Why Me?

45 Capítulo 45 - Live and Let Die


Notas iniciais
Já disse que adoro escrever tragédias?

Carl tirou sua camisa xadrez e colocou sobre meu corpo e saiu de cima de mim. Encostei-me à parede fria logo atrás de mim, com a visão mirada nos garotos. Eram três, dois morenos e um louro. O louro me lembrou de alguém de uma memória temporária.

– O que vocês estão fazendo? – perguntou Carl, irritado.

Os garotos se entreolharam, mas um dos morenos ainda estava vidrado em mim. Arqueei uma sobrancelha para ele e vesti a camisa de Carl, abotoando-a.

– Estudávamos aqui. Fizemos um refúgio dentro da escola, mas resolvemos passear por aqui – pronunciou-se o louro. – A questão aqui é o que vocês estavam fazendo.

Senti minhas bochechas queimarem no momento e Carl começou a gaguejar.

– A gente precisa sair daqui – disse Carl, virando-se para mim.

– Só se você quiser ser devorado – falei enquanto ajeitava as mangas nos cotovelos.

– Nós sabemos como sair daqui – disse o louro com um sorriso sarcástico plantado em seu rosto.

Carl olhou de relance para ele e voltou seu olhar para mim novamente. Seus olhos pareciam sérios conforme ele respirava.

– Não quero ajuda desses caras – indagou.

– Não vou ficar aqui – retruquei.

– A gente consegue matar os errantes no ginásio – disse o garoto, ajeitando seu chapéu na cabeça.

– Você que mate. Eu vou com os garotos.

Carl ficou pasmo, mas eu não me importei. Peguei minha camisa que estava jogada e engatinhei até os garotos. O louro que estava logo na ponta virou-se para mim, ainda com o sorriso sarcástico. Ele vestia jeans escuros e uma camisa desgastada num tom azul marinho.

– Qual seu nome, espertinha? – riu.

– Mari. Sou mais do que espertinha.

– Sou Ethan – levantou as mãos em modo de rendição. – Senhorita.

Olhei para trás e vi Carl engatinhando em direção à ponte, logo onde estávamos. Ele não estava com uma expressão boa.

– Seu amigo parece ter chupado alguns limões depois que o convidamos para sair daqui.

– Pois é – ri enquanto analisava a expressão de Carl.

– Vocês virão conosco? A saída é logo ali – apontou para um buraco no teto.

– Vamos sim – afirmei.

Os garotos começaram a andar normalmente até o local. A ponte que se estendia pelo teto era muito alta. Dava para ver os errantes de um ângulo muito estranho. Alguns tinham parte da cabeça faltando. Era nojento e interessante ao mesmo tempo. Um dos morenos fez um sinal para o louro, que respondeu com um aceno. E logo, chegamos ao buraco onde disseram ser a saída.

Ethan passou pelo buraco. Inclinei-me para ver onde dava, e o resultado foi uma escada. Havia uma logo atrás. Os dois morenos passaram, e em seguida, eu e Carl. O garoto parecia incomodado com o plano de saída. Tocou meu ombro e virei-me. Lançou-me apenas um olhar que expressava que ainda tinha como voltar. Balancei a cabeça irritada e voltei a olhar para frente.

Quando chegamos ao fim da escada, Ethan virou-se com as duas mãos posicionadas na cintura e respirou fundo, olhando para mim e para Carl.

– Vocês estão com acampamento onde? – perguntou.

– Em uma vila por perto – respondi.

Carl tirou sua arma do coldre e fixou seu olhar em um dos morenos, o qual olhava para meus seios.

– Vocês matam pessoas? – perguntou o observador.

– Só quando necessário – disse Carl, piscando com um olho.

Ignorei a situação e voltei a escutar o louro.

– Podemos acompanha-los. Precisamos de mantimentos, aqui se esgotaram, de qualquer maneira – sorriu. – Esqueci-me de apresentar os dois. Estes são Craig e Clapton, os gêmeos. Eles são um pouco ingênuos.

– Temos que ir agora. Logo escurece e eu odeio andar no escuro – respondi.

E assim, eu comecei a andar na frente do grupo, liderando. Carl vinha logo atrás de mim, e em seguida dele, vinham os garotos. Olhei pelo reflexo da faca e vi que um dos garotos estava com o olhar fixo em uma de minhas partes. E notei que Carl parecia incomodado com isso também. Ri comigo mesma e segui a caminhada.

[...]

Quando chegamos à vila, os garotos pararam, e eu parei também. Virei-me para trás e vi que Ethan analisava cada parte da paisagem ao seu redor enquanto exibia seu sorriso. Olhei para os gêmeos e vi a única coisa que os diferenciava um do outro. Clapton tinha uma pinta logo acima da boca. E ele também era o mais “discreto”. Que estava com o olhar fixo em meus seios novamente.

– Bem, agora que estamos aqui, vamos vasculhar algumas casas. Pegar uns suprimentos – disse Ethan.

Carl ignorou as palavras e seguiu andando até a casa onde estávamos. Fiz o mesmo e fui atrás do garoto, despedindo-me do outro grupo com apenas um aceno.

Enquanto andava, Carl virou-se para mim.

– Eu não confio nesses caras.

– Eu não confio em ninguém – respondi.

– Enfim, o que está acontecendo com você? – disse o garoto com seus olhos azuis fixados nos meus.

– Me diga você, pois não tenho ideia.

– Primeiro você me beija e depois você praticamente me deixa para trás. Você é bipolar ou o que? – indagou o jovem.

– Não tenho muitas opções num apocalipse zumbi.

– Tem três garotos logo ali. Não existe essa de não ter opções.

Olhei para ele e abri um sorriso irônico. Virei-me novamente e caminhei na direção de Ethan, a quem puxei o braço. Quando ele estava de frente para mim, o puxei para perto pelo pescoço e o beijei. O garoto pareceu surpreso, mas segurou na minha cintura mesmo assim. Ouvi um disparo e me separei do garoto. Carl estava com a arma mirada para o céu e seu olhar fixo em mim quando começou a andar em direção a Ethan. E então, ele o derrubou e começou a socar o rosto do outro. Entrei no meio da briga e soquei o estômago do Carl e o joguei para o lado. Ele me olhou desentendido até que parei na frente dele e disse:

– Qual o seu problema, garoto?

Ele ficou me analisando por um tempo enquanto segurava o estômago e fazia uma expressão que mais parecia uma junção de dor e desentendimento. Seus olhos cristalinos fixos aos meus, mas os seus demonstravam mais sentimentos.

– Isso não está certo! – ele gritou. – Eu estou com você há mais tempo. Ele acabou de chegar!

– Eu não estou namorando esse babaca – gritei apontando para o louro.

– Ei! – exclamou o mesmo, com a mão no maxilar.

– E você não tem nada a ver com minha vida. Eu faço o que eu bem querer e você fica no seu canto – ignorei o indignado atrás de mim.

– Então não brinque com os sentimentos dos outros – disse Carl por fim, levantando-se e indo em direção a casa em que ele e Rick Grimes estavam.

Ignorei toda a cena. Notei que os gêmeos estavam ajudando Ethan a levantar-se, e o garoto estava vermelho de raiva. Parecia que ia disparar uns 20 tiros no peito de Carl. Apenas dei meia-volta e andei até a casa onde as crianças estavam. Ao chegar no local, notei que a porta estava encostada. Quase fechada. Achei estranho e torci para que as crianças não tivessem fugido. Adentrei o local e vi parte das cadeiras caídas e umas manchas escuras no carpete da escada. Queria que aquilo estivesse lá antes de nós chegarmos. Subi os degraus já com a faca em mãos e ouvi barulhos baixos vindos do quarto onde eu havia dormido noite passada.

Assim que abri a porta, vi um corpo de um errante caído. Totalmente morto, agora. O barulho ficou mais claro e percebi que era um choro baixinho. Andei mais um pouco e vi a cabeleira loura atrás da cama. Suspirei de alívio e sorri levemente.

– Ah, que bom que tudo está bem. Achei que... – parei de caminhar no mesmo instante em que vi a cena que fez meu coração parar por um minuto.

Senti que ia vomitar ou cair morta naquele exato momento. Não era muito para processar, mas era demais, e mexeu muito com minha mente. Meu sorriso se fechou naquele mesmo momento, deixando-me boquiaberta.

Chris segurava sua irmã no colo, com sangue escorrendo por suas mãos. Na blusa nova que havia trazido à pequena havia uma perfuração grande com sangue seco em volta e sangue vivo escorrendo para o corpo de seu irmão. O garoto olhou para mim com os lábios tremendo e os olhos estreitos e vermelhos. Parecia ter chorado muito.

Eu havia me lembrado de algumas coisas nesse meio tempo em que perdi a memória. E esse sentimento do pequeno... Eu já havia sentido. Eu havia perdido meu irmão no começo de todo o caos. E o pior de tudo, foi que não tinha como ajuda-lo. Nada que eu falasse o consolaria.

Apenas sentei-me ao seu lado de mãos cruzadas, permitindo-me derramar algumas poucas lágrimas enquanto escutava os gritos secos do louro.

Notas finais
Pois eu adoro.