Why Me?

61 Capítulo 61 - Strategy


Notas iniciais
Hey! Como estão? Só passei para avisar que estou reescrevendo o começo da história e publicando aos poucos, como o primeiro capítulo. Então não se assustem caso voltem a ler a fanfiction desde o começo. Boa leitura!

Olhei para a janela do banheiro e a vi como escapatória. Os gritos de Michonne soavam abafados pela porta, mas sabia que lhe pertenciam, já que sua voz rouca exclamava por Rick. Não sabia a situação de Carl, mas sabia que não a melhor. O sangue que avistei comprovava minha teoria, e só podia ser obra de Ron. Olhei para baixo e avistei minhas mãos vermelhas encostadas ao chão frio por culpa do clima outonal. O vermelho sumiu a partir do momento que senti a fúria dominar meu corpo e mente. Então, a força em minhas mãos acabou por deixa-las brancas.

Denise não havia me tirado minhas armas. Ainda as tinha no cinto, presas à bainha, e minha perna já não doía como antes. Escalar até a janela não seria tão complicado. Subi no topo do vaso e posicionei as mãos sobre o batente, pegando impulso e saltando para o lado de fora. A queda não fora dolorosa, já que dobrei os joelhos e me joguei de lateral, amortecendo-a. Com a faca em mãos, apertei o cabo de madrepérola e caminhei até a entrada da enfermaria, onde notei o acúmulo localizado de errantes.

O primeiro eu apaguei com uma facada silenciosa na nuca. O terceiro foi com uma perfuração no olho. O sétimo, com uma bala desesperada na cabeça, já que o anterior me fizera derrubar a faca. Retomando o cabo de madrepérola em mãos, peguei o décimo atravessando-a pelo crânio apodrecido. Perdi a conta quando meus braços começaram a doer. Eu era ágil, dominando meus movimentos e desviando dos dedos quase decompostos. Notei que estava ao lado de Rick, que dominava sua própria horda.

Em questão de segundos, seus olhos encontraram os meus, com a preocupação visível. Eu sabia que Rick não gostava de mim, e não o cobrava o contrário, já que tudo que eu havia lhe feito fora o pior do previsto. Nunca imaginei que compartilharíamos nada parecido, mas suas órbitas transmitiam o mesmo que as minhas: o medo. Seu queixo em pé escondia qualquer rastro de terror que ele pudesse guardar nas profundezas de seu subconsciente. E eu não era muito diferente. Apenas trazia a imagem de força enquanto escondia meu verdadeiro rosto. O homem fez um rápido sinal com as mãos e eu assenti, voltando a esfaquear os outros errantes que se aproximavam.

A última parte que me marcou naquela noite fora o suspiro doloroso de Rick, ao amanhecer, apagando a última criatura que cruzara seu caminho.

[...]

Dois dias

Senti a brisa outonal colidir contra meu rosto e fazendo parte das mechas soltas acima de minhas maçãs esvoaçarem. Minhas pernas balançavam no ar enquanto meu olhar alcançava o parque da comunidade, agora interditado por culpa dos acontecimentos mais recentes. Sangue cobria o asfalto, mesmo que os colaboradores da limpeza tivessem ajudado com a maior parte. O frio não me afetava por conta de minhas vestes. Eu vestia minha nova blusa de mangas pretas e os jeans escuros, acrescentando as botas marrons. Minha cabeça estava começando a doer em consequência das brisas cada vez mais gélidas, de ficar tanto tempo sentada na varanda. Minhas costas pousavam sobre a coluna de madeira, não sendo uma posição muito confortável.

A porta se abriu e avistei o garoto saindo pela mesma, com sua blusa azul tendo os pulsos cobertos pelas mangas. Abandonei a posição anterior e inclinei-me, sorrindo em cumprimento.

— Você está esperando há muito tempo? — Perguntou ao fechar a porta atrás de si.

— Não muito — prendi minhas duas mãos às laterais da cerca. — Que horas são?

— 6:40.

— Meu relógio marcava 6:10 quando eu saí.

— Desculpe — o garoto trocou a expressão após um curto suspiro e levantou o olhar, agora tendo apenas uma das órbitas direcionada a mim. — Estava conversando com om meu pai sobre os exercícios de visão.

Carl aproximou-se de mim e seus dedos afastaram a mecha de cabelo que cobria minha bochecha, colocando-a atrás de minha orelha. Sorri para ele e senti seus lábios quentes encostando-se na lateral de meu rosto, tendo sua mão acariciando meu pescoço enquanto isso. Olhei fundo, seguindo seu olhar e depositei um beijo curto nas faixas que cobriam parte de sua face.

Sem mais palavras, desci da varanda e saímos da casa, nos encaminhando às ruas. Mais uma vez, baixei o olhar para o sangue preso no asfalto, resultado da guerra entre a vida e a morte, ali deixando marcas de quem sobreviveu e quem não conseguiu. Lembrei-me da manhã seguinte, ao ver Carl na maca, com o olho já enfaixado. A fúria havia me dominado em questão de segundos, e fiz questão de estar presente no enterro de Ron, onde estavam apenas eu e Abraham, que, ao acabar de enterrar o corpo do garoto enrolado em uma lona, sorriu triste para mim. Esperei sua saída para que pudesse cuspir na terra fresca.

— Deveríamos invadir a casa de Jessie mais tarde — sugeri. — Pegar as armas que levei para ele anteriormente.

No rosto de Carl, dominava a escuridão, mas não de tristeza, ou raiva, apenas um ar sombrio.

— Por que entregou armas para ele? — Perguntou enquanto passávamos pelo parque interditado, seu olhar enchendo-se de fúria.

Respirei fundo, sabendo que seria difícil dialogar sobre o assunto.

— Ele era fraco e precisava de algo para se defender…

— Pelo visto, ele fez bom uso de seus conhecimentos — retrucou, praticamente cuspindo as palavras.

O silêncio predominou o ambiente, mas mesmo assim, seguimos caminhando. Novamente, notei que Carl parecia estar incomodado. E parte da culpa era minha.

— Eu não sabia, Carl — olhei para enfermaria ao meu lado.

— Tudo bem — ele respondeu e seguiu quieto.

Chegamos ao muro e paramos. Aquele era o qual eu podia ver pela janela de meu quarto, onde já vi Carl subir e descer inúmeras vezes. De frente era ainda maior que de minha vista longínqua. O garoto colocou barras de ferro cortadas e pequenos pedaços nas fendas que uniam duas paredes. Ele fez um sinal para que eu observasse seus movimentos, então soube que teria de repeti-los em seguida. Colocava uma barra, apoiava o pé, colocava outra, apoiava a mão, tirava a primeira. E então continuou até chegar ao topo. Imaginei que ele estivesse fazendo o mesmo para a descida.

Ouvi duas batidas no material e vi as barras rolando para dentro da comunidade. Peguei-as e procurei fazer o mesmo para subir. Coloquei a primeira e apoiei meus pés, e então coloquei a segunda, segurando com as mãos. Quando fui passar o pé para a terceira barra, escorreguei e quase caí, se não fosse pelo apoio que tive com a quinta. Logo, cheguei ao topo, onde sentei na superfície do muro, olhando para baixo e tendo noção da altura ali. Carl estava de pé, olhando para minha direção.

— Faça o mesmo para descer — o garoto disse e eu assenti, colocando as barras de volta aos lugares.

Quando faltavam três níveis para chegar ao chão, resolvi que era perda de tempo colocar mais barras de ferro, então pulei e, por sorte, caí de pé. Carl me encarava com uma sobrancelha arqueada, lembrando muito seu pai nas feições. Sorri de modo repentino e coloquei-me a caminhar junto do garoto.

Meus olhos pousaram ao céu, analisando as nuvens da madrugada ainda presentes, esvaindo aos poucos. Eu costumava acordar cedo, acreditando que o dia se tornaria mais produtivo assim. Carl andou seguindo meus conceitos após a tragédia, passando a acreditar no mesmo, fazendo igual.

— Para onde você está me levando? — Perguntei e coloquei minha franja atrás da orelha, impedindo-a de flutuar com o vento.

— É um lugar onde eu costumo passar o tempo quando não estou dentro dos muros — disse o garoto e umedeceu os lábios.

— Você trouxe sua faca? — Perguntei e o garoto me olhou com desdém, então soube que minha pergunta fora idiota.

— Por algum acaso eu saio de casa sem ela?

Soltei uma leve risada e segui caminhando. Adentramos a área da floresta, assim tampando a claridade natural pelas folhagens altas. Meus pés estavam fincados em uma grossa camada de folhagem seca que acobertava o chão, protegendo o solo do frio matinal em conjunto com a brisa outonal. Carl virou assim que passamos por uma árvore marcada com uma pequena seta e apontou para um tronco caído, parando logo à frente.

— Eis a caverna-não-caverna secreta de Carl Grimes — sorri e olhei ao redor, reparando na paz que ali se estabelecia.

— Não é tão secreta assim — disse ele ao sentar-se, encostado ao tronco —, várias pessoas já passaram por aqui antes.

— Ainda assim.

Sentei-me ao seu lado e olhei-o de relance. Os últimos dias foram difíceis para Carl, e ele estava sentindo tudo isso como uma tonelada em suas costas. Em primeiro lugar, não havia uma única pessoa em Alexandria que não o olhasse diferente por culpa das faixas acima do ferimento. Em segundo lugar, Rick estava limitando-o da vida, por medo que algo lhe ocorresse pela visão interrompida. E eu sabia de tudo isso, e fazia questão de estar ao seu lado o máximo possível. Enid também estava por perto algumas das vezes, e deixei de me incomodar, já que Carl necessitava de amizades também.

— Deite-se aqui — o garoto indicou seu colo, ainda olhando em minha direção.

— Por que?

— Porque eu quero ver olhos que não estejam desgraçados — ele sorriu de modo triste.

Revirei os olhos e deitei-me ali, com uma perna dobrada e outra esticada, olhando para o garoto. Seus lábios curvaram-se em um delicado sorriso, assim posicionando uma mão no topo de minha cabeça, dançando os dedos finos pelos meus fios de cabelo.

— Você viu, não viu? — Perguntou, pausando os dedos instantaneamente.

— O quê?

— O buraco da bala — respondeu, voltando a enrolar minhas mechas.

Assenti com a cabeça, engolindo em seco. Sabendo que ele estava sensibilizado com a sensação, procurei não dar respostas muito longas, ou pensar antes de falar. Depois de ter acordado, ele não fez questão de comentar sobre o tiro ou qualquer outra coisa que tenha ocorrido naquela noite. Não perguntei também, respeitando sua privacidade. No dia seguinte, quando fui trocar as bandagens de minha perna, Denise disse que Carl não demonstrava qualquer rastro de tristeza, então soube que ele estava guardando tudo para si mesmo.

— Quem mais viu?

— Só os que você já sabe — afirmei e ajeitei meu quadril sobre as folhas secas.

Após uma pausa, notei que Carl estava mordendo o lábio, como se estivesse se segurando e lutando contra seus demônios internos para deixar-se dizer algo.

— Você ficou com nojo? — Desviou o olhar de mim.

Levantei-me de seu colo, curvada em uma posição desconfortável, mas em sua direção, olhos fixos em cada traço presente em seu rosto. Arqueei uma sobrancelha e posicionei uma de minhas mãos acima de sua coxa.

— Por que eu ficaria?

— As outras pessoas de Alexandria não tentam esconder.

— As outras pessoas são ridículas — mordi o interior de minha bochecha. — Elas não te conhecem.

— Para elas, eu sou o filho deformado do líder — disse ele, distante.

— Isso não é verdade, Carl…

— Você vê como todos me olham. Não minta para mim — disse ele ao ajeitar a camisa.

Toquei seus punhos tensionados, de pele branca pela força. Meus dedos pousaram suavemente ali e ajeitei minha posição, estando totalmente de frente para o garoto. Escutei sua respiração pesada, como se estivesse batalhando contra as lágrimas acumuladas, então suavizei ainda mais meu toque.

— Sua face não está horrível como pensa — pronunciei-me, hesitando, mas tinha de seguir: — São sinais de luta, sobrevivência, e todos temos. Alguns maiores, outros, menores. Eu fico orgulhosa em saber que você está vivo até este ponto. Que nós estamos vivos. Consegue ter noção da grandiosidade?

Carl suspirou e fechou os olhos, deixando seu rosto cair sobre meu peito. Suas mãos fixaram-se em minha cintura, como um abraço suave, e então posicionei as minhas próprias em suas costas, acariciando-as lentamente.

— Perdemos tantos, Carl… Às vezes eu me lembro de minha família, mesmo que seja por um milésimo de segundo, e sem ter as feições bem detalhadas, mas eu me lembro. Sei que estão mortos, sei que meu pai deve estar, também — comentei, pesando a consciência ao lembrar das vezes em que sonhava com a face de minha mãe, ou de meu irmão, acordando sem ao menos lembrar das cores de seus olhos. — O mais válido é prezar a nossa vida. Dar valor aos nossos instintos e aos que nos ajudaram a chegar até aqui.

Após um curto período de tempo, o garoto desgrudou-se do meu corpo e desviou o olhar diretamente de meus olhos. Estava, agora, com a cabeça inclinada para trás, encostada ao tronco, parecendo raciocinar. Mantive-me quieta, observando-o delicadamente.

— Acho que devemos voltar.

Assenti e acompanhei-o no levantar.

[...]

A luminosidade era rara, pouco entrando pelas cortinas pesadas. A luz pendurada no teto trazia iluminação amarela, conforto e calma, mas algo ali era inquieto. Algo gritava e lutava contra meu peito, trazendo o aperto de uma prensa. Angústia, tristeza, preocupação. Ao centro, uma cama pequena com cobertores brancos, protegendo o garoto do frio presente.

Avistei Rick sentado na cadeira de estofado, sua cabeça encostada ao limite, cabelos bagunçados e sangue respingado por toda a face. Seus olhos estavam fechados e seu peito movia-se de acordo com a respiração leve do sono. Fechei a porta branca atrás de mim com cuidado, mas não fora o suficiente. Assim que houve o clique, o homem assustou-se, assim despertando do cochilo. Meu corpo ficou imóvel, pois não sabia como lidar com aquela situação.

— Ei — disse ele, suspirando e passando uma mão pelos fios bagunçados, na esperança de arrumá-los. — Desculpe, eu acabei por cair no sono.

Olhei para Carl de relance. O garoto estava adormecido, com as faixas cobrindo seu outro olho. A visão que tive dele naquele instante me aliviara, apenas por saber que estava vivo. Assim que chegara à enfermaria, naquela situação onde seu rosto sangrava, entrei em pânico. Me descontrolei de maneira a não pensar em qualquer uma de minhas ações.

— Você merece descanso — respondi e olhei-o, severa. — Não foi uma noite fácil.

— O mesmo para a senhorita — o homem riu abafadamente. — Não tenho mais dúvidas sobre sua capacidade.

Sorri de canto, não me sentindo orgulhosa como deveria. Rick colocou-se reto na cadeira, olhando para Carl enquanto pousava os braços sobre os joelhos.

— Lori sempre ficava alguns minutos a mais no quarto de Carl depois dele ter dormido — confessou, franzindo o cenho como se estivesse tentando se lembrar dos detalhes. — Ela sempre dizia que aproveitava os momentos mais serenos caso um dia não pudesse mais vê-lo. E eu nunca cheguei a entender.

Involuntariamente, aproximei-me do homem, colocando uma mão sobre seu ombro. Seus olhos ainda estavam sobre o garoto, firmes e fixos. Com meu toque, ele pareceu curvar mais a postura, como se desistisse da imagem de líder por um mero instante.

— Eu sinto muito — disse ele, colocando uma mão acima dos olhos, como se não quisesse que eu o visse chorar. — Eu sinto muito.

[...]

Assim que voltamos para o lado de dentro, Carl resolveu que voltaria à sua casa, pois tinha de conversar com seu pai. Perguntei se precisava de companhia, mas ele rejeitou, então caminhei pelas ruas.

Enquanto passava pela segunda casa, avistei Carol na varanda, segurando um pequeno balde com um conteúdo barulhento por dentro. A mulher estava subindo os degraus quando me avistou e parou para sorrir em minha direção.

— Bom dia — cumprimentou-me, curvando os lábios em um sorriso.

— Oi — tentei sorrir, mas fora uma tentativa falha.

— Pode me ajudar? — Perguntou enquanto indicava a porta.

Olhei para trás, certificando-me de que a mulher estava realmente falando comigo, então voltei-me em sua direção e percebi que eu era a única na rua. Assenti, então, e a mulher fez um sinal para que eu a acompanhasse.

— Ajudar com o quê? — Perguntei ao me aproximar.

— A fazer biscoitos — sorriu e abriu a porta da casa.

Do pouco que conhecia Carol, sabia que a mulher não era o tipo de civil que sorria e fazia biscoitos. Lembrava-me pouco da prisão, ou após, mas sabia que ela era capaz de usar uma arma e manuseá-la muito bem. Carl chegou a me contar sobre alguns de seus feitos, coisas do tipo queimar pessoas, explodir lugares, tomar decisões comprometedoras, entre outros, onde fazer biscoitos não entrava na lista.

Adentrei a casa com as botas estalando no piso de madeira. Carol virou à direita, passando pelo aro da porta já aberta, e adentrou a cozinha, colocando o balde acima do mármore que servia de superfície ao balcão. Analisei-a com desdém enquanto a mulher preocupava-se com o cardigã amarrotado.

— Lave as mãos antes, o outro lado do muro não é limpo — avisou a mulher e indicou a pia com o dedo.

Carol curvou-se para pegar uma forma no armário e levantou-se, levantando, junto, o olhar. Sua expressão era de desdém, agora; tendo em vista minha reação às falas anteriores.

— Sim, eu vi os dois — ela sorriu de canto, mas como provocação. — Onde acha que peguei as castanhas? Agora vá lavar as mãos.

Permaneci quieta e caminhei até a pia, abrindo a torneira e lavando as mãos de maneira rápida. Enxuguei-as na toalha ao lado e voltei até o balcão, encarando Carol enquanto a mulher abria outro de seus sorrisos mascarados, os mais difíceis de deduzir a falsidade presente.

— Como você consegue? — Perguntei, inclinando minha cabeça.

— Consigo o quê?

— Manter esse sorriso na boca — prossegui, cruzando meus braços acima da superfície gelada do balcão.

— Por incrível que pareça, eu já fui feliz — a mulher cortou o sorriso do rosto e olhou-me de relance enquanto retirava as castanhas do balde e as colocava na forma. — E não é tão difícil assim, você deveria tentar.

— As pessoas não conhecem seu verdadeiro "eu" — respondi. — É isso que você quer?

— Não é o que eu quero — a mulher soltou uma risada de deboche. — Mas é o que eu preciso. Eu tenho a confiança da comunidade, pois, para eles, eu sou a mulher que cozinha e entrega biscoitos para todos.

— Já é tarde demais para aderir outra imagem — umedeci meus lábios e ajudei-a a espalhar as castanhas pela forma. — Apenas o Carl gosta de mim. Nem Deanna está viva para gostar também.

— Não, na verdade — Carol levantou a forma, colocando-a no forno com cuidado para não se queimar. — As pessoas não desgostam de você.

— Tente citar três nomes e falhe miseravelmente — respondi enquanto encarava-a com as sobrancelhas arqueadas.

Carol aproximou-se do balcão assim que fechou a porta do forno e sorriu de canto, como se aceitasse o desafio.

— Você e Michonne vieram do mesmo lugar: Woodbury. Ela conheceu o Governador e sabe do que ele era capaz, então sempre que alguém colocava seu nome, ela fazia questão de defendê-la; Denise sempre parece encantada com sua maturidade; Olivia reclama dos seus roubos, mas te acha esperta por causa dos mesmos — desviei o olhar, sentindo-me um tanto envergonhada pelo fato de saberem das minhas visitas frequentes à dispensa. — E Rick te respeita.

— Rick é o que menos gosta de mim — ri abafado.

— Você que pensa — ela passou uma mão pelo cabelo. — Ele te admira por fazer Carl aceitar alguns pontos. Como o escândalo que ele fez por não poder contribuir um dia.

Mordi meu lábio inferior, um tanto confusa com as informações dadas. Carol sentou-se numa das banquetas e colocou o cotovelo sob mármore, apoiando o rosto na mão.

— Então ainda dá tempo de parecer uma cidadã? — Encarei o mármore, tentando formular palavras.

— Sim, mas eu não vou te ajudar com isso — a mulher sorriu e eu sorri de volta.

[...]

— Tudo bem — tornei meu olhar para outro canto da sala, tendo em vista que o homem não queria que eu o visse.

— Obrigado por ter ajudado — Rick disse, pausadamente, ainda com as mãos acima dos olhos. — Eram muitos dos errantes.

— Foi um ato automático. Eu não devia ter agido daquela maneira — respondi, envergonhada de minhas ações.

— Mesmo assim — o homem descobriu os olhos e umedeceu os lábios, olhando em minha direção. Tirei minha mão de seu ombro e me afastei.

Ouvi sua respiração ainda forte por culpa das lágrimas. Permaneci quieta durante alguns segundos.

— Você não tinha a mínima ideia do que estava fazendo, não? — Arrisquei-me ao perguntar.

Rick ajeitou a postura sobre a cadeira de estofado e voltou a olhar para Carl, sorrindo de canto, e em seguida, soltando uma risada abafada enquanto sua mão deslizava pela barba crescendo no maxilar.

— Não.

[…]

— Agora você mistura com as mãos — disse Carol ao jogar a massa em minha frente, acima do balcão.

Encarei a massa dos biscoitos, sem saber o que fazer. Posicionei os dedos sobre a superfície macia e afundei-os, repetindo o movimento algumas vezes antes da mulher tocar meus braços.

— Mari — chamou-me, com o cenho franzido. — Amasse a massa.

— Como?

— Finja que você está esmagando a cabeça de um errante, algo do tipo.

Olhei-a com desdém e dei de ombros, espancando a massa à minha frente.

— Pare! — A mulher colocou uma mão em frente aos meus olhos, como se pedisse para que eu me afastasse. — Sua mãe nunca te ensinou a cozinhar?

— Não — respondi. — Ela morreu antes de poder ensinar.

Carol encarou-me novamente, agora, com os olhos profundos.

— Você tem que parar com isso.

— Parar com o quê?

— A mania de ser a vítima.

— Eu não faço isso — cruzei meus braços, deixando farinha manchar minhas mangas escuras.

— Faz sim. E faz aos montes — Carol posicionou as pontas dos dedos nas extremidades da massa, jogando as partes mais finas por cima e amassando novamente, repetindo o processo. — Você solta um comentário do tipo "alguém morreu", "ninguém gosta de mim", "pobre eu", e espera que as pessoas lhe abracem e digam que tudo ficará bem. Já vou avisando que eu não sou esse tipo de pessoa.

— Eu não faço com intenção que sintam pena de mim — arqueei as sobrancelhas.

— Faz sim, e, se aceitar, será mais fácil. — A mulher grisalha amassou a massa novamente e abriu caminho para mim. — Venha, sua vez.

Revirei os olhos e tentei repetir os movimentos de Carol. Meus dedos eram mais finos e menores, e a massa parecia pesar toneladas, mas eu não desisti. Segui tentando e tentando até que parecesse mais fácil de moldá-la. Então eu consegui, assim me sentindo vitoriosa.

— Parece que está no ponto — observou a mulher. — Vamos separar e colocar para assar.

Assenti e segui os movimentos de Carol.

— Você está morando com quem? — Perguntou ao ajeitar um pedaço da massa no formato de uma esfera, colocando-a sobre a forma.

— Sozinha — a mulher voltou a me encarar. — Estou apenas respondendo sua pergunta!

— Não disse nada — levantou as mãos, em modo de rendição. — E você não pensa em mudar?

— Não, na verdade. Eu conversei com Rick e ele disse que passaram a sobrar casas por culpa das várias mortes — respondi assim que acabei de formar uma bolinha de massa. — Spencer está morando com a Rosita agora.

— Ela também se mudou — comentou Carol. — Parece que encontrou outra casa.

— Melhor assim, nunca fui com a cara do Spencer — respondi, dando de ombros.

— Você e o resto de Alexandria, ainda mais depois que o pegaram roubando da dispensa — Carol riu abafadamente.

— Eu não o culpo. A dispensa tem algumas coisas bem legais.

— Tenho de concordar — a mulher pegou a forma com uma luva assim que a massa acabou e todas as bolinhas estavam moldadas. — Mas agora não posso mais colocar a culpa na Evelyn, já que ela morreu.

— Pode colocar a culpa em mim, se preferir — soltei uma leve risada e a mulher se juntou a mim.

— Agradeço a oportunidade — respondeu e colocou os biscoitos no forno, fechando a porta em seguida. — Acabamos por aqui. Se quiser, depois, posso deixar alguns em sua casa.

— Ou eu posso ficar por aqui e esperar que eles assem.

— Você não tem mais onde estar? — Perguntou e colocou as mãos na cintura.

— Eu moro sozinha e Carl está fazendo exercícios para visão.

— Vá fazer amigos, garota — Carol apoiou seu corpo ao balcão e me encarou com desdém.

A mulher soltou uma risada em seguida e eu aproveitei o momento para sair. Fechei a porta de entrada assim que passei por ela e encarei a rua durante alguns instantes. Em frente à casa estava a capela, onde avistei o Padre Gabriel colocando folhetos nas paredes. Pensei em passar na enfermaria para conversar com Denise, mas imaginei que ela já estivesse enjoada de minha presença.

Resolvi voltar para minha casa. Ainda era cedo, não havia passado do meio-dia, então tinha muito tempo de sobra. As ruas estavam vazias e serenas com a brisa gélida, apenas os corajosos caminhando sob asfalto. Olhei para o lado e encontrei duas mulheres conversando em frente suas casas, e além delas, Aaron sentado à varanda, lendo um livro. Tentei me lembrar da última vez em que toquei em algum e acabei por recordar da época em que estava cuidando de Lucie e Chris. Umedeci os lábios e chacoalhei a cabeça, na esperança de evitar a memória.

Assim que cheguei aos degraus da varanda, subi-os com pressa e adentrei a casa. O antigo escritório ficava logo à direita, e ali cheguei, analisando todas as estantes. A primeira vez em que estive ali, fora para um interrogatório gravado por Deanna. A mulher havia escondido a câmera Deus-sabe-onde pela casa, e nunca tive curiosidade de vê-la. Ainda mais depois de sua morte.

As estantes eram bem preenchidas, transbordando livros antigos. Alguns eram sobre psicologia, história e arquitetura. Procurando mais afundo, encontrei contos e romances. Deanna parecia colecionar livros de poesia, mas não era meu interesse, então passei a aprofundar-me nos romances. Ali encontrei um livro de capa roxa e escritos em dourado, com algumas gravuras esbeltas, então o peguei. "Vinte mil léguas submarinas", lia-se o nome.

Sentei-me no mesmo sofá onde Deanna havia se sentado quando fizera a entrevista. A coloração esverdeada sob almofadas macias parecia agarrar meu corpo e implorar para que ali ficasse. Abri o livro e um tanto de poeira subiu até minhas narinas, incomodando um tanto, então esfreguei as mangas escuras pelo nariz.

[...]

— O Governador… — Rick me encarou de relance, a claridade do sol batendo contra seu rosto. — Durante quanto tempo ele te treinou?

— Não me lembro bem — respondi, vasculhando memórias em minha mente. — Eu sei que já fui treinada antes de me tornar uma das guardas. Quase oito meses, creio eu. No total, foram mais de um ano.

O homem inclinou seu corpo contra o degrau antecessor, esticando as pernas e parando as solas de seus sapatos sobre a terra coberta de sangue que pingava das armas. O dia após o caos fora tranquilo, sereno. O sol brilhava, e, mesmo que não fizesse calor, ainda tornava a paisagem radiante a qualquer olhar nu. As pessoas que combateram naquela madrugada se espalhavam pela varanda e arredores, cobertas em sangue seco e suor. Minhas roupas não estavam na melhor das condições, ajustando-se ao padrão.

— Ele te treinou como cidadã ou como guarda?

Respirei fundo, olhando para as dobras de meus dedos, onde sujeira e sangue se misturavam em uma combinação grudenta. As palmas de minhas mãos estavam contornadas pelas manchas marrons e um tanto de sangue começava a secar logo abaixo de minha orelha.

— Treinamento intenso. Me treinou para ser uma máquina mortífera — suspirei e prossegui: —, não só eu, como todas as crianças de Woodbury.

— Onde estão essas crianças? — Perguntou-me ao olhar para o céu. Padre Gabriel estava logo ao meu lado, atento à conversa.

— Mortas.

Rick assentiu e passou a mão pelos fios suados em seu rosto, ajeitando-se sobre o degrau. Ajustei minha posição para ficar mais confortável contra o pilar, mas não surtiu em muito efeito.

— É uma pena que ele tenha tirado parte de seu desenvolvimento e pulado logo para a parte da maturidade — o homem torceu a boca, desviando os olhos dos meus.

— É. — Respondi ao me curvar sobre os joelhos. — É uma pena.

— Venha, vamos ver como Carl está.

[...]

Só percebi que estava por dentro da história quando notei que minhas pernas estavam em uma posição estranha e desconfortável e eu virava a página 52 para 53. Duas batidas soaram na porta. Olhei para o lado e encontrei um pequeno vaso com flores secas. Retirei uma dali e posicionei-a entre as páginas, para formar uma marcação, e então fechei o livro. Coloquei-o de lado e levantei-me, caminhando na direção da entrada. Girei a maçaneta e ali revelou o corpo de Rick, encostado à varanda.

— Oi — sorri e encostei o quadril no aro da porta, com os braços cruzados.

— Espero não estar incomodando.

— Não tem muito o que interromper por aqui…

O homem analisou a casa e caminhou pela sala de estar, olhando para o sofá onde eu estava sentada anteriormente. Rick apropriou-se do cômodo e sentou-se sobre as almofadas macias, colocando as mãos aos lados do corpo. Sentei-me na poltrona vermelha que ficava ao lado, não sendo tão confortável quanto o sofá. Rick, tinha em seu rosto, um olhar similar ao de preocupação que eu tanto conhecia em Carl.

— Está tudo bem? — Perguntei ao me ajeitar no encosto. — Quer uma xícara de café?

— Eu aceito — respondeu o homem.

— Desculpe, eu não sei fazer café.

O moreno soltou uma curta risada e pigarreou, em estado de recomposição da postura.

— Preciso te fazer uma pergunta, mas preciso de um juramento de confiança antes.

Seu olhar causou-me calafrios percorrendo toda minha espinha.

— Certo, minha boca será um túmulo.

— Bem — seus olhos banhados em azul desviaram-se dos meus. — Preciso de sua ajuda.

Congelei no mesmo instante.

— Minha ajuda? — Arqueei uma sobrancelha.

— O Governador deve ter te ensinado várias habilidades — observou o homem, parecendo notar que eu estava constrangida ao ouvir sobre o indivíduo. — Ele te ensinou a montar estratégias?

Notas finais
Espero que tenham gostado!