Why Me?
25 Capítulo 25 - Farewell
Notas iniciais
Preferi esperar Carl se afastar um pouco para que eu fosse até o refeitório. Não podiam desconfiar de nada. Realmente. Passei pela escada e minha corrente caiu. Quando fui pegar, uma mão a agarrou antes que eu me agachasse.
– Hum... Como uma joia sobreviveu tanto tempo num fim de mundo? – Era o pai de Carl.
– Obrigada.
– Na verdade, eu falava da corrente.
Assenti envergonhada, mas peguei a corrente e comecei a descer as escadas até que o pai de Carl tocou meu ombro. Inacreditável como eu ainda não sabia o nome de meu sogro. Mas ele não sabia que era meu sogro.
– Você sabe onde fica o refeitório, certo? – O homem tocou meu ombro assim que notou que eu parecia perdida.
– Ahn... Não.
– Venha.
Eu o segui até que chegamos ao lugar cheio de mesas e quase todos estavam sentados lá. Alguns trechos de raios de sol passavam por pequenos buracos na parede. Carol apareceu ao meu lado, apontando uma sala menor, por onde os outros saiam com pratos de comida.
– Vá se servir, querida. – Seu sorriso me contagiava.
Chacoalhei a cabeça e fui até a sala. Ao chegar ao local, peguei um prato de plástico e coloquei poucas ervilhas. Eu não gostava muito, mas era o que tinha. Peguei uma garrafa d’água e comecei a caminhar até as mesas. Me sentia meio excluída lá, assim como antigamente, nos tempos de escola. Ninguém falava comigo. Abtry não estava presente. Aliás, não havia visto Abtry uma vez sequer. Me perguntava o que havia acontecido com ela.
Me sentei na mesa e comecei a comer as ervilhas, colher por colher, até esvaziar o prato. Tomei o que tinha de água e me levantei, subindo as escadas novamente, em direção de minha cela. Ao entrar, avistei meu livro jogado na cama e o peguei. Dessa vez, a história era outra. Uma garota que sofria na escola, por ser estranha e preferir o mundo ficcional ao real. Analisei a capa e li o título que me chamou a atenção: “De mim, para o mundo”.
Passei alguns minutos lendo, até que quis saber sobre Abtry. Talvez ela estivesse na prisão, mas poderia estar ainda mal, repousando. Já não prestava mais atenção no livro, então o fechei. Me levantei da cama e fui até fora, e comecei a explorar as diversas celas. A cela do lado era cheia de gibis sobre a cama. Só podia ser a de Carl. O outra tinha algumas armas e era bem bagunçada.
O resto era tudo igual, algumas armas, munições e garrafas d’água espalhadas pelo chão imundo. Nenhuma tinha alguém repousando, até que achei uma cela com um senhor de cabelos brancos e uma barba. A hora que ele me olhou, procurei sair rápido, até que ouvi-o me chamar:
– Olá?
Voltei imediatamente e forcei um sorriso, me segurando na barra da cela. Ele me olhou e sorriu, como se não se importasse com nada. Era outro sorriso acolhedor que eu recebi no dia. Ele era Hershel, o pai de Maggie e Beth. Aquele mesmo senhor que havia sido gentil comigo.
– Acho que te vi ontem. – Ele sorriu.
– Ah sim, sua filha, Beth, me apresentou para o senhor. Sou Mari. – Dessa vez, meu sorriso não era mais forçado. Era espontâneo.
– Claro, e então, Mari, por que está passando de cela em cela?
Me perguntei como ele me viu explorando o lugar. Ele ainda sorria, e eu também, pensei em minha melhor desculpa:
– Só queria me familiarizar com o lugar.
Ele assentiu rindo. Logo, olhou para meu colar e fez um sinal para que eu me aproximasse. Eu dei passos curtos até ele, que tocou meu colar, o analisando, sem sorrisos.
– Isso é uma antiguidade. Quando eu era menino, minha mãe tinha um anel com essa pedra. Sabia que é rara?
– Era de minha avó. Ela morreu e esse colar ficou de herança para mim.
– Você o pediu de herança?
– Sim, minha prima ficou com o dinheiro e as joias, e eu fiquei com o colar. Não ligo para dinheiro.
– Se você o vendesse, quer dizer, naquela época onde tudo ainda era vivo, estaria rica. Fez uma boa escolha. Às vezes, as lembranças são melhores que o dinheiro.
Era o que eu pensava. Sorri para ele e lhe dei tchau antes de sair da cela. Me direcionei até a saída mais próxima e cheguei ao pátio, que estava quente devido ao sol. Hoje o dia estava quente e limpo. O céu azul predominando com poucas nuvens. Estava, com toda certeza, melhor que o dia anterior. Avistei a cerca com um buraco. Era quase impossível de nota-la, só se você a observasse por muito tempo. Pensei em ir para a floresta, aliás, só Carol, Beth, Hershel e Carl, que fingia não me conhecer, sabiam que eu existia.
Olhei para as torres de vigia e não vi ninguém. Fui correndo até a cerca, até que entrei na floresta. Me virei para trás, para ter certeza de que não havia ninguém me seguindo. Segui andando pela floresta silenciosa, até que ouvi um barulho, como se algo estivesse caindo no solo forrado por folhas secas. Ouvi os grunhidos em seguida, e andei em direção do barulho, amedrontada. A faca já estava em posição de ataque. Vi um errante no chão, devorando um corpo. Me aproximei mais e enfim, gelei por completa.
Os cabelos estavam sem o brilho. Os olhos fechados e uma expressão de dor jazia em seu rosto. Deixei com que as lágrimas em meus olhos rolassem. O medo me dominou e eu não aguentava mais ver aquela cena. Tudo de mal acontecia comigo. Qual era o objetivo de minha vida? Sofrer? Chutei o errante que devorava o corpo de Abtry e ele caiu para o lado. Tentou me morder, mas eu comecei a perfurar seu crânio com a faca. O sangue jorrava em meu rosto, e eu não me importava, seguia o perfurando. Até quando ele parou morder o ar, eu continuei o perfurando, até minha raiva passar. Meus braços estava doendo e eu finalmente parei, caindo no chão, sem fôlego. Sem ar. Quase morta. Ouvi mais um barulho de passos pelo solo e tentei me levantar para ver o que era. O cansaço me dominava, tornando minha visão turva, me fazendo cambalear. Fui andando até a criatura, com a faca em posição de ataque. Até que tudo se apagou e eu não senti mais nada.
[...]
Acordei em uma cama de uma cela. Tentei olhar ao redor para decifrar se era a minha, mas só o que eu vi era o pai de Carl, com uma expressão nada boa. Ele estava apoiado sobre a pia com a mão na testa, como se estivesse decepcionado.
– Ahn... – Grunhi.
Ele olhou para trás, sem surpresa em me ver acordada.
– Me deixa entrar! Eu tenho esse direito! – Ouvi a voz de Carl.
– Sabemos já. Carl teve de contar. – O pai de Carl suspirou.
– O que? – Me fingi de desentendida.
– Hoje tivemos uma visita. Conhece o Governador? Ele apareceu por aqui, dizendo que procurava por Mari. Que nós havíamos sequestrado uma integrante da guarda da cidade. E eu, Rick Grimes, não sabia de nada. – Agora havia descoberto seu nome, mas estava tarde para comemorar. – E o outro homem achou que estávamos mentindo, e resolveu atacar se não devolvêssemos a garota. E então, me lembrei que meu filho achou alguém na floresta um dia, e pela segunda vez, a trouxe para a prisão. Tudo estava direcionado a algo: você.
Rick suspirou fundo e se apoiou na pia novamente enquanto ouvia os gritos desesperados de Carl. Rick abriu a boca e continuou:
– Interrogamos meu filho. Meu filho! – Ele aumentou o tom. – E descobrimos tudo no fim. Você era a maldita causa que o fazia sair da prisão, e achávamos que era sem motivos. Você é a namorada dele! Ele a trouxe para cá, mesmo sendo inimigos. Se você realmente o ama, por que o fez te trazer para cá? Para acabar com a família dele? Foi realmente um ato egoísta. Eu nunca aceitaria você com meu filho, jamais. Então, todos nós tomamos uma decisão: devemos executá-la.
Senti que ia vomitar naquele mesmo momento. Senti até o gosto de bile na boca, mas respirei fundo e olhei para os olhos de Rick, não acreditando no que ele tentaria fazer comigo. Me levantei da cama e consegui enxergar Carl chorando do lado de fora. Se ele estava chorando, era realmente triste para ele.
– Estamos fazendo isso para o bem de todos. Como não sou tão horrível assim, deixarei você um pouco com Carl.
Eu assenti, com uma lágrima escorrendo em meu olho. A limpei e forcei meu melhor sorriso assim que vi Rick saindo da cela e Carl entrando. Ele se sentou ao meu lado na cama e me agarrou em um abraço. Beijei seu pescoço e senti suas lágrimas jorrarem em minhas costas. Não me importei. Era nosso último momento juntos, só queria aproveitá-lo.
– Eu não sei o que farei sem você. O que farei com todos aqueles livros...
– Devia lê-los. – Ri durante o choro.
Ele fez o mesmo e se separou do abraço, me beijando. Eu sorri de volta enquanto nosso narizes se encostavam. Ele sorriu novamente e continuou:
– Eu tentei ir no seu lugar, mas meu pai não deixou. Vou ser a pessoa mais infeliz do mundo. Eu não posso... Não posso... – Ele falava tão rápido que pensei que ficaria sem ar.
Ele começou a soluçar novamente, e eu aninhei sua cabeça em meu pescoço, sentindo suas lágrimas escorrerem pelo meu pescoço, descendo cada vez mais. Eu também chorava, não mais do que ele, mas estava tão triste quanto.
– Não dá pra viver sem você.
– Claro que dá. Aliás, você poderá me ver toda noite.
– Como?
– Apenas sorria para a estrela mais brilhante. – Parecia estranho o que eu disse, mas era exatamente o que meu pai me dizia quando eu era menor.
Ele assentiu e me deu seu último beijo até que Rick voltou à cela. Ele se encostou no batente da porta e eu me levantei, sorrindo para Carl, pela última vez.
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