Why Me?
46 Capítulo 46 - All The Streets Looks Different
Notas iniciais
Foi só naquele momento que me permiti desabar, não só pela morte de Lucie, mas por tudo que vinha acontecendo comigo. Ainda não tinha uma visão ampla sobre toda a situação. Resolvi listar tudo que vinha me ocorrendo desde que me lembrava. Um grupo inteiro me odiava. Várias pessoas tentaram me matar. Não sabia praticamente nada sobre meu passado. Havia falhado com minhas responsabilidades. Havia perdido alguém que era importante.
E então pensei comigo mesma. Lembrei-me do acampamento, de Leighton. Gabrielle havia sido brutalmente assassinada por alguém, e a primeira suspeita fui eu. Não era amiga dela, mas não tinha motivos suficientes para mata-la. Mas tinha personalidade para matar. Sabia que era fria, insensível e cruel, mas também fui chamada de egoísta e irresponsável pelas vozes que rodeavam minha cabeça.
Eu realmente achei que Lucie estava me mudando? Fui idiota.
Nunca que eu conseguiria mudar minha personalidade. Além de tudo isso, era orgulhosa demais para aceitar que tudo isso me prejudicava de certo modo. Não deixaria de ser assim.
Pensei em Carl também. Sua personalidade chegava a ser maravilhosa, e ele era uma das únicas pessoas que não havia me abandonado ainda, ou que corria atrás de mim. E ele me amava. Por mais que me impedia de sentir qualquer coisa pelo garoto, ele mexia comigo, inevitavelmente. Sua companhia era boa.
Olhei para a figura inocente ao meu lado. Chris não havia parado de chorar ainda. Sua irmã estava pálida, sem vida nos olhos antes azuis. A barriga da garota estava exposta com a grande mordida de onde ainda escorria sangue. Toquei em minha faca. Daqui algum tempo, Lucie acordaria novamente, mas não em sua vida anterior. Mas em uma nova, onde o objetivo era vagar mundo afora.
— Chris — chamei o garoto, que continuou a soluçar.
Ele olhou rapidamente para mim, com seu rosto inchado. Estávamos sentados lá havia algum tempo. Talvez uma hora.
— Precisamos enterrá-la.
Ele abraçou o corpo da garota novamente, chorando cada vez mais. Senti um aperto no coração. Levantei-me e estendi minha mão para o garoto.
Notando meu gesto, colocou o corpo de sua irmã deitado no chão e segurou minha mão, levantando-se junto a mim. Agachei-me e peguei o corpo da pequena. Desci a escada calmamente, ainda fraca por derramar todas aquelas lágrimas. Chris abriu a porta dos fundos para que eu passasse. Parei no jardim e deitei a garota no chão. Precisava matar Lucie de uma vez, então inventei uma distração para Chris.
— Pode pegar uma coisa que sirva de pá?
Ele assentiu e voltou para dentro da casa. Não perdi tempo. Peguei minha faca e finquei na lateral da cabeça da pequena, deixando sangue escorrer, manchando o cabelo louro. Retirei a faca rapidamente e limpei na barra de minha camisa. Quando Chris voltou, ele parecia mais devastado que antes, como se a ficha tivesse caído só naquele momento. Ele havia achado uma pá, de algum modo, e começou a cavar do lado da irmã.
Pensei em todos meus erros novamente e me causou uma dor de cabeça imensa. Eu precisava desfazer alguns deles, ao menos. E o mais próximo era Carl. Andei para fora do jardim sem que Chris me notasse. Fui até a rua de cascalhos e caminhei em direção a casa onde estava o garoto dos olhos azuis e seu pai. Ele havia me mostrado o local uma vez, então memorizei e segui. Cheguei à frente da casa e fiquei encarando a porta. Eu precisava bater, mas recuei. Sim, eu recuei. Virei-me com essa sensação de incômodo e me retirei do local, voltando a casa onde estava.
Cheguei ao jardim novamente e Chris ainda cavava, com lágrimas que molhavam a terra seca. Sentei-me e fiquei observando o corpo morto de Lucie ao lado de Chris. Eles devem ter passado por todo o caos, juntos, e só agora estariam se separando. A sensação deveria ser horrível, da qual eu não gostaria de ter de passar por.
Ouvi barulho nos cascalhos das ruas.
— Vou verificar — falei e retirei minha faca da bainha.
Andei devagar até chegar perto da cerca que dividia o terreno de uma casa para outra. Quando me aproximei mais, vi Carl ajudando seu pai e uma mulher que carregava uma espada oriental. Carl estava atrás enquanto a mulher liderava o pequeno trio. Esperei que o garoto me visse, e foi o que ocorreu. Seria o Universo me dando mais uma chance?
Fiquei parada em frente à casa enquanto Carl me olhava com desprezo. Não achei que ele fosse falar comigo, mas ele levou seu pai até a mulher e disse algo, que fez os dois seguirem caminhando, e veio até mim.
Ficou parado à minha frente, me encarando de braços cruzados. Ele usava a mesma roupa daquele dia e seu chapéu estava posicionado na cabeça. Seus lábios secos e seus cabelos grudavam ao pescoço.
— O que mais você quer de mim? — perguntou o garoto com certa raiva.
Senti as lágrimas brotarem em meus olhos. Carl deve ter notado, pois pareceu menos sério. Foi aí que percebi que mesmo bravo, ele ainda se importava comigo. Deixei as lágrimas caírem e fiquei parada, chorando, com o garoto me encarando. Automaticamente, agarrei-me ao seu corpo, o abraçando. Meus braços estavam enlaçados em seu pescoço e meu rosto encostado em seu ombro. Eu estava nas pontas dos pés, mas a dor parecia diminuir naquele conforto. E eu fiquei lá, chorando, enquanto o garoto começava a tocar minha cintura.
Deu-me uma onda de calor sentir suas mãos em mim. O agarrei mais forte e comecei a passar minha mão abaixo de meus olhos, para não molhar o garoto.
— Para onde vocês vão? — perguntei em meio a um soluço.
— Seguir os trilhos — disse após suspirar fundo. — Terminus.
— Você ainda gosta de mim? — perguntei.
Carl não respondeu, mas me pressionou mais forte contra seu corpo. E ficamos assim por um tempo, naquele silêncio que dizia tudo e não dizia nada ao mesmo tempo. Seu cheiro era uma mistura de metal com o couro do chapéu. Arrepiei-me quando senti suas mãos subindo e descendo pelas minhas costas.
— Eu não posso demorar muito. Meu pai e Michonne estão me esperando.
— É uma despedida, não? — me afastei um pouco.
— Sim. Acho que é.
Me separei dele e fiquei encarando seus olhos por um tempo. Ele não parecia muito feliz. Entrelacei meus dedos aos seus e ele beijou minha mão.
— Você deveria vir conosco — disse ele. — Lucie e Chris podem vir junto.
Voltei a olhar em seu rosto. Abaixei a cabeça e senti as lágrimas brotarem em meus olhos mais uma vez. Ele segurou minhas mãos mais uma vez.
— Lucie morreu — disse eu.
— Sinto muito.
Assenti com a cabeça e forcei um sorriso.
— Vou chamar Chris.
— Ótimo — sorriu o moreno.
Fui correndo para o quintal de trás e vi Chris ajoelhado ao lado do montinho de terra, onde havia enterrado sua irmã. Toquei seu ombro e sorri quando ele me olhou.
— Precisamos sair daqui.
— Não quero mais andar. Quero sentar e esperar que outro daqueles apareça e faça o mesmo comigo.
— Não podemos ficar aqui. Tudo nos lembrará ela. Vamos andar com o grupo de Carl — o garoto me abraçou. Queria dizer-lhe que tudo ficaria bem. — Pense menos, aja mais.
E então, ele me soltou e fomos andando para fora do jardim.
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