Why Me?

49 Capítulo 49 - Suicide Queen Pt. 2


Notas iniciais
Que os juramentos não se percam...

Acordei em uma cama vazia e fria, como se ninguém tivesse dormido ali, nem mesmo eu. Senti cheiro de mofo e álcool, numa mistura não muito agradável. Música calma soava longe, através da porta de madeira apodrecida, a qual estava fechada, dividindo o quarto do corredor. Levantei dos lençóis e senti uma brisa fria, como um choque térmico, em meu peito. Eu estava apenas de sutiã, mas mantinha minhas calças. Coloquei uma camiseta que estava esticada na cadeira de canto, mas não era a minha. Caminhei de braços cruzados até a cozinha, onde encontrei Khalil tomando sopa enlatada na mesa. Quando me viu, levantou o olhar e lançou um rápido sorriso.

— Bom dia, senhorita.

— Oi.

— Como está?

— Faminta.

Seus olhos se iluminaram e ele me ofereceu a sopa, mas neguei. Estava com fome de coelho assado.

— Você ficou um tanto alterada à noite — riu.

— Não me lembro de nada — menti.

— Nada mesmo? — Khalil pareceu triste.

— Não. Fiz algo de que devo me lembrar?

— Bem, não.

— Então não é um problema — sorri e peguei a faca no balcão. — Vou caçar algum pássaro, ou coelho. Volto logo.

— Não morra.

— Não farei falta se morrer — disse eu enquanto olhava para o lado de fora da porta aberta.

— Fará sim. Eu sentirei.

Sorri para mim mesma e caminhei afora.

Eu lembrava de cada detalhe da noite passada. De seus beijos, seus lábios, suas palavras. Atos. E não era algo do qual eu gostaria de esquecer logo. Mas não queria desviar de meus objetivos naquele momento.

Avistei um coelho e resolvi que seria aquele o escolhido. Fiz uma rápida armadilha com um tronco oco e folhas, onde o coitado caiu. Com a faca, matei e peguei-o pelas pernas, caminhando de volta à casa.

O clima local era gélido. Neblina e céu cinza, parecendo um verdadeiro fim de mundo. Cheguei na casa novamente e coloquei o coelho sobre a mesa, na frente de Khalil, que seguia deprimido, olhando para a lata de sopa vazia.

— Quer ajuda com a fogueira? — Ofereceu.

— Eu consigo sozinha.

— Acho que eu e Ethan vamos explorar a área agora. Quer ir conosco?

— Vou ficar com meu coelho — cortei a cabeça do animal.

Khalil sorriu e assentiu. Ethan surgiu dos corredores, de cabeça baixa. O garoto era muito fechado, quase não falava uma palavra sequer. De vez em quando, trocávamos olhares e algumas palavras, mas sempre com assuntos ligados aos planos de fuga. Caminhou até o lado do irmão, pegando a faca que o mais velho lhe ofereceu.

— Tem uma lareira no quarto ao lado do que você dormiu — Khalil disse ao pegar sua mochila. — Acho que pode assar esse bicho lá.

— Obrigada. Bom passeio.

Soltou mais um sorriso e apressou o passo para fora. Quando a porta se fechou, passei a mão pelo meu pescoço, mas não senti o colar. Lembrei-me de que fui busca-lo antes de ser “sequestrada” por Khalil. Talvez eu pudesse passar por aquela casa depois, para pegá-lo de volta.

Peguei as patas do coelho em cima do balcão e o levei para o quarto dos fundos, onde estava bem escuro. Retirei a lanterna do bolso detrás de minha calça e procurei a janela. Assim que encontrei, abri-a e deixei luz entrar. Vi logo a lareira, ao lado da janela. Ficava de frente para a cama. Aquele era o quarto principal. Joguei o coelho no chão e vi que havia um pote onde colocavam a lenha. Agradeci aos céus por não precisar coletar madeira. Agora faltava o fogo. Pensei que Khalil pudesse ter um isqueiro em suas coisas. Saí do quarto e fui explorar os outros.

Ao lado do quarto onde eu havia passado a noite, encontrei três mochilas quase vazias, as quais pensei em vasculhar em busca de qualquer coisa que fizesse fogo. Abri a primeira que vi em cima da cama e não encontrei nada. Na segunda, achei bolos de chocolate em miniatura e algumas camisas sujas. Já na terceira, encontrei livros e cadernos rabiscados, junto de lenços de papel e um isqueiro. Glória. Quando coloquei os livros nos lençóis, uma folha à parte caiu do último. Peguei-a e coloquei entre as folhas sujas. Mas aquilo me despertou a curiosidade, e pensei em verificar o que continha ali.

Abri o caderno e vi sangue na primeira página. Passei para a segunda, onde encontrei um pequeno texto, escrito em letras trêmulas.

“O que deu no mundo para querer se vingar de todos os males que o fizemos? Não consegui encontrar forças suficientes para poder escrever tudo o que sinto, mas quero gravar tudo o que sei, pois não sei até quando vou viver ao lado destes demônios em forma de mortos-vivos. Luzia morreu ontem. Hoje, minha mãe. Só restou Ethan junto de mim, e eu não quero perde-lo. Estou com medo de me perder.”

Senti uma dorzinha incômoda no peito. Khalil havia escrito mais coisas, mas eram palavras fortes demais para ficarem gravadas em minha mente naquele momento. Pude sentir sua dor através dos parágrafos.

Folheei mais um pouco a caderneta, mas tudo era escrito sobre os dias de sobrevivência. Vários desenhos foram colocados entre as páginas também. Flores, folhas, árvores, armas e casas. Eram lindos. Mas o que mais me chamou a atenção naquilo tudo foi a bendita folha que havia caído no início, e porque ela era a única solta.

Peguei-a no final do caderno e desdobrei. O papel era antigo, mais bonito. Havia desenhos de flores nas bordas e respingos de sangue, como se fosse escrito após um ataque. Resolvi ler quando vi meu nome escrito no topo da página.

“Não faz tanto tempo, quase nada que nos conhecemos. Sinto-me obrigado a descobrir o que houve e o que há com ela. Sinto-me atraído e caído na insanidade. Faz bem e faz mal, já não sei distinguir um fator do outro. É como se ela fosse a última gota de água do cantil e eu fosse um morto de sede. Preciso disso. Preciso me aprofundar. Mas ela não me permite, e isso apenas me carrega cada vez mais para as profundezas de meus pensamentos. Essa sensação não me consumia há um bom tempo, sentia falta de perder o controle dessa maneira, mas agora quero meu poder de volta. Eu aguento?! Sua atração por mim não deve passar de carência, afinal, não são grandes as opções nesse mundo. Mas não me incomoda, só quero estar por aí, observando de longe.”

Era meio difícil interpretar o que ele dizia, mas deixei escapar um sorriso enquanto dobrava a folha novamente.

[...]

Depois de assar e comer o coelho livrei-me dos ossos pela janela. Voltei ao quarto onde encontrei os cadernos e peguei um livro da mochila de Khalil. Achei que pudesse lê-lo enquanto os dois não voltavam. Mas foi só tocar a capa que ouvi os barulhos na folhagem seca do lado de fora.

Peguei a faca da bainha e caminhei calmamente até a porta. Abri-a e, com a faca em posição de ataque e andei lentamente para fora. Analisei toda a calma suspeita daquele local e senti que estava estranho. Senti que havia alguém me observando. Caminhei mais um pouco e fui surpreendida com um empurrão que me derrubou. Uma garota estava em cima de mim, com uma faca. E a minha estava longe de minhas mãos.

Tentou fincar a lâmina em meu ombro, mas desviei, o que causou apenas um corte no braço esquerdo.

Consegui virar nossos corpos para que trocasse as posições. Eu estava por cima agora e poderia matá-la. Soquei suas bochechas até ela socar meu estômago. Caí de lado, abraçando minha barriga. Ela gritou e tentou cravar a faca em meu pescoço, mas segurei suas mãos.

A garota gritava de raiva, e eu não entendia o porquê dela estar ali, daquele jeito. Deu tempo de virar o rosto e ter a faca fincada no solo, ao lado de meu rosto. Mas senti uma dor e ardência enormes em minha bochecha.

Joguei a menina para o lado e tentei pegar minha faca, mas levei um chute no quadril. Ao menos, consegui alcançar o cabo e finquei na coxa dela. A morena caiu de joelhos. Não deixei-a levantar e finquei a lâmina em seu pescoço, fazendo com que seu corpo morto caísse para trás, jorrando sangue. Ri de sua falha e peguei minha faca, tentando arrastar o corpo para um local longe.

Estávamos em um morro, então procurei por algum lugar onde pudesse jogar a menina. Puxando-a pela perna, segui caminhando com a faca nas mãos, para o caso de outro ataque. Ela era jovem, diria 16 anos. Cabelos negros lisos, agora cheios de folhas; muito magra e alta. Não parecia ser ninguém de meu conhecimento. Achei um barranco e joguei-a de lá. Suspirei e voltei para a casa.

Quando cheguei, vi Ethan e Khalil caminhando perto. Notei que Khalil estava apoiado em Ethan e estranhei. Os dois adentraram a casa, e em seguida, eu.

— Mari? Onde estava? — Perguntou-me o louro.

— Fui dar uma volta.

— O que é isso em sua bochecha? — Khalil sentou-se no sofá. Notei que havia sangue molhando sua camiseta cinza.

— O que é isso em seu peito? — Perguntei.

— Venha aqui — chamou-me.

Ethan caminhou até um dos quartos, onde trancou a si mesmo dentro. Eu andei até o sofá onde estava o mais velho, sentando-me ao seu lado. Lancei um leve sorriso e toquei sua barriga, fazendo com que ele se contraísse.

— Levei uma facada — pronunciou-se. — De um grupo inimigo.

— Fui atacada por uma louca, mas ela está morta.

— Está doendo?

— Se você não tivesse dito, eu nem me lembraria.

— O sangue está escorrendo pelo seu pescoço — disse ele, com uma das sobrancelhas arqueadas.

— Vou cuidar de seu corte — sorri mais uma vez e selei meus lábios aos seus, o que o fez sorrir também.

— Tem álcool embaixo da pia.

Caminhei até a cozinha e abri o armário, onde encontrei panos e álcool. Levei os objetos até a sala e molhei um dos panos no líquido. Fiz um sinal para que Khalil levantasse sua blusa, e ele o fez. O corte era feio, não muito profundo, mas escorria sangue ainda. Passei o pano pelo corte e o jovem gritou de dor, porém tinha de passar por aquilo. Coloquei uma de minhas mãos em seu cabelo e acariciei enquanto passava o pano com a outra. Quando o lenço estava encharcado com seu sangue, parei de limpar e joguei-o ao meu lado. Khalil ainda cerrava os dentes de dor. Passei minha mão por suas bochechas e senti a tensão de seu corpo.

— Vou procurar algo para amarrar sobre o ferimento. Se ficar exposto, será contaminado — afirmei.

— Como sabe disso?

— Aprendi com a enfermeira de Woodbury. Curso de primeiros-socorros.

— O que é Woodbury?

— Nada. Não mais.

Fui até o quarto e procurei por lençóis no armário. Encontrei um e cortei uma tira com minha faca, enrolando-o e levando novamente à sala. Khalil levantou o corpo com dificuldade e eu amarrei o pedaço de pano com duas voltas sobre o corte. Ele deitou-se novamente e tentou sorrir para mim. Sorri de volta.

— E sua bochecha?

— Foi só um arranhão. Não vai infeccionar agora.

— Passe um álcool nisso, por favor.

— Não precisa, juro!

— Por favor — me pediu mais uma vez e eu toquei seu rosto.

— Depois.

— Eu gosto de você. — Soltou.

Ficamos em silêncio por um tempo. Tirei minha mão de seu rosto e olhei para meus joelhos sob o chão.

— Você não precisa sentir o mesmo. Só queria que soubesse.

Assenti e levantei-me, em direção ao quarto no qual amanheci. Senti-me culpada pelo fato de tê-lo deixado naquela situação, só. Ouvi batidas na porta e fui abrí-la, me surpreendendo quando vi que era Ethan.

— Posso entrar? — Disse, severo.

Abri caminho e ele enfiou as mãos nos bolsos, encostando-se ao armário. Fechei a porta.

— Você ouviu a conversa, não?

— Esta casa não é grande — afirmou.

Encarei-o com desdém até que ele torceu a boca.

— Não ligo para seu passado, muito menos seu futuro. Mas gosto do seu jeito de pensar.

— Aonde quer chegar?

— Khalil — me lançou mais um olhar. — Ele não tem mais nada a perder. Não quero que você o deixe em suas próprias ilusões. Aja com sinceridade.

— Seja mais direto.

— Se o quer, diga. Se não o quer, diga. Você não sabe nada sobre a vida dele.

— E você não sabe sobre a minha.

— Você não é tudo isso, Mari.

Com seu sorriso malicioso, saiu do quarto e fechou a porta. Não consegui acreditar no diálogo, que soou como monólogo. Saí do quarto e vi a porta do quarto de Ethan fechada. Sorrateiramente, caminhei até o corredor, me esquivando à observar Khalil sobre o sofá, virado para as almofadas. Sentei-me ao seu lado e enrosquei meus dedos aos seus, segurando sua mão, fazendo seu olhar ser direcionado à mim.

— Não vai me abandonar? — Perguntei.

— Juro. — Apertou minha mão.

Notas finais
... junto de outros esquecimentos.