Why Me?
51 Capítulo 51 - Iron
Notas iniciais

Enquanto o estrondo do portão se abrindo soava, minhas pernas fraquejavam. Meus lábios estavam secos e não se abriram para nada, nenhum sorriso. Avistei uma mulher de meia-idade correndo em direção à entrada, com certa surpresa estampada em seu rosto. Parecia que alguns moradores do local também estavam surpresos.
Lar.
Minhas pernas doíam tanto que permiti-me desabar no chão. Fiquei caída, segurando o cabo da faca com força. Dois homens vieram me levantar e me levaram em direção da mulher de meia-idade, que ficou parada, encarando meu rosto. Não acho que eu tenha esboçado qualquer tipo de emoção, pois estava em choque pelo fato de realmente existir uma comunidade. E parecia como o mundo antes do apocalipse.
— Olá — a mulher cruzou seus braços e colocou um leve sorriso no rosto. — Eu sou Deanna. Pode me acompanhar?
Não disse nada. Apenas levantei-me por conta própria e olhei de relance aos dois homens. A mulher sorriu mais uma vez e foi caminhando pelas ruas. E eu a segui. As ruas da cidade eram lindas. Havia até um parque com lago por lá. Excluindo os portões imensos, parecia a vida anterior, onde tudo era alegria. Meus olhos não paravam em um ponto fixo. Estavam sempre em movimento, a analisar casa por casa. Pude notar os moradores convivendo felizes, vizinhos conversando, pessoas regando as plantas, tortas sendo deixadas para esfriar nas janelas. Por mais que a cena fosse linda, aquilo me deixava um tanto incomodada. Não era tão lindo assim. Será que aquelas pessoas tinham noção do mundo fora dos portões? Alguma delas sabia lutar? Manusear uma arma?
Deanna interrompeu meus pensamentos quando parou em frente à uma casa, perto do final da rua. Abriu a porta da frente e fez um sinal para que eu adentrasse. E notei que não eram apenas as ruas, mas também as casas, bem preservadas, nada que eu tivesse visto em tanto tempo.
— Não pense que é comum que aceitemos pessoas assim, simplesmente pelo fato delas estarem desoladas e sozinhas. Mas, quando abriram os portões, vi algo em você, como se fosse uma tristeza que te cerca. — Sorriu e convidou-me para sentar em uma poltrona. — Também não fugirei de meus princípios. Ainda não tenho confiança em você, não trocamos palavras exatas e seria antiético já "adorar" alguém por parecer correto. Teremos uma rápida conversa, para saber mais sobre sua origem e coisas parecidas. Não guarde os detalhes, são importantes — ligou uma câmera atrás do sofá onde sentaria. — Se importa se eu gravar nossa conversa?
Não disse nada, segui olhando para a estante atrás de mim, repleta de livros bem organizados.
— Ainda não sei seu nome. Poderia me dizer?
— Mari.
— Vejo que gosta dos livros, Mari. Talvez possa emprestar para você se prometer cuidar bem deles — sorriu. — Bom, pode me contar de onde veio?
— Cynthiana, Georgia.
— O que passou?
— Não me lembro.
A mulher cruzou suas pernas, intrigada.
— Por que?
— Não sei.
— Você está do lado de fora desde o início? Participou de outras comunidades?
— Sim. Morei em um lugar chamado Woodbury.
— Esta comunidade caiu?
— Não estava por perto quando ocorreu.
— Quantos anos tinha no começo?
— Acho que 13.
— E agora?
— Creio que 15.
— Bem, Mari, talvez soe de maneira errada, mas não quero que pense que estou te julgando de uma forma ruim, mas preciso perguntar. — Deanna parecia mais tensa que eu. — Você já matou pessoas?
Fiz uma pausa e relembrei de todas as pessoas inocentes e culpadas que acabei com a vida ao longo do tempo.
— Sim.
— Como você se sente?
Outra pausa. Encarei a casa, observando os rastros que o sol deixava através da cortina marrom.
— Às vezes é preciso — suspirei. — Você sempre saberá o momento em que alguém deve morrer, mas também erramos.
— O que quer dizer com isso?
— Alguns não precisam morrer, mas ainda assim, morrem.
Deanna ficou séria, encarando meus olhos durante alguns segundos.
— E sua família?
— Mortos.
— Sinto muito.
— Faz tempo.
— Esteve com alguém depois de Woodbury?
Resolvi não comentar sobre Carl, então neguei com a cabeça.
— Acho que vou te livrar dessa enrolação, Mari. Deve ter muito tempo que não toma um bom banho e dorme em uma boa cama — sorriu novamente. — Temos vários adolescentes de sua idade também, caso queira alguém para conversar.
Forcei um sorriso.
— Mas só preciso te pedir uma coisa: guarde suas armas no arsenal. Fique com apenas uma, e não caminhe com ela por aí, os moradores não estão acostumados.
— Onde eu vou dormir?
— Eu sugeriria de você morar temporariamente com Jessie, mas ela disse que está com alguns problemas e seria difícil cuidar de mais alguém. Então pode morar aqui comigo, até te arranjarmos uma outra família para conviver.
— Obrigada.
— Vou pegar uma toalha para você já tomar banho enquanto eu arrumo seu quarto. Qualquer coisa, é só chamar.
Assenti e a vi levantar e fazer um sinal para que eu a seguisse até o andar de cima. Subindo as escadas, alguns porta-retratos permaneciam pendurados na parede. Chegando ao segundo andar, Deanna parou em frente à uma porta e cruzou seus braços.
— Eu arrumo suas coisas no quarto — entreguei-lhe minha mochila. — Deixe suas roupas no cesto de lixo, lhe arranjarei novas. E use a toalha pendurada.
Assenti e a vi fechar a porta. Tranquei-a e comecei a me despir. Liguei o chuveiro para a água já ir se aquecendo e analisei meu corpo nu no espelho. Sangue respingado rodeava meu rosto e meu colo. Senti meu estômago se revirar quando notei que ainda tinha as marcas de Khalil em meu pescoço. Pude sentir suas mãos me tocando mais uma vez, por lugares onde as sensações eram esplêndidas, e deixei algumas das poucas lágrimas acumuladas caírem.
Limpei meu rosto com as costas da mão e adentrei o boxe, deixando a água cair em minha cabeça. Fazia muito tempo que eu não tomava banho. Tempo demais mesmo. E devo ter levado tempo também para sair daquela sensação maravilhosa da água "purificando" meu corpo.
Quando saí do banho, senti meu corpo mais leve, como se toda a sujeira interna e externa tivesse sido removida. Caminhei para fora do banheiro com a toalha enrolada em meu corpo e o cabelo pingando. Deanna estava sentada na ponta da cama de meu novo quarto e sorriu quando me viu.
— Eu encontrei esta roupa para você. Separei mais algumas que tínhamos guardadas para casos de sobreviventes também, estão todas no armário. Coloquei as da mochila para lavarem também — levantou-se. — Jessie passará aqui mais tarde, para cortar seu cabelo. À propósito, lindo o vestido azul que guardava.
Lembrei-me da existência daquela peça e sorri rapidamente, para mim mesma. Deanna saiu do quarto e fechou a porta. Eu joguei a toalha no chão e vesti o conjunto que a mulher me arranjara. Uma camisa de manga longa num tom de vinho, não tão justa, e um short jeans. Ela havia passado um pano em minhas botas, pois estavam mais brilhantes. Sorri ao ver o tratamento que estava recebendo. Vesti tudo e torci o cabelo acima da toalha, para não ficar pingando. Deanna fora tão cuidadosa que até me deixou um perfume acima da cômoda, e não deixei de espirrá-lo em minhas vestes.
Caminhei para fora do quarto, com as duas facas, tirando a minha nova, em mãos, para guardar no arsenal. Deanna encontrava-se sentada no sofá, conversando com uma mulher nova, loura e muito bonita. Imaginei que fosse a Jessie. Caminhei discretamente em direção à sala e observei as duas.
— Jessie, esta é a Mari — levantou-se. — As coisas estão arrumadas na cozinha, podem ir para lá.
— É um prazer — Jessie estendeu-me sua mão. — Você deve ter a idade de meu filho mais velho — sorriu.
Forcei um sorriso de volta e caminhei até a suposta cozinha. Deanna reparou nas facas em minhas mãos e pegou-as, dizendo que as levaria ao arsenal. Havia deixado a minha de madrepérola abaixo de meu travesseiro, mas arranjaria um esconderijo melhor mais tarde. Jessie convidou-me para sentar na cadeira, e eu sentei. Apenas fechei os olhos enquanto a mulher mexia em meus fios de cabelo.
— Como vai querer? Seu cabelo está bem longo, mas ainda tem certo corte aparente. Posso tirar alguns dedos e cortar esta franja lateral.
— Tudo bem — disse eu.
[...]
Quando Jessie terminou o serviço, retirou a toalha de meus ombros e a colocou em meu cabelo, secando os fios. Para finalizar, penteou-o e passou seus dedos entre os fios.
— O que achou? — Mostrou através de um espelho.
Lembrei-me da última vez em que vi meu reflexo. Comparado àquele momento, eu estava completamente diferente, renovada, jovem. Toda a sujeira removida e meu rosto mais vivo. Dei um imenso sorriso e toquei minha franja.
— Obrigada.
A mulher sorriu para mim e começou a limpar os fios caídos no chão enquanto eu saltava da cadeira.
— Acho que vai recusar o convite, mas queria convidá-la para comparecer à uma pequena reunião em minha casa. Deanna vai, e poderia levá-la. Assim você poderia se enturmar com os jovens de sua idade... Mas é apenas uma sugestão.
Assenti para a mulher, de cabeça baixa. Só de pensar em pessoas de minha idade, sentia uma dor incômoda em meu peito.
— Eu irei — falei por fim.
[...]
O resto da tarde passei no quarto, deitada na cama, olhando para o teto. Só de deitar a cabeça no travesseiro, todas aquelas cenas das hordas atacando Ethan e Khalil voltavam. E eu ainda não estava preparada para aceitar a morte de ambos. Uma hora, Deanna bateu à porta e me disse que estava na hora da suposta festa. Levantei-me e caminhei até o banheiro, para ver minha aparência mais uma vez. Meu cabelo estava seco, e muito bonito também. Jessie havia conseguido me deixar com um jeito de "humana".
Saí do quarto e fui para a rua junto de Deanna e Reg, seu marido. Aiden e Spencer, seus filhos, iriam mais tarde, pois estavam em seus turnos. Quando chegamos ao local, Deanna deu um passo à frente e tocou a campainha, que logo foi atendida por uma criança, um garotinho.
— Olá, Sam. Como vai?
— Bem, e a senhora? — Abriu espaço para que nós entrássemos.
— Ótima.
Reg brincou com o cabelo do garoto e eu procurei evitar contato visual. A casa de Jessie era parecida com a de Deanna, exceto pelo fato de ser menor e pela mobília que a preenchia. Várias pessoas estavam localizadas por ali, conversando, bebendo e comendo. A patriarca da festa veio nos cumprimentar, com um imenso sorriso no rosto.
— Deanna — cumprimentou-a com um rápido abraço. — Reg.
— Está sendo uma festa adorável — Reg sorriu.
— Está mais para uma reunião — Jessie sorriu para mim. — O corte ficou lindo.
Sorri de volta e toquei as pontas de meu cabelo.
— Aliás, os jovens estão na varanda. Quer que eu te guie?
Antes de dizer qualquer coisa, Deanna se afastou de nós para cumprimentar outros moradores e Jessie segurou meus ombros e me empurrou até uma porta atrás da cozinha. Sem reação com seu ato, fiquei parada em frente ao batente, vendo algumas pessoas sentadas em cadeiras. Dei um passo para frente e analisei aquelas pessoas. No mesmo momento, um garoto levantou-se e veio me estender uma mão.
— Você deve ser a Mari — cumprimentei-o. — Eu sou o Ron. Sou filho da Jessie. Estes outros dois são Mikey e Enid.
Notei que a outra garota parecia pouco se importar com minha presença ali, então não liguei. Sentei-me em uma das cadeiras e fiquei analisando rosto por rosto.
— Então, Mari — Ron cruzou os braços. — De onde veio?
Permaneci calada enquanto analisava cada rosto.
— Só nos falta ela ser como a Enid no início — o outro garoto soltou uma risada abafada e recebeu um tapa da garota.
— Deixe ela em paz, Mikey — Ron riu.
— Você veio de onde? — A garota perguntou.
— Cynthiana.
— É longe — sua face expressava desinteresse novamente.
Arqueei as sobrancelhas e segurei meus dedos. Ron não ligava para a cena e Mikey estava mais interessado em suas revistas de carros. Dei meia-volta e caminhei até o quintal, que dava para a rua. Saltei o muro e sentei-me na sarjeta. Alguns minutos depois, uma sombra sentou-se ao meu lado e pude ver que era Enid.
— Eu sei o que é isso — disse, sem tirar os olhos da calçada.
Encarei-a sem entender.
— Você também não fala muito. Deve ter sofrido traumas.
— Não interessam.
— Não mesmo.
— Por que está tentando falar comigo?
— Impulso — levantou-se. — Boa noite.
Estranhando ainda, olhei-a sair, voltando para a sacada, onde recebeu o olhar mais profundo que Ron poderia dar.
E então parei para pensar sobre Alexandria.
Nenhum deles sabia de minha vida.
Eu podia mentir sobre tudo e ninguém nunca saberia. Podia agir normalmente, como uma adolescente de minha idade, sem os problemas que havia criado ao longo do tempo.
Seria realmente um novo começo?
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