Why Me?
64 Capítulo 64 - Support
Notas iniciais
Passei a mão abaixo de meus olhos, deixando os dedos encostarem a pele que ardia sob o toque. Ajeitei minhas costas no travesseiro, levantando o olhar em direção à janela que trazia poucos raios de sol que lutavam contra as nuvens, tentando refletir em luz.
— Animal com C — Carl olhou para seu pequeno livro, mordendo a língua externamente, concentrado.
— Cachorro.
— Tem seis letras.
— Camelo — o garoto anotou.
Meus dedos voltaram para meu rosto, descendo pelas têmporas em direção ao nariz. Olhei para Carl, encostado aos pés da cama, parecendo preocupado.
— Por que você está passando as mãos pelo rosto?
Olhei em sua direção mais uma vez, retirando os dedos da superfície gélida que se encontrava minha pele. Senti a leve ardência na região novamente. Não havia parado para perceber que a dor se dava pela quantidade de vezes que meus dedos tocaram o local. Meu subconsciente berrava o motivo, mas eu me forçava a ignorá-lo.
— Você está fazendo isso sem parar — prosseguiu Carl e eu coloquei minhas mãos acima de meu colo, olhando para baixo.
— Eu não sei — respondi, mordendo o lábio inferior.
— Acho que você sabe.
Meus dentes fincaram na pele de modo tão forte que faz o gosto de sangue acentuar em minhas papilas.
— Se você quiser chorar, tudo bem…
— Eu não quero chorar — respondi, seca. — Eu quero sair.
— Não sei se é a melhor opção, no momento — Carl ajeitou as pernas no carpete e voltou os olhos para a revista. — Bebida com L.
— Estou cansada desse jogo, Carl! — Respondi e me levantei, debruçando meu corpo na janela. — Eu sei tomar conta de mim mesma! E eu quero sair daqui!
Olhei em sua direção, por cima de meu ombro, sentindo sua aura — nada boa, por sinal — sobre mim. Respirei fundo e voltei meus olhos para as ruas, onde as pessoas caminhavam em apenas mais um dia rotineiro de Alexandria. Analisando todos aqueles passos desamparados acima do asfalto gélido, pude apenas imaginar para onde havia ido o medo dos moradores. Desde que confirmaram sobre o outro grupo, eu não pude me sentir mais amedrontada pela situação. Não havia comentado nada com Carl, mas ainda assim, tinha minhas preocupações.
— Eu sei que vocês vão sair hoje — respondi e notei, pelo reflexo do vidro, que o garoto havia levantado seu olhar.
Pude ver seu pomo-de-Adão subir e descer ligeiramente. Carl fechou o livro e colocou-o ao seu lado, levantando-se do carpete.
— Vamos, ao final da tarde — ele confirmou. — Vamos todos levar Maggie à Hilltop para que o médico da comunidade descubra o que acontece com o bebê. Estaremos levando Abraham, Sasha, Aaron, entre outros que se candidatarem. E temos de fazer isso porque não temos mais a Denise por perto.
Olhei em sua direção, sentindo meu peito ser prensado pela angústia. As palavras saíram pela boca de Carl do modo mais seco possível, deixando explícito que ele estava incomodado. Lembrei-me da noite em que contaram sobre a morte de Denise e não pude deixar de evitar a tristeza dominante em minhas veias.
— Eu vou com vocês — afirmei, do modo mais seguro que eu pude colocar as palavras.
— Se é o que você quer — ele deu de ombros e agachou-se para pegar o livro.
Arqueei minhas sobrancelhas, ainda tentando processar sua reação.
— Só isso? — Questionei-o e recebi o olhar.
— Mesmo que eu tente te impedir, você fará de tudo para ir.
Senti tristeza em seu tom, mas ignorei.
— Esteja pronta quando eu voltar — ele respondeu e saiu do quarto.
[...]
Terminando de posicionar o elástico ao final de meu cabelo, coloquei a trança malfeita acima de meu ombro, deixando seus gomos caírem suavemente. Minhas mãos passaram pelas mangas da jaqueta azul e senti o pelo falso aquecer, instantaneamente, minha nuca. Por baixo, minha blusa listrada, com a barra caindo acima do tecido claro de meus jeans. Peguei minha faca e coloquei-a na bainha amarrada ao cinto, mais um rifle que havia encontrado no quarto de Deanna anteriormente. Imaginei que fosse de Reg, já que haviam fotos dele segurando a tal arma. Posicionei-o pendurado em minhas costas.
Toquei o cabo de madrepérola e caminhei para fora do quarto, até chegar ao hall principal. Analisei a casa vazia, que combinava com o interior de meu peito, tornando ainda mais deprimente minha saída. Notei que não havia ninguém para sentir minha falta. Deanna, Reg, mortos. Carol se fora e até Denise não estava por perto. Respirei fundo e abri a porta de entrada, saltando os degraus da varanda.
Chegando à rua principal, notei a vã já estacionada e Rick ajudando as pessoas que embarcariam na viagem. Nenhum sinal de Carl por perto. O homem passou a mão pela barba e olhou em minha direção, inclinando a cabeça para o lado.
— Eu tive a leve impressão de que você viria — comentou e eu sorri de canto.
— Talvez tenha sido uma previsão.
— E chegou carregada — ele abriu um leve sorriso, apontando para meu rifle.
— Relembrando meus velhos tempos.
O olhar de Rick caiu para seus sapatos. O homem arrumou as mangas da jaqueta sobre os antebraços e respirou fundo, parecendo pensativo.
— Tem certeza de que está nas condições?
Assenti com a cabeça e ele fez um curto movimento com a lateral da boca.
— Vou procurar por Carl antes de irmos — comentei e ele umedeceu os lábios, assentindo lentamente.
Ajustei a alça que segurava meu rifle, para que o cabo ficasse logo acima de minhas coxas, tornando, assim, mais fácil o movimento de virá-lo. Caminhei para longe da rua, indo em direção às casas onde o pessoal habitava, mas antes de chegar mais perto, ouvi barulho no arsenal, e virei-me para o local.
Adentrando pela porta de madeira, encontrei Carl vindo em minha direção, já de saída. Seu olhar pairou sobre mim, algo me dizendo que ele estava incomodado. Toquei seu braço levemente e ele chacoalhou a cabeça, apenas confirmando meu pensamento.
— Enid queria ir conosco — disse com as palavras pausadas, sem olhar para mim.
— Onde ela está? — Questionei-o e ele negou com a cabeça.
— Eu a tranquei no armário.
Permaneci quieta, olhando em sua direção. Não quis dizer uma palavra a mais, apenas segurei a alça do rifle e olhei para baixo. Carl caminhou para fora do arsenal e sumiu de minha visão.
Balancei a cabeça, eliminando o último de meus pensamentos e respirei fundo, caminhando para fora do arsenal. Voltei ao trailer, vendo Rick encostado à porta, com seu sapato sobre a lateral do automóvel. Ele esperava por Carl, que, ao meu lado, segurava duas mochilas e andava lentamente em nossa direção. O garoto não conectou nossos olhares, apenas adentrou a porta. Rick fez um sinal com o queixo para mim e eu assenti, também entrando.
Abraham tomou o poder do veículo e candidatou-se a dirigir. Sasha estava ao seu lado. Maggie fora posicionada na cama na última divisória do trailer e Aaron estava ao seu dispor. Carl localizava-se sentado no sofá, mexendo freneticamente no coldre amarrado à coxa. Sentei-me à sua frente, colocando o rifle acima da pequena mesa que nos separava.
Rick finalmente entrou e fechou a porta atrás de si. Seus olhos pareciam cansados, mas com determinação rodando em suas órbitas. Em seu cinto, o machado, o qual ele tocava a lâmina, subindo e descendo o dedo lentamente.
— Vamos começar — ordenou e Abraham deu partida.
Eugene contava as horas constantemente, sempre sussurrando o horário ao retirar o relógio de bolso. Quando em concentrei em suas falas, entendi que já estávamos na estrada há quase meia-hora. Rick conversava com Maggie e Carl continuava na mesma posição. Sem qualquer palavra para acrescentar.
O Grimes mais velho caminhou em minha direção e agachou-se ao meu lado, olhando diretamente em meus olhos. Isso pareceu cativar a atenção de Carl.
— Mari, fique um pouco com Maggie — disse, calmamente. — Você tem palavras calmas, e ela precisa de apoio.
Assenti e levantei-me do assento, caminhando até a divisória que se localizava ao fim de um estreito corredor. Ao chegar ao quarto, observei a mulher deitada na cama, curvada, com os joelhos quase encostando a barriga. Suor escorria em sua testa e ela parecia tremer. Agachei-me ao seu lado e toquei sua mão, mesmo sabendo que poderia ser invasão de privacidade. Senti que ela necessitava do toque.
Os dois olhos esverdeados pousaram em mim e ela abriu o melhor dos seus sorrisos no momento. Entendi que ela estava se esforçando, por mais que eu não merecesse.
— Por favor, não me pergunte sobre meu estado — despejou e eu soltei uma risada. — Diga qualquer coisa que não tenha relação alguma com isso.
— Tipo o quê? — Questionei-a e a mulher abraçou a própria barriga, como se suas mãos estivessem de guarda para o bebê.
— Fale algo sobre você. Talvez sobre o gelo que Carl está te dando.
Encarei-a com os olhos bem abertos, um tanto intrigada por ela ter percebido.
— Carl te contou algo?
— Não foi preciso — ela comentou. — Creio que todos aqui perceberam.
Respirei fundo e sentei-me ao pequeno sofá, envolvendo-me na maciez que eram as almofadas. O trailer mantinha a temperatura mais favorável para todos nós, fora a interferência do calor humano. Imaginei que o lado de fora estivesse muito mais frio agora, já que estávamos chegando ao final da tarde.
— Ele prendeu Enid em um armário — desabafei e Maggie umedeceu os lábios ressecados de modo lento. — Eu acho que ele não queria que ela viesse.
— Enid deve ter tentado vir. Ela estava comigo na hora. — comentou a mulher, fechando os olhos esverdeados durante alguns segundos, como se a dor tomasse suas expressões. — Mas o que te deixou chateada?
O motivo principal era realmente tolo. Motivo de merda. Coisa para qual eu não devia me importar, mas acabara me atingindo.
— Quando eu disse que viria, ele não tentou me impedir — respirando fundo, desviei o olhar de Maggie —, mas ele trancou Enid em um armário para que ela não viesse?!
A mulher soltou uma risada, seguida de uma tosse pela força feita anteriormente. Levantei o olhar e encontrei-a sorrindo de canto, as olheiras ainda fortes ao redor dos olhos.
— Tem uma diferença entre vocês, que acaba por ser a razão dele ter feito isso — comentou e eu continuei prestando atenção. — A Enid nunca fora guarda ou recebera treinamento rígido.
Arqueei minha sobrancelha e abri a boca, tentando negar sua fala, mas nada viera à minha mente. Maggie estava certa. Tão certa que chegava a me dar raiva de não ter pensado nisso antes. Olhei para a mulher novamente, agora com a língua entre os dentes.
— E qual o motivo para ele estar me tratando assim? — Perguntei e ela torceu a boca.
— Não consigo imaginar — ela suspirou e seus dedos afundaram no material da camisa. — Mas você conhece o Carl. Sabe que ele esquecerá disso mais tarde.
Assenti, ainda com a mente confusa no processo da aceitação da conversa. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ouvi um barulho na divisória dos quartos e encontrei o rosto de Carl, inclinado em nossa direção. Ele abusava do olhar, então tornei-me preocupada perante à situação que fosse.
— Mari — chamou-me e eu olhei para a mulher, que parecia curiosa.
Me levantei lentamente do sofá e caminhei na direção do garoto, parando à sua frente enquanto encostava meu quadril à parede.
— Fique com a Maggie, temos de fazer uma parada — ele ordenou e eu arqueei minha sobrancelha.
— Encontraram algo interessante?
— Não — mordeu o lábio inferior e batucou os dedos acima do cabo de sua arma. — Algumas complicações com outro grupo.
— Eu vou com vocês — respondi e ele negou com a cabeça.
— Fique aí — despejou e eu franzi meu cenho, incomodada com sua atitude. Logo, ele desfez-se do olhar e respirou fundo, dando um passo para trás. — Eu já volto.
Permaneci quieta enquanto o observava andar de costas, sem desgrudar seu olhar do meu. Percebi a preocupação evidente em seu tom, mas não comentei, imaginando que ele deveria estar mais nervoso que o normal. Tudo estressava Carl, ultimamente. O garoto parecia um poço de negatividade, onde coisas boas estavam afundadas na lama. Olhei para trás e avistei Maggie segurando o travesseiro, respirando suavemente enquanto o peito subia e descia. Aproximei-me dela mais uma vez e me agachei ao seu lado.
— O que ele disse? — Perguntou. — Vocês se resolveram?
— Quem me dera — procurei descontrair. — Carl disse que fizeram uma rápida parada.
— Algum problema? — Insistiu e eu umedeci meus lábios, pensando em qualquer distração.
— Nenhum. Só uma parada.
— Mari — a mulher tocou levemente minha mão, abrindo um curto sorriso —, sinto lhe dizer, mas não acredito em uma só palavra que saiu de sua boca.
Olhei para o outro lado, em direção à janela.
— Vá ver, me conte tudo — ordenou e eu assenti.
Levantei-me do chão e caminhei para a frente do trailer, escondendo-me atrás de um assento para não ser vista. A cena que se estendia era aterrorizante, causando-me calafrios a percorrerem minha espinha, como em uma pista de corrida. Vários homens com carros estacionados e armas de grande porte presas em seus braços, não dando indícios de que seriam abaixadas. O homem do centro — com um grande bigode e pelo no peito saltando para fora de sua camisa — estava com outro homem, caído ao chão. O primeiro tinha seu pé acima das costelas do segundo, mostrando poder.
Todo nosso grupo estava à frente do trailer, segurando suas próprias armas e com posturas recuadas. Rick tinha ambas as mãos para cima, deixando sua metralhadora pendendo sobre o peito, balançando como um relógio. Carl estava atrás, e, ao contrário do pai, tinha as mãos firmes na arma, dedo já no gatilho. Mas seu pé balançava acima do asfalto, indicando o nervosismo tomando seu corpo.
Algum tempo depois de diálogos entre Rick e o homem do bigode, nosso grupo recuou e voltou para o trailer. Tomei a deixa e voltei para o aposento onde estava Maggie, lhe contando toda a cena que havia visto. A expressão em seu rosto era indescritível, um misto de medo, raiva e calma. Assustador.
[...]
Acordei com o pescoço dolorido e Carl ocupando todo meu campo de visão. Seu olhar era medonho, deixando-me curiosa a ponto de sentar-me e ajeitar minha postura. O garoto tocou meu ombro e fez um sinal para que eu fosse para a frente do trailer. Olhei para o lado e avistei Maggie, em seu mais profundo sono, então me levantei.
Ao passar pelo curto corredor, encontrei Rick sentado no sofá, passando a faca pelos jeans surrados, como se estivesse a limpá-la. Assim que parei em sua frente, o homem ergueu o olhar azulado e umedeceu os lábios ligeiramente ressecados.
— Como ela está? — Perguntou, colocando a faca logo ao seu lado, inclinando-se até colocar os cotovelos sobre joelhos.
— Cansada — respondi —, e com dor.
— Logo…
Antes que Rick pudesse terminar sua frase, o trailer freou, quase me levando ao chão, se não fosse pela mão de Carl, que segurou meu braço com força. Quando voltei à posição inicial, cruzei meu olhar ao dele, que logo evitou.
— Rick, talvez você deva ver isto — avisou o homem, virando-se para nos observar por cima do ombro.
Carl, antes sentado no sofá, agora estava de pé, com olhos estreitos em direção à janela frontal. Levantei meu olhar, analisando a situação, sem muito entender. O garoto trocou um curto olhar comigo, indicando meu rifle ao seu lado, e eu peguei-o, colocando em frente ao meu corpo, preparada.
Descemos do trailer, deixando apenas Maggie e Abraham — caso precisássemos fugir. Em nossas frentes, errantes estavam acorrentados. Não apenas pelas mãos, mas com as correntes atravessando seus corpos, de um modo que me deixou a pensar em como havia sido o processo. Levantei minha arma e fechei um olho, o outro focando na mira, analisando ambos os morros que cercavam a estrada de terra. Não avistei nada além de folhagem seca.
— Isso é de Michonne — afirmou Aaron, após indicar um dos errantes com a cabeça.
Aproximei-me mais um tanto para dar uma melhor olhada e acabei vendo um dos trechos do cabelo da mulher presos no crânio de um errante, que grunhia repetidamente. Sua mão levantando-se com dificuldade, a corrente presa rasgando parte do peito de seu colega ao lado.
Olhei para trás mais uma vez, avistando Carl que segurava um revólver. Notei que havia uma marca no cabo e me perguntei se ele havia assinado como seu. O garoto estava com os lábios entreabertos, claramente preocupado com a situação. Eu sempre soube que ele e Michonne compartilhavam de um laço fraternal resistente, algo que ele levava como figura materna, e ninguém o questionava por isso. Depois que Rick assumiu o relacionamento, pude ver que Carl sentia-se mais confortável em tê-la por perto. Mas agora, vendo sua expressão, só queria caminhar em sua direção e abraçá-lo o mais forte possível. Quando dei um curto passo para trás, avistei disparos próximos aos meus pés.
— Voltem ao trailer! — Gritava Rick, segurando seu machado.
Seguindo treinamento, levantei o rifle e mirei nos morros novamente, encontrando no mínimo quatro pessoas agachadas. Atirei e acertei um único antes de voltar a correr para o trailer. Os outros passaram a atirar também, tomando cuidado com os disparos aleatórios. Ouvi o barulho das correntes, mas como uma quebra, então imaginei que alguém havia quebrado. Mirei novamente e encontrei um homem que havia se arriscado a ficar de pé, então atirei em seu peito, para que a morte fosse lenta. Assim que o vi cair, avistei todos ao meu redor adentrando o automóvel, então fiz o mesmo.
Assim que me joguei ao sofá, colocando o rifle de pé ao meu lado, o trailer deu partida e saímos em disparada do campo de batalha. Carl havia se encostado em frente à janela, ainda com os braços rígidos e o revólver em posição. O garoto olhou para mim, lábios ainda entreabertos, e colocou sua arma no coldre, caminhando em minha direção. Ele fez apenas um gesto, mas que havia completado todo o vazio antes deixado dentro de mim: segurou minhas mãos com as suas, mesmo que trêmulas.
Deitei minha cabeça em sua barriga e senti sua mão soltar da minha para pousar em minha nuca, leve como uma pena, ainda com pequenos tremeliques. Minha respiração seguia acelerada, e minha mente repassava a cena onde minha mira eram os homens que matei, ou atingi. Valeu a pena?!
Abri os olhos e encontrei Rick segurando as duas mechas de cabelo de Michonne, com seu polegar deslizando entre os fios soltos. Olhei para Carl mais uma vez, agora gesticulando para que ele se afastasse um tanto, e ele o fez.
— Rick — chamei-o e o homem ergueu o olhar. — Precisa que eu vá com Maggie?
O homem piscou duro duas vezes e baixou a mão com o cabelo. Pude ver seu peito subir e descer de modo claro.
— Não — decidiu e umedeceu os lábios. — Você já fez demais, descanse um tanto.
Assenti e Aaron fora falar com o outro. Carl sentou-se ao meu lado e retirou o revólver do coldre. Sua perna balançava inquietamente, deixando-me curiosa. Seus dedos tocaram meu colar, como uma jura, e eu assenti, comunicando-me através dos sinais. Ele, então, mostrou-me o cabo e a gravura na madeira. Tomei seu revólver em minhas mãos e passei as unhas pelos traços, que, juntamente, formavam um taco com linhas curvas ao seu redor.
— Onde conseguiu isto? — Perguntei e ele baixou os olhos.
— Eu peguei no arsenal. É do outro grupo.
— Talvez seja este o motivo do conflito — tentei amenizar a situação, mas Carl pareceu levar à sério.
— Talvez seja.
[...]
Acabei por cochilar novamente, agora em seu ombro, apenas acordando quando a porta do trailer se fechou mais uma vez. Carl estava acordado quando levantei minha cabeça, olhando ao redor. Ele chacoalhava a perna direita freneticamente.
— Onde estão todos? — Questionei e ele parou de mover sua perna.
— Outro conflito. Mais uma parada.
— Como isso começou? — Perguntei ele olhou para o teto, como se fosse de maior entretenimento. — Eu estava dormindo?
Carl assentiu e posicionou sua mão acima da minha.
— Meu pai me contou sobre este outro grupo — Carl respirou fundo e retirou sua mão da minha, colocando-a acima da própria coxa. — Eles são conhecidos por Salvadores, mas atendem por Negan. E eu não tenho a mínima ideia do porquê. Meu pai disse que eles cobram as comunidades pela região, como um império. É complicado, e trabalham com a violência. Lembra-se do plano que você sugeriu?
— Sim, o que tem? — Apressei-o e ele colocou os dedos na ponte do nariz.
— Eles acharam que fosse a comunidade inteira, mas era apenas um posto avançado — Seu olhar parou em mim, retirando a mão do rosto. — Você tem noção do que isso significa?!
— Quando eu vi o planejamento, o local parecia imenso — murmurei mais para mim mesma e ele assentiu, então levantei o olhar. — Aquilo não era nem a metade…
— Um dos homens que nos parou cobrou tudo que nós levamos do posto avançado — afirmou ele, com o olhar de preocupação. — Não havíamos acabado com todos eles, era apenas a porra de um posto avançado. E agora eles estão atrás de nós, e já deve ser nossa quinta parada.
— Eu dormi todo esse tempo?
— Você tem sono pesado — ele respondeu e umedeceu os lábios. — Mas as paradas não foram de descer para conversar. Os Salvadores apenas montaram guarda em todos os lados das estradas para que ficássemos sem saídas. — Carl apontou para a para-brisa do carro e eu avistei um amontoado de troncos, agora, pegando fogo. — Eles são persistentes. E Maggie não está na melhor das condições. Tenho medo do que possa acontecer com essas paradas.
— Por que seu pai não fecha um acordo com eles? — Questionei-o e Carl ajeitou os ombros, fazendo com que eu levantasse minha cabeça.
— Eles não querem um acordo. Eles querem levar tudo que é nosso, além do que nós pegamos.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, todos voltaram para o trailer, fazendo com que nós dois seguíssemos quietos. Carl segurou minha mão novamente, entrelaçando seus dedos aos meus.
Após algum tempo de viagem, Rick deu as ordens para que Abraham fizesse uma pausa. Estávamos no meio do nada, rodeados por grandes árvores e a folhagem seca que preenchia o chão. Notei que era tarde, já que estava a escurecer. O ambiente estava rodeado de tensão, onde todos ocupavam o mesmo espaço e emoções, dificilmente conversando sobre algo que não fosse dos Salvadores. Carl, ao meu lado, traçava os dedos sobre o desenho no cabo da arma.
— Então, qual é o plano — pronunciou-se Rick, saindo da divisão onde estava Maggie, olhar frenético passando sobre todos nós. — Ela precisa de um médico.
— Tem mais duas estradas daqui para o Norte — disse Sasha, com os dedos sobrevoando a folha onde havia o mapa local desenhado.
— Eles provavelmente estão nos esperando agora — Aaron esticou os braços acima da mesa, olhando de relance para o líder do grupo.
— Eles estão à nossa frente, provavelmente atrás de nós — Eugene pareceu balbuciar várias vezes antes de concretizar sua fala. Ele parecia o mais nervoso entre todos nós. — Mas não estão esperando a gente em si. Estão esperando essa lata velha. E não sabem a ocupação momento a momento. E logo o sol vai se pôr.
A partir de sua fala, todos os olhares ali presentes se cruzaram e se desviaram em seguida. O tempo seguiu sua função e nenhum de nós ousou falar qualquer coisa. Estávamos com medo, essa era a realidade. Medo do desconhecido, assim como todo ser humano possui. O fato é que, no mundo ideal, uma pessoa sentiria medo do que lhe soa desconhecido, e, dependendo da situação, seria o amor, a dor, o sofrimento, a felicidade, entre outros mistos de tópicos que eu poderia citar. Mas, neste mundo — nem um pouco idealizado — nossa descrição para "desconhecido" seria o que tínhamos de enfrentar. O conflito. E, no momento, era o outro grupo.
Paramos o trailer novamente. Eugene balbuciava o tempo, só assim eu soube que havia passado meia-hora. Os rastros da escuridão já haviam aparecido, mas tive de olhar pela janela para ter certeza. Carl estava silencioso ao meu lado, agora focado nos dedos sujos de terra com resquícios de pólvora.
Rick foi o primeiro a descer do trailer, pegando galões de combustível que estavam localizados abaixo da mesa, e eu nunca cheguei a perceber. Em seguida, Abraham desceu, ajeitando o casaco pesado que caía sobre os ombros. Imaginei que outra pessoa tomaria conta do automóvel, e só descobri que seria Eugene porque Rick anunciou. Carl murmurou um "vamos" para mim e eu peguei meu rifle, posicionando-o em minhas costas, assim, descendo do trailer.
— Aaron, me ajude com a Maggie — o líder ordenou e o homem assentiu, ambos voltando para dentro.
Carl tinha uma machete em mãos, preparado para o que viesse. Toquei minha bainha e senti o cabo gélido de madrepérola através das pontas de meus dedos. O garoto apenas olhou de relance em minha direção e fez um curto sinal. Toquei, agora, meu colar, sentindo as pequenas pedras de rubi e torci a boca, tentando esboçar o mínimo dos sorrisos.
— Mari, Carl — Rick desceu de costas, segurando uma das pontas da maca onde estava Maggie. — Vocês serão os linhas de frente, então equipem-se de facas.
Assenti e olhei para a mulher deitada, as fortes olheiras ainda cobrindo parte do rosto, enquanto suor escorria de seu cabelo. Aproximei-me dela e toquei sua mão mais uma vez antes de entrar em posição. A morena sorriu de modo rápido, como se estivesse me agradecendo, e eu retribuí, voltando para trás.
Rick fez um curto sinal para Eugene e ele reconheceu. Abraham pegou na outra ponta da maca enquanto Aaron segurava no meio, equilibrando. Carl fez um curto sinal com o queixo e eu assenti novamente, dando início à caminhada.
[...]
Nós éramos rápidos, só se ouvia o barulho das solas de nossos sapatos estralando nas folhas secas que cobriam o chão. Carl passou a lâmina da machete pelo crânio de um errante que havia aparecido no caminho, partindo o rosto em dois. Seguimos correndo enquanto minha faca estava firme em mãos.
Ouvi Maggie conversar com Aaron, sobre querer andar, mas o homem negou, dizendo que faltavam poucos quilômetros. Eu não tinha tanta certeza, aquele caminho parecia deserto. Ou a comunidade de Hilltop era muito bem escondida, ou estávamos muito longe.
Rick seguia andando e eu passei a caminhar ao seu lado, em silêncio. Não precisei de mais nada, já que Carl resolveu conversar com o pai. Apenas mantive-me atenta ao meu redor.
— Ouvi o que disse a ela quando estávamos partindo. — Comentou enquanto caminhava, tomando cuidado com os passos. — Nós podemos fazer qualquer coisa. Faremos qualquer coisa que for preciso. Precisamos e faremos.
O garoto inclinou-se um tanto e olhou em minha direção, como se estivesse verificando se eu ainda estava ali.
— O que houve com a Denise… — desviou seu olhar do meu, sabendo que, ao citar o nome da mulher, faria com que algo doesse em meu peito novamente. — Não deixarei que mais ninguém morra daquele jeito.
— Filho… — Rick disse em um tom baixo.
— O quê? — Perguntou o garoto, mas fora interrompido por sons estranhos.
Senti um arrepio correr minha espinha e olhei para o lado quase que de imediato. Não notei os outros ao meu redor, apenas foquei em localizar o barulho. Parecia um… assovio?! De repente, os sons começaram a se multiplicar, não vindos de apenas uma direção, mas de várias. Como se estivéssemos cercados. Alguns mais graves, alguns mais baixos, alguns mais altos, alguns mais finos. E então, notei figuras surgindo da mata, caminhando sorrateiras.
— Vão! Vão! — Rick gritou e nós saímos em disparada, voltando às posições iniciais, um tanto desreguladas pela pressa.
Os assovios não pararam, apenas aumentaram em tom. Eu corria ao lado de Carl, ambos com cuidado para o que pudesse surgir em nossa frente. Pensei em colocar o rifle em mãos, mas causaria estrago demais, e a faca já era de bom uso.
Notei o fim da mata próximo ao meu campo de visão e senti o alívio de sair daquele campo minado. Mas o alívio evaporou quando pisamos no cascalho e faróis se acenderam, nos cegando com tal luminosidade. Olhei ao redor, meus olhos tentando se acostumar à luz forte, e percebi que eram vários carros espalhados. E aos poucos, fui vendo gente. Com armas pesadas. E assovios ao fundo. Meus olhos não se fixaram em um ponto, eu fiquei variando meu olhar de modo frenético, girando meu corpo em conjunto, tentando entender a situação.
Peguei o rifle e segurei com mãos trêmulas. Apontei para cada pessoa ao meu redor, vendo que todos ainda estavam a assoviar. Nenhum deles apontou suas armas de volta, apenas continuaram como estavam. Olhei de relance para Carl e o vi com a boca aberta, totalmente em choque. Senti meu peito doer.
Aquele momento pareceu eterno. Cada gota de suor que escorria de minha testa parecia levar um milênio até descer ao queixo. Cada assovio soava mais prolongado que o outro. Cada olhar de nosso grupo me aterrorizava ainda mais. Notei que nem Rick conseguia manter-se calmo. Sua expressão era menor que a de Carl, mas ainda de choque. E, por fim, notei Eugene ao fundo, de joelhos e mãos para trás, fiscalizado por um homem que tinha a sua metralhadora apontada à cabeça.
— Ótimo — um homem surgiu das sombras, caminhando lentamente em nossa direção, com o sorriso mais nojento que eu já havia visto. — Você chegou. Bem-vindo ao seu destino.
Ele parou em nossas frentes, braços abertos de recepção, sem tirar o sorriso de deboche localizado logo abaixo do bigode grosso.
— Vamos pegar as suas armas — retirou um revólver do coldre e apontou na direção de Abraham —, agora.
— Podemos conversar — pronunciou-se Rick, o que fez eu olhar para trás, encarando-o.
— A conversa acabou — concluiu o outro. — É hora de ouvir.
O homem de bigode se afastou enquanto vários outros se aproximavam de nós. Não reparei no qual estava retirando meu rifle de meu corpo, apenas segui observando o suposto líder com o pior de meus olhares. Gostaria de dizer que eu estava fazendo esforço para lançá-lo.
O mesmo cara aproximou-se de Carl e retirou o revólver de seu coldre, analisando o cabo desenhado. Eu estava ao seu lado, então pude ver claramente sua expressão, indicando surpresa.
— É seu, certo? — Questionou o homem, passando o polegar pelo desenho. — É. É seu. — Com a mão, bateu no chapéu que Carl usava, fazendo-o escorregar um tanto abaixo, mas sem cair. O homem, então, ergueu-se na postura original, olhando ao redor, pousando em Maggie. — Ok, vamos descê-la. E fiquem todos de joelhos. Vocês têm muita coisa para ouvir.
Antes que os homens voltassem para nos colocar de joelhos, Abraham os interrompeu:
— Esperem. Nós fazemos isso.
— Claro, claro — concluiu o homem, indicando com a mão, indiferente.
Rick, Aaron, Abraham e Sasha ajudaram a descer a maca de Maggie enquanto eu e Carl permanecíamos parados, lado a lado. Pensei bem se seria um ótimo momento para seguir encarando o homem ou se eu deveria agir como inocente. A pobre coitada que Carol havia me ensinado a ser.
Caminhamos em direção à Eugene, em frente ao trailer, onde nos posicionamos em uma meia-roda. Eugene estava na ponta e Maggie estava distante dele, logo ali, posicionada aos joelhos, tendo problemas em manter-se na postura.
— Preciso que se ajoelhe — o mesmo homem de bigode voltou, olhando para Rick.
O líder apenas o encarou e revezou seu olhar entre o homem e Carl, com o desespero já explícito. Em seguida, ajoelhou-se ao lado de Maggie, lentamente. Abraham estava ao outro lado da mulher e Sasha, ao lado de Rick. E, depois dela, Aaron. Ao lado de Eugene, fora Carl. Eu acabei por ficar ao lado de Abraham, já que me localizava ali na hora.
— Vamos pegar os outros agora — afirmou o homem, caminhando em direção à um dos carros.
Senti meu corpo gelar após sua fala. Outros?! Quantos de nós eles haviam capturado?
— Dwight! Rápido!
Outro homem saiu das sombras, mas este tinha um detalhe que me faria reconhecê-lo em qualquer outro lugar. E eu gostaria de dizer que era uma marca de nascença horrível, mas era ainda pior.
Toda a lateral de seu rosto era formada em cicatrizes de uma queimadura. Pobre infeliz. E o mesmo caminhou em direção à vã que estava estacionada, com furos nas portas. Assim que a abriu, revelou Daryl, que fora praticamente jogado para fora. Em seguida, Michonne; depois fora Rosita. Por último, Glenn, que fora posicionado ao meu lado, na ponta.
Os homens colocaram Michonne, Rosita e Daryl em ordem, antes de mim, todos eles com sangue pelo corpo. Me perguntei de onde havia saído, e onde eles podiam estar. Qual fora o motivo de serem pegos.
— Muito bem! Quanta gente! — Comentou o homem do bigode, caminhando em direção ao trailer. — Vamos conhecer o chefe.
Por mais que eu já soubesse que aquele cara não era o líder — não tinha as características de um —, me surpreendi quando ele falou sobre o chefe. Com três toques na porta do trailer, o homem afastou-se dali, cruzando os braços e nos olhando com o queixo empinado.
A porta se abriu e um homem alto desceu. Não vi muito de seu rosto, já que havia pouca iluminação em sua direção. Mas avistei seu sorriso, e não era agradável. Olhei para o lado e vi Glenn, escorrendo em suor, como se estivesse em pânico — não que ninguém estivesse muito diferente.
— Já estão se mijando nas calças? — Anunciou o líder, soltando um riso abafado. O homem aproximou-se da luz e só assim pude ver os traços rigorosos em seu rosto. Ele era alto e vestia roupas pretas, tendo uma jaqueta pesada junto de um lenço vermelho que cobria seu pescoço. Uma barba não muito agressiva dominava seu maxilar e subia pelo lábio superior. O cara segurava um taco de baseball, que só pude ver que tinha arame farpado por toda a superfície de madeira quando ele se aproximou ainda mais. Toda a ideia que eu tive de um líder a vida inteira estava, agora, à minha frente. E com um sorriso cínico talhado. — Nossa, tenho a sensação de que estão quase lá. Logo todos vão estar se mijando.
O homem caminhou em nossa direção, circulando todo o trajeto das pessoas ajoelhadas, olhando uma por uma durante alguns segundos. Quando seu olhar pousou ao meu, agradeci mentalmente por ter saído em seguida. Eu não aguentaria guardar o ódio se seguisse o olhando.
— Qual desses putos é o líder? — Questionou e fiz força para não o encarar.
O home de bigode apontou logo para Rick, que pareceu desconfortável perante a situação. Notei a face de Carl se contorcer em raiva, e era a famosa expressão que ele vestia quando nada parecia dar certo.
— É esse aqui — confirmou e cantarolou: — Ele é o cara.
O outro se aproximou de Rick, mantendo seu taco de baseball entre o ombro e o pescoço. O cabelo puxado para trás era mais um grito de líder soando ao ar, assim como o Governador, assim como o Grimes. Fora o peito estufado e a aura poderosa que o circulava.
— Oi — cumprimentou-o. — Você é o Rick, certo? Eu sou o Negan.
Negan. Novamente, o nome que me causou diversas dúvidas. Olhei para ele, agora ignorando os dotes que havia levado comigo para me misturar. Pensei em tudo que Carl havia me contado e só tirei uma conclusão: Negan tinha poder.
— Não gostei que você matou meus homens — complementou: — E quando mandei meu pessoal matar o seu por ter matado o meu, você matou mais do meu pessoal.
Seu tom nunca havia deixado o tom cômico. Este homem não soava como um líder sério, mas parecia ter muito respeito para juntar todo aquele povo do posto avançado mais este que nos rodeava.
— Não foi legal — completou enquanto seguia encarando Rick.
Senti o suor de meu rosto secar e trazer aquela sensação horrível de calor em meio ao frio. Rolei meus ombros para trás tentando ajeitar minha jaqueta, sem muito sucesso.
— Você não tem ideia de como essa merda não foi legal. Mas acho que logo vai ter — nesse momento, seu olhar circulou por todos nós. — Pois é. Em minutos, vai se arrepender por ter me desafiado.
Olhei para Carl mais uma vez, que agora tinha o olhar em direção à Negan. Voltei-me ao homem e reparei que, aquela expressão, era familiar até demais. Já havia visto anteriormente no Governador, talvez até em Rick, mas nele era dez vezes pior. Foi então que ele abriu um sorriso e voltou a olhar para nós.
— Veja, Rick, seja lá o que faça, não importa o que for, você não mexe com a nova ordem mundial. E a nova ordem mundial é isso, e é muito simples. Mesmo que você seja burro, o que pode muito bem ser, você consegue entender. Está pronto? Aqui vai, preste atenção — seu bastão fora parar de frente para o nariz de Rick, e outro sorriso surgiu em seu rosto. — Entregue suas coisas… Ou vou matar você.
Após uma curta risada, a qual eu aproveitei para analisar os rostos dos outros ao nosso redor, Negan voltou a falar:
— Hoje foi o dia da orientação vocacional. Nós investimos muito para que vocês soubessem quem eu sou e do que sou capaz de fazer. Você trabalha para mim agora. Se tem algo, você dá para mim. Esse é o seu trabalho. Agora, eu sei que isso é… muita coisa para se engolir. Mas você certamente vai engolir. Você era o chefe. Você construiu algo. Pensou que estava seguro. Eu entendo. Mas andam dizendo que vocês não estão seguros. Nem mesmo de perto. Na verdade, você está ferrado. E vai piorar se não me obedecer. E o que eu quero é metade das suas coisas. Se for muito, vocês podem criar, achar ou roubar mais, e logo estaremos quites. — Não. Isso é mentira. Olhei para Rick e soube, através de seus olhos, que ele concordava comigo. Nós lidávamos com esse tipo de líder. Meu olhar pousou em Carl novamente, que não se desgrudou de Negan nem por um segundo. — Essa vai ser a vida de vocês agora. Quanto mais resistirem, pior vai ser. Então, se alguém bater na sua porta… Você vai nos deixar entrar. Somos os donos da porta. Se tentar nos impedir, vamos derrubá-la. Entendeu?
Rick seguiu quieto, suor descendo das laterais de seu rosto e caindo na jaqueta. Negan, então, se inclinou de modo infantil e colocou a mão curva acima da orelha.
— O quê? Não tem resposta? — Provocou. — Não achou que ia passar por isso sem ser castigado, né? Eu não quero matar seu pessoal. Só queria deixar isso bem claro. Quero que trabalhe para mim. Mas não pode fazer isso se estiver morto, não é?
Parei de prestar atenção nas outras frases que saíam da boca de Negan. Olhei mais uma vez para Glenn ao meu lado e notei que seu olhar jamais havia saído de Maggie. Isso deveria estar sendo muito difícil para ela, já que estava grávida e muita pressão para uma pessoa que estava gerando outra não era bom.
— Então, agora… Eu vou arrebentar na porrada um de vocês — Negan confessou, sem qualquer emoção na voz.
Não tive coragem de olhar ao meu redor, já que minha surpresa fora suficiente para fazer com que eu sentisse um nó no estômago. Eu não deveria mostrar muito de meu medo, pois isso atrairia sua atenção até mim, e não era isso que eu queria no momento. Respirei fundo e senti suor escorrer em minha nuca. Os fios soltos de minha trança agora estavam grudados às bochechas.
Negan girou seu taco entre os dedos, levando Rick a afastar o rosto.
— Esta… Esta é a Lucille. E ela é incrível — o homem mostrou-nos o taco, agora com nome. — Tudo isso é só para que possamos escolher qual de vocês vai ter a honra.
O homem se aproximou de Abraham e passou a mão pela barba, fazendo um comentário o qual eu não ouvi, e logo, se direcionou à Carl, o que fez meu coração parar por um segundo.
— Você estava com uma de nossas armas. Sim, você tinha muitas armas nossas — Senti uma prensa em meu peito e procurei acalmar minha respiração. Carl não estava desesperado, então eu não deveria estar. — Que merda, garoto. Anime-se. Ao menos chore um pouco.
Negan se levantou e caminhou ao centro mais uma vez, ali parando, em frente à Maggie.
— Jesus! Você está um lixo! Eu devia acabar com seu sofrimento agora.
— Não! Não! — Gritou Glenn, levantando-se. — Pare!
O mesmo homem da face queimada, Dwight, empurrou Glenn ao chão, impedindo-o.
— Coloque-o de volta na fila — ordenou Negan, olhando para o homem que implorava. O líder pôs-se a rir e indicou todos nós com o taco. — Certo, escutem. Não façam mais isso. Vou acabar com essa merda, sem exceções. O primeiro foi de graça, é um momento emotivo. Eu entendo. — Minha única preocupação era que Negan acabasse por me escolher e Carl armasse um escândalo, assim, tendo de ser punido. Tentei manter contato com ele, mas não consegui, já que sua visão era única e somente de Negan. — É uma droga, não? Quando você percebe que não sabe de nada. — O homem voltou a encarar Carl e outro sorriso surgiu em sua boca. Ele indicou o bastão entre Rick e o garoto. — Ele é o seu filho, certo? Certamente é.
— Pare com isso! — Gritou Rick, dando espaço para que Negan soubesse seu ponto fraco.
— Ei, não me faça matar o futuro pequeno assassino em série. Não faça isso ser fácil para mim. Eu preciso escolher alguém. Todos na mesa estão esperando que eu faça o pedido.
Negan caminhou para frente, agora assoviando. Algo em sua postura me deu a entender que nunca houve qualquer emoção real em suas falas. Ele expressava o que era um ditador, não um líder.
— Não consigo me decidir. — Negan colocou os dedos acima da ponte do nariz e então, voltou-se para nós. — Tive uma ideia.
O homem, então, caminhou em direção à Rick, segurando o bastão com força. Quando ele reduziu a força da mão, o que pude ver pelo toque no cabo, senti meu coração acalmar-se um tanto. Aquela posição não era suficiente para matar.
"Uni" indicou Rick com a ponta. O homem manteve a cabeça abaixada e todos pareceram confusos com a situação.
"Duni" apontou para Maggie, que olhou apenas de relance ao taco, desviando seus olhos.
"Tê" passou por Abraham, que o encarava com queixo empinado, sem perder a postura. Entendi sua brincadeira, e senti-me desarmada por não saber o final, já que ele estava indicando pessoas aleatórias.
"Salamê" apontou para Michonne, que também não pareceu comovida. Ele estava próximo de mim.
"Minguê" a ponta do taco se encontrava entre meus olhos, e eu o encarei por cima das sobrancelhas, torcendo a boca rapidamente. O homem abriu um curto sorriso e passou para o próximo.
"Um" indicou Rosita.
"Sorvete" passou por Daryl.
"Colorê" apontou para Sasha.
"O" Aaron.
"Escolhido" Glenn.
"Foi você" Rick. Todos pararam por um segundo.
"Minha mãe" Maggie.
"Me disse" Carl. Mantive minha postura.
"Para escolher" Eugene.
"O melhor" Michonne.
"De vocês" Eugene.
"E o escolhido" Aaron
"Foi" Glenn.
"Você" quis fechar os olhos, mas o comando de minha mente foi mais rápido. O bastão não estava em minha frente, na verdade, estava longe de mim. Olhei para o lado e encontrei-o indicado para Abraham, que pareceu perder um tanto da postura por alguns segundos, logo, recompondo-se.
— Se alguém se mexer ou falar algo, cortem o outro olho do garoto e deem para o pai comer. E então, vamos começar! Você pode respirar, pode piscar, pode chorar. Droga, todos vocês vão fazer isso.
Quis evitar olhar, mas algo me dizia para seguir o fazendo. Abraham estava completamente rígido, mas sua expressão era de calma. Ele não parecia sentir medo algum perante à situação. Apenas seguiu quieto, aguardando o momento final.
Foi aí que veio a tacada. Não desgrudei os olhos, segui observando. Mas eu sabia que minha expressão não continuava séria. Eu senti minha boca entreaberta, e nada mais. Sasha chorava e Rosita parecia não conseguir respirar. Rick estava chocado, com os olhos frenéticos, e Carl estava como eu.
Abraham se levantou, com sangue e uma massa presa entre os fios ruivos. Pisquei diversas vezes para me situar do momento, mas eu só queria chorar por ele. Chorar por ter aguentado sua morte enquanto deveria ter vivido a vida. Ele seguiu reto, aguardando pelas próximas tacadas. Qualquer outra fala de Negan me soou como um eco profundo aos tímpanos, e eu senti minhas mãos tremerem.
O sangue escorreu até o nariz e pingou da sobrancelha às maçãs do rosto. Sangue escuro, consistente, parecendo pegajoso. Minha respiração cessou novamente e tive problemas em manter a calma total. E então veio a segunda tacada.
E a terceira, e a quarta, e a quinta.
Negan balançava o taco ensopado de sangue e pude ver alguns resquícios de pele entre as farpas do arame. Quase todos ao meu redor choravam, soluços que pareciam fazer uma trava da garganta. Sangue voou em meu rosto assim que ele girou Lucille mais uma vez. Senti a substância morna escorregar em meu nariz, só tinha o pensamento de que era uma parte de Abraham em minha face, sangue de uma pessoa.
O homem se aproximou de Rosita e colocou o taco na frente dela, provocando-a com sangue do que já fora um de nós. A mulher tinha o queixo caído e respiração falha. Coloquei meus olhos em Carl, amedrontada. Ele fez um curto sinal para mim, como se dissesse que tudo ficaria bem. E talvez ficaria, pois agora ele já havia cumprido com sua fala ao matar um.
Daryl se levantou e socou o rosto de Negan com precisão, mas três homens o agarraram por trás, impedindo-o de prosseguir. Arregalei meus olhos enquanto encarava a cena.
— Não — gritou Negan ao ver os homens segurando Daryl no chão. — Não, não. Isso… ah, céus! Isso… isso não pode ocorrer.
Olhei para o homem ao chão, segurado pelos outros dois e respirei fundo. Vão matar Daryl. Mordi meu lábio inferior, um tanto úmido, mas não era de lágrimas. Suor escorria em meu rosto. Meus ouvidos mal processavam uma fala.
Negan não deixou com que Dwight matasse Daryl com sua própria besta. Eles o levaram de volta ao seu posto, de joelhos. E fora um dos motivos para uma onda de alívio me dominar.
— Eu disse que o primeiro era de graça — pronunciou-se Negan, atraindo nossos olhares. Ele estava logo à minha frente, mas de costas. — E depois eu acabaria com essa merda. Sem exceções. Eu não sei o tipo de mentirosos do caralho que vocês andaram lidando, mas eu sou um homem de palavra. Primeiras impressões são importantes.
Não.
Não, não, não.
— Eu preciso que vocês me conheçam. Então… de volta ao trabalho.
Olhei para Carl, imaginando que o olhar de Negan estava no garoto, mas ele estava apavorado para ser ele próprio. O garoto seguiu olhando em minha direção, sem desviar por um segundo. Pisquei diversas vezes e senti meu nariz arder de segurar o choro. Quando resolvi voltar meu olhar à Negan, notei Lucille já no alto, e fechei os olhos com força.
Jurei que ouvi o suspiro de Carl do outro lado da roda, mas meus ouvidos não estavam trabalhando bem. Agarrei os cascalhos do chão com meus dedos e senti-os perfurando minha pele lentamente. Ouvi a segunda tacada e ousei abrir os olhos, vendo todos ao meu redor olhando em minha direção.
Droga. Fui eu.
Eu estou entre a vida e a morte?
Só então percebi que não era em minha direção, mas sim, ao meu lado. E notei que Glenn estava ao chão, com metade da cabeça coberta por uma rachadura e marcas profundas por onde sangue vívido escorria. Engasguei com minha própria saliva e não consegui reagir de qualquer outra maneira. Meu corpo doía, meus braços tremiam, meu peito era prensado.
Maggie gritou e Glenn levantou-se do chão, sua face ainda pior que a parte de trás. Tentei fazer minha boca parar de tremer, mas não obtive sucesso. Seu olho havia pulado para fora e sua boca salivava em sangue. Ele estava balbuciando.
— Cara, você ainda está aí? — Provocou Negan, indiferente. — Eu não sei, parece que você está tentando dizer algo. Mas você acabou de levar uma porrada! Eu te dei uma porrada tão grande que seu globo ocular até saltou! E ele está nojento para caralho!
— Maggie… Eu… — Glenn tentava falar, mas o sangue parecia engasgá-lo. — Eu vou te encontrar.
Olhei para o chão no mesmo momento. Fui treinada para aguentar situações como aquela, mas eu apenas optei por não olhar. Eu sabia que Maggie estava sofrendo, e não queria ter de lembrar do rosto de Glenn toda vez que a olhasse. Eu não podia relacionar algo assim.
— Ah, não… Eu consigo ver que isso é difícil para vocês — comentou Negan, tentando parecer comovido. — E eu sinto muito. De verdade. Mas eu disse, sem exceções.
Ouvi o barulho do crânio se rompendo após a fala. Senti sangue espirrar em meu rosto e roupas. Fechei os olhos e forcei-me a ficar quieta, sem qualquer suspiro audível. Apenas posicionei minha mão acima do nariz, curvada para frente.
— Lucille está sedenta! — Negan disse e eu resolvi olhar em sua direção, vendo apenas o taco com um pedaço de pele preso. — Ela é um taco-vampiro!
Um silêncio prolongou-se ali e Negan se aproximou de Rick, erguendo o taco mais uma vez.
— A piada foi tão ruim, assim?
— Eu vou te matar — afirmou Rick, em um suspiro.
— O que? — Questionou o outro, aproximando-se. — Eu não pude ouvir, você vai ter que falar mais alto.
— Não hoje, não amanhã… Mas eu vou te matar.
Foi aí que eu parei de prestar atenção, e foquei meu olhar ao chão. Logo em seguida, Negan arrastou Rick para dentro do trailer e deu partida, sumindo dali.
[...]
Pareci me estabilizar assim que escutei o som do trailer voltando. Os homens ao nosso redor não haviam trocado uma palavra sequer, então imaginei que eles precisavam da autorização de Negan até para conversar. Nosso grupo estava silencioso, apenas o choro de Maggie e Sasha ecoava baixo entre nós. Procurei não olhar muito para Carl, já que ele estava com o olhar fixo em suas mãos, provavelmente repassando as cenas em sua mente. A manhã já havia chegado, pois tudo estava claro e eu pude ouvir barulhos de insetos e pássaros por perto.
Olhei para a frente e vi a porta se abrir, então Rick fora jogado ao chão. Negan fora atrás dele e o empurrara de volta à roda, jogando-o, novamente, ao centro.
— Aqui estamos — comentou o homem. — Devo te perguntar, Rick: você sabe o porquê daquela pequena viagem? — Silêncio total. Rick tentava se recompor de joelhos. — Fale quando falarem com você.
— Ok… ok — nosso líder tentava construir falas, mas não tinha muito sucesso.
— A viagem foi sobre o jeito que você me olha. Eu queria mudar isso, eu queria que você entendesse… mas você continua me olhando da mesma droga de jeito — comentou Negan, estampando o sorriso nos lábios. — Você me olha como se eu tivesse cagado em seus ovos mexidos e assim não vai funcionar. Então… devo te dar outra chance?
Rick pareceu entrar em pânico pela maneira que seus olhos se mexiam; frenéticos. O que eu tinha em mente, naquele momento, era que, se Rick não mudasse seu olhar, Negan escolheria outra pessoa para amassar a cabeça. Vamos lá, Rick. Não é tão difícil assim. Você precisa de umas aulas com Carol.
— Sim… sim — afirmou Rick em voz trêmula.
— Ok, certo! E aqui está: o jogo do grande prêmio! — Negan pareceu empolgar-se com as palavras enquanto eu apenas me encolhia nos pensamentos, ansiosa. — O que você fizer em seguida vai determinar se seu dia de merda será o último dia de merda de todos ou só mais outro dia de merda.
Negan fez um sinal para os homens ao seu redor e apontou para todos nós.
— Coloquem as armas atrás de suas cabeças — ordenou e seu alguns vieram por trás. Senti o cano de uma arma encostando em minha nuca, me trazendo arrepios pelo contato com o metal gélido. — Bom! Agora, nivele aos seus narizes para que, se tivermos de atirar, pow, resultará em uma grande sujeira.
O olhar no rosto de Rick tornou-se de tédio. Eu imaginei que eu não estivesse muito diferente, já que estava me cansando das brincadeiras de Negan. Estava começando a me causar raiva, ansiedade demais.
Negan parou em frente ao homem e olhou para trás, seu olhar batendo com o de Carl, que nunca deixou de o encarar. Senti a palpitação acelerar e fechei minhas mãos acima das coxas, apertando-as.
— Garoto — Negan o chamou e fez um sinal com o dedo para que ele fosse ao seu encontro. — Aqui.
Carl apenas o encarou com um olhar recheado de ódio e permaneceu onde estava; não agradando Negan.
— Garoto. Agora.
Ele então se levantou, sem desgrudar o olhar do homem. Caminhou em sua direção e permaneceu parado. Passei minha mão pelo meu rosto, retirando a franja suada das bochechas e mordi o lábio inferior, esperando que nada de mal lhe ocorresse. Negan colocou Lucille entre os braços e retirou seu cinto.
— Você é canhoteiro? — Questionou-o.
— Eu sou o quê? — Carl praticamente cuspiu as palavras.
— Canhoto.
— Não.
— Legal — Negan amarrou seu cinto ao braço esquerdo de Carl, puxando-o forte. — Doeu?
— Não — Carl seguiu mostrando indiferença.
— Deveria. Agora deite-se ao chão, garoto, ao lado do papai. Abra as asas.
Negan jogou o chapéu de Carl para trás e o fez se deitar. Minha mente passou a processar o que estava para ocorrer, foi então que eu senti o gelo correr por todo meu corpo. Minha respiração quase cessou por um instante. O garoto deitou-se ao chão, com ajuda do empurrão do homem, e tentou manter seu olhar.
— Simon, você tem uma caneta?
— Sim — confirmou o homem de bigode, procurando em seus bolsos.
— Desculpa, garoto — Negan puxou a manga da camisa de Carl, revelando seu braço. Com a boca, abriu a caneta e procurou por um ponto onde marcar. — Isso vai ser tão frio quanto o saco de um feiticeiro, como se ele tivesse pendurado o saco sobre você e arrastado pelo seu braço. Prontinho.
— Por favor, não faça isso — pediu Rick e recebeu o olhar de Negan junto do sorriso cínico.
— Eu? Eu não vou fazer porra nenhuma. — Negan levantou-se após uma risada e caminhou para trás do homem. — Rick, quero que pegue seu machado… e corte o braço de seu filho bem naquela linha.
Arregalei meus olhos mais uma vez, incrédula de seu pedido. Senti meu corpo tornar-se um poço de arrepios enquanto encarava Carl. Agora seu olhar havia se desprendido de Rick e caído sobre mim, como um pedido de ajuda ou um "tudo vai ficar bem". Só não soube determinar qual era.
— Eu sei, eu sei… precisa processar isso por um segundo. Faz sentido — provocou Negan enquanto Rick chacoalhava a cabeça, em conflito com sua mente. — Mesmo assim, você terá que fazer isso, ou todas essas pessoas vão morrer. Então o Carl morre, e depois as pessoas do seu lar morrem… então você, algum dia. Vou te manter vivo por alguns anos, só para que possa sofrer por isso.
— Vo-você não precisa fazer isso — Michonne tinha a voz trêmula, mas mesmo assim, tentou. — Nós entendemos.
— Vocês entendem. Sim. Não estou certo que o Rick tenha entendido. — Negan riu de modo abafado, indicando o braço de Carl. — Quero um golpe limpo, bem naquela linha. Sei que é algo complicado de pedir, mas terá de ser como uma fatia de salame, sem sujeira, limpo, 45 graus. Nos deixe algo para dobrar. Temos um ótimo médico. O garoto ficará bem.
As palavras de Negan causaram um efeito terrível em mim, como uma dor interna, uma queima de meus órgãos em conjunto. Balbuciei várias vezes e ensaiei mentalmente, mas não tive tempo, então resolvi me pronunciar:
— Por favor, não há necessidade. Eu... eu posso ir no lugar dele — Carl olhou para mim e vi que havia uma lágrima brilhando em sua órbita, mas ele não deixaria escorrer.
Não havia me colocado em situação alguma similar àquela, mas todo o medo se acumulava dentro de meu peito e me deixava cada vez mais nervosa.
— Você quer mesmo vir no lugar dele? Quanta coragem! — Negan levantou o taco de baseball de modo rápido e chegou a espirrar algumas gostas de sangue que ainda residia na superfície de madeira. — O que vocês são? Irmãos? Puta merda, óbvio que não são! Observe essa troca de olhares! E, cara, você é latina! — Apontou o taco em minha direção. E mesmo que fosse de longe, não pude impedir o nervosismo. — Caliente.
Encarei-o, tentando amenizar a situação com um olhar mais dócil, e acabou fazendo-o soltar outra risada.
— Mais um casal — bufou Negan ao se aproximar de mim, ainda segurando o seu taco de baseball, parecendo decepcionado. — Mas que azar eu tive ao escolher um grupo onde só há gente comprometida.
A risada ignorante soou em meio ao silêncio, com exceção dos choros de Rosita e Maggie. O homem me encarou com a cabeça inclinada para o lado e olhou para trás, lançando um rápido olhar à Carl.
— Levante-se — ordenou o homem ao me oferecer uma mão. Olhei-o com desdém. — Eu disse: levante-se.
Sem mais delongas, coloquei-me de pé com o apoio de sua mão. O homem me olhou dos pés à cabeça e abriu um sorriso que me causou nojo e horror ao mesmo tempo.
— Com base no corpo, eu diria que você tem uns… dezesseis anos? Por aí, não?! — Ainda segurando minha mão, fez um gesto para que eu desse uma volta rápida e seguiu pousando seu olhar sobre mim. — Sempre soube que latinas eram demais, mas agora tenho a prova concreta. Garoto, suas noites devem ser incríveis!
Seu sorriso cessou quando nós olhamos para baixo no mesmo instante. Negan me encarou e olhou para Carl, duvidoso, então voltou a falar:
— Não me diga que vocês nunca...? — O silêncio fora a resposta. — Puta merda! Garoto, se você não provar do fruto proibido, eu irei comer até não poder mais.
Aquelas palavras me fizeram querer meter um soco no queixo do homem, mas tendo em vista tudo que havia ocorrido anteriormente, decidi ficar calada.
— Vou levar isso em consideração — afirmou Negan, completando sua fala e me empurrando levemente. — Sente-se.
Caí de joelhos ao meu lugar anterior e Negan caminhou novamente até Carl. Eu havia falhado em passar em branco, ou em ajudar Carl, e só o que eu podia fazer era assisti-lo ter o braço cortado como um salame.
— Voltando ao trabalho: Rick, isso precisa ser feito agora — o homem agachou-se e tocou as costas do outro. — Rápido. Ou eu mesmo vou esmagar o crânio dele.
— Pode ser eu. Eu… — O Grimes mais velho tentou dizer. — Pode cortar meu braço. Eu vou com você.
— Parem de se oferecer no lugar dele. Não. Esse é o único jeito — concluiu Negan e afastou-se. — Rick, pegue o machado. Não tomar uma decisão é uma grande decisão. Quer mesmo ver toda essa gente morrer? Você verá. Vai ver tudinho.
Tendo em vista o silêncio de Rick, Negan bufou e jogou as mãos ao alto:
— Meu Deus! Vai me obrigar a contar? Beleza, Rick. Você venceu. Vou contar. — Negan aproximou-se um tanto e disse em tom alto: — Três!
— Por favor — implorou Rick, mas não surtiu em efeito.
Franzi meu cenho e baixei o olhar mais uma vez, agora sentindo as lágrimas se formando. Respirei com dificuldade, tentando me acalmar. Nada estava dando certo. Olhei para Carl mais uma vez e soube que fiz errado, pois ele havia me visto chorar e isso o faria entrar em desespero. Foi então que meus soluços vieram e eu não soube controlá-los.
— Dois — contou Negan, fazendo com que Rick começasse a chorar de nervoso também.
Carl estava ali, deitado com a boca entreaberta, sem saber muito como reagir. Seu olhar colidira com o meu e o movimento de suas sobrancelhas indicaram seu medo. Mordi o lábio com força, tentando evitar os soluços.
— Por favor, não… — Negan deu um tapa no rosto de Rick, fazendo-o olhar diretamente em seus olhos.
— Agora — concluiu o homem. — Um.
Rick gritou e fez com que eu me arrepiasse novamente, deixando um soluço escapar. Eu mal podia ver com as lágrimas embaçando meu campo de visão, então baixei o olhar mais uma vez, apertando minhas coxas com as unhas. Quando ousei olhar para Carl, ele falava com seu pai, e pude entender que ele tentava acalmar o homem.
Recomponha-se, Mari, pensei. Ele está calmo e eu estou em pânico.
Isso não pode estar acontecendo.
Quando Rick levantou o machado, segurando no pulso fino do filho, recusei-me a ver. Tapei meus olhos com ambas as mãos e deixei as lágrimas molharem meus dedos. O homem parou de gritar por um momento e eu não escutei nenhum som de corte, então espiei, vendo Negan ao seu lado.
— Rick — disse ele, agachado. — Você trabalha para mim.
O Grimes tinha a respiração acelerada e os olhos frenéticos. Ele estava em pânico, provavelmente porque imaginou que Negan havia decidido matar todos nós. E eu sentia isso, já que havia acabado a contagem e não houve o corte no braço de Carl. Quis acreditar que tudo estaria bem, então olhei para os dois corpos sem vida ainda caídos.
— Você me pertence. Certo? — Prosseguiu o líder. — Responda quando falarem com você! Você responde a mim. Você trabalha para mim.
— Trabalho para você — confirmou Rick.
— Você me pertence, certo? — Gritou o outro.
— Certo.
— Certo — concluiu Negan. — Esse é o olhar que eu queria ver. — Nós conseguimos, todos nós, juntos. Até os mortos no chão. Eles ganham o prêmio para espírito, certamente.
Negan parou ao centro da roda, indicando todos nós com a ponta de seu taco, mais uma vez.
— Hoje foi a porra de um dia produtivo! E eu espero, para o bem de vocês, que tenham entendido. Que tenham entendido como as coisas funcionam. — O homem observou nosso grupo, analisando, principalmente, Maggie, que havia se colocado a chorar novamente. — As coisas mudaram. Seja lá o que vocês tinham antes… acabou.
Novamente, o silêncio.
— Dwight, coloque-o na van — indicou Daryl e eu olhei para meu lado, vendo-o franzir o nariz. Ele tentou lutar contra, mas logo aceitou, sabendo das consequências que viriam. — Bem-vindos a um novo começo, seus malditos! Vou deixá-los com o trailer. Fiquem com ele, usem-no para carregar as coisas que acharão para mim.
Olhei para Carl, ainda no chão, braços abertos. Ele olhou para mim e mordeu o lábio inferior, baixando o olhar.
— Voltaremos para a primeira oferenda em uma semana. Até lá… tchau tchau.
Negan jogou o machado de Rick ao chão e caminhou para um dos carros, assim como todos ao nosso redor, assim, esvaindo-se aos poucos.
Naquele momento de partida, ninguém olhava para o próximo. Todos pareciam estar mais concentrados em suas próprias mentes. Incluindo eu. Apenas focava em me acalmar de todo o pânico que tive ao ver Carl ali, em seu momento mais frágil, sem poder se defender. Minhas lágrimas já estavam a secar enquanto eu fazia esforço para eliminar todos os pensamentos de morte que rodeavam minha cabeça.
Durante a madrugada, eu havia visto Carl morrer diversas vezes. Não só ele, como todos. Minha imaginação havia feito questão de imaginar cada cena, para me preparar emocionalmente, caso ocorresse. Em nenhum momento de minha vida, mesmo que ao lado do Governador, eu jamais havia visto um massacre tão frio como o que havia acabado de ocorrer. Só conseguia pensar no sorriso assustador que Negan usava como máscara para algo que não sabia dizer. Era terrível, e eu desejava perder todas as memórias daquela noite.
Com o canto do olho, pude ver que todos os carros haviam partido, e não parecia restar mais ninguém além de nós. Mesmo assim, não tive coragem de me levantar e fazer algo. O chão me parecia mais confortável. Ouvi movimento ao lado, mas não quis olhar também.
— Maggie, Maggie — chamou Rick e pude ouvir barulho de chaves. Levantei o olhar e encontrei a mulher tentando se manter de pé.
A morena caminhou sobre o cascalho, ou tentou, já que sua perna parecia não funcionar direito. Não quis me arriscar a olhar em sua direção, pois toda a cena de Glenn sendo morto ao meu lado voltaria.
— Maggie — Rick tentou mais uma vez. — Você precisa se sentar.
— Não — disse a mulher, com força na fala.
— Precisamos levá-la à Hilltop — o líder seguiu-a, mas ela não quis olhar em sua direção.
— Vocês precisam se preparar — sua voz estava trêmula, mas rodeada de raiva.
— Para o quê? — Perguntou o líder.
— Enfrentá-los.
Vi movimento à minha frente e notei que era Carl levantando o olhar, na direção da mulher. A ideia de batalha soava bem para ele, então deve ter lhe atraído a atenção.
— Eles têm o Daryl, eles têm um exército… nós morreríamos. Todos nós.
— Vá para casa — ordenou ela, seu rosto voltando à coloração vermelha do choro. — Leve todos com você. Consigo chegar lá sozinha.
— Você mal consegue ficar de pé…
— Eu preciso ir — ela confirmou. — Você precisa ir para Alexandria.
Olhei para Carl e agora ele olhava para mim. Nada me dizia com qualquer sinal, apenas seguiu me olhando.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Vocês saíram por minha causa — completou Maggie.
— Ainda estamos juntos.
Maggie começou a soluçar e olhou para cima, lutando contra as lágrimas. Baixei meu olhar.
— Posso conseguir agora. Preciso que voltem. Não posso deixar que fiquem aqui. Preciso que voltem.
Michonne havia se levantado também, ficando atrás da outra mulher.
— Maggie, não vamos te deixar ir. Está bem?
— Vocês precisam — insistiu a outra.
— Isso não vai acontecer — Rick afirmou.
Sasha também tomou iniciativa e se levantou, caminhando em direção à Maggie, que chorava enquanto tentava se equilibrar.
— Eu te levarei até lá. Vou mantê-la a salvo — Maggie tentou negar, mas não conseguiu formar palavras. Só então notei que seus olhos estavam sobre o corpo de Glenn.
Maggie pôs-se de joelhos sobre o cascalho, chorosa, sem muito se importar com o que ocorria ao nosso redor. Relembrei da viagem antes do acontecimento, onde ela tentava manter o sorriso e insistia em dizer que estava tudo bem. Agora ela já não ligava mais em esconder a dor.
Aaron caminhou em sua direção, tentando ajudar, mas a mulher negou com a cabeça.
— Eu preciso fazer isso, por favor — disse entre soluços.
— Nós queremos te ajudar — o homem tocou seu ombro, mas logo se afastou com a chegada de Carl.
O garoto colocou suas duas mãos nos ombros de Maggie e apertou lentamente. Ela logo abriu as mãos do corpo de Glenn e envolveu seus braços ao redor de Carl, caindo em seu abraço. E ele a segurou de forma a trazer conforto. A mulher voltou a soluçar e chorou com dor, tapando a boca para abafar.
Carl olhou para mim e Maggie soltou-se dele, dando a oportunidade para que ele viesse em minha direção. O garoto não disse nada, apenas ajoelhou-se à minha frente e tocou minha bochecha com leveza na mão, não desgrudando o olhar do meu. Ficamos ali, durante alguns longos segundos, apenas respirando e nos encarando.
— Carl — chamou seu pai, indicando o corpo de Glenn.
O garoto assentiu e levantou-se, caminhando em direção ao corpo para ajudar na retirada. Eu, vendo todos saindo, aproximei-me de Maggie e coloquei minha mão sobre a sua, dando-lhe apoio.
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