Why Me?
55 Capítulo 55 - Future
Os outros dias passaram como um tiro, rápidos e silenciosos. Eu e Carl nos encontrávamos sempre abaixo da árvore do parque. Conversávamos longamente até o escurecer, onde nos despedíamos e voltávamos para nossas casas. Comecei a interagir mais com Deanna e os moradores. Soltava sorrisos ingênuos e comentários agradáveis sobre os outros. Rick, o pai de Carl, continuava a me olhar da mesma maneira de quando nos vimos da última vez, com ódio. Meu passado fora cruel comigo, e tenho vergonha de dizer que ele já me fora um presente. Eu tentei ao máximo muda-lo e comecei a crer que estava dando certo. Eu sequer sentia falta da arma ou da faca que guardava.
Naquele momento, eu estava subindo as escadas para meu quarto, logo após cumprimentar Reg, que desenhava algo na cozinha. Meus passos eram rápidos e delicados, o que não causava barulho algum, algo que aprendi a fazer do lado de fora dos muros. Cheguei ao quarto e repousei sobre a cama, olhando para o teto. Logo, pus-me sentada e analisei a janela, onde notei um papel quase caindo da madeira. Corri para pegá-lo e notei a letra à mão horrorosa e só podia ser de Carl. Sentei-me novamente na cama e abri a “carta”. Nela, Carl havia escrito algo sobre eu ir para a casa dele ao invés da árvore, e abaixo, havia algumas palavras adicionais que não consegui interpretar.
Saltei da cama no mesmo momento, descendo as escadas sobre o olhar de Reg, que não questionou. Voltei para a calçada, onde reduzi a velocidade de meus passos. Enquanto andava, avistei Enid do outro lado da rua, sentada junto de Ron. Outra coisa que fiz muito nesses dias passados, foi escutar os desabafos de Ron. O garoto era extremamente apaixonado por aquela garota. Eu até que apoiava eles juntos, se não fosse pelo fato de Enid não ligar para ele. Quando os dois me viram, apenas Ron acenou para mim, e eu acenei de volta e segui caminhando.
Avistei o telhado azulado e as paredes brancas e soube que estava próxima. Atravessei a rua e vi que Rick estava saindo da casa. Escondi-me detrás do arbusto. Se tinha algo que eu não teria paciência para escutar, eram os sermões de Rick. Eu realmente não precisava disso. Ele saiu no uniforme de policial e lembrei de Deanna me contando seus planos sobre adicionar policiais na comunidade. Ele e Michonne saíram junto. Não tinha como colocar alguém menos perigoso?
Quando os dois caminharam para o lado contrário da rua, aproveitei a brecha da porta e adentrei a casa, andando de costas, para ver se os dois não voltavam. Esbarrei em algo e me assustei, virando-me de frente. Era Carl. Dei-lhe um soco no ombro e ele fez uma expressão de dor.
— Você é forte, Mari — disse acariciando o braço.
— É reflexo. Desculpe.
— Tudo bem — sorriu para mim e estendeu um braço, fazendo para que eu subisse as escadas. — Você parece uma ninja.
Sorri e comecei a subir os degraus até dar em um pequeno hall, onde, no canto, havia uma porta branca para qual o garoto seguiu. Caminhei atrás dele e encontrei um quarto com alguns cobertores no chão, junto de almofadas velhas e revistas em quadrinhos. Olhei para Carl, que parecia sorrir. As paredes eram de cimento, como se não tivessem sido terminadas antes do apocalipse.
— Este é o seu paraíso, não?
— Como adivinhou? — Carl usou um tom sarcástico e sentou-se sobre uma almofada, encostando as costas na parede.
Sentei-me ao seu lado e logo, o garoto posicionou sua cabeça sobre meu colo. Movi minhas mãos para seu cabelo e comecei a rodopiar meus dedos entre os fios. O garoto curvou uma de suas pernas e sua respiração se tornou mais calma. Agora ele olhava para o teto, e de vez em quando, seus olhos paravam sobre os meus.
— Como é o Terminus? — Perguntei enquanto segui acariciando seu cabelo. Seu olhar voltou-se para o teto mais uma vez.
Ele mordeu o lábio inferior e eu soube que não era uma pergunta muito apropriada.
— Era péssimo. As pessoas que o habitavam eram canibais — respirou fundo. — Nos aprisionaram em containers para nos cozinhar depois.
— Sinto muito.
— Você estava certa sobre o pressentimento — disse ele, dando de ombros. — Poderia estar morto agora se tivesse te ouvido.
E ele estava certo. Meu pressentimento estava correto, e ele não me ouviu. Mas o fato de eu não ter seguido o caminho para o Terminus foi porque eu estava com Khalil, e não porque senti que algo daria errado.
— Fugimos de lá porque Carol explodiu o local — disse ele, voltando a olhar nos meus olhos. — Se não fosse por ela, teríamos virado comida.
— Eu…
— Não é culpa sua, Mari.
Mas era. Era culpa minha. Se eu não tivesse sido tão egoísta, eu poderia ter ajudado todos eles.
— E eu senti sua falta — disse ele, agora sorrindo de canto.
— Eu também. Demais.
— Não tem muito o que fazer aqui, não?
O garoto se levantou de meu colo e selou seus lábios aos meus rapidamente, logo se afastando e sorrindo de modo sutil.
— Como se sente ao não poder mais carregar uma arma? — Perguntou ele, rindo.
— Nua. Algo faltando — ri junto e passei a mão pelo seu rosto.
Nossos rostos estavam tão próximos que nossas respirações haviam se tornado uma só. Quando nossos lábios estavam prestes a colidirem, a porta abriu, o que atraiu nossa atenção. Aquela mesma mulher que eu havia ajudado na limpeza da casa estava com uma expressão séria, olhando para nós dois, que estávamos em um momento um tanto estranho.
— Carl. Jantar. — Disse ela e fechou a porta.
Carl começou a rir e eu ri também, assim nos afastando um do outro.
— Você deveria jantar conosco — disse ele ao se levantar. — Carol andou fazendo lasanhas muito boas.
— Eu não sei, Carl… — levantei-me depois.
— Vamos, te garanto que vai gostar.
Eu sorri e peguei em sua mão, e assim, caminhamos até o andar debaixo. A casa onde Carl estava morando agora era limpa, e completamente arrumada, como se tudo tivesse passado por uma faxina antes do fim do mundo e tivesse continuado daquele jeito. Quando chegamos à cozinha, encontramos vários dos moradores da prisão sentados ali. Vários não estavam, então supus que estariam mortos. Mas não me lembrava de tantos daquela vez que ataquei o local junto do Governador. Aquela mulher morena estava comendo e rindo junto do pai de Carl, que assim que me notou, fechou o sorriso e passou a me encarar.
— Hm… eu convidei a Mari para jantar conosco — Carl pronunciou-se e tentou sorrir, mas todos permaneceram quietos.
— Aqui — uma mulher de cabelos curtos e olhos claros sorriu para mim e mostrou-me uma cadeira. Eu me lembrava vagamente dela, mas assim que a vi dar a mão para o asiático ao seu lado, lembrei-me de quem ela era.
Sentei-me, forçando um sorriso fraco e olhei para Rick de relance. Ele não havia tirado seus olhos de mim. Carol me passou a lasanha e eu coloquei um pouco em meu prato, agradecendo. Eu sei que devia ser ao contrário. Não deveria ser o pai do garoto completamente rígido com a menina que saía com ele, mas Rick tinha motivos para estar assim comigo. Eu não o culpava.
Tive tantas fases, e elas só se sobressaíram no apocalipse. E a pior foi quando eu mudei por completo, achando que poderia ser melhor que tudo e todos, e fui. Por um tempo eu fui. Não tive prazer em abandoná-la, mas sinto o prazer da liberdade dela. E toda essa fase acumulou pessoas que confiaram em mim, e as destruiu em pequenas partes. Rick foi uma delas. Junto de Carl. Ambos depositaram suas confianças sobre mim e eu as traí.
— Então, Mari — Rick pronunciou-se e eu jurei sentir meu coração subindo pela garganta. — Você gosta disso?
Gelei por completo. Minha respiração pareceu não sair naquele momento. Disso?! O que ele queria dizer com isto? Comecei a pensar em todas as possibilidades de sentidos daquela frase, até que Rick abriu um sorriso e soltou uma risada abafada:
— Acalme-se, estou perguntando da lasanha — riu e eu tentei rir em meio a tensão.
— Ah, muito boa — disse ao colocar outra garfada na boca.
Carol sorriu com orgulho e Rick arqueou uma sobrancelha, como se tivesse conseguido me deixar constrangida do modo que queria. Passei o resto da noite olhando para baixo, enquanto Carl tentava conversar comigo, mas eu só pude ser curta para não chamar a atenção de Rick e tornar os desejos dele realizados.
Quando acabamos o jantar, Carol passou colhendo os pratos e levando-os para a pia, enquanto todos pareciam rir dos acontecimentos e lembranças de antes do apocalipse. Carl contava as histórias da escola que frequentava e Carol falava sobre os supermercados que frequentava, e o quão nojento eles eram antes mesmo do fim do mundo.
Logo, Carl sinalizou que iria para o andar de cima e eu me levantei para segui-lo. Assim que subimos, ele caminhou até o banheiro e começou a escovar os dentes. Sentei-me sobre o vaso sanitário e o encarei. O garoto sorriu e puxou uma gaveta, me entregando uma escola de dentes nova, ainda na embalagem. Arqueei uma sobrancelha e sorri.
— Não vou te beijar com molho na boca — disse ele e eu soltei uma risada abafada.
— Você já me beijou quando eu havia acabado de comer um esquilo!
— Passado fica no passado, senhorita.
— Então não te conheço — sorri de modo cínico e ele começou a enxaguar a boca.
— Isto é outro caso.
Levantei-me da tampa do vaso e caminhei ao seu lado, depositando a pasta sobre a escova e comecei a escovar meus dentes. Carl jogou água em meu rosto e eu o olhei com meu pior olhar, o que fez ele recuar dois passos, até que eu ri.
Assim que terminei de lavar a boca e enxugar meu rosto, caminhei até o quarto onde ele estava dormindo. Ele começou a pegar as cobertas da cama arrumada e levou-as para o quarto onde guardava os quadrinhos. Logo que moveu tudo para lá, adentrei o local atrás dele, analisando a cama totalmente bagunçada que ele havia feito no chão.
Após admirar seu próprio trabalho, o garoto deitou-se sobre as cobertas e posicionou a cabeça sobre um travesseiro, fazendo um sinal para que eu me deitasse também. E assim o fiz, deitando-me ao seu lado, logo movendo meu corpo para o dele, colocando minha cabeça sobre seu peito. Ele riu abafadamente e colocou uma mão sobre meu cabelo e a outra sobre a própria barriga.
— Por mais que seja entediante, eu gosto daqui — disse ele.
Respirei fundo e ajeitei meu rosto sobre os ossos de seu peito.
— Eu gosto do lado de fora, me sinto livre lá, mas aqui é seguro, e sei que posso dormir em paz sem me preocupar com a morte.
— Eu também. Acho que finalmente fora nos dada a paz que tanto pedimos.
— Sim — disse eu ao bocejar. — Boa noite, Carl.
— Boa noite.
Pobre de mim. Mal sabia o que estava por vir.
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