Why Me?
44 Capítulo 44 - Breakin' Dishes
Notas iniciais
Minha primeira reação após aquilo foi ódio. Eu não conseguia acreditar no abuso do garoto sobre mim. Eu estava sem camisa!
Mas, em seguida, parei para pensar sobre o que havia ocorrido. E de certa maneira, eu sentia falta de beijá-lo. E todo esse tempo tive essa tentação. E isso era bom, pois em seguida, eu não sentiria mais vontade alguma.
Peguei outra camisa em cima da cama, uma regata de alças finas, da coloração das nuvens negras. Permaneci com meus jeans e as botas sujas. Não vi necessidade em trocá-las. Elas eram boas para corrida. Peguei uma jaqueta e saí do quarto. Fiquei no meio do corredor quando escutei um choro baixinho. Era feminino, então só podia ser Lucie. Me aproximei para espiar pelo vão da porta, e vi a garota sentada no canto do quarto. Adentrei, sem pensar duas vezes. Ela se virou quando escutou meus passos. Torci a boca e pensei em dar meia volta, mas não fiz. Me sentei ao lado dela.
– Por que está chorando?
A garota fungou mais um pouco e colocou uma das mechas quase brancas atrás da orelha. Piscou com seus olhos da cor de esmeraldas e voltou a chorar.
– Eu não quero virar um deles.
Lucie voltou às lágrimas. Não era uma pessoa de conselhos, e muito menos alguém que soubesse como acalmar crianças com medo da morte. O único consolo que encontrei foi passar a mão em seu cabelo. Não havia o que dizer para ela naquele momento. Nunca saberíamos quando morreríamos. E se nós iríamos virar um errante no final. E talvez, esse fosse o maior medo dela, mas ela devia ser uma garotinha forte para conseguir esconder isso por tanto tempo.
– Por que acha que vai virar um deles? – perguntei enquanto meus dedos estavam cobertos da cabeleira loura.
– Eu não sei se vou virar – fungou novamente. – Mas tenho medo. Não quero!
Segurei suas bochechas com as mãos e sorri, olhando para as lágrimas que percorriam a extensão de seu rosto.
– Eu te prometo. Juro-te que você não vai virar um deles – forcei um sorriso, mas sabia que estava mentindo.
E não estava mentindo apenas para ela, mas para mim mesma. Como eu poderia jurar algo sobre o futuro? Ainda mais nesta situação...
Acariciei suas bochechas mais uma vez e me levantei. Saí do quarto e desci as escadas em seguida, me deparando com Carl, que mexia numa sacola em cima da mesa. Virei o corredor e acabei na sala, onde estava Chris, lendo um quadrinho.
– Chris – chamei e ele desviou os olhos dos quadrinhos, logo em minha direção. – Você poderia dar uma olhada na sua irmã? Ela estava meio mal agora há pouco...
O garoto assentiu e deixou o gibi em cima do sofá, subindo as escadas às pressas. Carl olhou para trás de relance e soltou uma risada abafada. Me senti um tanto desconfortável perto dele. Era um tanto infantil, o motivo, porém não era muito interessante estar no mesmo lugar que uma pessoa que você odeia e beija.
– Lucie está bem? – perguntou.
– Sim.
Ele assentiu com a cabeça e voltou a vasculhar a sacola.
– Você trocou a camisa – disse o garoto.
– Eu estava torcendo para não tocar neste assunto.
– Deve estar se perguntando o por que de eu ter feito aquilo, não?
– Não.
– Já que insiste, eu te beijei por...
– Carl! – gritei. – Eu não quero nada! Eu sou independente de amor. Eu não quero você de volta. Sem contar que eu te odeio. Eu continuo a te odiar.
Carl não pareceu deprimido com minhas palavras. Inclinou a cabeça para o lado e sorriu de canto.
– Como você pode odiar alguém e demonstrar fortes sentimentos pelo mesmo?
E foi o que me deixou sem palavras. Cheguei a abrir a boca algumas vezes, tentando formar palavras, mas não havia nenhuma resposta para aquele momento. Somente mentiras. E o pior de tudo, era que Carl estava certo. Eu queria muito odiá-lo, mas eu não conseguia conter meus sentimentos. Mas, de qualquer modo, eu não admitiria nada. Só continuaria a ignorar, até tudo ir embora.
– Lucie! Chris! – gritei alto o suficiente para que os dois escutassem de dentro do quarto. – Vamos buscar suprimentos. Trancarei a casa, então vocês não correm perigo. Mas fiquem pelo andar de cima e lembrem-se dos truques que ensinei!
Olhei para Carl que estava encostado à cadeira, com a boca torcida e uma das sobrancelhas arqueada.
– Você vem comigo.
[...]
Não muito longe da vila, havia um ginásio. Era bem grande e tinha coloração escura, então se destacava um tanto em meio às folhagens. Eu e Carl segurávamos nossas armas. Eu com minha faca, ele com seu revólver. Ambos em posição de ataque. Andamos até as grandes portas e paramos logo ali.
Empurrei com o ombro uma delas, mas não abriu. Carl tentou a outra, que abriu logo em seguida. Em silêncio, adentramos o local. E era tão grande quanto o que vimos por fora. Havia uma espécie de escada num dos cantos, que levava a uma pequena estrutura antes do prédio. Parecia uma ponte, aquelas que usavam para trocar lâmpadas e coisas do tipo. Fomos para um dos lugares onde tinham cadeiras. Sentei-me em uma e Carl sentou-se em outra.
– Viemos buscar o que, exatamente? – perguntou Carl, guardando a arma. – Até onde sei, temos tudo para o necessário.
– Viemos para conversar – respondi.
– Sobre?
– Qualquer coisa.
– Viu o jogo ontem? – Carl riu e eu dei um tapa leve em seu ombro.
Ri de sua expressão. Ele puxou outra cadeira para apoiar os pés e quase se deitou na outra.
– Sério, você quer falar sobre o que ocorreu mais cedo? – colocou o chapéu sobre o rosto.
– Não sei. Tá tudo acontecendo... Tudo que eu quero evitar.
– E por que quer evitar? – ele ajeitou-se na cadeira.
– Não sei. Quero focar na sobrevivência. Não quero nada. Ainda que eu não esteja tão de acordo com tudo que você fez até agora.
– Mari, o que você quer que eu faça? Você já sabe de tudo que eu sinto. E eu já cheguei a ajoelhar para implorar por perdão.
– Não é assim... Tipo, você nem sabia o básico sobre mim. Não éramos nem tão íntimos assim.
– Olha, quem não sabe o básico sobre você, é você mesma. Seu nome é Mari, você tem 14 anos, odeia chocolate, tinha um irmão de 17 anos, Lucas. Sua melhor amiga era a Mia, que morreu. Ex-namorada de Mark, aquele babaca, e minha namorada. Ou ao menos, era.
– Bem, não sei se o resto está certo, mas meu nome não é Mari.
– Como não? A vida inteira você disse que era!
– Eu menti. É Marilyn.
– Não creio que acreditei que fosse Mari todo esse tempo...
E então, pude ouvir uma batida forte. E o som era próximo. Carl e eu nos levantamos das cadeiras e pegamos nossas armas, prontos para qualquer ataque. Foi então que uma porta de dentro do ginásio se quebrou. Primeiro era apenas um errante. Até que o número foi aumentando. Dez, doze, dezessete. Eram muitos.
O garoto olhou para mim e eu apontei para a escada no canto do local. Fomos correndo para lá então.
Carl subiu a escada atrás de mim. Quando chegamos ao teto, eu me encostei-me à grade com minhas costas e olhei de relance para baixo. Aquele grupo imenso de errantes, um empurrando ao outro, apenas tentando subir, o que nunca conseguiriam.
Olhei para o garoto a minha frente, que estava inclinado, de joelhos, me olhando profundamente nos olhos, com a boca semiaberta. Ele me atraiu daquele modo. Em uma questão de segundos, ele segurou meu pescoço e começou a beijar meus lábios. Segurei suas costas firmemente e seguimos o beijo.
Foi começando a passar dos limites quando ele tocou a barra de minha camisa e começou a subi-la. E então, eu troquei as posições, rolando para o lado. Ele ficou por cima de mim, e eu comecei a beijar seu pescoço. Carl soltou uma risada abafada com seu rosto enfiado em meu pescoço. E eu comecei a tirar sua camisa. Apenas torcia pela camisa não ter caído no ginásio abaixo, senão, estaria cheia de sangue de errantes.
Foi aí que Carl começou a tirar minha camisa, e eu deixei. Também não tive ideia de onde ela poderia ter caído, mas a gente não se importava muito com isso. Carl trocou as posições novamente, me posicionando na grade, seguindo os beijos. Seus beijos quase chegaram aos meus seios, mas ele parou quando eu voltei a beijar seu pescoço. Foi então que ouvimos algo estranho. Um espirro.
Olhamos para o lado, imediatamente, e vimos um grupo de jovens, entre 15-17 anos. Eles estavam sentados numa ponte no teto que atravessava o ginásio, e nos olhavam. Um deles até parecia babar.
– Ahn... Oi – um deles sorriu abobadamente.
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