Why Me?
43 Capítulo 43 - New Clothes
Notas iniciais
Acordei com Carl ao meu lado. Sua respiração estava bem próxima de meu pescoço. Era uma sensação de conforto tê-lo ao meu lado, mas ao mesmo tempo, era algo que eu precisava rejeitar. Eu não poderia cair nisso tudo novamente, tinha de ignorar os sentimentos, tudo.
Levantei-me e fui direto para o quarto das crianças, apenas empurrando a porta delicadamente para vê-las. Chris dormia na cama ao lado da janela e parecia ter jogado suas cobertas no chão no meio da noite. Já Lucie estava dormindo tranquilamente, apenas com suas mãos e sua cabeça por fora das cobertas. Ela realmente parecia uma boneca de colecionador.
Voltei ao meu quarto, lembrando-me da faca que havia deixado em cima da cômoda e fui pegá-la. Entrei no quarto com cuidado, para não acordar Carl. Mas não porque me importava com ele, mas porque não queria receber muitas perguntas logo de manhã. Aproveitei para pegar minha jaqueta, imaginando que o clima pudesse estar mais fresco.
Aproximei-me da cômoda e peguei a faca, saindo com passos apressados do quarto, para poder sair um pouco, procurar mais suprimentos. Kit-médicos, água, comida, enlatados, roupas, etc. Aliás, meu jeans estava totalmente sujo. Minha camisa então, nem se fala. Tudo tinha manchas de sangue seco em quase tudo.
Abri a porta e fui para as ruas do condomínio. O clima não era dos melhores. Estava frio e o céu estava escuro. Por sorte, eu havia seguido meu instinto e trazido minha jaqueta. Segui andando em direção às casas e aproveitei para analisar as casas em que as portas pareciam arrombadas e as que estavam fechadas. Quase todas elas pareciam abertas, mas, ao fim da rua, havia uma que estava bem fechada.
Caminhei até lá e realmente, a casa parecia trancada. E estava. Não havia muitas opções além de arrombar a porta. Seria muito arriscado e minha perna não estava totalmente boa ainda. Não me faria bem. Desci os degraus e andei ao redor da casa, procurando por qualquer janela. Olhei de relance para a cerca e avistei a cabeça de mais ou menos três errantes. Agachei-me no mesmo momento.
– Droga.
Tentei espiar por uma pequena separação entre uma cerca e outra, mas não consegui ver muito bem. Eram quatro, um dos errantes rastejava.
Ainda agachada, fui em direção da janela mais próxima e a abri calmamente, procurando não fazer barulhos para atrair os mortos. Não consegui entender como eles não haviam me notado antes. Entrei direto na cozinha e tive dificuldade em pisar num local do balcão onde não houvesse panelas ou caixas vazias. Se eu chutasse, poderia gerar um grande barulho e atrair todos aqueles errantes. Afastei mais para o lado uma das panelas e posicionei meu pé no mesmo lugar. Olhei rapidamente para trás, para checar se não havia nada por perto e adentrei com a faca na mão.
A cozinha era bem moderna. E chique. Guardei a faca e analisei melhor o local. Os armários de cima eram revestidos em madeira clara, com pintura falha branca. Havia um belo lustre no centro, iluminando a mesinha. Tirando toda aquela sujeira, o lugar daria uma casa de uma família de classe média-alta. Tudo estava fechado. Portas, janelas, armários, etc. Achei que os antigos moradores deviam ter procurado tudo em pânico. O condomínio deve ter feito algum tipo de evacuação, todas as casas se viam no mesmo estado, como se fossem avisados para pegar o necessário e sair.
Abri quase todos os armários procurando qualquer coisa que pudesse servir, mas não achei nada. Andei até a escada, passando reto pela sala. Subi os degraus e notei que todas as portas estavam abertas. Olhei para a porta do meio onde um detalhe me chamou atenção: uma mancha de sangue bem visível na tintura branca.
Retirei a faca do suporte e me aproximei da porta. A afastei lentamente, mas fui surpreendida. Um errante avançou em mim no mesmo momento em que eu havia aberto a porta e minha faca caiu mais para o lado. O bastardo ainda estava bem-vestido! Eu caí com seu encontro então tentei engatinhar para trás, mas ele fez o mesmo, só que em minha direção. O morto chique pegou minha perna, e quando estava prestes a abocanhar, chutei sua face que caía aos pedaços. Engatinhei rapidamente em direção da escada, pois minha faca estava por perto. Peguei-a e virei-me no mesmo instante, mas o errante já segurava meus ombros. Foi aí que eu me joguei para trás, numa queda da escada, com um morto-vivo agarrado a mim.
Ao chegar ao primeiro andar, e com minha tão grande sorte, o errante ainda estava vivo. E o melhor, ele estava por cima de mim e minha faca estava presa em sua costela. Comecei a afastar seu peito de perto de mim. E por mais estranho que fosse aquele momento, o tecido da camisa social era muito bom. Enfim, continuei a empurrá-lo com uma mão e tentando pegar minha faca com a outra. Enquanto retirava a lâmina de seu lindo terno, meu outro braço cansava de tentar afastar o ser, e acabei cedendo. A faca aprofundou-se e fiquei cara-a-cara com o morto. O cheiro de podridão predominou minhas narinas e me fez querer vomitar naquele mesmo momento.
Foi aí que lembrei de um golpe que havia aprendido com um dos guardas. Segurei um dos ombros do morto e posicionei meu braço sobre seu peito, enrolando uma de minhas pernas na sua, o girando para o lado. Aí eu assumi a posição de cima, e tentei retirar a minha faca de suas costelas novamente. Podiam-se ouvir apenas meus gemidos e o barulho dos dentes do errante batendo fortemente. Consegui, finalmente, tirar a faca de seu corpo e a pressionei contra o crânio, fazendo seus dentes pararem. Amém.
Respirei fundo e vomitei um pouco sobre o terno. Foi uma pena, o terno era bem bonito. Saí de cima da criatura, me levantando com dificuldade por culpa da queda. Havia ferrado mais ainda com meu corpo. Agora eu estava com dores nas duas pernas e na costela.
Subi os degraus da escada novamente, ainda com a faca em mãos, me preparando para qualquer outro ataque surpresa. Adentrei o cômodo onde fui atacada e avistei um corpo no chão. Chutei-o para ter certeza de que não estava “vivo”. Era uma mulher, vestindo camisa social e calças cor cáqui. E usava saltos iguais aos de Gabrielle e suas amigas. Espere, quando que Gabrielle usava saltos?
Enfim, a mulher devia ser esposa do cara que havia acabado de matar. E ela parecia morta há tempos. E seu corpo estava no tapete do grande quarto de casal. Obviamente, desse mesmo casal. Era igual uma suíte real, totalmente limpa e diferente do resto da casa. Uma cama imensa e vários armários, vários lustres e um closet ao fundo, que foi onde eu me direcionei, passando reto pela gigantesca lareira. Esqueci-me de mencionar os quadros absurdos que preenchiam as paredes. Se aquilo era arte, era só colocar tinta no nariz de alguém e fazê-lo espirrar sobre a tela.
O closet era quase o tamanho de um quarto. Repleto de roupas caras e vários sapatos. E, para minha sorte, havia várias bolsas também, mas para meu azar, nenhuma que pudesse servir para levar as roupas. Então, tive de apelar para as bolsas de couro. Peguei uma grande, que chegava a ser uma sacola chique. Comecei a analisar todas as roupas e peguei uns jeans femininos e masculinos. Peguei alguns vestidos e umas blusas, mas alguma coisa me chamou atenção, e foi um vestido azul. Mas não era um vestido azul qualquer. Ele tinha um decote não tão visível e devia chegar mais ou menos até parte da coxa. Tinha alguns brilhinhos espalhados, quase invisíveis em meio ao azul perfeito. Não me importava muito com roupa, mas tive certa familiaridade com esse vestido, e senti que deveria leva-lo. E foi o que eu fiz. Numa bolsa separada, coloquei-o delicadamente, e a fechei. Peguei outras bolsas para levar sapatos confortáveis.
Peguei minha faca no suporte e fui andando para o andar debaixo. Eram muitas bolsas penduradas em meus braços. Eu parecia uma madame que acabara de fazer compras numa loja na Champs-Élysées.
Fui caminhando novamente até a casa onde estava “hospedada”. Ao chegar lá, pude ouvir um trovão soar em meio ao silêncio. Por sorte, aqueles errantes que estavam perto da casa que havia invadido não tinham me perseguido.
Girei a maçaneta e coloquei as bolsas sobre o sofá da sala, e subi os degraus delicadamente, procurando não fazer barulho. O máximo que eu poderia ter demorado seriam uns vinte minutos. Cheguei ao quarto e observei pela fresta, para ver se Carl havia acordado. E a resposta foi sim, ele estava sentado na cama, conversando.
– Mas eu não entendi – a voz doce de Lucie soou. – Você e a Mari terão um final feliz? Assim como nos contos de fadas?
Pude ouvir Carl suspirar.
– Sabe, Lucie, algumas coisas não são possíveis de decifrar. O futuro está incluído nisso. Nunca vamos saber o que vai acontecer.
– Vocês já se beijaram? – Chris perguntou.
Encostei-me a porta, tentando ouvir a conversa e entender a origem dela.
– Muito – Carl falou.
– Então se vocês se amam, por que brigaram? – Lucie parecia indignada apenas por seu tom de voz.
– Amor é algo muito forte. Muita gente não sabe lidar com isso, e... Eu não soube. Então fiz algo errado e acabamos brigando – disse Carl.
Senti uma leve pontada em meu coração. Uma coisinha irritante em meu peito, que parecia tornar-se profunda em meio às palavras de Carl.
Adentrei o quarto e disse apenas algumas palavras, antes que falassem qualquer coisa.
– Trouxe roupas.
As crianças pareceram felizes e saíram do quarto rapidamente, indo logo em direção da escada. Carl permaneceu sentado na cama, olhando fixamente para mim, como se esperasse algum tipo de resposta. Ou pergunta.
– Você ainda gosta de livros? – perguntou tendo em vista que eu não diria nada sobre o outro assunto.
– Sim – respondi.
Carl levantou-se da cama e andou até uma prateleira que ficava no quarto. Pegou um exemplar e voltou até mim, entregando-me. Era um livro bonito, de capa dura e várias páginas. Sentei-me na cama, e o garoto sentou-se ao meu lado.
– Achei numa das estantes do escritório. Pareceu legal.
Assenti com a cabeça e deitei-me nas cobertas, abrindo a primeira página. O autor havia assinado. Bem, agora, se eu gostasse do livro, eu já possuía o exemplar assinado. Senti aquela mesma pontada em meu coração. Não sabia explicar o que era, mas nem sempre era ruim. Carl se deitou ao meu lado, analisando o teto. Abaixei o livro e olhei para ele, e meu corpo tremeu quando ele olhou de volta. Eu estava tentada a beijá-lo naquele mesmo momento. Pareceu-me tão certo, tão convincente. Mas minha mente falou mais alto e acabei me levantando.
Segurei o livro e o analisei mais uma vez, para em seguida, coloca-lo na cômoda e sair do quarto. Fui em direção da escada e observei as crianças se vestindo com roupas do triplo de seus tamanhos. Lucie estava com uma regata nova sobre seu próprio jeans. Estava bem larga, então pedi para que ela se aproximasse, e, delicadamente, cortei uma parte da regada e o que sobrou, encaixei dentro de seu jeans, para que ficasse confortável. Seus sapatos estavam estáveis. O mesmo de Chris, mas ele vestia uma camiseta bem larga, então fiz o mesmo que havia feito com Lucie.
A bolsa com o vestido estava ao meu lado, então a peguei e resolvi levar para cima, com outra bolsa. Subi os degraus novamente e voltei para o quarto, e Carl não estava mais lá. Coloquei as duas bolsas sobre a cama e retirei uma camiseta xadrez em cores variadas, como azul-marinho, salmão, preto, branco e roxo. Mas era bonita. Retirei minha blusa suja e me olhei no espelho.
Foi aí que me assustei.
Meu corpo não parecia o mesmo. Eu parecia diferente. Meu cabelo solto caindo sobre o sutiã, estava bem maior. Havia uma pequena lembrança em minha memória de como eu era antes do apocalipse. Meu cabelo era mais curto, meus seios eram menores, e eu não era tão magra. Conseguia ver parte de minhas costelas. Virei-me de lado e olhei novamente. Eu estava realmente magra. Passei a mão por toda a extensão de minha barriga, para sentir as costelas e minha cintura. Sem contar todos os hematomas em meu corpo. Senti dor enquanto passava minha mão.
– Mari, você viu as roupas masculinas? – Carl abriu a porta do quarto.
Virei-me para trás, assustada e procurei qualquer coisa que pudesse cobrir meu sutiã.
– Carl!
O garoto parecia até hipnotizado com o que via, enquanto tudo que eu sentia era ódio. Fiquei o encarando até ele dizer algo.
– Desculpe, eu...
– Saia daqui!
E ele deu meia-volta e segurou a porta. Virei-me novamente para o espelho e vi minha expressão de susto. Respirei fundo e procurei por qualquer blusa na bolsa, mas novamente, fui surpreendida. Carl segurou minha cintura e me puxou contra si, me beijando vorazmente.
Minhas mãos queriam ceder, mas eu ainda as controlava. Então o empurrei e, com meus braços, cobri meu sutiã. Ele sorria, enquanto eu sentia vontade de espanca-lo naquele mesmo momento.
Vesti uma camisa qualquer e empurrei Carl para fora do quarto, voltando-me para o espelho, com as mãos sobre a cabeça, eu estava muito confusa sobre meus sentimentos em meio àquilo tudo.
– Sua camisa não está abotoada – disse Carl.
Olhei para baixo e notei que meu sutiã estava totalmente visível. Gritei mais uma vez até o garoto sair do quarto e me deixar só.
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