Why Me?
24 Capítulo 24 - Changes
Notas iniciais
Não era um errante, eles não sabiam tapar a boca dos outros. A pessoa seguiu me puxando para trás, e eu queria gritar, mas não podia. Daí que eu mordi um dos dedos da pessoa. Ouvi-o gritar de dor. Só tive certeza de que era “ele” porque o grito era num tom masculino. Mas também era jovem.
Quando a pessoa me soltou, eu já estava fora de casa. Bem de frente para a cerca. Recebi um empurrão leve.
– Mas que... Isso dói! – Levantei meu olhar e sorri.
Sim, os olhos azuis cristalinos que me encantavam. O cabelo desarrumado caindo sobre o rosto. E claro, o chapéu posicionado na cabeça, dando o ar sombrio.
– Que maneira de me chamar. Não era mais fácil dizer “oi”? – Falei com um sorriso.
– Meu dedo ainda dói.
– Que rude da sua parte.
– Rude?
Bufei e afastei uma mecha de meu cabelo de meu rosto.
– Esquece. O que você quer?
– Nada. Nem sei o que eu faço aqui.
– Eu sei. Você veio aceitar minhas desculpas.
– Não. Vou embora.
– Isso é covardia.
– Não é.
– É.
– Não é.
– Carl Grimes, o covarde. Quer dizer que você ser o pior era apenas boatos?
Foi inesperado, mas Carl se aproximou de mim e me segurou pelos ombros, ele me olhava como se fosse me bater, e eu já havia fechado os olhos, para não sentir a dor. Segui com os olhos fechados até senti Carl puxando-me para si. Agora eu apanho, pensei. Mas Carl não me bateu, pelo contrário, senti seus lábios se encostarem aos meus, em um beijo doce, que era com certeza melhor que o de Mark. Sem dúvidas. Envolvi meus braços em seu pescoço e senti suas mãos se posicionarem em minha cintura. Quando acabou, olhei para ele, que ainda me segurava. Fiquei encarando seus olhos por um tempo, até que ele finalmente abriu um sorriso.
– Desculpe. – Ele falou.
– Por que?
– Por ter sido “rude”. – Ele riu e me deu um selinho novamente.
Olhei para trás, com medo de encontrar Mark, mas não o vi, então abracei Carl. Fiquei pensando o que faria enquanto Mark ainda morava em minha casa. Ele contaria para o Governador uma hora, sem dúvidas.
– Mas e agora? – Falei.
– Desculpe. Quer voltar a ser minha namorada?
– Não era isso, mas tudo bem. O que eu queria saber é como vamos ficar com Mark.
– Só meter tiro.
– Daí morremos, esperteza.
Ele deu de ombros e me soltou, pegando sua mochila. Ele retirou uma foto de sua mochila. Era aquela foto minha dormindo. Eu analisei e fiz uma expressão de nojo. Carl mantinha uma foto minha dormindo. Era uma coisa tão estranha.
– Ainda tem isso? – Falei lhe entregando a foto.
– E vai ficar comigo eternamente. – Ele sorriu.
Sorri mas com tristeza. Fiquei pensando no que poderia fazer com Mark. Eu não aguentaria mais uma noite sequer com ele. E se acordasse, procuraria por mim.
– Você não sabe como foi duro sair da prisão. Tem novas pessoas e eu me sentia como se fosse observado o tempo inteiro. – Ele disse.
– Mas observado por que tipo de pessoa?
– Aquelas coelhinhas da playboy. – Ele riu.
Dei um tapa leve em seu ombro e ri juntamente a ele. Logo, a cena de Mark me espancando me veio à cabeça e eu me afastei de Carl, com medo. Ele me olhou, se perguntando o porque de eu ter feito aquilo. Me encolhi e acariciei meu braço. O lugar estava um pouco frio, e meu casaco não era tão quente, mas eu continuei parada.
– Mark... Ele andou me espancando. Meu corpo dói muito. Eu quase me matei num dia desses. – Falei olhando para o céu estrelado.
– Pena que não trouxe minha arma. – Ele retirou uma faca da mochila e sorriu para mim. – Faca ajuda?
Forcei minha melhor risada e peguei a faca, a colocando no bolso de meu short.
– Pode ser útil mais tarde.
– Você pode ir para a prisão comigo! – Carl sugeriu.
– Ah claro, uma garota que é guarda de Woodbury aparecer no local inimigo, sem mais nem menos. Bem seguro.
– Só fingir que te achei na floresta e nada acontecerá. Mas não fale comigo. Eu tenho fama de frio.
Eu ri novamente e o abracei. Olhei para casa e da porta, dava para ver um dos livros que Carl havia me dado um dia antes. Entrei lá e o peguei, juntamente de mais um moletom. Apenas voltei para fora, fechando a porta dos fundos. Carl sorriu para mim, já sabendo qual havia sido minha resposta. Ele pegou minha mão e fomos até a grade. Passamos por lá e eu tomei cuidado para não me cortar novamente. Finalmente chegamos à floresta e Carl soltou minhas mãos. Estava escuro, ainda era madrugada, e o local parecia mais sombrio daquele jeito. Apenas escutava o barulho das corujas no ar frio. Carl se agachou e pegou minhas pernas. Eu dei um passo para trás, tentando entender o que ele faria.
– O que foi? – Ele disse.
– Eu que digo. O que você vai fazer?
– Pegar você no colo. Finja-se de cansada o máximo que conseguir.
– Não vai me aguentar.
Ele puxou minhas pernas e me segurou como se eu fosse uma boneca de plástico. Coloquei minhas mãos em seu pescoço e fiquei o segurando enquanto ele andava normalmente.
– Carl, me solta. – Falei. – Assim vai parecer íntimo de mais.
Ele assentiu e me soltou. Eu coloquei meu livro em sua mochila e posicionei um braço envolta de seu pescoço. Fingi que estava mancando e fomos andando assim até avistar a grande torre.
[...]
E lá estava a torre de vigia. E em seguida, mais uma. Carl passou pela grade por onde ele saía para me ver. Eu nunca havia passado tanto tempo perto da prisão sem ser obrigada a roubar. Passamos pela grama verde no chão e chegamos até uma entrada que dava no refeitório. Carl me deixou em uma das mesas e eu fingi minha melhor expressão de dor. Até massageei meu pescoço.
Carl fez um sinal para que eu ficasse parada e subiu uma escada. Ele foi até os dormitórios e bateu em uma das celas. Demorou um pouco até que ele fosse atendido. Não consegui ouvir a conversa, mas logo, Carl voltou com um homem que tinha, também, belos olhos azuis. Sugeri que fosse seu pai. O homem tinha uma barba rala e o cabelo encaracolado. Logo, outro homem com uma besta apareceu. Ele tinha cabelos lisos e medianos, na altura das orelhas. Em seguida, apareceu uma mulher de cabelos curtos com um sorriso acolhedor. O homem que eu achei que fosse pai de Carl, sussurrou algo para a mulher, e logo, se aproximou de mim. O homem da besta seguia apontando a arma para mim.
– Como chegou até aqui? – Ele perguntou.
– Eu a achei. Ela estava quase desmaiando. – Carl me cortou, antes que eu começasse a falar.
– Você saiu novamente, Carl? – O homem se aproximou do filho, com as mãos na cintura.
– Não interessa.
O homem suspirou fundo e se aproximou de mim. Ele me encarou por um tempo e olhou firmemente em meus olhos. Sentia quase o mesmo poder da frieza do olhar de Carl. Os olhos eram os mesmos.
– Já matou alguém?
– Só pessoas transformadas.
– E transformados, quantos já matou?
– Vários.
Ele assentiu e olhou para o homem da besta, que lhe deu um sinal. A mulher de cabelos curtos olhou para ele e fez outro sinal. O pai de Carl saiu do local, sem mais palavras. Pensei que não me aceitariam na prisão, mas então a mulher de cabelos curtos se aproximou de mim sorrindo novamente.
– Bom, concordamos em lhe deixar aqui. Mas temos algumas regras. Você terá de ajudar em alguns casos. Tudo certo? – Assenti. – Então, sou a Carol, e você?
Olhei para Carl, ele se virou e subiu as escadas, como se não me conhecesse. O plano estava funcionando, já que Carl estava seguindo frio, e eu, de desentendida.
– Mari. – Falei para Carol.
– Então, Mari, arranjaremos uma cela para você. Venha comigo. – Senti vontade de pedir para dormir na cela de Carl, mas eu estragaria tudo.
Carol me guiou até uma cela vazia, ela passou pelo batente e eu a segui. Suas mãos ajeitaram a cama inferior e ela fez um sinal para que eu ficasse nela. Ela logo olhou para mim, e olhou para meu bolso, onde estava a faca de Carl. Torci para que ela não reconhecesse, e deu certo. Ela sorriu para mim e saiu da cela.
– Posso confiar nisso, certo? – Ela apontou para meu bolso.
Assenti e ela sorriu novamente, saindo do local. Me levantei da cama e olhei a cela. Havia uma pia com alguns armários de frente para as camas. Me encostei na pia e coloquei minha faca — que era de Carl na verdade – numa das gavetas. Deitei-me na cama e adormeci.
[...]
Acordei com alguém me balançando. Não era Carl como eu pensei, e sim, uma garota loira. Por um momento, achei que seria Abtry, daí lembrei que ela era morena. A garota tinha grandes olhos azuis que se destacavam com o pequeno raio de luz que entrava por uma janela minúscula. Ela sorria com piedade, como se houvesse algo de errado comigo.
– Oi. – Ela disse.
– Oi. – Respondi.
– Está bem? Quer dizer, você chegou ontem, me disseram que estava cansada.
– Ah sim, bem melhor. – Falei.
– Desculpe, não me apresentei. – Ela sorriu novamente. – Sou a Beth.
Uma pontada de ciúmes bateu em mim, mas ela era bem mais velha, e eu confiava em Carl. Ela parecia boa pessoa, de qualquer jeito. Me levantei e sorri para ela de volta.
– Sou a Mari.
– Então, gostaria de conhecer a prisão?
Assenti e ela me ofereceu uma mão para me levantar. Eu fui a seguindo até o refeitório, onde ela parou e falou sobre o local e as refeições. Me senti em um tour turístico. Ela seguiu para fora, onde era o pátio. Comentamos um pouco sobre o tempo sombrio que estava, eu disse que choveria, mas Beth achou que o sol sairia depois.
Fomos para as torres de vigia, mas não subimos. Acenamos para um casal que Beth denominava ser Maggie e Glenn. Maggie era sua irmã, e as duas eram filhas de Hershel, que era um senhor muito simpático. Passamos pelas celas e Beth mostrou Judith, que era a irmã de Carl. Ela era uma fofa. Eu queria poder apertá-la muito.
Finalmente, passamos pela cela de Carl. Ele estava sentado na cama, lendo quadrinhos. Beth parou na porta e sorriu para ele, mas ele não retribuiu. Ele me notou, mas cobriu o rosto com a revista, para não sorrir.
Beth saiu da cela e chegou novamente na minha. Ela sorriu como sempre e ajeitou o rabo-de-cavalo.
– Desculpe por ele. Vamos dizer que Carl não é uma das pessoas mais legais daqui.
– Tudo bem.
Senti vontade de dizer que sabia quase tudo da vida dele. Estava sendo duro me segurar. Entrei em minha cela e dei tchau para Beth. Procurei pelo livro que eu havia pego, mas só então lembrei que estava na mochila de Carl. Ele era meu vizinho de cela, eu poderia pedir sem falar nada. Mas não precisei ir.
– Aqui está. – Os olhos brilhando em meio ao raio de sol, o cabelo estava no brilho junto.
Eu me levantei e peguei o livro. Notei que havia uma anotação na primeira página, em uma folha avulsa. Abri o livro e li:
“Sinto falta dos beijos, quando vamos voltar?”
Olhei para ele e sussurrei:
– Deixe tudo passar por um tempo. E então, te encherei de beijos.
Ele sorriu e logo, fechou o sorriso, para que ninguém desconfiasse de nada.
– Vai almoçar? – Ele limpou a garganta.
Assenti e ele saiu andando, e eu saí atrás.
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