Why Me?

48 Capítulo 48 - Suicide Queen Pt. 1


Notas iniciais
Querida, não se jogue

Suicide Queen — pt 1

Querida, não se jogue
O mundo lá embaixo é pior.


Com o braço apoiado sobre o joelho, sentada na terra seca coberta de folhagem, eu estreitava meus olhos para tentar enxergar qualquer tipo de movimento em meio à escuridão. Bocejei baixo e pisquei algumas vezes. Minha faca estava presa à calça de coloração das algas. Passei a mão sobre os botões da camisa e a coloquei sobre meu revólver. Eu esquecia que carregava uma arma de fogo. Antes era porque ela estava sem munição, agora estava com o pente cheio.

Saindo da barraca e sentando-se ao meu lado, estava Khalil. Seu cabelo estava totalmente desarrumado e tinha um ar de sonolento.

— Você sabe que não precisa ficar aqui, certo? — Não olhei para ele. — Eu sei me virar sozinha. Não é a primeira vez que fico na vigia.

— Eu confio na sua capacidade — sorriu ele. — Só estou com insônia.

— Eu queria me lembrar melhor das vigias. Eu gostava das noites sozinha — disse eu ao olhar para o céu.

— Eu costumava ter medo do escuro quando pequeno. Nunca fui muito fã — riu levemente. — Hoje não consigo temer mais nada. Nem a morte.

— Temer a morte neste mundo é pedir para morrer.

— Ethan disse que conheceu você enquanto estava com um garoto — mudou de assunto.

— Sim.

— Ele contou alguns detalhes.

— Não teve nada de importante que lhe interesse — ri eu.

— Você e o garoto de chapéu...

— Se é o que está pensando, nunca ultrapassamos esse tipo de limite — coloquei um fim na conversa.

Khalil pareceu incomodado por ter me feito essa pergunta. O silêncio presenciou a cena, só para aumentar o desconforto.

— Então você nunca transou? — Me perguntou. Neguei com a cabeça. — Você sabe que pode morrer amanhã, correto?

— Sei.

— E não vive a vida no limite?

— Eu praticamente me mato todo dia.

— Entendo.

O garoto tocou meu revólver e eu quase perfurei sua mão com minha faca. Controlei-me, pois ele era aliado.

— É uma peça bonita — disse enquanto analisava a .22.

— O que você quis dizer com "viver a vida no limite"? Quis insinuar algo? — Insisti.

— Quis, mas desisti da ideia.

— Diga.

— É um tanto desconfortável falar disso — riu e colocou a mão sobre o joelho —, mas achei que seria legal tentar algo com você.

— Por que é desconfortável? Não foi você que aderiu a ideia de viver tudo no limite?

— Hm, sim, mas...

— Estou disposta a tentar.

— Mesmo?

— Claro. Por que não?

O garoto começou a me encarar com um sorriso até que eu posicionei minhas mãos em seu pescoço, fazendo ele perder o equilíbrio e cair sobre mim. Rindo um tanto, comecei a beijá-lo do lento para o rápido. Khalil colocou uma mão por dentro de minha camisa, fazendo o xadrez ficar em forma de um braço. Acariciando meu seio, começou a beijar meu pescoço e o afastei de mim. Sorrindo maliciosamente, coloquei a arma no meio de sua testa e torci a boca.

— Volte a dormir agora.

E ele, sorrindo, foi deitar-se.

Ri interiormente e voltei minha atenção ao silêncio retomado. Ouvi uns barulhos estalando em folhas secas e me levantei, removendo a faca da bainha improvisada. Eu optaria pela arma, mas faria barulho que talvez atrairia mais errantes. Estreitei os olhos e vi o corpo de vestido caminhando animadamente na escuridão. Quando fui avançar, pude ver que não era um corpo único, eram muitos. Mais de dez. E eu não daria conta.

Abri a primeira barraca fazendo Khalil acordar automaticamente. Fiz um sinal que combinamos para emergências, que era fingir um corte no pescoço. Ele rapidamente entendeu e saiu da barraca, segurando sua arma. Acordei Ethan, que confuso, me encarou por um tempo.

— Não pergunte, só saia.

O garoto, assustado, saiu correndo sua barraca. Lembrei-me de uma de minhas primeiras fugas. Por mais que fosse só um borrão em minha memória eu ainda lembrava um pouco. Meu coração batia forte, senti um calafrio, era como se tudo estivesse voltando à tona. Mas eu não tinha o mesmo medo de antes, agora eu estava mais forte e mais formada mentalmente. Sem piedade, sem compaixão, sem medo.

Adentrei a outra barraca e tentei acordar os gêmeos, que não queriam sair do local. Sonolentos e sem saber o que se passava, os dois se agarraram aos cobertores sujos, ignorando meus puxões. Agarrei a perna de um, que gemeu e me chutou no estômago. Caindo para trás após a dor, eu me levantei novamente e percebi que só tinha algo a ser feito naquele momento de pressa. Finquei minha faca na perna de cada um.

Com minhas duas mãos, tapei suas bocas para que não pudessem gritar.

— Preciso que vocês saiam. Tem errantes por toda parte! — Ordenei.

Um saiu correndo, mas o outro cruzou os braços e fez cara feia, virando-se de costas para mim.

— Não vou sair.

Só vi uma opção. Com o cabo da arma, bati em sua nuca e o deixei inconsciente. Puxei o garoto pela perna para fora da barraca, logo encontrando os outros três. Khalil me olhou, e em seguida, para o garoto. Fiz uma expressão de inocente, fora o único jeito. O mais velho pegou o garoto e o colocou nas costas, e todos nós nos colocamos a correr.

Enquanto corríamos pela floresta sem claridade, Khalil gemia com o peso que levava nas costas. O outro gêmeo corria, mas tropeçava muito, quase caindo. Os errantes estavam bem rápidos, mas se conseguíssemos apressar o passo, fugiríamos a tempo.
Mas quando tudo parece estar certo, algo dá errado.

O gêmeo acordado, Craig, tropeçou em seu próprio pé e caiu na folhagem. Quando Khalil se aproximou para ajudá-lo, derrubou Clapton, o outro gêmeo. Craig estava chorando, havia torcido o tornozelo.

E o pior de tudo isso, é que não havia tempo.

— Corra! — Ordenei para o jovem que encarava os gêmeos caídos. — Eu dou um jeito.

Observei os irmãos saírem em disparada, e o trabalho pesado ficara para mim. Peguei o pé dos dois com cada mão e os arrastei.

— Pare! Pare! — Chorava Craig. Eu não podia evitar que ele se machucasse com o solo.

Segui arrastando, até deixar as duas pernas no chão para dar três tiros certeiros nos crânios dos errantes mais próximos. Craig tentou levantar e pendurar-se em mim, mas caiu novamente. E eu, nervosa por estar cercada, precisava correr.

E eu o fiz. Deixei os dois e corri para longe. Logo, ouvi os gritos agonizantes de dor, e imaginei que Clapton sofreu menos por estar inconsciente.

Não olhei para trás.

[...]

Parte superior do formulário

Encontramos uma casa abandonada no meio da floresta. Feita de madeira e parecia bem dominada pelas plantas. Tínhamos de ver a situação interior.

Ao terminar a limpa — demos sorte de não ter nenhum errante —, caminhei até o banheiro e adentrei a banheira, sentando-me na ponta, onde permiti que meus pensamentos dominassem toda minha mente. Por completo. Eram como gritos e dores que afetavam o corpo por inteiro. Senti meu peito ser pressionado, como se estivesse entre duas paredes que me fechariam em poucos segundos.

Coloquei minhas mãos na nuca e abaixei a cabeça em meus joelhos. Agarrei minhas canelas com força e senti o ar faltar. Tentei respirar fundo, mas doía até para inspirar. Os gritos mentais eram intermináveis e a dor de cabeça era incontrolável. Talvez eu estivesse guardando toda essa dor durante muito tempo. Não tinha capacidade para aguentar tudo aquilo de uma vez só.

Consegui ouvir o barulho de madeira velha se movendo e ignorei. Alguém provavelmente havia entrado no banheiro, e eu esperava que não me incomodasse.

— Mari — a voz era de Khalil. O garoto fechou a porta em seguida e sentou-se de frente para mim na banheira. — Ei, o que aconteceu?

Não tirei a cabeça dos joelhos, continuei presa em meus pensamentos perturbados.

— Não há problema em ter uma recaída de vez em quando — disse tentando me acalmar. — Não sei de quase nada seu, mas tenho certeza de que é forte o suficiente para sair dessa situação. Sabe que é, não?

— Eu não quero mais ser forte — aquilo saiu como um disparo. — Estou cansada de perder tudo, de me afastar de tudo. De deixar tudo. Eu sou assim agora... Mas antes não era. Quero voltar a ser como antes!

— O apocalipse começou há dois anos. Você tinha em torno de 12 anos. Sua adolescência foi roubada, Mari. Enquanto uma garota na sua idade atual se preocuparia com maquiagem e garotos, você se preocupa em manter-se viva e ter grandes responsabilidades a cuidar — Khalil respirou fundo e colocou sua mão sobre meu braço. — Há quanto tempo você não tem uma longa conversa com alguém? Há quanto tempo não sente nada, não chora? Tempo demais, imagino. Mas a Mari do mundo perfeito morreu. Agora você é a Mari do mundo sem salvação.

— E se eu não quiser ser?

— Você não gosta de ser admirada por suas habilidades? Não sei com quantas pessoas já esteve, mas aposto que a maioria quis ser você.

— Por que eles iriam querer isso? — Levantei minha cabeça.

— Não diga nada, mas ontem, quando estava na barraca junto de Ethan, ele estava se lamentando por ter a mesma idade que você e não saber fazer nem a metade do que consegue.

— Não é nada demais.

— É sim. Todos se encantam. Aquele garoto do chapéu, Ethan, eu... Aliás, aquele garoto do chapéu tem um olhar diferente por ti.

— O que quer dizer com isso? — Coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha.

— Você já se apaixonou? — Esperou resposta, mas eu apenas o encarei esperando seu ponto. — Bem, quando você ama alguém, você a conhece melhor do que a si mesmo. Acaba se perdendo também, mas de uma maneira boa. E tudo isso causa certa paz interior e exterior. Você parece mais feliz e melhor. Passa a fazer as coisas de modo diferente perto da pessoa amada. Diga-me, quanto tempo tem que você está junto dele?

— Conheço Carl há quase um ano. É muita história.

— E, em tanto tempo, nunca notou como ele te olha, fica feliz ou se magoa perto de ti?

Parei rapidamente para pensar em todas as vezes que estivemos juntos. Mas meus pensamentos se tornaram raiva, não dele, mas de mim mesma.

— Você o ama também? — Continuou.

— Não sei. É algo que eu não procuro pensar, mas também não evito.

— Quando estiver próxima dele, vai saber. Vai sentir.

— E se eu o amar e ele não tiver me esperado?

— Como assim?

Ajeitei-me melhor na banheira e encarei os olhos verdes fixados em mim.

— Digo, imagine que eu o encontre e ele já tiver me superado, ou estiver com outra. O que eu faria?

— Eu só tenho 18 anos, mas sei que é impossível deixar de amar alguém 100%. Se ele te amou, o que sabemos que é verdade, ele vai pelo menos tentar te manter por perto. — -Passou a mão pelos cabelos e sorriu, levantando-se e me oferecendo a mão para que eu ficasse de pé também. — Vi bebida guardada em um armário. Já bebeu alguma vez?

— Bem pouco. Bebia de vez em quando com meu irmão e... — a memória passou rapidamente em minha memória. Irmão? — Não me lembro.

— Já está no clima de bebedeira — riu. — Vamos, Ethan foi dormir, senão o chamava para comemorar a vida junto de nós.

Caminhamos até a sala onde havia um grande tapete circular preenchendo o quadrado, cada canto. A TV velha em cima do móvel encostado à parede parecia não ligar desde que fora comprada. Havia uma vitrola antiga no outro canto. Sim, daquelas que tocava os discos de vinil. Meu avô tinha uma igual. O jovem dos olhos verdes abriu o armarinho embaixo da TV e retirou algumas bebidas. Bebemos no bico.

Após beber várias daquelas garrafas, Khalil pegou um dos discos de vinil e o colocou na vitrola, e assim, uma música calma e com uma letra bonita começou a soar. Suave e calmamente. Ele me estendeu a mão, e como eu estava embriagada, não rejeitei e fui dançar. Seus dedos foram parar em minha cintura e posicionei minha mão em seu ombro, e assim, seguimos os passos com o ritmo da música.

— Eu não estou bêbado — afirmou ele. — Já me acostumei com o álcool.

— Eu... Não sei... Ai — gemi quando tropecei na madeira saltada do chão. Eu estava rindo feito abobada.

Khalil riu junto de mim, mas eu era o motivo de seu riso. Ele começou a se aproximar e senti certo frio consciente em minha barriga. Podia sentir o calor de seu corpo perto do meu, ou talvez fosse apenas impressão do nervosismo. Seus lábios se encostaram aos meus e sua língua fora atiçada para dentro de minha boca, se enroscando à minha. Seguimos nos beijando e paramos de dançar. Khalil começou a erguer a barra de minha regata e a removeu de meu corpo calmamente. Arranhei sua nuca e mordi seu lábio, pulando no garoto para enlaçar as pernas em torno de sua cintura. Ele segurou minhas coxas e riu um pouco em meio ao beijo, mas não liguei, continuei o beijando e passando as unhas por sua pele.

— Quer arranjar um quarto? — perguntou-me.

Sem dar resposta, retirei sua camisa e ele me encostou numa das paredes, e seguimos assim. Ouvi alguns barulhos, mas eram apenas ecos em meio ao calor momentâneo. E Khalil passou a mão por toda a região de meu tronco, parando para beijar meu pescoço, onde deixou algumas marcas.

— Estou com sono — concluí.

Ele ainda beijava meu pescoço, mas assentiu com a cabeça mesmo assim. De algum modo, me colocou no colo e foi me carregando até um dos quartos, o que possuía cama de casal, e me colocou sobre o colchão, calmamente, cobrindo meu corpo com os lençóis. Deu um último beijo em meus lábios e só pude me lembrar daquilo.

Notas finais
Lá embaixo é pior