Why Me?

57 Capítulo 57 - Gift


Três dias.

Três dias para tudo desabar.

Três dias que eu passei tentando processar tudo que havia ocorrido anteriormente.

Carl e eu nos vimos no dia anterior, mas não houve muito assunto, já que nenhum de nós tentou conversar sobre o que havia passado. Tinha certeza de que, em sua mente, se passava a cena de seu pai atirando na cabeça de Pete.

Eu não havia ficado chocada pelo fato de Pete estar morto, mas sim, por ele ter matado Reg. Deanna passou os últimos dias chorando, mas ainda assim, manteve-se de pé, ajudando com o enterro e com os problemas que estavam surgindo nos muros.

Mas havia um rumor na cidade. Algo sobre um local cheio de errantes.

Algo que fosse perigoso, algo que me fazia sentir-me nervosa.

Spencer encontrou minha faca em meu quarto e a levou de volta ao arsenal, mas isto não me impediu de ir até lá ao anoitecer e pegá-la novamente. Eu não conseguiria me sentir protegida sem ela.

Foram os piores três dias mais longos que já passei.

[...]

Rick localizava-se ao centro da sala, sendo rodeado por muitas pessoas que ouviam atentamente tudo saído pela boca do homem. Não prestei atenção em quase nada, e só soube do assunto quando ele pediu candidatos para seu plano. Os rumores eram reais, e ele queria fazer algo para mudar todo aquele caminho cheio de errantes. Carl parecia inquieto com a situação, e eu já imaginava que ele seria um dos primeiros a se candidatar, coisa que ele não fez.

Quando a reunião chegou ao fim, Carl andou para a mesma direção que seu pai havia seguido. Curiosa, fui atrás. Acabei em uma sala pequena, onde Rick estava escrevendo em uma prancheta. Carl me notou, mas fez um sinal para me afastar, fiquei, então, encostada à porta.

— Eu quero participar da missão — disse ao pai.

— Não vai. Mais alguma coisa?

— Por que não?

— Você pode morrer — o homem virou-se para o garoto, fazendo a mesma expressão séria que já havia visto tantas vezes, e não apenas em seu próprio rosto, mas como também no de seu filho.

— E você também.

— Mas posso evitar sua morte.

— Mas...

— Você não vai, Carl. Assunto encerrado.

O garoto não se contentou com o não e olhou para mim, como se pedisse para que eu fosse falar com seu pai, mas eu desviei o olhar e caminhei para fora da casa.

Tudo que eu havia visto nos dias anteriores fora morte e mais morte. Eu ainda não estava estável para aguentar ver o garoto que passei tanto tempo longe se candidatando para algo que pudesse leva-lo à morte. Senti-me mal naquele momento, e senti que tinha de pensar, então segui o caminho até o parque, onde havia a grande árvore centralizada.

Assim que pisei sobre o gramado verde-vivo, comecei a escalar o tronco, até me encontrar sentada em um dos galhos grossos, com algumas folhas batendo levemente, junto do vento, em meu cabelo. Eu já sabia que Carl me seguiria até ali, então não me surpreendi ao vê-lo subir o tronco também. Sentou-se de frente para mim, olhando para cima.

— Você sabe que pode morrer — disse eu ao desviar o olhar também.

— Não é o caso — disse ele, emburrado. — Você sabe que meu pai poderia até te chamar e não chamar a mim.

— Não é minha culpa — falei e dei um leve tapa em minha testa. — Recebi treinamento de primeira.

— Está dizendo que meu pai é de segunda? — Sorriu, irônico.

Soltei uma leve risada.

— Sinto falta de seu chapéu — falei e olhei diretamente para seus olhos azuis.

— Não estão na moda — ele riu e eu revirei meus olhos. — Posso usá-lo amanhã, se te agrada.

Assenti e cortei o sorriso, encarando o céu através das folhas que picotavam a visão.

— Eu também não gostaria que você fosse — disse ele. — É arriscado, mas queria que meu pai me desse uma chance de provar que sou bom.

— Não é a hora, Carl — disparei. Não era que me enchia ouvi-lo falar de seu pai e sua falta de confiança no garoto, mas Carl tinha de entender que ele era seu pai, mesmo que fosse o fim do mundo, e ele não perderia mais do que já havia perdido. Então, resolvi completar: — Mas ainda assim, podemos proteger a cidade. Talvez até poderíamos pedir para ficar na guarda, já que nós temos uma ótima pontaria.

Ele sorriu e eu soube que já havia o animado um tanto.

— Você se arrepende de ter matado algumas pessoas? — Ele me perguntou, o que me causou um tanto de calafrios.

O pior de ter matado à sangue frio, era o fato de que eu não era capaz de, sequer, lembrar de suas feições antes de disparar a arma. Ouvi diversos gritos, vários tiros, várias pessoas implorando. Eu podia me lembrar do treinamento do Governador, onde eles me fizeram atirar em pessoas que eu não conhecia. Ou algumas que eu conheci, mas não podia me lembrar.

Eu fui usada por tanto tempo e fiz tanta coisa que não queria fazer.

— Acho que sim — falei e olhei para o céu novamente, observando os curtos fachos de sol que passavam entre as folhas.

— Eu não — disse ele, desviando o olhar de minha sobrancelha arqueada. — Matei algumas pessoas para impedir acontecimentos futuros.

Dei de ombros e continuei sentada ali, agora, olhando para ele.

Por mais tempo que passasse, Carl sempre teria a mesma face. Não tinha mais noção de nossas idades, creio que estava na flor da juventude ainda, entre quinze e dezesseis anos, mas ainda assim, sua face continuava a mesma. Sem traços novos. Os olhos continuavam a brilhar com esperança sobre os mares das írises azuis e seus lábios continuariam rosados pela eternidade, inclusive, ressecados. As bochechas manteriam os leves respingos de sardas que lhe subiam o nariz e as sobrancelhas sempre estariam mostrando segurança e força o tempo todo. E seus cabelos — pelos céus! —, que continuassem bagunçados daquela maneira, porque era o que o tornava ainda mais atraente.

Mas apenas o fato de pensar que ele pudesse se tornar a cópia de seu pai me arrepiava os pelos do corpo.

— Eu estava pensando em escalar o muro hoje — disse ele ao olhar na direção onde se estabelecia a torre e apontou. — Enid disse que é seguro para aquele lado.

— Enid? — Perguntei e mirei meus olhos aos seus mais uma vez, agora, com certo incômodo. — Vocês conversam?

— O mundo original não me deu oportunidade de ter amizades, então as faço aqui — ele sorriu de canto e logo, desfez o movimento. — E então, o que acha?

— Não me sinto confortável fazendo amigos — falei e cruzei meus braços, desviando o olhar.

— Eu estava falando do muro, Mari.

— Vá por você mesmo, eu vou permanecer aqui — falei enquanto descia da árvore, ralando minha mão na casca. — Vou estar ajudando Deanna na limpeza da casa, se precisar de mim.

Sem mais palavras, saí do parque e caminhei rua abaixo.

[...]

O arsenal não ficava muito longe, mas ainda assim, era muito bem protegido para invadir em plena luz do dia. Não simpatizei muito com Olivia, que não tinha confiança em mim, portando uma arma. Olhei pela janela enquanto me esgueirava na parte traseira da casa, tentando enxerga-la. A mulher parecia conferir a parte dos enlatados com uma prancheta em mãos, batucando a caneta sobre as folhas de papel. Ela pegava cada lata e olhava em cima e embaixo, devolvendo à estante e anotando algo.

Eles haviam consertado as duas partes da janela por onde eu costumava entrar, então tive que encontrar outra maneira de entrar sem ser notada. Olhei para o gramado que rodeava a casa e tentei encontrar qualquer coisa que pudesse fazer uma distração à mulher, mas não encontrei nada além de um chapéu de jardineiro e lençóis esticados sobre um varal.

Pensa, Mari, pensa. Droga, não havia trazido a minha faca.

Em minha mente surgiu uma ideia um tanto arriscada, mas era a única coisa que eu pude pensar, então resolvi seguir. Peguei um dos lençóis no varal, o maior, e caminhei até a parte da frente da casa, procurando por algo que pudesse servir para amarrá-lo. Encontrei um gancho logo acima da porta e dei um nó com as duas pontas. Passei o resto do lençol pela parte que atravessava a janela ao lado da porta e prendi sobre o vão da janela que estava um tanto aberta.

Não era a melhor ideia, mas formaria uma rápida distração, e era tudo que eu precisava.

Pela outra janela, observei Olivia desgrudar os olhos da prancheta, questionando o fato de aquele lençol estar ali, então aproveitei a oportunidade. Corri para a parte traseira da casa e abri a porta com delicadeza, esperando ela se aproximar ainda mais da distração. Com cuidado, caminhei sorrateira até o quarto das armas, procurando por uma faca.

Onde, diabos, eles escondiam as bostas das facas?

Percebi que meu tempo estava se esgotando a partir do momento em que Olivia abriu a janela e o lençol desabou. A mulher tentou puxá-lo para dentro, então notei que me restavam mais alguns segundos. Abri as gavetas do móvel e encontrei balas; não precisava delas, mas resolvi pegar um pacote por precaução. Na segunda, silenciadores. E na terceira, canivetes.

Olivia começou a sair de perto da janela e eu comecei a entrar em colapso. Precisava encontrar a faca imediatamente.

Fechei as três gavetas e olhei por detrás das armas, tentando encontrar uma mísera faca, mas sem sucesso. Àquele momento, Olivia já estava perto demais para eu continuar ali, então teria de sair.

O problema era que eu não havia pensado em uma maneira de sair sem ser notada também.

Agora que Olivia estava no cômodo ao lado, eu estava presa. Procurei me esconder atrás da poltrona, e acabei esbarrando no criado-mudo, derrubando a tampa. Criados-mudos não deveriam ter uma tampa. Olhei para o buraco dentro do móvel e ali encontrei as facas. Bingo.

Peguei uma e reposicionei a tampa, para não deixar evidências. Olivia bocejou e seguiu analisando as latas. Eu precisava de outra distração, então olhei para o estofado da poltrona ao lado. Vandalismo? Hoje sim.

Enfiei a mesma faca sobre o apoio de braço, retirando dali parte do estofado, jogando no outro canto da sala. Em meu bolso estava o pacote de balas para revólveres, então resolvi abri-lo e jogar duas delas na parede, para fazer barulho. Olivia ouviu de imediato, porque caminhou naquela direção, bufando. A mulher deixou a prancheta sobre o chão enquanto se agachava para pegar o estofado e as balas. Aproveitei aquele momento para sair de meu esconderijo e caminhar para fora do local, atrás da morena.

Coloquei a faca em meu bolso de trás e pus-me a correr assim que me encontrei com o gramado que rodeava a casa.

[...]

— Mari? — Jessie tinha os olhos carregados de olheiras e pareceu surpresa ao me ver parada em frente à sua porta. — Posso ajudar?

A mulher estava detonada de uns dias para cá. Por mais que não havia a visto muito tempo antes, pude notar a imensa diferença que todos aqueles acontecimentos haviam feito. Assim que atendeu a porta, ajeitou suas vestes e a postura juntamente do cabelo, para dar a impressão de que não estava tão horrível quanto parecia.

— Eu vim ver o Ron — disse ao trocar o peso de meu corpo para a outra perna.

Ela sorriu fraco e deu espaço para que eu passasse. Sorri de volta e olhei para o chão enquanto adentrava a sala de entrada. A janela lateral continuava estourada, com os cacos de vidro espalhados apenas na varanda.

— Ele está no quarto dele, no andar de cima — disse ela ao passar o pulso coberto pela manga da blusa sobre o rosto.

Assenti e caminhei até a escada, seguindo com o olhar em minhas calças. Eu vestia um jeans novo que haviam me arranjado. Não serviu em mais ninguém, e Enid não o quis, então acabei pegando para mim. Estava usando a mesma blusa vinho que eu havia usado no primeiro dia em Alexandria. Era a mais confortável que eu tinha para vestir, então a coloquei. Calçava as mesmas botas de sempre e meu cabelo estava solto, como sempre. O objeto em meu bolso traseiro incomodava.

Enquanto subia as escadas, ouvi uma música leve, como se fosse uma melodia antiga, e fiquei curiosa. Segui o curto corredor e me esgueirei na parede quando ouvi a música mais próxima. Olhei pelo vão da porta e encontrei Sam desenhando enquanto uma vitrola rodava o disco de vinil. Sua cabeça se movia de acordo com o movimento feito pelos gizes de cores.

Saí dali e fui até o outro quarto que estava com a porta fechada. Supus que fosse de Ron, então dei duas batidas antes de ser atendida.

Assim como sua mãe, Ron também não estava na melhor das situações. Também tinha as olheiras abaixo dos olhos e tinha uma ruga entre as sobrancelhas, como se estivesse pensando muito. Ele usava um gorro no cabelo e uma camiseta maior que seu corpo. Vestia os mesmos jeans de sempre e parecia mais desanimado.

A única versão que eu havia conhecido dele, foi a animada. A que tentava puxar assunto comigo, por mais que eu não quisesse. Na verdade, ele se aproximou muito de mim nos últimos dias, antes de seu pai ser morto. Me contou sobre Pete bater em Jessie, sobre ele estar lá desde sempre, sobre seu colégio de antes do final do mundo, entre outros fatos. Também citou Enid, que era sua suposta namorada.

— O que você faz aqui? — Perguntou ele ao trocar o peso de seu corpo para a outra perna, encostando o ombro no aro da porta.

— Como você está?

— Enojado — disse ele ao fazer um gesto para que eu adentrasse o quarto.

O quarto de Ron não era muito grande, nem estava iluminado. Cortinas fechadas, cama bagunçada, vários livros jogados pelo chão, e o mais curioso, um canivete sobre a estante. O garoto caminhou na direção do objeto metálico o guardou dentro do bolso, fingindo que nada ocorreu ali. Não liguei muito para aquilo e me sentei na ponta de sua cama, no local onde o edredom não estava jogado de maneira violenta. Ele se sentou ao meu lado, encarando as mãos fechadas sobre os joelhos.

— Meus pêsames — disparei, olhando para meu colo. — Carl também sente muito.

Ron estava quase normal até o momento em que citei Carl. Assim ele passou a me olhar com desgosto, como se estivesse prestes a vomitar.

— Como você pode ser próxima de uma pessoa como ele?

— Carl não fez nada, Ron…

— Mas ele é filho de Rick — disse o garoto, virando o olhar. Então você é destinado para bater em sua mulher também, meu caro. — Se veio apenas para falar de Carl, pode ir embora. Ele já fez o suficiente e agora está, provavelmente, com Enid.

— Eu vim para ver como está — falei ao ajeitar minha perna sobre a cama.

— Mal — ele me encarou com desdém, como se não fosse surpresa. — Sabe, não é todo dia que seu pai é morto por um porra.

— Imagino — falei ao me levantar da cama. — Eu quis visita-lo para ver como estava, mas pelo visto, parece ótimo.

O garoto rolou os ombros para trás, como se estivesse ajeitando a postura, e curvou as costas novamente, passando as duas mãos pela face. Ron não era ruim, mas também não tinha motivos para agir feito uma criança. Sua mão agarrou meu pulso, o que me fez virar-me em sua direção, olhando para ele com a sobrancelha arqueada.

— Sinto muito — disse ele ao fazer um sinal para que eu me sentasse novamente. — Não tenho que descontar nada em você.

— E nem em Carl — completei enquanto voltei a me sentar sobre os lençóis bagunçados. O objeto em meu bolso traseiro voltou a incomodar. — Vocês são muito parecidos. Sofreram por motivos similares.

— Tipo quais? — Ele perguntou como se duvidasse, então revirei os olhos.

— Ele perdeu a mãe, você perdeu o pai — disse eu. — Ele sofreu mais do que você imagina.

— Por causa da mãe? Nem eu estou surtando tanto, Mari — Ron soltou uma risada sarcástica enquanto virava para o outro lado, emburrado.

— Não. Por diversos outros motivos que você nunca compreenderia, já que não viveu no mundo de fora.

O garoto ficou em um silêncio de culpa, como se minhas palavras tivessem pego de surpresa. Aproveitei o momento parar retirar a faca de meu bolso traseiro e coloquei sobre meu colo, o que causou o garoto a ter o olhar direcionado para lá. Eu sabia que aquilo lhe chamaria atenção, então sorri de canto.

— Um momento ou outro você vai ter de estar do lado de fora — falei enquanto sentia certo peso sobre minhas costas. — Sei que seus olhos só estão abrindo agora para a realidade, já que tudo está acontecendo rápido demais, mas quero que você esteja preparado — toquei a lâmina da faca com cuidado enquanto analisava o cabo revestido em madeira. — Não quero te ver sendo pego de surpresa.

Estiquei a faca para ele, que olhou para mim com desdém. Quando fiz um sinal para que ele a pegasse, o garoto tocou o cabo lentamente e agarrou em sua mão, analisando a grande lâmina. Um curto sorriso se formou em seus lábios e ele pareceu adquirir uma alegria repentina.

— Eu… obrigado — disse ele ao colocar a faca sobre os lençóis atrás dele.

— Admita que é bem melhor que este canivete que você escondeu — sorri de canto e ele soltou uma risada abafada.

O garoto me envolveu em seus braços, com o rosto enfiado em meu pescoço, respirando em meu ombro. Coloquei meus braços em torno de suas costas também, seguindo a ação. Seu corpo estava bem quente, e ele respirava forte, como se estivesse animado.

— Você sabe que eu poderia te matar com esta mesma faca, não? — Sussurrou em meu ouvido.

— Eu te mataria antes — sussurrei de volta.