas mãos nas laterais de meu rosto, levantando meu queixo com os polegares e analisando cada um de meus traços, olhos frenéticos. Algo está errado.

— Ei — os dedos traçaram o caminho para meu cabelo, afofando-o com cuidado, como se eu fosse feita de porcelana. — Nada está errado — disse com a voz trêmula, suor escorrendo em sua testa.

Tossi três vezes e olhei para a porta do banheiro, encontrando Rick e Michonne em posição de preparo, para qualquer coisa que pudesse ocorrer.

— O que houve? — Perguntou Rick, sua voz ecoando em meus ouvidos em tons distorcidos.

— Ela acalmou — Michonne disse em um tom de satisfação. — Carl.

— Eu vou cuidar dela — ouvi o garoto dizendo com confiança como nunca havia sentido antes. Olhei para cima, vendo-o colocar-se de pé.

Meus braços seguiam jogados acima da tampa do vaso, cabeça encostada no assento, controlando minha respiração aos poucos. O casal na entrada do banheiro assentiu e caminharam para longe. Em seguida, os dedos de Carl tocaram meu pescoço mais uma vez e eu levantei meu olhar.

— Eu vomitei — afirmei, olhando para o chão, visão ainda turva.

— Não — ele respondeu, pegando em minha mão com cuidado e me levantando, apoiando meu braço direito acima de seus ombros. — Você apenas tossiu, mas não vomitou.

Olhei para o vaso e o encontrei intacto. Voltei meu olhar para o garoto, confusa. Carl me guiou até o quarto, cambaleando com meu peso, me ajudando a sentar na cama, encostada na parede com um travesseiro em minhas costas. Os dedos esguios dele agarraram os cobertores e o levou até uma altura que cobriria meu estômago. Olhei para Carl mais uma vez e senti seu toque em minha mão. Dedos esguios enlaçados aos meus.

— O que houve? — Me questionou, preocupado.

Neguei com a cabeça e passei a língua pelos meus lábios ressecados, respirando fundo. Seu olho estava fixo em mim, o azul mar-da-Grécia movimentando-se em uma velocidade absurda, frenéticos.

— Foi um pesadelo? — Aproximou minhas mãos em seu pescoço, repousando-as ali, junto das suas.

Neguei mais uma vez e senti a dor no estômago e as lágrimas secas repuxando minha pele.

— Algo está errado? — Perguntou e eu senti a dor na nuca, como uma agulha perfurando a região.

Assenti. Algo está errado.