Why Me?
47 Capítulo 47 - Immortals
Notas iniciais
“Quando terminei de falar, Carl puxou meu rosto para mais perto, selando seus lábios aos meus. Eu não o beijava desde o dia passado, mas parecia uma eternidade não sentir aquela sensação de borboletas no estômago e os arrepios pelo corpo inteiro quando era tocada por ele. Ajeitei-me no travesseiro, para que nossas bocas se encaixassem melhor. Novamente, nos separamos e eu sorri levemente, repetindo uma frase que havia dito havia alguns dias:”
“– Achei que me deixaria.”
“E ele sorriu de volta, com uma mecha de cabelo caída sobre os olhos profundamente intensos. Aquela piscina de águas claras, que podia levar qualquer um à beira da morte se quisesse. Seus lábios se moveram, emitindo aquela palavra que me fazia sentir mais segura à mim mesma.”
“– Nunca.”
[...]

Chris me seguiu para perto de garoto, e nós três fomos andando até Rick e Michonne. Carl caminhava ao meu lado, com os olhos em minha direção, enquanto eu permanecia de braços cruzados, olhando para o chão. Chris estava do meu outro lado, chutando qualquer pedrinha que encontrasse no caminho. E então, avistei a mulher que andava com o homem apoiado em si. Eles estavam bem à nossa frente, então teríamos de apressar o passo para chegar mais rápido.
Lembrei-me então do colar que havia esquecido acima da cômoda. Algo me dizia que teria que buscar aquela corrente. Olhei para Carl, que andava com a cabeça erguida, olhando em frente. Toquei seu ombro, e, consequentemente, o assustei. Quando ele virou-se para mim, estava sério.
— Eu... Preciso pegar algo — disse um tanto assustada. — Vocês podem seguir em frente, eu alcanço!
— Você consegue? — perguntou, parando.
— Creio que sim. Vamos ver.
Chris me encarou com os olhos inchados, abriu a boca como se quisesse falar algo, mas pareceu querer guardar para si. Coloquei as mãos sobre meus joelhos e o encarei, forçando um pequeno sorriso de canto. Suas vestes estavam detonadas e todas manchadas de sangue. A nova camisa que lhe consegui estava ensopada de sangue e terra.
— Preciso que você fique com Carl só por alguns minutos — o garoto assentiu com a cabeça, mordendo o lábio inferior.
— Ele me assusta — disse.
Forcei uma pequena risada.
— Daqui a pouco estarei de volta. Não vou demorar.
E então, olhei para Carl mais uma vez e ele fez algo com a cabeça, como se quisesse me dizer alguma coisa importante, mas ficou calado. O encarei por alguns segundos, esperando que ele fosse falar qualquer coisa. Mas não foi o feito. Virei-me e caminhei em direção a casa em que estava “hospedada” nesse meio tempo. Olhei por cima do ombro e vi que Carl caminhava bom longe de mim, junto de Chris, que tropeçava nos cascalhos.
Cheguei à frente da varanda e subi os degraus, tomando cuidado para não prender o pé nos buracos na madeira. De frente para a porta principal, abri-a e adentrei. Ao entrar no local, fui logo derrubada. Estava de costas para o agressor, que amarrava uma corda em meus pulsos. Virei o rosto para tentar ver quem era, mas outra pessoa forçou minha cabeça contra o chão.
— Me soltem — tentei chutar, mas não dava muito certo.
Algum deles passou um pedaço de pano pela minha boca. Deu-me ânsia ao tentar gritar.
Logo, me colocaram de pé e me viraram. Só então que soube quem eram: Ethan e os gêmeos. Senti a raiva subir-me à cabeça e quis meter tiro na cabeça deles. Mas eu estava amarrada, infelizmente.
— Mari — disse Ethan. — Nós gostamos muito de você, suas atitudes e habilidades, e queríamos você em nosso grupo. Está disposta a aceitar?
Fiquei mais irritada do que eu poderia estar. Abaixaram o pano amarrado em minha cabeça para que eu pudesse falar.
— Precisava de tudo isso para uma proposta?
— Isso é um sim?
— Não!
— Resposta errada — levantou um taco de baseball.
[...]
Minha cabeça doía. Meus olhos se abriam devagar, revelando apenas o escuro. Levantei-me de onde quer que estivesse e estreitei os olhos, em busca de qualquer coisa que pudesse avistar. Ainda estava amarrada, então não havia muito que fazer. De repente, uma luz muito forte fora fixada em meu rosto. Era uma lanterna, e eu não consegui ver quem a usava, devido à claridade.
— Você é a Mari? — perguntou uma voz de tom masculino.
Assenti com a cabeça e tentei abrir os olhos. O homem colocou a lanterna em cima de algo, para clarear todo o cômodo, e foi me ajudar. Soltou a corda envolta de minhas mãos e tirou o pano de minha boca. Segurou minhas mãos e me encarou, só então vi seu rosto.
Parecia ter 18 anos. Seu rosto tinha traços fortes, sobrancelhas grossas, cabelos ondulados que caíam sobre a testa, lábios quase grossos e tinha uma expressão de susto. Não me era familiar, então foi um tanto intimidador o fato dele segurar minhas mãos.
— Eu sou Khalil.
— Não te conheço.
— Sou irmão de Ethan. Ele não é bom de lábia — soltou uma risada. — Como você está?
— Cansada — disse. — Onde estou?
— Também não sei dizer — sorriu de canto. — Um lugar descoberto por meu irmão. Creio que estamos no meio da floresta.
E então, automaticamente, lembrei-me de Carl.
[...]
POV — Carl
Desisti de esperar Mari a partir do momento em que ouvi passos pelos cascalhos. Olhei para o garoto ao meu lado, o louro que ela cuidava. Soube que sua irmã havia morrido, e imaginei que a sensação pudesse ser horrível. Tentei desviar meus pensamentos, pois minha irmã estava sumida também.
Quanto a Mari... Ah, já estava cansado de tanto que essa garota brincava com meus sentimentos. Não tinha um pingo de noção de quão ruim podia ser? Sempre fugindo dos problemas, das pessoas, de tudo. Nada que a envolvia estava resolvido. Ainda lembrava quando ela era mais inocente, falava coisas verdadeiras para mim, sabia o que dizia. Agora parece insegura e confiante ao mesmo tempo. A pessoa que não se importa, mas se importa demais. É inexplicável. Ela é assim.
Olhei para meu pai, para Michonne, para o garoto, e para o chão. Estava mais do que na hora para deixar de esperar demais de Mari. Ela não era alguém para se esperar muito. Havia fugido mais uma vez.
Cada um por si era a mensagem que ela parecia transmitir.
Andei na frente, como se liderasse o grupo. Não tinha medo do “novo” mundo, aliás. Eram apenas errantes e pequenos grupos assassinos, ou do tipo mais raro, os grandes. O mais fácil de achar seria o resto do nosso, do qual havia se separado. Um errante apareceu no caminho, e, sem pensar duas vezes, peguei minha faca e segurei o pescoço da criatura, fincando na testa, logo no centro de sua pele apodrecida, e a retirei. Chutei o corpo do morto e o assisti cair com sangue negro escorrendo pelo ferimento e pela minha faca.
— Guarde sua energia, Carl — disse Michonne.
Ignorei o que a mulher me disse e limpei a faca na folhagem que se encontrava à frente de meus pés. Chris pareceu assustado com minhas atitudes, mas sabia que, para sobreviver nesse local, ele veria coisas piores, passaria por situações piores, para “crescer”, assim como eu fiz.
Perder minha mãe me tornou mais “velho”. Não tinha mais piedade das pessoas, matava-as sem dó, sem compaixão. À sangue frio, como na moda antiga. Meu pai soube do incidente da prisão uma vez, mas não se importou. Ele devia estar consciente de que eu acabaria fazendo isso uma hora ou outra, e sabia que ele havia matado muitos também.
O único passo para crescer mais seria desapegar do que me prende a sentimentos. E eu adoraria poder fazer isso, mas não conseguia. Infelizmente.
— Sua expressão está horrível — disse Michonne.
— Não dá pra ser lindo em meio ao caos — respondi.
— Não foi isso que quis dizer — a mulher esforçou-se para sorrir. — O que houve?
— Nada.
A mulher então desistiu de tentar falar comigo. Ela já devia saber que a conversa não teria progresso.
[...]
POV — Mari
Já era manhã quando acordei novamente. O local em que estava era um sobrado, e eu havia ganhado um quarto só para mim, pois me acharam batalhadora demais para ter de dormir com quatro garotos que roncavam demais. Não era um incômodo, mas a ganância falou mais alto.
Estava pensando no que Carl devia estar achando de mim naquele momento. Provavelmente me odiando, pois não tentei nem escapar para lhe dizer que iria com outro grupo. Desde que ele mencionou o Terminus, eu perdi a vontade de caminhar ao seu lado. Não tinha um bom pressentimento sobre o local.
Esperava que ele entendesse.
— Boas notícias — disse Khalil quando desci as escadas. — Fomos convidados a ir para uma comunidade.
— Terminus? — senti meu estômago contrair-se.
— Sim, como sabe?
— Meu outro grupo iria para lá — falei abaixando minha cabeça. — Preciso voltar com eles.
— Entendo. Mas agora precisamos de ajuda — disse o garoto com seus olhos castanhos brilhando. — Você é uma ótima atiradora, pelo que meu irmão disse. Eu e você liderando, os três atrás, o que acha?
— É ótimo — respondi. — Mas eu precisava dar notícias a Ca... Aos outros. Não podem ficar esperando que eu apareça eternamente.
— Eu observei-os partir. Não acho que eles tenham te esperado por muito tempo.
De certo modo, isso me machucou um tanto. Mas, se aprendi alguma coisa, era que não precisava me importar com os outros, e ninguém além de mim mesma. Eu poderia me virar nesse mundo por minha conta.
— E, de qualquer modo — continuou Khalil. —, você os encontrará no local.
— É. Sim.
— Precisamos comer algo para seguir viagem — disse o garoto. — Vamos precisar de muita energia por esses dias.
Direcionei-me até a mesa e peguei o cereal que tinha em algumas tigelas. Comi rapidamente e peguei algumas barrinhas que encontrei e guardei-as em meus bolsos. Khalil afiava sua faca, que por sinal era bem grande, e Ethan e seus “capangas” jogavam baralho. O mais velho pigarreou e encarou o louro, que logo, deixou suas cartas no chão, se aproximou de mim e abriu um sorriso de canto.
— Desculpe por ter lhe trazido dessa maneira — riu levemente. — Agressão não é nada bonito, e...
Não esperei ele acabar de falar e soquei seu olho, assistindo-o cair no carpete marrom.
— Agora estamos quites — sorri de volta.
Khalil riu e pegou algumas coisas da mesa, colocando em sua mochila. Os garotos guardaram o baralho enquanto observavam o louro caído, que logo se levantou, de cara feia, e pegou sua mochila.
Craig e Clapton pegaram suas mochilas também, mas guardaram coisas que não seriam muito necessárias. Inclusive revistas em quadrinhos. Ah... Quadrinhos. Carl costumava ler desses e me trazia alguns livros nos momentos vagos e... Quando isso ocorria?
— Quer uma mochila, Mari? — perguntou Khalil.
— Tenho o necessário em mãos.
— Então vamos.
Retirei a faca da bainha e fui andando na frente junto do moreno. Os outros três andavam atrás. Não era muita novidade andar por florestas. Adorava ouvir o barulho da folhagem seca ao pisar no solo. O clima estava friorento, e eu desamarrei a xadrez da cintura e a vesti. Enquanto andávamos, olhei para cima rapidamente. As árvores cobriam o céu, que parecia estar nublado, por sinal. Não cairia chuva, provavelmente.
Khalil agachou-se no meio da trilha e pegou algo. Era uma pedra meio azulada. Ele jogou para cima e segurou-a novamente, com um sorriso para aquele pequeno objeto. Demorei para entender o que estava acontecendo, até que ele se virou para mim e notou que eu estava assistindo seu “malabarismo de pedras”.
— Eu era de escola militar — disse. — Minha mãe pedia para que eu lhe enviasse pedras por correio.
— Mas não pode mais enviar — respondeu Ethan, bufando.
— Infelizmente. Ela iria adorar esta.
— O que ocorreu com a mãe de vocês? — perguntei enquanto coçava o braço.
— Morreu uns meses atrás. Ela era velha, e adotou a mim e Ethan com idade já. Não conseguiu aguentar, morreu dormindo.
— Meus pêsames — respondi.
— E sua família? Aposto que você não era órfã.
Respirei fundo e tentei vasculhar na mente qualquer lembrança de minha família. Não lembrava muito, então procurei juntar tudo em uma página só para poder contar.
— Não sei onde está meu pai. Não o vi desde o começo do apocalipse. Minha mãe morreu nos primeiros dias, meu irmão morreu nos primeiros meses.
— Sinto muito — Khalil me encarou.
— Não sinta.
Não me feria tanto pois não lembrava dos detalhes.
— Quem era aquele garoto que estava com você no ginásio? — perguntou Ethan. — Seu namorado?
— Eu não namoro.
— Vocês estavam se pegando. Nós três vimos — insistiu o loiro.
Khalil, que estava ao meu lado, soltou uma leve risada. Fiquei um tanto vermelha por lembrar daquele momento. Quando fui responder, Khalil colocou o braço à minha frente, como se me impedisse de andar mais. Fez sinal de silêncio em seguida. Estreitei meus olhos e entendi o que estava acontecendo. Havia uma horda se aproximando. O moreno me encarou como se estivesse perguntando o que faríamos. Fiz alguns sinais com as mãos para indicar que nos dividiríamos.
— Três para cada. Os extras ficam comigo — finalizei.
Fui correndo para trás de uma árvore, onde fiquei espiando a proximidade de cada um dos mortos-vivos. Ergui a faca e avancei no primeiro que apareceu. Posicionei um braço abaixo de seu pescoço e finquei a lâmina no meio de sua testa. O errante caiu com um empurrão. Olhei para o lado e vi Khalil derrubá-los primeiro, para depois fincar a faca. O próximo que apareceu eu chutei a barriga e esperei cair, pisando em sua cabeça fortemente, estourando o crânio.
— Ethan! Cuide daqueles à esquerda! — Khalil gritou.
Uma errante loira apareceu, e ela vestia roupas bonitas, lembrando-me de Kelly. Fiquei um pouco paralisada antes de mata-la, até que um dos gêmeos gritou e eu saí do transe. Finquei a faca diretamente em seu olho, derrubando-a. Notei que não havia mais nenhum para matar. Khalil olhou para mim e lançou um pequeno sorriso.
— Sabia que conseguiria trabalhar com você.
[...]
“Determinação coragem e autoconfiança são fatores decisivos para o sucesso.
Se estamos possuídos por uma inabalável determinação, conseguiremos superá-los.
Independentemente das circunstâncias, devemos ser sempre humildes, recatados e despidos de orgulho.”
— Dalai Lama.
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