Why Me?

52 Capítulo 52 - Serenity


As pernas cansavam, meu pulmão não aguentava mais, parecia explodir internamente a cada suspiro. Doía, cansava, me matava. E eu não podia parar de correr. Era questão de vida ou morte, e eu simplesmente estava à beira da decisão. Os tiros estavam vindo em meus ouvidos de forma abafada. Não conseguia distinguir uma bala de um grito. E tudo só se tornava pior. Cada vez mais, como se fosse desabar logo.

Como se fosse desabar logo.

Olhei para meu lado e vi os olhos azuis de longe, na varanda da casa onde costumávamos nos sentar e compartilhar as amoras de árvores próximas, trocando sorrisos espontâneos e conversa fiada. Agora sua expressão era séria, e trocávamos olhares arrepiantes, como se fossemos desabar logo.

Como se fossemos desabar logo.

Tive quase certeza de que ele estava gritando por mim, mas não pude entender. E não tentei entender. Só fiquei com o corpo gélido, parado ali. Logo ali, no meio de tudo. Atirando mais algumas vezes e correndo em direção à camisa xadrez manchada de sangue que se estendia à minha frente. Senti que ia chorar. Senti como se eu fosse desabar logo.

Como se eu fosse desabar logo.

E corri, como nunca em toda minha vida. Nenhuma pressão me fora tão grande como aquela. Com o canto do olho, avistei a grande árvore no parque. Senti meu coração ficar apertado por vê-la sendo tomada por vários errantes que perambulavam por ali. Alguns adentravam as casas, deixando seu sangue escuro derramar nas pinturas brancas aleatórias da rua. E entendi que a cidade desabaria logo.

A cidade desabaria logo.

[...]

Aquela noite pareceu a mais bem dormida de toda minha vida. Acordei com o rosto afundado no travesseiro e as costas quentes pela luz do sol que as aquecia. Levantei-me dos lençóis com os olhos entreabertos. Bocejei duas vezes antes de sair da cama. Ainda vestia a blusa vinho e os shorts. Pensei em tomar um banho, mas lembrei-me de Deanna dizendo que era bom economizar água. Resolvi deixar para depois. Abri os armários e encontrei minha regata branca, a qual passei quase todo o apocalipse, lavada. Junto de minhas calças cor de alga. Resolvi vestir o conjunto e minhas botas. Era o que me acompanhou na sobrevivência, então foi mais por uma questão sentimental.

Passei a mão pelo cabelo e pude sentir que, pela primeira vez em um longo período, ele estava limpo. Sorri para mim mesma e abri a janela. O sol estava radiante, e fez meus olhos arderem um tanto até se acostumarem com a luminosidade. Conseguia ouvir conversas do lado de fora, o que me fez estranhar a situação. Não me era comum dormir tão bem e ainda ver gente feliz, comunicando-se por perto. Todo o período de apocalipse fora puro silêncio. Tudo para não atrair os mortos para perto. E agora não precisávamos mais disso.

Saí do quarto e dei de cara com Deanna, que estava passando pelo corredor com um cesto de roupas. Ela parecia radiante naquela manhã. Seu sorriso estava de olho-a-olho e as ruguinhas à mostra, mas continuava com a beleza diferencial. Beleza independente, de líder.

— Bom dia, Mari — parou em minha porta. — Como está?

Ainda não me sentia completamente à vontade para conversar com as pessoas pela cidade, mas não deixaria Deanna sem uma resposta.

— Bem.

— Posso entrar em seu quarto para lavar os lençóis e suas roupas? — Mostrou-me o cesto.

Abri espaço para ela passar, e a mulher retribuiu o ato com um sorriso. Não pude me impedir de soltar um também. Olhei para o corredor e vi a escada. Abandonei o quarto e fui para o andar debaixo. Enquanto passava mais uma vez por aquela parede de fotos, pensei em minha família, e como eu não conseguia lembrar dos momentos. Apenas dos integrantes. Era triste não poder ter uma memória feliz guardada.

Cheguei à cozinha e encontrei um homem de idade comendo uma maçã. Ele sorriu para mim, mas não demonstrei nada. Deixou a maçã no balcão e aproximou-se de mim.

— Olá — estendeu a mão. — Você deve ser a Mari. Eu sou o Reg.

Olhei para sua mão estendida, mas não fiz nenhum movimento para cumprimenta-lo. Quando ele sorriu mais uma vez e se afastou, olhei de relance para trás.

— Creio que vai permanecer aqui — disse e eu o encarei novamente. — Deanna disse que viu em sua face que queria sair.

Outro silêncio predominou o local. Foquei seus olhos com os meus, tentando entender o que ele queria com aquela conversa, pois eu não estava nada interessada.

— Bem, foi um prazer conhece-la — mordeu mais um pedaço da maçã.

Resolvi sair da casa antes que outro integrante daquela família quisesse algo de mim. Saí para as ruas e encontrei o que eu imaginava. E o que eu imaginei durante um longo período. Pessoas sendo felizes, vizinhos conversando, a vida real correndo. Mas não era a real mesmo. A vida real era lá fora. Não creio que algum daqueles moradores soubesse o que ocorria do lado de fora dos muros.

— Deanna gostou de você — alguém disse, tirando-me da paz.

Virei-me no mesmo instante e vi os olhos verdes da garota infiltrando nos meus. Enid não me parecia muito amigável, talvez fosse até parecida demais comigo. Mas não tinha interesse em ficar próxima dela. A tensão em seu corpo era visível, e seus cabelos esvoaçavam com o vento. Não era boa em analisar as pessoas, mas podia dizer que não gostava de mim.

— Talvez — respondi.

— E ela deve ter confiado em você de primeira, já que está morando na casa dela.

— Ela disse que era temporariamente — concluí.

— Não é de minha conta.

— Não entendi porque veio interromper minha paz, então — cruzei os braços e encarei-a.

— Só estava de passagem — enfiou as mãos nos bolsos e seguiu andando pela rua.

Ignorei o momento estranho e segui minha caminhada. Avistei um parque na direção oposta que Enid seguiu e resolvi investiga-lo.

O percurso do local passava por diversas casas ou apartamentos. E tudo me fazia ficar feliz, por mais que a felicidade fosse pouca. Não conseguia não sentir um alívio por estar de volta à normalidade que minha vida já deve ter pertencido uma vez. Vi uma mulher fumando em frente à casa, e outra conversando com ela. Avistei outra mulher sentada na varanda de uma casa, mas esta eu reconheci. Era aquela que cuidava do arsenal. Não tive muita afeição por ter visto ela segurando minha faca de madrepérola.

Quando cheguei ao parque, analisei a árvore. Ela era larga, mas não muito alta. Suas folhagens podiam ser enganosas além de bonitas. Pensei que pudesse escalá-la, então o fiz. Apertei minhas botas sobre o casco da árvore, pegando um galho por vez, até me estabelecer em um. Lembrei-me rapidamente de que já tive medo das árvores, e de escalá-las. Senti uma rápida dor na perna, como algo queimando, e toquei o rasgo da calça. Havia furado na escada de uma casa onde me estabeleci. A casa onde Lucie morreu. Estranhei o furo. Ele não estava lá. Alguém havia costurado minha calça.

Fiquei satisfeita por alguém ter feito isto. Era minha troca de roupa favorita, por mais que estivesse gasta. E era a última calça que pude salvar. Havia deixado todas as roupas com Chris, exceto pelo vestido azul, que carreguei na mochila, e agora estava no armário de meu quarto na casa de Deanna.

“Foram seguidos. Não pode ser coincidência, Ella.”

“Mas é muito estranho. Como...?”

“Devem se conhecer, ou terem seguido a garota. Não sei, mas é muito incomum recebermos sobreviventes, muito menos seguidos.”

Fiquei em dúvida se minha audição estava correta. Mais sobreviventes? Olhei um tumultuo longe do parque, a folhagem não ajudou na vista, mas ainda assim, consegui ter uma visão clara. Não estava curiosa para saber quem mais esteve no inferno, junto de mim, então apenas permaneci na árvore até ouvir passos na grama. Era Sam, o outro filho de Jessie.

— Mari, a Deanna está te chamando. Precisa de você — falou e saiu correndo.

Não entendi o porquê de precisar de mim, mas desci da árvore mesmo assim. Caminhei de volta para a casa, onde encontrei a mulher sentada no sofá junto de um homem negro, o qual eu não conhecia. Ele vestia as roupas de um padre, e parecia amedrontado. A mulher olhou-me e sorriu rapidamente.

— Não quis te assustar, mas era urgente — falou. — Já havia lhe dito antes que os moradores trabalham, e acho que você pode me ajudar em algo.

Assenti e encarei seus olhos antes dela prosseguir.

— Bom, recebemos vários sobreviventes, e preciso conversar com eles, mas não posso sair daqui enquanto não acabar. Teria como você arrumar a casa 58, só para o grupo ir se acomodando?

Assenti mais uma vez e caminhei para fora da casa enquanto a mulher, com o nervosismo expresso em sua face, quase me expulsava dali. Saí do aposento e caminhei a rua até passar pela 58. Subi a varanda e abri a porta, onde senti o cheiro de tinta invadir minhas narinas. Fiquei um tanto atordoada, mas segui andando pela casa. Antes, não havia entendido como arrumar a casa, mas quando adentrei-a, entendi o que Deanna quis dizer.

Tudo estava de pernas para o ar. O sofá estava quase que jogado, as cortinas enroladas, panelas e utensílios espalhados pela casa. E então eu suspirei fundo antes de começar a faxina. E seria pesada.

Comecei pelos utensílios, colhendo um por um. Enquanto os pegava, pensava nos supostos sobreviventes. Como seriam. Por mais que estivesse vendo vários rostos novos, queria ver cada vez mais. Passei um longo período olhando para os mesmos olhos azuis, e agora eu simplesmente não aguentava mais pensar neles. Me matava internamente lembrar que não me despedi deles, e que talvez nunca mais voltaria a vê-los novamente.

Quando acabei de guardar os utensílios, uma mulher entrou na casa. Seus cabelos eram curtos e ela parecia estar tirando um imenso peso das costas ao analisar o local. Não devia ter me notado até eu pisar em uma panela que não havia visto antes. O barulho metálico a fez olhar para mim.

— Oh, desculpe, não te vi aí — falou e cruzou os braços. — Deanna disse que esta é a casa, devo ter errado.

— É a casa. Só estou arrumando.

Algo em seu rosto me trazia memórias. E pelo seu olhar, talvez já tivéssemos nos visto anteriormente. Ou era apenas impressão.

— Deixe-me ajuda-la — ofereceu e moveu o sofá do lugar.

Uma poeira alta subiu, e eu comecei a tossir. Meu nariz coçava demais, e percebi que ela também se incomodou, mas riu em seguida. Deixei escapar um sorriso também.

— Posso arrumar tudo sozinha — disse a mulher. — Pode ir, jovenzinha.

Confirmei com a cabeça e abri a porta de entrada, analisando seu rosto mais uma vez. Eu a conhecia de algum lugar, era certeza. Mas não tinha ideia de onde. Quando cheguei à rua mais uma vez, alguém me puxou para trás e eu quase meti um soco na pessoa, até ver que era Ron.

— Ei, calma, era só uma brincadeira — o garoto ficou assustado. — Tudo bem?

Não respondi o garoto, só esperei minha recuperação acalmar-se novamente e segurei meus braços.

— Hm... Bem... Só vim chama-la para ir à minha casa. Enid e Mikey estão lá com o cara novo.

Segui encarando seus olhos castanhos até ele perceber que não queria conversa. Ele sorriu, acenou em despedida e saiu de perto. E eu, mais uma vez, voltei para a casa onde estava hospedada. Deanna já não estava com mais ninguém, mas parecia confusa, sentada na poltrona. Me encarou quando entrei.

— Ah, Mari — sorriu e tirou a mão dos olhos. — Já conheceu os novos moradores?

— Não.

— Eles parecem ser bons. O líder deles não me pareceu ser muito estável, mas ainda assim, mostrava confiança no olhar — a mulher soltou uma rápida risada. — O que acha de uma festa, para fazê-los sentirem-se mais bem-vindos do que já são?

Dei de ombros e caminhei para a escada.

— Então teremos a festa — ela levantou-se e caminhou para a cozinha.