Why Me?
50 Capítulo 50 - Suicide Queen Pt. 3
Notas iniciais
Khalil segurava minha mão com força enquanto seus passos estalavam nas folhas secas. O vento batia contra meu rosto violentamente, e tive de deixar meus olhos entreabertos para que a poeira não os irritasse.
Estávamos em tal caminhada há tempo. Eu estava em uma situação horrível, com os ossos do corpo doendo e um sono impossível. Tudo que precisava era de uma boa noite de descanso, sem ter que vigiar a área.
Khalil havia me contado sobre comunidades de sobreviventes próximas. Ele sabia de duas, e também conhecia Woodbury, mas nunca esteve em nenhuma delas, só havia escutado histórias. Resolvi não falar que era uma das melhores guardas da cidade quando ele disse que o Governador era um grande idiota. As outras comunidades que ele havia dito soavam acolhedoras. Disse também que nosso rumo seria para alguma delas, pois merecíamos certo descanso.
E então seguimos viagem. Dia após dia, noite após noite caminhando quase sem descanso. Não encontramos com muitos errantes no caminho, e era ótimo não precisar usar a faca.
— Estou faminto — Khalil reclamou.
— Somos dois — Ethan concordou.
— Podemos encontrar algum abrigo por aqui, ou montar um. Logo tarde escurecerá — avisei.
— Aí dividimos as últimas latas de ervilha que tenho guardadas.
— Só mais um pouco, estou com o pressentimento de que estamos chegando... — Khalil soltou de minha mão e apressou o passo.
— Pare de ser teimoso. Vamos morrer se continuarmos de estômago vazio — parei.
— Mari, você não entende — o
garoto virou-se em minha direção.
— Entendo sim. Só não vale a pena seguir sem energias, Khalil. Me escute, eu estou certa e você sabe disso — concluí e o vi abrir a boca para reclamar. — Fique quieto. Vamos cortar caminho para encontrar qualquer tipo de casa ou galpão.
Ele assentiu e notei que Ethan me encarava com desdém. Ignorei-o e virei à esquerda e os dois me seguiram. Khalil me alcançou e entregou-me um papel dobrado. Ainda andando, encarei-o e sorri de canto.
— O que é isso?
— Não veja isso como algo estranho. Eu te desenhei enquanto dormia algumas noites atrás.
— Isso é um tanto perturbador — ri.
— Talvez.
Desdobrei o papel e passei meus dedos pelos traços pesados que contornavam meu corpo.
— Obrigada — passei meus dedos por sua bochecha.
Ele sorriu e seguiu andando ao meu lado. O colarinho de sua blusa estava aberto, e suas mangas estavam arregaçadas. Khalil era bonito demais. Típico adolescente que faria as garotas ao redor delirarem, além de ser muito bom de alma também. Seu rosto estava sujo de terra e sangue em alguns cortes pelo queixo. Não tinha pelos crescendo na face, talvez não tivesse muitos deles. O cabelo estava grande e despenteado. Não chegava a ser como o corte de Carl, mas estava crescido desde que o conheci. Olhei para minhas mãos e vi o sangue entre as cutículas. Meu rosto devia estar bem sujo também, mas preferi não ligar.
— Mari — Khalil parou. — Está vendo aquilo?
Seu dedo apontava para frente, mas eu não conseguia enxergar muita coisa entre as árvores.
— Acho que é um prédio. Não consegue ver? — Reforçou.
— Não vejo nada.
— Nem eu — Ethan encarou.
Khalil saiu correndo em disparada para frente. Sem pensar duas vezes, corri atrás, seguida de Ethan. Quando comecei a cansar da corrida, parei com os braços nos joelhos, respirando forte.
— Kha... Khalil. Não corra mais assim! — Levantei meu rosto para vê-lo.
Ele estava parado à pouca distância de um grande monumento quase destruído. Suas paredes de vidro pareciam quebradas e o local estava escuro.
— É um shopping — Khalil sorriu. — Abrigo.
— Deve estar infestado daquelas coisas — Ethan estava fascinado.
— Só há um jeito de descobrir — disse eu, andando em direção ao local.
Havia uma rua antes de chegar à entrada do Shopping. Atravessei-a e caminhei mais um pouco. A porta da frente estava fechada, com várias coisas impedindo qualquer entrada no local. Khalil olhou para mim e fez um sinal para irmos por trás. Peguei minha faca e caminhei lentamente em posição de ataque. Ethan também carregava sua faca, mas um tanto trêmulo.
Ao chegar atrás do local, notamos que algumas das janelas que cercavam o prédio estavam totalmente quebradas.
Adentramos um por um, com cuidado para não fazer barulho ao pisar nos cacos.
— Bom, vamos achar alguma loja para saquear — Khalil sorriu.
— Acho que vi algo sobre doces ali — Ethan caminhou para a direita e gritou.
Assustei-me com seu terror. Peguei minha lanterna na mochila e liguei-a, vendo que Ethan estava pendurado em uma queda mortal, não pela altura, mas pela quantidade de errantes presentes por lá. O grito do garoto atraiu mais deles a nossa volta. Khalil puxou seu irmão para cima.
— Errantes! — Gritei quando notei uma horda caminhando em nossa direção. Virei a luz para outro lado e vi as escadas rolantes. — Por ali!
Saímos correndo em disparada, subindo degrau por degrau da escada quebrada. Quando chegamos ao topo, os errantes não paravam de surgir. Enfiei a faca no crânio apodrecido de um deles, que estava mais perto.
— Mari! Entre naquela loja! — Gritou Khalil.
Em desespero, todos nós saímos correndo pelo shopping não tão abandonado e adentramos a loja com portas de aço.
— Coloque algo que feche a entrada — Khalil falou, ofegante.
Empurrei uma estante até que ela caísse e nos deixasse mais seguros sobre a porta. Os irmãos se jogaram no chão e eu mirei a lanterna por todos os cantos da loja, para ver se encontrava outro morto. Por sorte, mais nenhum. E por mais sorte ainda, era uma loja de equipamentos de pescaria, ou seja, várias facas para saquear. Encontrei um armário transparente com várias delas e quebrei o vidro, pegando uma por uma. Eu precisava de uma faca nova. Escolhi uma de cabo feito com madrepérola e a lâmina reta, bem pontuda. Guardei-a em minha bolsa.
— Gente, acho melhor comermos as ervilhas logo — dei meia volta e retirei a lata da mochila, entregando aos dois garotos sentados.
Sentei-me ao lado de Khalil e, com minha nova faca, abri o enlatado, despejando um tanto em minha mão. Os dois repetiram o processo até esvaziar todo o conteúdo da lata.
— É uma pena que não venha quase nada na lata — disse Ethan, decepcionado.
— Infelizmente, ainda estou faminta.
— Mari — Khalil levantou o olhar. — Por que não damos uma explorada no local? Talvez encontremos mais comida...
— Podemos ir pelos dutos de ar — sugeri.
— Foi o que pensei. Ethan, fiquei por aí — Khalil subiu em uma mesa e puxou as grades do duto para baixo.
— Escolha uma faca na prateleira — sorri para o louro.
Subi na mesa, ao lado de Khalil, até ele me dar o impulso para que eu entrasse pelo duto. Ofereci meu braço em sua vez, e ele subiu também. Fui engatinhando na frente e o moreno foi atrás de mim.
— Tente achar alguma loja onde não tenha barulhos de errantes — pediu.
Olhei grade por grade onde passei, mas todas eram corredores do shopping. Virei à direita e segui olhando. Uma das grades tinha menos barulhos, e talvez fosse nossa melhor opção no momento.
— Aqui — chamei Khalil.
Ele assentiu e empurrou a grade com o pé. Saltou antes de mim e enfiou a faca em um errante. Quando outro morto se aproximou de Khalil pelas costas, pulei em sua cabeça, o matando instantaneamente, mas acabei caindo. O jovem ajudou-me a levantar e matou mais um. Eram apenas três. Estávamos em lucro. Peguei a lanterna no chão e mirei-a para frente, vendo um manequim que me fez pular de susto. Khalil
riu da cena e segurou meu ombro.
— É uma loja de roupas.
— Eu notei — bufei.
O garoto parou a minha frente e segurou meu rosto com suas mãos. Segurei seus antebraços e encarei-o nos olhos.
— Desculpe por ter nos metido nessa — parecia arrependido. — Foi um risco, para todos nós.
— Já lhe disse antes, eu me mato a cada dia — sorri.
Khalil aproximou-se de mim rapidamente e roubou-me um beijo lento. Ficamos assim até que ele começou a me guiar aos provadores. Em um dos passos, tropeçamos e caímos no carpete gelado, rindo rapidamente até selarmos nossos lábios novamente.
Com certo impulso, a intensidade do beijo foi aumentando até começarmos a nos despir lentamente. Primeiro minha blusa, depois a dele.
— Eu vou ser devagar com você — interrompeu o beijo seguido de um sorriso.
Avancei mais uma vez e deixei tudo fluir.
[...]
Saltei para dentro da loja de pescaria e acordei Ethan de seu sono.
— Desculpe — bocejou. — Há tempo em que não tiro um descanso tão longo.
Sorri para ele e vi Khalil pular para dentro em seguida. Ele beijou minha bochecha e sentou-se sobre a estante caída da porta. Seu sorriso se quebrou assim que ouviu batidas no aço, os errantes. Levantou-se de imediato, com medo estampado no rosto.
— Temos de sair daqui — avisei.
— A porta não vai aguentar.
— Vamos usar os dutos — Ethan levantou-se.
Sem mais palavras, peguei o mesmo impulso e saltei para o duto, sendo seguida por Khalil, e depois por Ethan. Engatinhando em uma velocidade maior, levei a lanterna para uma direção reta, tendo uma visão melhor. Quando cheguei ao final dos dutos, vi a última grade, onde teríamos de saltar.
— É aqui. A saída — disse eu.
— Rápido! — Khalil parecia nervoso.
Chutei a grade e saltei no pátio. Khalil e Ethan pularam atrás de mim. Peguei uma das facas da mochila e joguei-a no vidro ao lado da porta de entrada, abrindo espaço para a fuga. A horda só aumentava atrás de nós. Cheguei até a escapatória e olhei para trás. O que eu não havia notado era que Ethan saltou muito perto da horda.
— Não — minha voz quase não saiu.
Khalil foi correr em direção ao irmão, mas segurei seu braço. Ele parecia desolado, como se sua vida estivesse perdida naquele momento e seu senso de coordenação tivesse falhado.
— Eu preciso salvá-lo — sua mão tremia. — Ele é meu irmão.
Uma vaga lembrança de um suposto irmão meu passou por minha mente, fazendo minha cabeça girar em torno de uma tristeza temporária.
— Desculpe, Mari. Desculpe por ter mentido.
— Mentido sobre o que? — Segurei seu braço mais forte.
— O garoto do chapéu. Foi ele quem me feriu.
Senti minhas pernas fraquejarem.
— Eu te amo. Mas não posso deixar meu irmão — olhei para trás e vi que Ethan teve sua perna puxada por um errante. — Siga para a tal comunidade.
— Khalil, por favor... — Não sentia meu corpo.
— Isto aqui é seu — entregou-me minha corrente de cruz, com os rubis vermelhos e se aproximou.
Selou seus lábios aos meus rapidamente.
— Ele é meu irmão.
Vi-o correr na direção da horda e senti meu estômago se revirar. Não quis ver a cena, corri na direção oposta.
[...]
Corri durante um bom tempo até tropeçar em algo.
Uma placa.
Uma placa com palavras desenhadas.
"Alexandria".
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