Why?

3 Apaixonada?


Solto mais um suspiro cansado, voltando a encarar a janela da nossa van, observando passagem molhada pela chuva, parecendo tão triste e frio como o meu próprio humor. Havia se passado dois dias daquele desastre que eu cometi no restaurante. Como as coisas estavam? Péssimas. Eu praticamente não via mais a Bona em lugar nenhum fora o momento da apresentação. Minhas tentativas de falar com ela estavam indo de mal a pior, os poucos momentos que estávamos na sala de espera juntas, nenhuma das membros da unnie line a deixava sozinha tempo o suficiente para me aproximar.

Desci da van assim que ela parou na frente do restaurante que iriamos jantar aquela noite depois de cumprir nosso horário. Eu apenas seguia o fluxo barulhento das integrantes tagarelando em volta de mim. Era visível que as meninas estavam se sentindo culpadas pelo que aconteceu no restaurante, especialmente Luda e Meiqi. Elas faziam de tudo para não me deixarem só ou fazerem o máximo para me distrair. Eu realmente sou grata por isso, mas eu sabia que de fato elas não podiam fazer muita coisa.

Assim que sentamos Seola e Soobin sentam na minha frente, tendo ChengXiao e Meiqi sentadas ao meu lado. Iniciamos uma conversa que eu não dei muita importância, os últimos acontecimentos ainda estão consumindo integralmente a minha mente. Especialmente o que Luda disse. É possível estar gostando da Bona? Meu olhos recaem sobre a pocket girl do outro lado da mesa como se exigisse alguma resposta, mas ela está longe demais para ler minha mente.

— Eunseo, você precisa comer ou vai acabar doente. – Seola unnie disse me observando preocupada. Olho para o prato com aparentemente deliciosos kimbaps, mas eu simplesmente continuo brincar com a comida, sem qualquer fome. – Eunseo, você tá sentindo algo? – Sinto a mão da mais velha na minha testa, bem que eu queria que toda essa confusão fosse apenas o delírio de uma febre.

— Eu estou bem, Unnie. – Forço um sorriso, levando um kimbap a boca.

Devo dizer que comer sobre os olhos atentos da unnies me deixou um tanto incomodada. Meu prato ainda estava pela metade, quando desisti de me forçar a comer. –Terminei. – Logo escutei o protesto da Soobin unnie, mas prefiro apenas sorrir. — Eu estou sem fome. – Levanto, pegando o meu prato quase intocado colocando na frente de Yeoreum, antes de sair, ao menos com ela a comida teria alguma utilidade.

— Eunseo, precisa de alguma coisa? – Olho para o nosso manager surpreso pela minha presença próximo a mesa da equipe.

— Hm? Não, Oppa. Apenas quero um pouco de ar fresco. – Seu olhar pareceu me avaliar por um momento, apenas concordou com a cabeça, deixando que eu seguisse para porta do restaurante, me sentando em um dos meus inúmeros bancos vazios.

Deixei meu corpo se encostar no banco fechando os olhos, não demorou muito para sentir a presença de alguém do meu lado. Acabei sorrindo, era bom saber que sempre teria alguém do grupo para cuidar de mim. Ao abrir os olhos, lá estava Seola me avaliando. Não pude deixar de me surpreender um pouco por ser ela, mas fiquei feliz, estávamos um pouco mais próximas de um tempo para cá.

— Unnie, como você descobriu que estava gostando da Soobin unnie? — Vi a mais velha ficar vermelha, aquilo me fez rir. Havia um pouco mais de seis meses que as duas finalmente haviam se assumido para o resto do grupo, o que realmente não foi surpresa para ninguém. Mas nós nunca havíamos falado disso, ainda mais só nós duas.

— E-eu não sei bem como começou. Mas pequenas coisas que eram normais entre eu e a Binnie, pareceram surtir um efeito diferente em mim. Passei a prestar mais atenção nas coisas que ela fazia, parecia querer atenção dela o tempo todo. Quando ela fica de brincadeirinhas com as outras meninas passei a sentir ciúmes. –Não pude deixar de rir, sabia que eu devia ser um desses motivos de ciúmes. Murmuro um “mianhae” fazendo a mais velha rir e me abraçar. Apoio a cabeça no ombro da unnie, fechando os olhos com o cafuné que recebia.

— Mas o que me fez notar de vez, foi a sua ausência. Quando tivemos as nossas férias, lembra? Cada uma foi para a sua casa, e pela primeira vez eu não me senti tão bem com aquilo. Sentia uma falta tão grande dela que parecia que estava sufocando. Como seus abraços, suas reclamações, como seu carinho, tudo fazia tanta falta que eu parecia perdida. Tanto que nem aguentei o fim das férias, para ligar para ela, chamá-la para sair e o resto você sabe. Ai que vergonha! Não acredito que você me fez falar isso! – Seola me deu um tapa na testa me fazendo rir mais alto.

Depois de ficarmos um bom tempo em silêncio, a Seola unnie parece que percebeu que eu tinha finalmente encontrado a minha própria resposta. – Assim como você sente pela Bona. – Seu tom foi bem baixo, mas o suficiente para que pudesse escutar e olhar para ela. Ela tinha razão. Assim como eu sinto pela Bona. “Sim, eu gosto dela. Não, não gosto. Eu amo ela”.

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Eu sempre imaginei que descobriria que estava apaixonada por alguém de uma forma positiva, cheia de suspiros, cartas de amor e coisas do tipo. E não falando para pessoa que eu amo, que não gosto dela quase em rede nacional. — Parabéns, Eunseo, você merece o troféu babo do ano. Só você realmente conseguiu o impossível. – Encaro minha imagem embaçada no espelho depois de um demorado banho quente.

Aquela noite desde que voltamos do restaurante começou cair um dilúvio apocalíptico, fazendo a maioria de nós preferir ficar juntas na sala assistindo um filme qualquer sob as cobertas compartilhadas. Mas tudo como as suas pequenas exceções como a maknae line estava estudando para suas provas, com a ajuda de Dawon na sala de jantar e Exy estava no quarto, possivelmente escrevendo letras para nosso próximo álbum. A medida que as horas passavam, as meninas passaram a ir para o quarto. Logo só estava presente na sala, Meiqi e Luda que aproveitaram o momento para jogar no PS4, algum jogo de terror que realmente estava me dando pequenos infartos a cada vez que eu parava para prestar atenção na tela. Dawon que ainda ensinava uma confusa Dayoung e Chengxiao que dormia no meu colo.

— Eunseo-ssi. – Luda me chamou parecendo um pouco incerta.

— Se for para pedir que eu jogue esse jogo do capeta com vocês, a resposta obviamente é não.

Ouvi as duas jogadoras rirem, antes de Luda voltar a me olhar. – Não é isso. É que você parece mais, como eu posso dizer...? Leve?

Olhei para a Luda por um momento, antes de desviar para a janela. O fato de ter descoberto o que eu sinto pela Bona não ajudou nem um pouco pela situação, mas ganhei a tranquilidade de saber o que estava se passando comigo. – É, talvez eu esteja. Afinal de contas, odeio admitir que você estava certa. – Me arrependo de ter dito aquilo sem uma câmera perto, para retratar a cara de surpresa mais cômica que eu já vi a Luda fazer na sua vida.

— O QU- Não deixo de rir quando Meiqi quase pula em cima da Luda para tapar a sua boca antes que ela acordasse todo o dormitório.

— Quando você notou? – Meiqi pergunta antes de levar uma mordida de Luda. – Aish!

— Depois que eu conversei com a Seola unnie.

— O que pretende fazer? — Dawon pergunta depois de mandar Dayoung para cama.

— Essa é uma boa pergunta.

Conversamos por mais um tempo até as meninas resolveram ir para cama, tendo que Dawon praticamente arrastar ChengXiao para o quarto, sob sonolentos protesto. A pergunta de Dawon havia ficado na minha mente, eu realmente não sei o que fazer, mas sabia que tinha que fazer algo com urgência. Agora eu realmente entendo aquela frase que só damos valor às coisas quando perdemos. E sinceramente? Eu quero acreditar que eu não perdi a Bona, se não como a pessoa que eu gosto, mas ao menos como amiga.

Não sei quanto tempo eu fiquei na sala olhando a chuva cair, mas foi tempo suficiente para todas já terem ido dormir. Estava indo em direção ao quarto ao ver que já se passava das duas da manhã quando ouvi o barulho na porta, logo a figura encharcada da Bona aparece no dormitório. Foi presente o susto dela ao me encontrar ali àquela hora.

— Ah, oi. Boa noite. – Falou baixo, desviando o olhar para começar a tirar os sapatos molhados, assim como o moletom que usava. Me apressei em ir no banheiro pegar duas toalha limpas. Entreguei uma na sua mão, para a surpresa dela, passando a secar os fios negros com a outra. Bona ficou quieta olhando para o chão um bom tempo enquanto eu fazia o meu trabalho. O silêncio tomou conta da sala, eu pensei em muitas coisas que eu poderia dizer para ela, mas nada parecia se adequar ao momento.

—Unnie... Precisamos conversar. — Ela não olhava pra mim, simplesmente se ocupava em enxugar um pouco melhor o corpo para não sair molhando o dormitório inteiro.

E para o meu desespero o silêncio continuou.

— Unnie, por favor. – Insisti finalmente recebendo alguma reação. Quando nossos olhos se encontraram, o olhar da mais velha parecia diferente. Por mais que ela estivesse me tratando normalmente nesses últimos dias, sabia que não estava sendo a mesma coisa. Ela não me tocava, não sorria para mim, nem ao menos me provocava e aquele olhar me confirmava justamente aquilo.

— Eunseo, acho que não é o momento de ter uma conversa. Já esta tarde, em meia hora todo mundo vai acordar para ir para maquiagem. – Seu tom era baixo, segurando as minhas mãos, para que eu parasse de seca-la. – Sem dizer que não existe nada para conversamos. – Ela disse se desviando de mim, caminhando rapidamente para o banheiro.

— Bon-... – A porta se fechou de uma vez, não demorando para ouvir o barulho do chuveiro. Fiquei um bom tempo parada encarando a porta, até ouvir o som do despertador invadir todo o dormitório. Em passos rápidos eu entrei no maior quarto, fechando a porta de uma vez e ligando a luz, assustando as 6 garotas que dormiam ali. – Eu preciso de ajuda.

— Qual o plano? – Luda pergunta se sentando na cama coçando os olhos.