Why Me?
56 Capítulo 56 - Facts
Notas iniciais
Um dia tranquilo, dia de escola, rotina normal. Eu ainda estava escondida debaixo de minhas cobertas naquela manhã sem título. Podia escutar raros cantos de pássaros distantes, e me acomodava perfeitamente no calor do travesseiro.
— Bom dia! — minha mãe adentrou o quarto de modo rápido, já mexendo nas cortinas e retirando o cobertor de meu corpo.
Me contraí na cama, sentindo o leve frio bater em minhas canelas aquecidas.
— Vamos, preguiçosa, o café está na mesa — disse a mulher ao se retirar do quarto.
Me levantei de imediato. Era sexta-feira e eu odiava chegar atrasada. Achei uma camisa cinza e um short jeans, o qual eu achava que combinava com qualquer tipo de roupa. Coloquei minhas sapatilhas e deixei meus cabelos soltos caírem ondulando pelos meus ombros. Espreguicei-me e saí do quarto, caminhando pelo corredor enquanto via a figura masculina que eu tinha de lidar todo dia.
— Credo, um ganso fez ninho no seu cabelo? — era meu irmão, Lucas.
— Pra um garoto de 18 anos, você ainda tem mente de 10 — disse enquanto descia as escadas.
Lucas sempre foi um garoto bonito. De cabelos curtos e sempre com um topete jogado para o lado. Naquele dia, ele vestia a camisa de uma de suas bandas favoritas na coloração azul escuro, com gola V, o que deixava à mostra o colar de amizade que usava com sua melhor amiga, a Abtry. Era em forma de uma palheta.
Ao chegar na cozinha, senti o cheiro maravilhoso de waffles frescos e suco de maracujá, o meu favorito. Minha mãe mexia num envelope azul que estava sobre o balcão enquanto eu e meu irmão nos sentávamos sobre os bancos.
— É a herança de sua avó — estendeu o braço, me entregando o presente.
Minha avó havia morrido há alguns poucos meses atrás. Sempre tive muito afeto por ela, e tinha uma paixão por seu colar de cruz com pedras vermelhas. Eu tinha uma prima que passava pouco tempo junto de nossa avó, mas essa garota só esperava a morte da mulher porque sabia que ficaria com boa parte do dinheiro, enquanto eu ficaria com o colar.
Eu abri aquilo sem piedade. Estava tão ansiosa que era difícil rasgar o embrulho. E lá estava “o” presente.
Manuseei a joia, colocando-a em meu pescoço. Ficou certo entre as clavículas, e caiu muito bem. Lucas estava batucando os dedos na mesa enquanto escutava música no fone de ouvido, recebendo um olhar raivoso de minha mãe.
Minha mãe era linda demais. Seus cabelos quase avermelhados chegavam até o pescoço, sendo interrompidos pelo corte. Os olhos eram quase azuis, iluminados por sua característica de mais valor: a esperança. Tinha alguns traços de latina herdados de sua nação, assim como eu. Na verdade, eu nasci no México e me mudei para os Estados Unidos com 6 anos. Meu espanhol era fluente e os traços eram fortes.
Notei que estava atrasada para a escola e agradeci mentalmente por morar perto. Engoli o waffle e tomei o que restava do suco, saindo da cozinha e subindo ao banheiro para escovar os dentes. Dei uma ajeitada no colar e no cabelo e desci rapidamente. Lucas já estava com a mochila pendurada em um ombro, logo saindo de casa. O segui até seu carro e entrei no banco do passageiro. Eu sempre ia de carona com meu irmão. E todo dia, não conversávamos durante todo o percurso.
Ao chegar, me deparei logo com Mia, que estava parada na frente do prédio, sorrindo. Desci do carro silenciosamente, sem falar com Lucas, e caminhei até a garota e sorri de volta.
— Ei! — Ajeitou a franja ruiva. — Que cara é essa? Hoje é sexta-feira.
— E eu estou na escola.
— Você tem que ser mais otimista. Quais seus planos para amanhã? — Disse enquanto caminhávamos adentro.
— Ficar em casa fazendo nada — falei enquanto esboçava um sorriso de canto.
Naquele momento, encontramos as garotas que mais odiávamos na escola. Gabrielle e as duas morenas imbecís que a seguiam para todo canto. Elas sempre riam de nossa cara quando tinham oportunidade. Seu ódio devia ser por toda a escola, mas ela tinha um motivo para ter esse sentimento por mim.
— Bom dia, meninas — sorriu Gabrielle enquanto ajeitava o cabelo. — Que cara é essa, Mari? Parece que comeu e não gostou.
— Com licença — falei enquanto desviava do grupo junto de Mia.
— Alguém precisa de um consultor de moda. Parece que esqueceu de tirar o pijama — riu enquanto saía caminhando apenas com o som dos saltos estalando no piso.
Mia agarrou em meu braço quando viu que eu hesitei em me virar para as garotas. Me encarou olho-a-olho e arqueou as sobrancelhas.
— Não vale a pena.
Dei de ombros e segurei a alça da bolsa transversal com força. Mia se despediu de mim e caminhou para seu armário que ficava no fim do corredor. Eu fui até o meu que ficava ao lado, virando o corredor. Coloquei a senha e puxei o cadeado, pegando os livros que usaria no dia. Os cadernos eu levava na bolsa.
Dei de cara com Andie, o garoto por quem eu fui afim por três anos inteiros. Tudo nele me agradava, por mais que Mia achasse que era perda de tempo. Mas não conseguia resistir àqueles cabelos perfeitos no tom de ouro e seus olhos verdes reluzentes. Naquele momento, ele sorria enquanto sua boca balbuciava várias palavras das quais não captei uma sequer, mas ele falava comigo. Só consegui prestar atenção em seus lábios rosados.
— Você vai? — Disse por fim, me fazendo voltar a ter a mente em órbita.
— Desculpe, o que?
— À festa de Riley, você vai?
— Ah... não fui convidada. — Disse eu, ainda sorrindo.
— Entendo.
— É...
Aquela fora uma das únicas vezes em que eu havia conversado com ele antes dele começar a namorar Gabrielle. A outra vez foi quando falamos sobre como os peixes do aquário do laboratório eram engraçados.
Ele acenou para mim e logo foi embora, caminhando em direção ao laboratório.
Tive várias aulas, mas a última era uma das únicas que fazia com minha melhor amiga.
Fui para a aula de biologia e nossa tarefa era dissecar um sapo. Minha parceira era Mia. Mia não era aquele tipo de pessoa que se importava em usar as roupas e os cortes de cabelo da moda. Ela sempre usava o cabelo do mesmo jeito, longo e ondulado. Os fios eram loiro-avermelhado e naquele dia ela usava um lenço de bolinhas brancas com azul para separar sua franja. Eu invejava a garota. Não pela aparência, mas pela boa personalidade.
A ruiva cutucou a barriga do sapo com o bisturi e eu quase vomitei. Virei para o lado e vi Andie com Gabrielle e senti a famosa sensação do peito doer.
Assim que o sinal tocou, eu peguei minha bolsa e saí do local.
— Preciso ir ao banheiro — Mia me puxou.
Caminhei junto da garota que agarrava meu pulso. Fomos em direção ao banheiro, mas as pessoas que ocupavam os espelhos não eram de bom agrado.
— Precisam de maquiagem? Talvez conserte o circo de horrores que vocês chamam de rosto — Gabrielle terminou de aplicar o batom e sorriu para mim pelo espelho.
— Vocês não cansam de esnobar os outros? — Mia cruzou os braços, já sem paciência.
— Temos o direito. Não somos nós que não mudamos o corte desde a segunda série — Liza, a amiga de Gabrielle, soltou uma risada abafada ao fechar o pó.
— Pelo menos não usamos quilos de maquiagem — Murmurei.
— Espero que torçam suas perninhas de mosquito com esses saltos — Mia fez uma cara ironicamente triste.
As meninas saíram esbarrando em nós, deixando apenas o forte cheiro de perfume fino no ar. Mia olhou para mim e começou a rir, e eu ri no embalo.
Assim que eu e Mia saímos, demos de cara com Riley, que sorriu ao nos ver. Riley era uma garota morena baixinha da nossa série. Ela dava grandes festas e tinha sua popularidade por isso.
— Mia! — Cumprimentou-a. — Você tem compromisso amanhã?
— Hm, não... — disse a ruiva ao olhar para mim.
— Bem... Vai ter uma festa em casa amanhã. Você sabe onde é? Ou vou ter que passar o endereço?
— Não precisa. Eu sei aonde é — falou de modo sem graça, ainda me lançando rápidos olhares.
Fiquei um tanto sem jeito naquela situação. A garota estava convidando Mia e eu estava do lado dela. Logo ao lado!
— Vejo você lá então — piscou com um olho e saiu.
— Isso foi estranho — disse eu ao ver a garota sair. — Você vai?
— Acho que não. Como ela foi capaz de fazer isso?
— Isso o que?
— Não te convidar na sua frente?!
— Já me acostumei, Mia. Você sabe que não é a primeira vez.
— Mas logo a Riley... — Mia bufou enquanto torcia a boca. — Eu realmente não esperava isso dela.
— O que vai usar amanhã? — Segurei suas mãos.
— Não vou só por protesto. Ao menos que... — lançou o sorrisinho que dizia muita coisa. — Você vai comigo.
— Nem se eu fosse convidada eu iria.
— Mas por que?
— Porque minha mãe nunca deixaria eu ir à uma festa desse porte — falei ao cruzar os braços.
— Ah, qual é! Seu pai nunca está, seu irmão provavelmente vai ensaiar com a banda, sua mãe... A gente consegue!
— Se você conseguir convencer minha mãe, viro sua escrava pessoal.
— Prepare-se para receber minhas ordens — piscou com um olho e rimos juntas.
Caminhei até a saída junto da ruiva. O local era cheio de árvores com grandes muros de concreto. Mais à frente, ficava um homen que vendia sorvete toda manhã. Procurei dinheiro em minha bolsa para comprar um, e achei três reais mais umas moedas.
— Dá pra comprar dois — resmunguei.
Mia sorriu e fomos até o carrinho. Notamos que o vendedor estava vermelho e tossia sem parar, algo muito estranho, pois ainda não era inverno e o tempo não estava seco.
— Um de limão e um de uva – pedi para ele, já sabendo que o sabor favorito de Mia era uva.
Ele abriu o carrinho e procurou por dois picolés dos sabores pedidos, nos entregando. Eu os peguei cuidadosamente e dei um deles para Mia. Assim que eu abri os saquinhos, o vendedor voltou a tossir forte e começou a vomitar. Eu e Mia ficamos pasmas com a situação. Ela segurou meu pulso e me puxou para longe, o que eu a agradeci mentalmente por ter feito.
— Melhor jogar os picolés fora. Não estou com um bom pressentimento — jogou seu sorvete na lixeira mais próxima.
Fiz o mesmo, olhando de relance ao homem que estava com as mãos apoiadas sobre os joelhos, gorfando um líquido de coloração negra, como se fosse sangue escuro.
— Vamos para minha casa — falei.
— Claro — disse a ruiva enquanto caminhava em direção à rua que levava até minha casa.
— Ei, mas e o Lucas? — Lembrei-me.
— O que tem ele?
— Ele sempre me leva para casa de carro.
— Seu irmão tem 18 anos já. Ele sabe se virar.
— Mas...
— Você tem que parar de ser tão certinha, Mari.
Ainda com um pouco de ressentimento, segui a menina e saímos andando juntas. Não demorou muito para avistar a chaminé na minha casa entre as árvores. Caminhamos mais um pouco, logo adentrando o lugar.
Minha mãe estava sentada no sofá, logo na sala ao lado da entrada. A TV mostrava imagens de pessoas correndo ou pessoas tossindo sem parar e minha mãe parecia pasma com a situação.
— Oi, mãe — falei fazendo-a desviar o olhar da caixa de notícias trágicas.
— Olá, Sra. Pacheco — Mia tentava ser o mais comportada possível.
— Vendo o que? — Perguntei.
— Um noticiário. Estão falando sobre uma doença. Um vírus global — ela disse e então tocou seu coque desajeitado.
— Ah... Legal — respondi logo puxando Mia para meu quarto.
Subimos as escadas e adentramos a primeira porta, que era a que dava para meu quarto. Assim que entramos, me joguei na cama e ela se sentou no chão, pegando seu celular.
— Quando vai pedir? — Perguntou-me.
— Pedir o que?
— Não se faça de desentendida! — Sorriu cinicamente. — Sobre a festa.
— Ahn...
Antes de poder responder, a porta do meu quarto se abriu em um barulho alto, do qual me fez pular na cama.
— Mari! Sua idiota! — Lucas estava vermelho de raiva. — Me fez esperar por meia-hora na frente do seu colégio! Você tem noção do quão besta você é?
Mia apenas o fitava enquanto ele fazia uma expressão de fúria.
— Desculpe...
— Você não presta — saiu bufando.
Encarei Mia de um modo um tanto como "eu avisei".
— Bem... Vou indo então. Até! — A ruiva falou saindo de meu quarto logo em seguida.
Soltei uma leve risada e vi a garota se retirar. Afundei meu rosto em um dos travesseiros e respirei fundo, pensando no que eu poderia fazer amanhã para não passar tédio. Analisei o quadro de fotos na parede acima da escrivaninha. Havia uma foto minha e de Lucas quando éramos crianças. Ele estava pescando naquele dia e eu caí no lago. Tinha também a foto do meu aniversário de seis anos, onde meu vestido estava manchado com glacê por causa de um pequeno incidente. Longa história.
Esperei um pouco e logo desci as escadas. Encontrei Lucas reclamando sobre ter esperado tanto tempo em frente à escola e minha mãe olhando para o teto, como se estivesse cansada de ouvir sobre as reclamações.
— Mãe, Mia me chamou para ir com ela à uma festa. Posso? — Falei quase gaguejando.
— Não é o de Riley, é? – Lucas perguntou.
— Como você sabe?
— Ela chamou minha banda para tocar lá.
— Não — disse minha mãe por fim.
— Mas por que?
— Você não vai. — Concluiu a morena.
— Qual o problema? — Insisti.
— Você ainda é nova, Mari. Não quero que seja influenciada por essas coisas.
— Mãe... – Choraminguei.
— Já disse que não — ela se virou para a TV novamente.
Com a cabeça fervendo de raiva, subi as escadas de volta ao meu quarto. Lucas subiu atrás de mim e me puxou pelo pulso, virando-me para ele.
— Você quer mesmo ir, né?
— Muito.
— Fui proibido de ir também. Ela não quer falar, mas não quer que você saia com esse vírus por aí. Sabe como ela tem neurose com vírus e doenças...
— Então você não vai?
— Não.
— Às vezes, ela podia parar de ser tão protetora.
— Não diga isso, ela só quer ser uma boa mãe — disse e começou a apertar minha barriga. — Agora vá dormir que amanhã vou levar você para jogar Paintball.
Eu adorava jogar Paintball. Ainda mais com Lucas, eu sempre ganhava dele. Era uma tradição jogar aos sábados, meu pai que havia dito. Então jogávamos para treinar as miras e nos tornávamos cada vez mais habilidosos na brincadeira.
Adentrei o quarto, deitei na cama e me cobri. Foi meio difícil de cair no sono com tantos helicópteros rondando a cidade, e por ser começo de tarde também. Mas o barulho das hélices era insuportável, pois a cidade era calma demais para tanta bagunça.
E no final, com tantos pensamentos, acabei adormecendo.
[...]
— Mari, não se assuste — Lucas disse calmamente ao me balançar na cama. — Pegue algumas roupas e as coloque em uma mochila. Leve coisas significativas para você... Ou sei lá.
O garoto começou a se afastar enquanto nossos olhos se encontravam, compartilhando o susto.
— Mas o que está acontecendo? — Perguntei, confusa. — Que horas são?
— Sem perguntas, Mari. Por favor — saiu de meu quarto tremendo. — Finja que é uma viagem de acampamento e leve somente o necessário.
— Me explica isso, Lucas — tentei chamar, mas ele já havia adentrado seu quarto.
Levantei-me da cama com a mesma roupa que usei na escola. Olhei pela janela e notei que o céu estava em uma briga decisiva com a claridade para descobrir se era noite ou tarde. Caminhei até o armário, onde eu guardava uma mochila que costumava levar em viagens. Peguei-a e comecei a guardar algumas roupas das quais mais gostava. Algumas fotos de meu quadro, uns lápis e algumas folhas de papel dobradas. Levei dois livros que eu não havia acabado ainda e mais dois que amava. O colar já estava no pescoço, então já bastava.
Desci as escadas correndo e encontrei minha mãe na porta da garagem, apressando Lucas. A mochila estava pendurada em um ombro e eu observava a cena, sem entender absolutamente nada.
— Pegue uma garrafa d'água e o que couber de comida enlatada — minha mãe ordenou ao notar minha presença.
Corri até a cozinha sem pensar e comecei a coletar tudo que me fora mandado. A água coloquei no bolso da frente, para não molhar as roupas. Os enlatados coloquei em outra sacola, a que eu achei pendurada na pia. Meu celular tocou em seguida.
— Alô? — Atendi enquanto ajeitava a comida.
— Mari? Fique em sua casa! — Era Mia.
— Por que?
A ligação caiu e eu estranhei. Me perguntei o porquê dela me ligar pedindo para ficar em casa enquanto minha mãe me queria fora. Voltei meu olhar para a janela observando os helicópteros rondando com as luzes ligadas. Só então notei que eram helicópteros militares. Toquei meu colar.
— Mãe, o que está acontecendo? — Perguntei, já mais assustada que antes.
— Vamos para Atlanta — afirmou com um tom sombrio, porém, agitado.
— O que? Mas...
— Sem perguntas, filha. Entre no carro — ela ordenou e assim, abriu a porta da garagem.
Eu raramente entrava naquele cômodo. Era apenas um local para guardar ferramentas ou coisas das quais eu nunca usaria novamente. Tinha o skate velho de Lucas, minhas cordas de pular, pantufas velhas de meus pais, entre outras coisas.
Entrei no banco de trás da minivan e Lucas sentou-se no banco do passageiro. Minha mãe jogou o resto das mochilas no porta-malas e entrou no carro, abrindo a garagem. Dava pra ver as luzes dos helicópteros rondando a rua enquanto carros saíam de suas garagens rapidamente e as casas pareciam estar movimentadas. A casa da frente estava com todas as luzes acesas e era possível escutar os gritos dali. Ordens ou terror.
Passamos pela rua da escola e fiquei analisando o local, com certo ódio de ter que voltar para lá depois de dois dias.
Minha mãe freou o carro após umas colisão.
— Ah meu Deus! — Tirou as mãos do volante.
— Você atropelou alguém! — Gritou Lucas.
— Desça do carro e me ajude com esta pessoa — minha mãe ordenou, removendo uma mecha de cabelo do rosto.
Observei os dois fechando as portas do automóvel e olhando para o chão. Minha mãe colocou as mãos sobre a boca e pareceu querer chorar. Lucas gritou com ela e fez sinal de que era para ajudá-lo. Então, ele pegou a pessoa no colo e levou para o meu lado. Abriu a porta do carro e deitou o corpo com a cabeça em meu colo. Era Mia.
— Você atropelou a Mia! — Gritei. — Ela está viva?
— Cheque a pulsação — Lucas sugeriu enquanto ajeitava a camisa.
Toquei seu pescoço e senti as batidas do coração. Ela só estava inconsciente. Senti uma onda de alívio me atingir.
— Está acabando a gasolina — minha mãe afundou a cara no volante, fazendo minha felicidade esvair.
— Ali tem um posto — Lucas apontou para a esquina.
Minha mãe dirigiu até lá e descemos do carro assim que chegamos. Era um local que parecia bem mal-cuidado, como se estivesse fechado há 15 anos.
— Fiquem aqui — Minha mãe desceu do carro.
Assim que ela avistou alguém de uniforme do posto, tocou seu ombro para chamá-lo. O homem de meia-idade se virou, e com apenas a luz da loja de conveniências, pude ver sua face. E não era agradável. Parecia que havia arrastado o rosto no asfalto. Dava para ver alguns ossos do maxilar. E seus olhos... Tive certeza de que não esqueceria daquela cena tão cedo. A boca podre pendeu no delicado pescoço de minha mãe, e ao afastar-se, levou um pedaço junto. O sangue jorrava e eu não conseguia processar nada daquele momento.
Minha primeira reação foi a pior. Gritei com todas minhas forças. Tentei correr em sua direção, mas Lucas me segurou. Outros homens e mulheres como aquele se aproximaram e se juntaram ao banquete.
Eu chorava sem parar e Lucas me segurava, contendo as lágrimas.
— Rápido, Mari. Leve Mia para aquela caminhonete! — Ele apontou para o automóvel estacionado por perto.
Eu e ele pegamos Mia e a carregamos até o carro. O caminho que usamos desviava da rota do show de horrores. Lucas encontrou as chaves no para-brisa e ligou o carro. Havia gasolina, por sorte.
Assim que começamos a viajar novamente, ficamos quietos, sem uma palavra sequer. Até que eu resolvi quebrar o silêncio:
— E a mamãe?
Notei que ele lutava com algumas lágrimas que queriam descer pelo percurso de suas bochechas finas.
— Não tem mais volta — concluiu.
[...]
— Mari! — Alguém me chacoalhava em minha cama e eu acordei assustada.
Olhei para cima, encontrando os olhos azuis de Carl, que estavam agitados de certa forma. O garoto estava em cima de mim e logo, o derrubei na cama, posicionando-me acima dele. Foi o reflexo de luta, que aprendi anteriormente, então ele não podia me culpar pelo reflexo.
— Desculpe — disse ele ao levantar as mãos. — Não quis te assustar.
— Não me acorde assim, Carl — enxuguei o suor de minha testa e tirei minhas pernas de seu corpo. — Não estava tendo bons sonhos.
— Sobre o que eram? — Ele perguntou, agora olhando fundo em meus olhos. — Você estava tremendo e suando.
— Você sabia de algo sobre minha família?
— Você costumava citar sua mãe e seu irmão, mas nunca disse nada sobre seu pai — disse ele. — Por que?
— Sonhei com eles. E mais uma garota ruiva, Mia, acho.
— Eu me lembro dela. Ela morreu na floresta — disse ele, fazendo um olhar de confuso.
— Parecia o início do apocalipse — falei e suspirei fundo. — Eu não me lembrava daquilo, Carl. Foi desesperador.
— Você sonhou com mais alguma coisa? O Governador, Woodbury…?
— Não. Só o primeiro dia — falei e chacoalhei a cabeça. — Por que queria me acordar?
— Eu precisava te chamar — ele disse ao se sentar na cama. — Meu pai está saindo do ar.
— De novo?
— Sim.
Levantei-me da cama e troquei a minha camiseta cinza por uma regata branca, e como havia dormido com os shorts, continuei com eles. Apenas calcei minhas botas e olhei para ele, que se levantava da cama. Ainda não era fácil vê-lo com roupas diferentes o tempo todo. Estive acostumada com sua camisa velha da Atomic Paw que mal conseguia pensar nele sem ela.
Ele saiu do quarto e eu o segui, caminhando para fora da casa, onde Deanna não estava presente. Nem Reg. Nem Spencer. Não era muito normal eles estarem fora, ainda depois da morte de Aiden, que fora pego pelos errantes em uma busca de suprimentos. Estavam em pleno luto.
Estávamos calmos até ouvirmos um barulho de vidro se quebrando.
Carl começou a correr e eu também, na direção do som. Quando chegamos mais perto de onde o efeito sonoro havia sido efetuado, encontramos uma multidão e duas figuras no chão.
Errantes, foi a única coisa que consegui pensar.
Mas quando nos aproximamos, vimos algo que nunca pensaríamos. Rick estava lutando com Pete, o pai de Ron. Os dois rolavam no asfalto, com sangue escorrendo por todo o rosto. A esposa de Pete tentou interferir, e separar a briga, mas logo levou um soco bem na bochecha e caiu para trás. Carl estava com a pior expressão que eu já podia ter visto. Ele parecia totalmente assustado, como se aquele não fosse seu pai, e sim um estranho que havia possuído seu corpo. Um hospedeiro totalmente diferente daquele homem.
Ele decidiu que estava na hora de interferir e correu na direção da briga, puxando seu pai, dizendo que era suficiente, mas acabou sendo empurrado para trás também, caindo perto de mim. Ajudei-o a levantar-se e ele parecia querer chorar agora, sabendo que seus pensamentos estavam corretos. Não o culpava, eu faria o mesmo.
Corri na direção da briga e tentei puxar Pete, mas acabei como todos os outros que tentaram impedir aquele acontecimento: levei um soco no estômago. Caí para trás, sentindo meus órgãos internos doendo como se estivessem derretendo lentamente. Minha visão ficou turva, e Carl agachou-se ao meu lado, segurando minhas costas.
Não demorou muito para me recuperar e ver Rick apontando uma arma para todos ali presentes, questionando diversos fatos e falando sobre a segurança temporária que eles tinham ali dentro. Desejei ter o escutado, mas não consegui associar muito bem suas palavras. Carl continuava segurando minhas costas e passando a mão na região de meu estômago, como se fosse para me ajudar, mas doía ainda mais.
Michonne apareceu do nada e socou a lateral da cabeça de Rick, fazendo-o cair para o lado, inconsciente, e eu me assustei. Não era possível que ele estivesse falando tanta merda à ponto daquilo. Carl olhou para frente, e acabou apertando meu estômago, e eu gritei de dor para que ele notasse. Logo, afastou sua mão de mim e correu na direção de Rick, tocando o rosto do pai.
— Por que você fez isso? — Reg perguntou, agora se aproximando do homem.
— Rick precisa de um descanso — Michonne disse. — Me ajudem a leva-lo para casa.
A morena e mais algumas pessoas pegaram os dois homens e começaram a leva-los para suas devidas casas. Carl voltou até mim e ajudou-me a ficar de pé.
— Vamos — disse ele, segurando em minha cintura, tomando cuidado para eu não cair.
— Para onde?
— Casa. Precisamos cuidar de meu pai.
Assenti e o segui até a casa onde ele estava morando agora, junto do povo da prisão. Não era muito longe dali, então foi uma caminhada rápida. Quando Carl abriu a porta, notou o movimento que se estendia ali dentro. Todos cuidavam de Rick, que estava deitado sobre o sofá, e Carl me colocou sentada em uma cadeira da sala de jantar, logo correndo na direção dos outros adultos que ajudavam o homem desacordado.
Eu fiquei observando todo o movimento. Vendo cada pessoa ajudando em algo. Senti-me inútil por apenas estar ali, sentada. Logo o movimento acabou e cada pessoa foi procurar outra coisa para fazer, deixando apenas Carol para olhar o grande homem. Carl saiu da sala e caminhou até a cozinha, sentando-se na cadeira ao meu lado. Virei-me para ele.
— Eu não entendo — disse ele.
— Muito menos eu. O que ele disse depois de eu levar um soco?
— Coisas — Carl pareceu pensativo e preocupado. — Falou sobre os muros, que eles não aguentariam. Disse que as pessoas daqui fingem que o mundo afora não existe.
— Mas é verdade, Carl — falei enquanto posicionava os cotovelos na mesa. — Seu pai estava certo.
— Não, Mari. Ele não estava certo — Carl disse em um tom mais alto, agora parecendo um tanto irritado, mas continuei.
— Você viu alguma pessoa daqui falando sobre armas ou agindo com preocupação? — Continuei com meu argumento, observando sua sobrancelha arquear-se. — Os muros não vão aguentar por tanto tempo. Nós vivemos, fazemos barulhos. Barulhos atraem errantes. Errantes em acúmulo derrubam estes muros.
— Então você está concordando com meu pai? — Ele praticamente cuspiu as palavras, com indagação na voz.
— Sim. Ele só disse fatos.
Carl virou seu rosto para a janela, me ignorando. Tudo que eu fiz foi colocar minhas mãos sobre sua bochecha e forçar um sorriso, acariciando a pele.
— Ei — chamei-o. — Relaxe. Tudo vai ficar bem. Com os muros, ou sem os muros.
Ele virou-se para mim, agora sorrindo. Sorri de volta.
Eu era inocente. Falei sem saber o que poderia ocorrer.
E ocorreu.
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