Why Me?

58 Capítulo 58 - Blood in my hands


Algo que me fazia muita falta no apocalipse era a música. Os únicos ruídos mais próximos de ritmos que eu havia escutado nos últimos dias, eram os que saíam da vitrola de Sam. Mas não se comparavam aos ritmos agitados ou os calmos que eu ouvia em meus fones de ouvidos, sentada à beira da janela nas noites mais calmas. Expulsando a tensão.

Eu conseguia me lembrar disto.

Olhei para os muros buscando inspirações para mais um desenho. De relance, olhei para a parede de meu quarto e vi os que já havia colado, voltando os olhos para meu caderno. Com a ponta macia da caneta, comecei a rabiscar um coelho, tentando imaginar sua forma de modo mais belo e agradável para fazer parte da parede em fase de decoração.

Meus olhos se voltaram aos muros novamente, onde vi um pássaro pousado no topo, observando o chão como se tivesse algo de seu agrado ali. Logo, o animal pareceu levar um susto e levantou voo para um lugar que fiquei limitada a ver. Em seguida, vi o motivo do pássaro ter saído de seu lugar. Carl escalava o muro para cair do lado de dentro novamente, e assim que tocou o chão, olhou para os dois lados, correndo na direção detrás das casas, onde eu estava.

Seus olhos pararam em mim e ele sorriu, fazendo um sinal de que estaria subindo para meu quarto. Assenti e esperei o garoto adentrar a casa. Deanna estava concentrada demais no plano de Rick e não estava em casa, junto de Spencer, que andava passando tempo demais do lado de fora.

Ouvi os passos se aproximando do quarto e a porta se abriu, revelando o corpo do garoto, que fechou a mesma atrás de si. Ele caminhou em minha direção e eu dei espaço na janela para que ele se sentasse ao meu lado. O rapaz o fez.

Seu rosto estava um tanto sujo e notei que haviam algumas folhas em seus cabelos, junto do aroma de natureza presente nele. Suas mãos foram posicionadas firmemente na quina da madeira, quase se pendurando à beira da janela. Virou o rosto em minha direção e sorriu para mim de uma maneira aliviada.

— Você devia ter ido comigo para o lado de fora — disse ele ao tocar minha mão levemente com a sua.

— Não consigo entender o porquê de gostar tanto dos muros e querer tanto o lado de fora ao mesmo tempo — falei ao colocar meu caderno de lado. — Você que julgou seu pai por tentar abrir os olhos destas pessoas.

Carl retirou sua mão da minha, parecendo ofendido, e olhou para seus próprios pés, torcendo a boca e juntando as sobrancelhas.

— Mas nós dois sabemos que ele exagerou, Mari — disse ele ao olhar para o céu. — Não é a mesma coisa. É como Enid disse…

— Agora entendo o motivo do lado de fora ser tão bom — estalei a língua ao final da frase e evitei o olhar dele.

Ficamos em um silêncio desconfortável durante algum tempo enquanto escutávamos o barulho das folhagens de todas as árvores ali presentes batendo umas contra as outras, em meio ao ritmo desengonçado do vento.

— Você sabe que não é assim.

— Quantas vezes você já saiu?

Ele me encarou durante alguns segundos com os olhos quase estreitos.

— Algumas.

— Então não sei se é assim.

Deixei o silêncio dominar algum tempo enquanto ele parecia pensar em tudo que havia lhe dito. Carl sabia o que se passava comigo, e parecia não querer discutir. Eu faria o mesmo em seu lugar.

— Meu pai pediu para que eu cuidasse da casa de Jessie, porque a Judith está lá — o garoto falou ao esticar a coluna em um espreguiço. — Vou passar no arsenal e pegar a arma que ele me deixou separada.

Olhei para ele, que descia da janela e ajeitava a camisa xadrez, olhando para mim com as sobrancelhas arqueadas, ainda em movimento. Minhas pernas estavam para fora da janela, penduradas no ar, sendo levadas pela brisa suave. O garoto mirou seus olhos na porta e de volta para mim, e eu já pude interpretar o que ele queria.

— Eu não vou. Estou arrumando meu quarto — falei ao indicar a parede com o queixo.

— Fez um bom trabalho aqui — ele analisou as folhas amassadas coladas na tintura esverdeada e sorriu de canto, voltando-se para mim.

Coloquei as pernas para dentro do quarto novamente, ajeitando-me na posição observá-lo sair. O garoto se aproximou de mim e colocou as mãos aos meus lados, no apoio revestido em madeira. Seus olhos estavam fixos nos rubis que preenchiam meu colar. Percebi que todo aquele ciúme não daria em nada além de conflito, e então, posicionei minhas mãos sobre seus ombros com um toque de delicadeza, baixando guarda.

Suas mãos se soltaram do apoio e foram parar em minha cintura, apertando a pele com os polegares. Agora seus olhos estavam fixos aos meus. Curvei minhas costas até que nossas testas se encontrassem e posicionei meus dedos em seu pescoço, acariciando os cabelos da nuca.

— Você vai ficar bem? — Perguntou quase que num sussurro e eu assenti com a cabeça, seguindo o toque.

Com força, o garoto me puxou da janela e eu quase caí sobre ele, o que apenas não ocorreu por ele ser mais alto e mais forte que eu. Aliás, após aquele curto período de tempo que passei sem vê-lo, surtiu efeito nas mudanças da puberdade. Antes, tínhamos quase a mesma altura, e agora ele era bem mais alto que eu. Alguns músculos se formaram em seu corpo, principalmente na região dos braços, que sempre pareceram mais firmes e fortes. Seu rosto já tinha traços mais velhos e poucos sinais de barba, mas ainda assim, ele havia mudado.

Seus lábios colidiram aos meus de modo rápido, e ele se separou, com medo que eu estranhasse, pude perceber. Olhei diretamente em seus olhos e sorri, como se tivesse permitido a passagem. Novamente, ele se curvou e uniu nossas bocas de modo mais lento e aprofundado.

Quando eu menos esperava, estava prensada à parede da mesma janela qual repousava minutos antes. As mãos de Carl seguraram minha cintura com uma força incomum que fez com que eu soltasse um suspiro, o que só o fez ganhar mais energia. Outra coisa que não havia o visto fazer muito, era ter sua língua explorando o interior de minha boca vorazmente. Suas mãos começaram a subir pela minha cintura por debaixo de minha camiseta e eu prensei minhas unhas curtas em seu pescoço.

Me afastei rapidamente, olhando para o garoto e soltei uma risada abafada, a qual ele acompanhou.

— O que foi isso? — Perguntei ao acariciar sua nuca.

— Ainda não tive tempo de matar as saudades do modo mais apropriado — com um dos olhos, ele piscou e passou a mão sobre meu rosto. — Gostaria de ficar mais, mas também tenho de cumprir com as responsabilidades.

Assenti e umedeci meus lábios com a língua, olhando para o outro lado, vendo meu caderno sobre a cômoda e algumas folhas amassadas.

— Boa sorte — disse eu ao abraça-lo com força.

— É só gritar quando for necessário — o garoto sorriu e deu dos passos para trás e saiu de meu quarto.

[...]

Já estava quase jogando meu caderno pela janela de raiva, por não conseguir desenhar nada. Nenhum traço saía com precisão e capricho. Ao invés de jogá-lo pelo muro, joguei-o na cama e posicionei meu rosto entre as palmas das mãos.

Voltei a olhar para o lado de fora, tentando enxergar além dos muros, mas nada vi além da parede de ferro ocupando toda a vista. O sol estava no centro do céu, praticamente, o que só indicava que era metade do dia ainda, ou seja, todos estariam em suas atividades normais. Olhei para dentro do quarto novamente, analisando a parede decorada e vi minhas botas jogadas no carpete.

De repente, ouvi um grito. Não como um grito de criança brincando, ou de surpresa, ou sequer alegria, mas um grito de pânico. Olhei novamente para a janela e só avistei vultos correndo pelas ruas que, antes vazias, agora tinham corpos destroçados. E não eram corpos de errantes.

Segui a observar pela janela e vi com mais clareza: avistei um homem de vestes pesadas e sangue nas mãos, correndo com um machado que parecia pesado. Ele passou por um homem que ali fugia e fincou a lâmina na lateral de seu corpo. Eu havia visto aquele mesmo cara naquela mesma manhã, quando fui até a lavanderia. E agora, ele estava morto. Como se não bastasse, além de tê-lo matado, o cara do machado seguiu mutilando a barriga do falecido. Com o sangue que dali saía, ele desenhou um “W” na testa e sorriu, como se sentisse realizado por ter assassinado alguém.

Senti um enjoo ainda mais profundo quando ele me notou na janela. Seu sorriso se esvaiu e o homem mirou o machado em minha direção, o jogando na janela, acertando a parede ao lado. Quis gritar, mas mantive-me calada, assustada e em pânico. Desci do apoio e corri para calçar minhas botas. Peguei minha faca logo abaixo do travesseiro e saí em disparada para o andar debaixo.

Ouvi um barulho na porta de entrada e esgueirei-me à escada, para que, seja lá quem fosse, não me visse ali. Desloquei-me lentamente para tentar enxergar quem poderia ser e vi que era uma mulher de cabelos cacheados, que sorria como uma maníaca enquanto erguia seu facão, caminhando para a cozinha. Assim que ela saiu de minha visão, andei devagar atrás dela, deixando minha faca em posição de ataque.

Com os passos na direção da cozinha, olhei que ela limpava sua faca no balcão, fazendo escorrer sangue sobre o mármore frio e pingar no chão limpo. Eu que havia limpado a droga daquele chão, vagabunda. Decidi que estava na hora de atacar. Corri em sua direção com a faca erguida, mas ela notou meu movimento e passou a lâmina a centímetros de meu rosto, que estaria pela metade naquele momento se não fosse por meu desvio. Como havia parado no chão, para não ser morta, finquei a faca em sua perna.

Mas infelizmente, não foi o necessário para fazê-la parar. A mulher gritou e caiu em cima de mim assim que chutei o facão de sua mão, caindo do outro lado da cozinha. Ela tentava arranhar minhas bochechas e não parou de rosnar por nem um segundo, sequer. Logo, seus dentes começaram a ranger e eu pude notar o que ela estava prestes a fazer e virei meu rosto na outra direção para não ser mordida. E isto não a impediu de morder meu ombro. Com um berro, meti meu joelho em seu estômago e fiz um golpe simples para que eu acabasse em cima dela.

Tentei alcançar minha faca que estava um pouco mais para o lado enquanto a mulher puxava as unhas pela extensão de minhas bochechas. Gritei novamente assim que senti o sangue escorrer por ali e, com toda minha força, fechei a mão e soquei seu olho, fazendo-a perder o sentido durante alguns segundos, o que fora o suficiente para que eu recuperasse minha faca.

Por pouco tempo, acabei embaixo dela mais uma vez. Além de sujar chãos, também não perde tempo. Sua mão estava em meu pescoço, tirando meu fôlego de modo avassalador. Olhei para o lado, vendo que sua arma estava caída atrás do balcão, então não teria tempo de pegar sem antes desmaiar. E já tendo como prova o fato desta vagabunda não desperdiçar tempo, procurei fazer o possível para que impedisse minha morte. Finquei a faca em seu pescoço e girei, fazendo com que seu sangue jorrasse em meu rosto.

Seu corpo quase sem vida foi empurrado para o lado por minhas mãos e ela segurava o pescoço enquanto o sangue jorrava, agora, sobre o chão. Fiquei de quatro e cuspi todo o líquido vermelho que se encontrava na região de minha boca. Passei a mão sobre o rosto para limpar aquilo e senti meu estômago se revirar novamente.

Naquele exato momento, ouvi a porta se abrir mais uma vez e peguei minha faca, procurando a origem do barulho. Outra mulher de fortes olhos azuis se encontrava na cozinha, apontando um revólver para mim, com o “W” em sua testa, abaixo do capuz. Quase a ataquei se não fosse sua precisão para remover o pano que cobria seu rosto e revelar a Carol que eu pouco conhecia.

— Se camufle — disse ela e apontou para as vestes da mulher morta ao meu lado.

Assenti para a mais velha e peguei o poncho indígena e coloquei sobre meu corpo, ignorando todo o sangue que estava começando a pinicar minha pele. Vesti o capuz e peguei a bandana que Carol me oferecia, para posicionar sobre a boca e o nariz. A mulher olhou para mim e fez um sinal sobre o “W” em sua testa e eu peguei o que ela queria me dizer. Agachei-me e toquei o sangue fresco sobre o chão-não-mais-limpo, fazendo o sinal em minha testa e olhando para a mais velha, que correu na direção da porta de entrada, saindo pela mesma. Apenas a segui.

— Mate o maior número de inimigos.

A mulher partiu na direção contrária da que eu seguiria. Olhei para ela enquanto tentava ajudar os moradores da comunidade e acabar com os invasores. Meu olhar se virou para frente, analisando a rua movimentada por estes loucos que eram vidrados pela morte.

— Dorothy? — Um homem chamou atrás de mim eu me virei, dando de cara com um homem não muito velho que segurava uma espada parecida com a de Michonne. — Você não é a Dor…

Não o deixei terminar a frase e enfiei a faca abaixo de seu queixo, removendo-a com o sangue fresco respingando sobre o asfalto. Olhei ao meu redor e notei que não havia ninguém me observando, então saí correndo na direção da casa de Jessie, sabendo que Carl estaria lá. Precisava checar se tudo estava certo.

Assim que cheguei perto, outro homem com o sinal do “W” na testa apareceu e estava prestes a cortar a barriga de uma mulher com uma machete. Corri em sua direção e tentei impedi-lo, cortando seu pescoço com a faca, fazendo com que sua lâmina passasse de raspão em mim. No momento, não senti, mas depois vi o sangue escorrer por debaixo do poncho e a quentura descendo pelo meu abdômen. Caí de joelhos no chão, me sentindo fraca e olhei para trás, vendo outro homem aparecer com o machado mirado em minha direção, pronto para me atacar, vendo que eu era uma infiltrada.

Antes que pudesse me curvar, ele caiu de costas ao som do disparo de uma arma. Olhei para trás e vi Carl segurando mirando em minha direção. Quase não tive tempo de gritar com ele, pois tive de rolar para desviar dos tiros. Assim que ele parou de disparar, abaixei a bandana que cobria minha boca e o capuz, revelando minha face.

— Carl! — Gritei, o que tirou toda minha energia.

O garoto abaixou a arma, quase não acreditando no que via, e olhou diretamente para mim. Levantei a barra do poncho e vi o tamanho do corte que o idiota havia feito em minha barriga. Senti um imenso enjoo e acabei por vomitar sangue sobre o tecido. Minha visão ficou turva e eu não vi ou ouvi mais nada após aquilo.

Notas finais
E chegamos ao final da fanfic, espero que tenham gostado de acompanhá-la. É mentira, galera, ainda tem mais para acompanhar todos vocês