Why Me?

54 Capítulo 54 - Welcome back


Carl acariciava meus cabelos logo embaixo da cobertura vaga da árvore. Minha cabeça estava colada ao seu peito. Ele não era mais o mesmo do mundo afora. Seu cabelo parecia lavado, sem marcas de sujeira no rosto e sem sangue em mãos. Sua faca não estava consigo e a arma também não, imaginei que tivessem confiscado, como fizeram comigo. Suas vestes eram outras, mas não saindo de seu estilo original. Ele ainda vestia uma camisa xadrez, mais escura que as outras que eu costumava ver, e seus jeans eram novos. Deve ter conseguido quando chegou em Alexandria. E ele não usava o chapéu também. Me perguntei onde estaria.

A noite era calma, com uma simples luz da lua iluminando as folhagens cheias da árvore. Mal podia ver o corpo de Carl, mas ainda assim, conseguia ver o reflexo da lua em seus olhos cheios de vida. Lembrei-me rapidamente de quando me lamentava pelo perdão dele, na banheira de uma casa qualquer, junto de Khalil... Ah, Khalil... queria ter lhe dado o mesmo amor que ele me deu, mas não consegui. Senti meu estômago se revirando só de pensar que o garoto morreu pensando que eu o amava.

Mas Carl estava ali, e tudo estava bem. Ele me abraçava forte, fazendo uma dança com seus dedos em meus cabelos. Minha mão pousava sobre seu peito que se movia de acordo com sua respiração. Me fazia bem ficar ali, pois assim sabia que ele estava vivo, e sem perigos para correr. Sem problemas.

— Quando você voltou para a casa, eu e Chris aguardamos um pouco. Logo, Chris correu para a casa, para te procurar, mas disse que apenas ouviu um grito e não te achou. Procurei-te por todo o perímetro, mas ainda assim, o único rastro seu que cheguei a ver foi o colar — toquei meu pescoço quando ele disse isso e senti as pedrinhas de rubi entre meus dedos. — Vi um garoto também, era alto, parecia mais velho. Usava uma camisa vermelha e corria.

Carl suspirou e parou de mexer em meus cabelos, o que me fez inclinar meu rosto em sua direção. Analisei sua expressão de tristeza e esperei a pausa acabar para ele acabar de contar a história.

— Tentei ir atrás, mas acabei perdido no caminho, então apenas voltei junto de meu pai e Michonne. Voltei a encontrar o mesmo garoto em um mercado, onde entrei junto de meu pai, para procurar suprimentos. Meu pai estava do outro lado, então ele não viu que o garoto me atacou. Ele pulou em cima de mim e começou a socar meu rosto — tocou sua bochecha, como se ainda sentisse dor. — Eu esfaqueei-o, mas não vi onde. Só o vi parar no chão, com as mãos em forma de rendição. Ele contou sobre você, e disse que havia te visto, e que estava segura. Pensei que não deveria incomodá-la, então dei a ele seu colar, e ele guardou e fugiu. Depois que foi embora, pensei que você poderia estar sendo torturada, ou sequestrada... aí quis voltar atrás, mas não encontrei nada, e fui parar no terminus.

— O que ocorreu depois do terminus?

— Tudo piorou. Não tenho detalhes para entrar, só piorou.

— Sinto muito.

— Eu também.

Posicionei minha cabeça novamente em seu peito, sentindo sua respiração forte. Carl parecia em paz naquele momento. Tão em paz que eu não me senti bem-vinda àquele cenário que se estendia ao nosso redor. Mas não podia sair, pois também imaginei que sua paz vinha de mim. Então só relaxei e curti o momento. Carl logo puxou meu queixo em sua direção, para mostrar a si mesmo, meu rosto. Sorri de canto enquanto seus olhos estavam mudando de direção frequentemente, analisando toda a extensão de minha face. Posicionou um beijo em minha testa e outro nos lábios. Movi as minhas mãos para seu rosto, dando continuação ao beijo que durou quase três movimentos. Quando o garoto se afastou de mim, soltou um riso abafado pela boca fechada e encostou sua testa à minha, assim ficando durante o resto da noite.

Quando vimos que alguns convidados estavam saindo da casa, Carl resolveu que deveríamos adentrar o local, para que ninguém sentisse falta de nossa aparição. Então caminhamos lado a lado, mas sem qualquer demonstração de afeto. Rick ainda não era um grande fã meu. Assim que chegamos à porta, ele fez um sinal e foi para outro canto da casa, enquanto eu caminhei em direção à Deanna, que fez questão de me apresentar à alguns dos moradores da comunidade. Sorri gentilmente e andei até a cozinha, para pegar alguns dos petiscos disponibilizados aos convidados.

— Você está de volta — ouvi uma voz suave soar logo atrás de mim e quase engasguei com o patê que estava engolindo.

Olhei para trás e vi aquela mulher que também era da prisão, Carol, creio eu. Ela também não gostava de mim. Estava de braços cruzados, encostada ao aro da porta, com o olhar fixo em mim. Analisou-me de cima para baixo e sorriu levemente.

— Nunca morre, não?

— Ainda não — respondi, terminando de engolir a torrada.

— Carl já sabe que está aqui? — Perguntou, descruzando os braços e pegando uma torrada com patê também.

— Talvez.

— O pai dele talvez não goste disso também. Já que você não se demonstrou de muita confiança.

— Eu lutei pela minha sobrevivência, só isso — concluí. — Assim como todos que ainda estão vivos por aí. Assim como você também deve ter feito.

A mulher ficou em silêncio durante alguns segundos, mas sem mudar sua expressão. Ela não era uma ameaça, mas também não parecia uma pessoa para confiar. Cheguei mais perto dela e sorri com o sarcasmo estampado em minha face.

— Vai me dizer que nunca matou ninguém?

— Sei onde quer chegar com isso. Não vim aqui para te encher, mas sim, para te avisar — a mulher olhou em meus olhos e pude ver que não havia mal algum nela. — Você sabe a discórdia que está para vir.

Fiquei quieta desta vez, pois tudo que ela disse fora verdade. Eu sabia muito bem o que ocorreria, e sabia que ela não falava apenas de Rick. Mas também sabia que parte de tudo seria culpa dele, pois o mundo afora tornava as pessoas insanas. Infelizmente.

— Cuidado, Mari.

— Sempre — respondi e deixei o cômodo.

Andei em direção à sala de estar, onde encontrei Carl conversando com Ron e Mikey. Enid não estava por ali, e não havia a visto depois de ter saído com Carl. Agradeci aos céus por ela não estar mais presente na festa. Olhei mais uma vez para o trio e notei que Carl me encarava com um sorriso no rosto, mas não veio até mim. Mas Ron veio.

— Você tem que entrar na aposta, Mari — disse e puxou-me pelo braço, em direção aos outros dois garotos.

O sorriso no rosto de Carl sumiu durante alguns segundos, antes de aparecer novamente. Imaginei que fosse por ciúmes, mas ele sabia que Ron não era nada mais que um amigo. Amigo. Isso soa tão estranho. Não me era comum fazer amizades em finais de mundo. Quando me aproximei dos outros, Ron soltou meu braço e Carl olhou para mim sem qualquer sutileza, exibindo seu sorriso mais uma vez. Abaixei meu rosto, tímida, com o sorriso também estampado em meus lábios. Ron analisava a cena e já devia ter percebido o que havia ocorrido ali.

— Onde está Enid? — Perguntou Mikey.

— Ela foi para sua casa. Não gosta de festas — Ron respondeu e me encarou com um sorriso malicioso. — Mari também parece não gostar, já que esteve ausente em grande parte.

— Eu estava tomando um ar — disse e notei que Carl estava com as bochechas avermelhadas.

— Bem, mudando de assunto, a aposta consiste em quem ficará bêbado primeiro — disse Ron.

— Não podemos pegar as bebidas, Ron — Mikey protestou.

— Não entre nós — o garoto sorriu com um ar despojado. — Os adultos. Façam suas apostas.

— Meu pai — Carl sorriu e olhou para a sala.

— Deanna — Mikey estalou os dedos, como se mostrasse que já havia ganhado.

— Meu pai também — Ron sorriu e colocou a mão em seu bolso. — Mari?

— Vou ficar de fora.

— Hm, ok. Aposta valendo.

Havia um sofá logo atrás de nós, então eu sentei-me nele, vendo Carl sentar-se ao meu lado. Ron sentou-se na outra ponta e Mikey posicionou-se na poltrona. Coloquei minhas mãos fechadas sobre meus joelhos, olhando para o lado através do canto dos olhos. O jovem dos fortes olhos azuis me encarava sorridente, e eu sorria de volta.

— Vocês vão ficar nisso a noite toda? Céus — Ron soltou uma risada curta e me fez corar.

Olhei para o louro de relance, mas lhe lançando o pior de meus olhares. Carl também não parecia muito feliz com os comentários de Ron, e levantou-se do sofá, caminhando até a varanda. Esperei alguns segundos, até Ron distrair-se com algo do outro lado da sala, e levantei-me também, indo em direção ao moreno. Cheguei à varanda e sentei-me na cerca, ao lado de Carl. Pensei em comentar sobre seu pai, ou sobre qualquer outra coisa que estava me perturbando, mas resolvi ficar calada, quando ele tocou minha mão.

— Você está linda — disse ele. — Não como antes, mas agora parece mais iluminada. Não sei dizer o que mudou.

— Hm, obrigada. Você... também.

— Meu pai vai ficar feliz em saber que está de volta.